Cirurgia/ORTOPEDIA “Na medicina do ombro, o foco não está apenas na lesão, mas na pessoa, na função e nas suas necessidades” By Revista Spot | Março 12, 2026 Março 19, 2026 Share Tweet Share Pin Email O ombro e o cotovelo são discretos, silenciosos, quase invisíveis na rotina, até ao momento em que uma dor impede de vestir uma camisola, levantar uma mala, conduzir, trabalhar ao computador ou pegar num filho ao colo. Numa era de ecrãs, teletrabalho, treinos intensos e envelhecimento ativo, estas queixas deixaram de ser apenas o problema do atleta lesionado ou do idoso com artrose, são cada vez mais um retrato do nosso tempo. As doenças musculoesqueléticas estão entre as maiores causas de dor persistente e limitação funcional no mundo. No desporto, modalidades como o padel expõem sobretudo o cotovelo e o ombro e no trabalho prolongado ao computador, a postura e a repetição continuam a cobrar o seu preço. Inês Pedro, especialista em Ortopedia e Traumatologia, escolheu precisamente esta zona de fronteira entre mobilidade, precisão e qualidade de vida. Na sua prática, a medicina começa na escuta, passa pela decisão certa e mede-se, no fim, pela devolução do gesto, da confiança e da autonomia a quem a perdeu. É especialista em Ortopedia e Traumatologia desde 2012, com formação em Medicina Desportiva, Avaliação do Dano Corporal e Gestão na Saúde, e fez formação avançada em Ombro em Madrid, com o Prof. Emílio Calvo. O que é que a levou a escolher o ombro e cotovelo como eixo da sua prática? O interesse pelo ombro e cotovelo começou no meu 2º ano de Internato da Especialidade de Ortopedia, quando tive a oportunidade de começar a trabalhar de perto com um cirurgião de referência nesta área, o Dr. Pedro Pimentão. Com o tempo, essa curiosidade transformou-se em dedicação e não parou de crescer até agora. Dentro da patologia do ombro e cotovelo existe uma enorme diversidade de procedimentos, desde artroscopia minimamente invasiva até reconstruções complexas e próteses. É uma área em constante evolução, tanto ao nível das técnicas como dos implantes e nos últimos anos surgiram soluções cada vez mais eficazes para tratar casos que anteriormente tinham opções limitadas. Essa dinâmica, essa evolução contínua, mantém-me motivada, mas também exige estudo e atualização constante. É uma área que exige grande precisão técnica, mas sobretudo capacidade de decisão e uma abordagem ajustada à pessoa que tratamos, o que a torna extremamente desafiante. Poder acompanhar o doente em todo o processo, desde a dor inicial até à recuperação funcional, é para mim a maior satisfação. Na consulta, o que é que a dor no ombro ou no cotovelo costuma esconder para lá da lesão? O que é que aprendeu ao ouvir os doentes? O ombro e o cotovelo são fundamentais para a nossa autonomia. São articulações pequenas em dimensão, mas enormes na repercussão que têm na qualidade de vida e, por vezes, pequenas lesões podem originar grande incapacidade, seja nas atividades de vida diária, no trabalho ou na atividade desportiva. Mesmo quem nunca passou por isso consegue facilmente imaginar a angústia e o impacto de uma destas situações: uma avó que não consegue pegar no neto ao colo, um trabalhador manual que deixa de conseguir manusear cargas, uma secretária que não consegue estar um dia inteiro no computador, uma professora que não consegue escrever no quadro, um músico que deixa de conseguir tocar o instrumento, um camionista que não consegue subir para o camião, uma pessoa que deixa de conseguir conduzir, uma mãe que não consegue chegar com o braço ao banco de trás, um jogador de ténis que deixa de conseguir servir uma bola, um jovem que deixou de conseguir levantar pesos no ginásio, uma pessoa cujo ombro luxa a dormir… O fascinante no meu trabalho é que lido com tudo isso: desde lesões desportivas em atletas profissionais e amadores, que querem voltar rapidamente ao seu desporto, com toda a pressão que isso acarreta; mas também os doentes, a maioria mais velhos, que têm uma rutura dos tendões do ombro ou uma artrose e que já não se conseguem vestir, fazer a sua higiene ou a lida da casa. Uma situação curiosa é que, como o ombro é uma articulação muito móvel e muitos dos movimentos do membro superior são realizados de forma combinada com o cotovelo e a mão, as pessoas acabam muitas vezes por compensar a perda de mobilidade. Isso faz com que os sintomas sejam tolerados durante muito tempo e o problema vá sendo adiado. Não é raro que os doentes cheguem