CLÍNICAS DENTÁRIAS/SAÚDE ORAL “Na Medicina Dentária, o resultado de hoje não pode comprometer os próximos vinte anos” By Revista Spot | Agosto 4, 2026 Agosto 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email A Medicina Dentária habituou-se a mostrar resultados. Vítor Neves prefere perguntar o que acontecerá depois deles. Um tratamento pode parecer perfeito hoje e revelar-se demasiado radical daqui a vinte anos. O médico dentista dedicado à cirurgia e à reabilitação oral recusa decisões automáticas e soluções iguais para todos. Na Mutual Clinic Gaia, cada plano começa na avaliação da pessoa, da sua saúde, dos seus receios e daquilo que poderá precisar no futuro. Nesta entrevista, fala sobre implantes, perda dentária, estética, prevenção, redes sociais e o risco de confundirmos informação com conhecimento. Defende que preservar continua a ser uma das formas mais exigentes de tratar e que o avanço tecnológico não substitui o tempo clínico. Porque a inovação não está apenas em fazer mais depressa, mas em saber quando intervir, quanto preservar e até onde não ir. O que encontrou na cirurgia que não encontrava noutras áreas da Medicina Dentária? A cirurgia é, para muitos utentes, o medo e o desconhecido. Curiosamente, também é uma das áreas em que os estudantes têm menos contacto prático durante a formação. Quando terminei o curso, conseguia contar as seis extrações que tinha feito. Tinha preparado muitos dentes em modelos artificiais, mas sabia que isso não era suficiente para enfrentar a realidade clínica. Embora a perspetiva atual seja, e bem, preservar a estrutura natural durante o maior tempo possível, chega um momento em que temos de intervir. E, quando intervimos, temos de estar preparados para o fazer. Foi essa falta de prática que inicialmente me levou a procurar mais formação em cirurgia e reabilitação. Depois, apaixonei-me pelo desafio. As pessoas não são todas iguais, as cirurgias não são todas iguais e as reabilitações também não. Na cirurgia, há ainda uma responsabilidade muito particular: a partir do momento em que começamos, temos de terminar. Não podemos abrir, perceber que é mais complexo do que esperávamos, fechar e voltar duas semanas depois. Noutras áreas, é possível interromper um tratamento, reavaliar, falar com o laboratório ou voltar a discutir as expectativas do utente. Na cirurgia, abriu-se e tem de se fechar. É essa ausência de monotonia, mas também essa exigência, que me fascina. Muitas pessoas continuam a procurar o dentista apenas quando sentem dor. O que ainda falta mudar na forma como olhamos para a saúde oral? A saúde oral continua a ser tratada quase como se estivesse numa gaveta separada do resto da saúde. Nunca compreendi verdadeiramente esta segregação entre a Medicina e a Medicina Dentária, porque a boca está dentro do corpo e encontra-se relacionada com tudo o que acontece no organismo. A Medicina Dentária sempre teve autonomia clínica. Podemos prescrever medicamentos, pedir exames e tomar decisões clínicas. Temos uma formação de base em anatomia, fisiologia, biologia e farmacologia. No entanto, à medida que avançamos na formação, a vertente clínica vai-se concentrando exclusivamente na boca e podemos perder essa visão mais abrangente. Esta separação também tem consequências para os utentes. Ao contrário do que acontece noutras áreas da saúde, muitas pessoas não encontram uma resposta acessível nos cuidados de saúde primários e acabam empurradas para o setor privado. Como existe um custo, adiam. E aquilo que começou por ser uma cárie pode evoluir para uma desvitalização, uma coroa ou até para a perda do dente. Se existisse uma aposta mais forte na prevenção, muitos tratamentos complexos e dispendiosos poderiam ser evitados. O problema é que continuamos a chegar demasiado tarde. Num tempo de soluções rápidas e promessas imediatas, qual a importância de parar, estudar os exames e construir um plano antes de tratar? A tecnologia permite-nos tomar decisões mais rapidamente, mas não elimina a necessidade de avaliar o utente com tempo. Uma consulta pode estar marcada para 30 minutos e esses 30 minutos serem necessários apenas para explicar opções, esclarecer riscos ou reduzir o medo. Imagine um jovem de 16 anos com um siso numa posição difícil, sem função na boca e próximo de uma estrutura nervosa. Tenho de lhe explicar o risco de intervir, o risco de não intervir e o que poderá acontecer se decidir esperar. No final, o utente pode compreender tudo e optar por não fazer o tratamento. Tem o direito de assumir esse risco, desde que esteja devidamente informado. O mesmo acontece numa reabilitação. Muitas pessoas chegam já com situações avançadas, depois de anos de adiamento motivado por dificuldades económicas, medo, ansiedade, depressão, stress ou simplesmente por terem colocado a saúde oral em segundo plano. Uma solução rápida pode resolver o problema imediato, mas eu tenho de pensar naquela pessoa daqui a cinco, dez, vinte ou trinta anos. O plano não pode responder apenas ao que está à minha frente hoje. Tem de antecipar o que ainda poderá ser necessário fazer no futuro. Isso significa que o tratamento mais avançado nem sempre é o melhor? Exatamente. É sempre necessário olhar para a pessoa concreta que temos à nossa frente. Os implantes são uma solução reabilitadora muito estável quando já não existem dentes naturais, mas não são uma solução vitalícia, isenta de riscos ou indicada para todas as pessoas. Há utentes que não podem realizar uma cirurgia por motivos de saúde, dificuldades económicas, ansiedade extrema ou outras limitações. Nesses casos, uma prótese removível pode ser uma solução perfeitamente válida. Pode não ser a alternativa mais sofisticada ou aquela que gera maior retorno económico, mas pode ser a melhor para aquela pessoa. Também temos de ter cuidado com a aplicação indiscriminada de técnicas padronizadas, como o All-on-4. É uma técnica importante, desenvolvida para dar resposta a situações extremas. O problema surge quando se transforma uma solução criada para casos específicos numa resposta automática para toda a gente. É possível fazer um tratamento radical aos 40 anos e obter um resultado aparentemente excelente. Mas aquela pessoa poderá viver mais quarenta ou cinquenta anos. O que faremos quando esse tratamento falhar ou precisar de ser substituído? Na Medicina Dentária, menos pode ser mais. As soluções radicais existem e devem ser utilizadas, mas apenas quando existe uma indicação correta. Devemos preservar o máximo possível e pensar sempre no passo seguinte. Que consequências pode ter retirar um dente e adiar indefinidamente a sua substituição? A perda de um dente tem várias dimensões. A primeira é a estética, porque a boca é uma das estruturas que mais observamos quando comunicamos. A ausência de uma peça dentária pode tornar-se imediatamente visível. Mas as consequências não são apenas estéticas. Os dentes mantêm uma relação de equilíbrio entre si. Quando perdemos um, os dentes vizinhos podem inclinar-se e o dente da arcada oposta pode começar a deslocar-se para ocupar aquele espaço. Isso pode expor áreas da raiz, aumentar a fragilidade dentária e favorecer problemas periodontais ou cáries. Também podem existir alterações na mastigação, na articulação temporomandibular, na fala e, em determinados casos, na postura e no equilíbrio neuromuscular. É por isso que atletas de alto rendimento realizam avaliações dentárias: determinadas alterações da oclusão podem influenciar o conforto, a postura e o desempenho. Reabilitar não significa simplesmente preencher um espaço vazio. Significa devolver função a uma estrutura que fazia parte de um sistema. Na Medicina Dentária, a função deve