à consulta numa fase já avançada da doença, em que as opções de tratamento podem ser mais limitadas ou mais complexas. Que queixas e perfis de doentes têm aumentado de forma mais evidente nos últimos anos? Na minha prática noto claramente um aumento de lesões associadas a estilos de vida mais ativos, sobretudo em desportos de raquete, como o ténis ou o padel, ou em modalidades como o crossfit. Atividades que envolvem movimentos repetitivos acima da cabeça, treinos de força intensos mal orientados ou sobrecarga repetitiva têm naturalmente maior risco de provocar lesões no ombro e no cotovelo. Também os desportos de contacto, como o rugby ou artes marciais, e aqueles com maior risco de queda, como acontece no ciclismo, desportos motorizados ou desportos na neve, são fontes frequentes de lesões nestas articulações, devido ao impacto direto ou indireto no contacto com o solo, e que trato com muita frequência. Outra situação que vejo cada vez mais são queixas relacionadas com trabalho prolongado ao computador, que frequentemente condiciona posturas pouco favoráveis para os ombros e para a coluna, sobretudo quando não existe uma ergonomia adequada. Este fenómeno foi claramente agravado com o teletrabalho. É importante compensar estas posturas com pausas regulares, pequenos exercícios de mobilidade, ajustes ergonómicos e prática regular de exercício físico equilibrado, que ajude a fortalecer e estabilizar os ombros e a coluna. O que realmente mudou é que cada vez mais pessoas acima dos 50 anos querem manter-se ativas, o que é ótimo para a saúde da população em geral. No entanto, a exigência funcional aumentou, mas os tecidos têm limites biológicos. O desafio é encontrar o equilíbrio entre essa vontade de viver plenamente e praticar atividade física e a necessidade de proteger as articulações. Lido também com muitas fraturas desta área anatómica. Algumas estão associadas a traumatismos de alta energia, como acidentes de viação ou desportivos, mas a maioria resulta de quedas da própria altura. A população mais idosa, com menor densidade óssea, está naturalmente mais suscetível a estas lesões. Para muitos doentes, este momento é particularmente angustiante, porque de repente veem-se privados da sua vida normal e confrontados com a possibilidade de perder a sua autonomia. É extremamente gratificante ajudá-los a recuperar a independência e a qualidade de vida, e apoiar também toda a família ao longo do processo de recuperação. O que resulta melhor na prática quando a dor se arrasta? E que erros vê mais vezes a transformar um problema “simples” numa dor crónica? O chamado “cotovelo do tenista”, ou epicondilite, é uma das causas mais frequentes de dor no cotovelo e não ocorre apenas em quem pratica ténis. Pode surgir em várias atividades que envolvem movimentos repetitivos do punho e do antebraço, seja no desporto, no trabalho manual ou até no uso prolongado do computador. Vejo muitos casos associados a desportos de raquete, mas também a pessoas que começaram recentemente a treinar no ginásio ou que aumentaram a carga de treino de forma demasiado rápida. Nestes contextos, o tendão pode não ter tempo para se adaptar à nova exigência, sobretudo a partir de certa idade, quando perde alguma elasticidade. Felizmente, na maioria dos casos trata-se de um problema que responde bem a tratamento conservador e que passa sobretudo por um bom equilíbrio entre redução temporária da carga e reeducação funcional. O descanso absoluto raramente é a solução. O que costuma resultar melhor é um programa de exercícios específicos, orientados para fortalecer gradualmente os tendões e melhorar a biomecânica do movimento. Os erros mais frequentes que vejo são, por um lado, ignorar a dor durante demasiado tempo e continuar a sobrecarregar o tendão, e por outro parar completamente a atividade durante semanas e depois regressar de forma abrupta. Ambos os extremos podem prolongar o problema. Outro erro comum é procurar apenas soluções rápidas para a dor, dou como exemplo as infiltrações com corticoides, sem corrigir os fatores que a originaram, como técnica desportiva inadequada, excesso de carga ou falta de condicionamento muscular. Quando estes aspetos não são corrigidos, uma tendinopatia que poderia resolver-se em poucas semanas pode tornar-se um problema crónico. A boa notícia é que, com diagnóstico adequado e um plano de tratamento bem orientado, a grande maioria destas situações consegue melhorar de forma significativa. Que sinais a preocupam mais, a dor que acorda de noite, perda de força, rigidez progressiva, dor que irradia, dormência ou formigueiros? A dor no ombro ou no cotovelo é relativamente frequente e muitas vezes está associada a sobrecarga ou esforço pontual. Na maioria dos casos não se trata de algo grave, mas é importante perceber a causa. Há alguns sinais que justificam uma avaliação médica. Um dos mais importantes é a dor persistente, sobretudo quando dura várias semanas ou interfere com atividades simples do dia a dia. A dor noturna, que acorda a pessoa ou impede dormir confortavelmente, é um sintoma frequente nas patologias do ombro que tem um impacto enorme na qualidade de vida e deve ser sempre valorizada e tratada. Outro sinal de alerta é a perda de força ou dificuldade em levantar o braço, pegar em objetos ou realizar movimentos que antes eram fáceis, como pentear ou vestir. A rigidez progressiva, ou seja, quando a articulação começa a perder mobilidade, é igualmente um motivo para procurar avaliação. E em que situações suspeita de envolvimento nervoso (por exemplo, no cotovelo) e porquê? Sintomas como formigueiros, dormência ou perda de sensibilidade na mão podem indicar envolvimento de estruturas nervosas. Muitas vezes, a origem do problema não está propriamente no ombro ou no cotovelo, podendo estar relacionada com a coluna cervical ou até com estruturas da própria mão ou do punho. Por isso, estas situações devem ser sempre avaliadas em consulta e, quando necessário, complementadas com exames como imagiologia ou um eletromiograma. É importante salientar que dor persistente não é normal, em nenhuma idade. Deve ser sempre avaliada, porque existem várias formas de melhorar a função e aliviar os sintomas. Por vezes, sobretudo nas pessoas mais velhas, existe a ideia de que já não há nada a fazer ou que é preciso aprender a viver com a dor, o que não é verdade. Já tive vários doentes que adiaram o tratamento ou a cirurgia por medo ou desconfiança e que mais tarde me disseram: “Porque é que andei tanto tempo a viver com dor, quando afinal havia solução e agora estou tão bem?” Ouvir isso é uma das coisas mais recompensadoras desta especialidade. O que é que tem de ficar claro no exame clínico antes de avançar para imagiologia? Em que casos uma ecografia é suficiente, quando é que a ressonância muda mesmo a decisão e quando é que é preciso estudar melhor o osso? O diagnóstico começa sempre pela conversa com o doente e pelo exame clínico. Antes de mais, precisamos de conhecer a pessoa que procura a nossa ajuda: o que faz no seu dia a dia, quais são as suas necessidades funcionais e quais são as suas queixas. É fundamental perceber como começou a dor, em que movimentos aparece, que limitações provoca e como tem evoluído ao longo do tempo. Depois é necessário observar o doente com atenção. Muitas vezes, a história clínica e um exame físico cuidadoso já nos orientam bastante sobre qual poderá ser a estrutura envolvida. Os exames de imagem são muito úteis, mas devem servir para confirmar uma suspeita clínica, e não para substituir a avaliação médica. Hoje em dia é relativamente comum os doentes chegarem à consulta já com uma ressonância ou uma ecografia realizada, mas um exame isolado nem sempre explica os sintomas da pessoa. Na avaliação do ombro e do cotovelo, a radiografia faz quase sempre parte do estudo inicial, porque permite avaliar o alinhamento das articulações, a presença de alterações ósseas ou calcificações, sinais de artrose ou eventuais sequelas de traumatismos prévios. Em muitos casos, sobretudo nas patologias dos tendões, uma ecografia bem realizada pode fornecer informação muito útil e até permitir uma avaliação dinâmica durante o movimento. A ressonância magnética é particularmente importante quando queremos avaliar com mais detalhe estruturas profundas, como os tendões do ombro ou em situações de instabilidade. No cotovelo, por exemplo, a ressonância também é muito útil na avaliação das estruturas ligamentares ou lesões da cartilagem. Nas situações em que existe suspeita de fratura aguda, sequelas de fraturas ou alterações articulares mais complexas, pode ser necessário recorrer à tomografia computorizada (TAC), que permite estudar as estruturas ósseas com maior detalhe e ajudar no planeamento de uma eventual cirurgia. Atualmente, utilizamos software de planeamento cirúrgico baseado na TAC, que nos permite analisar a anatomia com grande precisão e preparar a cirurgia antes de entrar no bloco operatório. Em determinadas situações, este planeamento pode mesmo permitir a utilização de implantes ou instrumentos específicos adaptados à anatomia de cada doente. O mais importante é perceber que cada exame tem a sua indicação e que a escolha depende sempre do contexto clínico. O objetivo não é fazer mais exames, mas sim fazer os exames certos para chegar a um diagnóstico preciso e orientar o melhor tratamento. Em que situações tratamentos como Infiltrações e PRP fazem sentido e com que objetivo? Em que casos o benefício tende a ser limitado? As infiltrações de corticoides podem ser utilizadas quando há inflamação aguda significativa e incapacitante, ou na ausência de resposta a anti-inflamatórios orais ou locais. Por exemplo, na tendinopatia cálcica agudizada, em que a inflamação é intensa, podem proporcionar um alívio rápido da dor e a recuperação da mobilidade. Não posso deixar de salientar que devem ser usadas com parcimónia, pois o uso repetido pode fragilizar os tecidos. Já o PRP é uma terapêutica em estudo. Em alguns casos de tendinopatia do ombro e cotovelo, pode ser considerado, mas os resultados ainda não são uniformes. O essencial é que tanto corticoides quanto PRP não são soluções isoladas ou milagrosas. Quando indicados, são parte de um plano mais amplo, que inclui reabilitação, ajuste de carga e correção de fatores desencadeantes. Em suma, são ferramentas que, usadas com critério e em contexto adequado, podem ter o seu lugar, mas sempre com orientação médica ajustada ao doente. O que funciona para uma pessoa pode não ser eficaz para outra. Quando identifica uma rutura, como decide entre reabilitação bem estruturada e cirurgia? A decisão de tratar uma rutura da coifa dos rotadores é sempre individualizada. A idade tem o seu peso, mas o nível de atividade, o tipo e extensão da lesão, o tempo de evolução dos sintomas e, acima de tudo, os objetivos do doente são determinantes. Se pensarmos, por exemplo, num doente de 80 anos que joga golfe ou faz jardinagem e quer manter-se ativo, ou uma avó que cuida dos netos, estas pessoas têm necessidades funcionais diferentes de outro da mesma idade, mas com exigências menores. Além disso, as ruturas não se manifestam todas da mesma forma. Há doentes que mantêm mobilidade e apenas sentem dor, enquanto outros não conseguem realizar tarefas básicas. Isso sublinha que não é apenas a imagem da rutura, mas sim a pessoa e a funcionalidade que guiam a escolha do tratamento. Tendemos a ser mais intervencionistas em doentes mais jovens, não só porque têm maiores exigências funcionais, mas também pelo risco de progressão da lesão ao longo do tempo se não for reparada. Em doentes mais velhos, sem grandes exigências, ponderamos a reabilitação e controlo da dor quando a função é aceitável. No fundo, é um equilíbrio: compreender a lesão, ouvir o doente e definir o que maximiza a sua qualidade de vida. O “Ombro congelado” e as calcificações são situações frequentes, muito dolorosas e rodeadas de mitos. O que é essencial perceber sobre a evolução, os tempos de recuperação e o que acelera, ou atrasa, a melhoria? As calcificações são depósitos de cálcio que surgem nos tendões, e que podem causar dor intensa e limitação da mobilidade, mas esta doença tem fases distintas e manifestações clínicas muito diferentes entre pessoas. O ombro congelado é uma condição em que a cápsula da articulação fica espessada e rígida, limitando o movimento, e pode levar meses ou até mais de um ano para resolver. Frequentemente este quadro acontece sem haver uma causa, mas também pode ser consequência de um traumatismo minor ou estiramento do ombro. Situações de imobilização mais prolongada no decorrer duma fratura, luxação ou após cirurgia, ou mesmo como uma resposta de proteção nos casos de tendinite (inclusivamente a cálcica), também podem levar à rigidez da articulação e consequentemente à dor, criando um ciclo vicioso. O que é essencial é saber que nem sempre passa rapidamente. Os erros mais comuns são imobilizar demasiado e não procurar orientação atempada. A paciência e o plano correto são chave, que passa por controlar a dor e recuperar a mobilidade, muitas vezes assente num programa de reabilitação. Em alguns casos podem ser necessários procedimentos específicos, como as infiltrações e, raramente, a cirurgia. O objetivo é evitar meses de dor desnecessária e uma recuperação mais rápida. Muitas pessoas normalizam luxações e “falsos deslocamentos”, sobretudo no desporto. Como avalia o risco real de voltar a acontecer e de haver lesões associadas? A luxação do ombro é uma lesão relativamente frequente, sobretudo em pessoas jovens e em contexto desportivo. É fácil perceber quando o ombro desloca completamente ou “sai e volta ao sítio”, mas há outras situações mais subtis em que a pessoa tem dor em determinadas posições ou gestos específicos ou tem falta de confiança no ombro para determinadas atividades. Isso também pode representar um quadro de instabilidade do ombro, e que pode comprometer não só a performance desportiva mas começar a ter impacto também na vida diária. Nenhuma destas situações deve ser banalizada, porque frequentemente estão associadas a lesões ou incompetência das estruturas que estabilizam a articulação e que se não forem tratadas podem agravar a instabilidade ou evoluir para quadros mais graves no futuro, como a artrose do ombro. Depois de uma primeira luxação o risco de voltar a acontecer depende de vários fatores, como a idade, as lesões ósseas e do labrum daí decorrentes ou a existência de hipermobilidade, bem como o nível e modalidade desportiva praticado. Nem todos os casos exigem cirurgia, mas em determinadas situações, especialmente em atletas ou em episódios repetidos de luxação, pode ser necessário um tratamento mais definitivo para restaurar a estabilidade do ombro. O tipo de cirurgia depende sempre dos vários fatores envolvidos e por isso também pode ser diferente de pessoa para pessoa. A fisioterapia é fundamental em qualquer plano de recuperação pós lesão ou pós cirurgia, para recuperar a mobilidade, a força e o controlo muscular do ombro. O regresso ao desporto deve ser sempre progressivo e orientado em função da evolução clínica e da modalidade em questão, como por exemplo nos desportos de contato, pois o retorno demasiado precoce aumenta significativamente o risco de nova luxação. O objetivo é que a pessoa volte à sua atividade com segurança e confiança, reduzindo ao máximo o risco de novos episódios. Como decide entre cirurgia por artroscopia, reconstruções e prótese? A escolha do tipo de cirurgia é muito direcionada ao tipo de patologia que estamos a tratar. A artroscopia é frequentemente usada para lesões nos tendões, instabilidades ou em casos de artrose precoce, especialmente em indivíduos jovens, onde ainda se quer preservar a articulação. Já a prótese é reservada para casos de artrose do ombro, ruturas irreparáveis em doentes mais idosos ou situações de fraturas não reconstruíveis. Não é demais reforçar que a abordagem inicial na maioria das situações é conservadora, sendo a cirurgia reservada para os casos em que o tratamento não resulta ou quando há uma indicação clara de que a cirurgia traz os melhores benefícios. Nos últimos anos, os avanços nas próteses do ombro foram extraordinários, com materiais de maior qualidade e soluções personalizadas, permitindo, hoje, melhorar de forma significativa a função e, sobretudo, a dor, especialmente nas situações que já mencionei. Os resultados variam sempre em função da patologia que estamos a tratar, da técnica cirúrgica utilizada e de uma adequada reabilitação pós-operatória e a experiência do cirurgião e da equipa de fisioterapia têm aqui também um papel preponderante. A prótese do ombro, quando bem indicada, devolve autonomia significativa, mas em todos os casos, o importante é definir com o doente, os limites, a durabilidade do procedimento e os objetivos, garantindo que a cirurgia está alinhada com a melhoria da qualidade de vida e com expectativas realistas. Quais são os pontos-chave no pós-lesão e no pós-operatório? E que erros vê mais vezes quando se tenta “acelerar” etapas? A reabilitação é uma parte fundamental do tratamento e muitas vezes faz toda a diferença no resultado final. Quer se trate de uma lesão tratada de forma conservadora ou de uma cirurgia, é durante o processo de reabilitação que recuperamos a mobilidade, a força e o controlo muscular da articulação. Costumo dizer aos doentes que a cirurgia é apenas o pontapé de partida: cria as condições, mas depois é preciso construir o resultado, e é aí que entra a fase seguinte. Um dos aspetos mais importantes começa por respeitar a biologia e o tempo de cicatrização. Há fases em que é essencial proteger a articulação e outras em que é necessário começar a mobilizar e fortalecer progressivamente. Tentar acelerar demasiado o processo pode comprometer o resultado, tal como uma reabilitação insuficiente pode levar à rigidez ou desequilíbrios musculares, aos quais o ombro é particularmente sensível. Outro fator determinante é a adesão do doente ao plano de reabilitação. O trabalho realizado nas sessões de fisioterapia é importante, mas também o que o doente faz no dia a dia, seguindo as orientações dadas. Observamos claramente que os doentes mais empenhados no seu processo de recuperação tendem a ter resultados melhores e, muitas vezes, até mais rápidos. A comunicação entre o cirurgião, o fisiatra, o fisioterapeuta e o doente tem um papel essencial. Este relacionamento próximo permite uma troca constante de informação, ajustando o plano de reabilitação à evolução do doente. É uma parceria entre todos que assegura que o tratamento seja coeso, seguro e capaz de maximizar a recuperação funcional. A tecnologia pode ajudar a devolver ao médico mais tempo para aquilo que continua a ser insubstituível, a atenção ao paciente? A tecnologia pode, e deve, ajudar-nos nesse sentido. Nos últimos anos assistimos a uma enorme evolução das ferramentas digitais na medicina, desde sistemas de registo clínico mais integrados até soluções baseadas em inteligência artificial que nos ajudam a organizar informação, apoiar decisões e reduzir parte da carga administrativa. Por um lado, é fundamental que toda informação clínica do doente seja recolhida e acompanhada ao longo de todo o processo. Estes dados permitem-nos avaliar os resultados do tratamento, compreender melhor o impacto das nossas decisões e melhorar continuamente a forma como cuidamos dos doentes. Só assim conseguimos aprender com a experiência, ajustar práticas e garantir cuidados cada vez mais eficazes e personalizados. Mas na consulta, não podemos estar focados no ecrã do computador. Atualmente no hospital onde trabalho estamos a utilizar ferramentas que nos permitem libertar tempo que antes era consumido por tarefas burocráticas, como registos ou gestão de dados, e devolvê-lo ao que realmente é essencial na prática médica: ouvir o doente, observar com atenção e estabelecer uma relação de confiança. A medicina continua a ser, acima de tudo, uma profissão profundamente humana. Nenhuma tecnologia substitui o olhar clínico, a experiência ou a capacidade de compreender a pessoa que está à nossa frente. O verdadeiro valor da tecnologia está precisamente em apoiar o médico e tornar o sistema mais eficiente, para que possamos dedicar mais tempo ao que continua a ser insubstituível: a atenção ao paciente. A literacia em saúde é fundamental. Que mensagem gostaria de deixar ao público em geral? Num mundo de comunicação global, o médico tem hoje à sua disposição ferramentas poderosas e deve usar a sua voz com responsabilidade. É quase um dever transmitir informação clara, baseada em evidência, para o público. Hoje, temos muitas plataformas, das redes sociais, à televisão e aos sites especializados, que nos permitem chegar a mais pessoas. É importante garantir que a mensagem que chega é fidedigna, que ajuda a desmistificar mitos e que capacita as pessoas a compreender melhor o seu corpo, as suas opções e, assim, a tomar decisões mais informadas sobre a sua saúde. Na maioria das vezes, quanto mais cedo houver uma avaliação adequada, mais simples tende a ser o tratamento. Gostaria também de realçar que o aspeto psicológico tem uma influência enorme na recuperação de qualquer lesão, e no ombro isso é muito notório. A comunicação clara do médico, ao explicar o problema e as opções de tratamento de forma acessível, e ao acompanhar o doente em cada fase do processo, ajudando-o a compreender o que está a viver e o que pode esperar, é fundamental para ter um papel ativo nas decisões, manter a motivação e ajudá-lo a enfrentar os desafios da recuperação. Esse acompanhamento faz com que o doente se sinta verdadeiramente apoiado e confiante em cada etapa do percurso. Esse aspeto é indissociável das competências técnicas e igualmente importante. No final, o meu objetivo como médica é devolver função, confiança e qualidade de vida. Nenhuma tecnologia substitui o olhar clínico, a experiência e a capacidade de compreender a pessoa que está à nossa frente. Instagram: @dr.inespedro LinkedIn: Inês Pedro Marcações: Inês Pedro | Lusíadas Saúde Hélia Barros, a nutricionista que fez do legado da Avó Maria um gesto de amor e de reencontro com o prazer de comer “Em Portugal ainda se fala pouco de uma fase decisiva para o resultado de uma cirurgia: o pós-operatório”
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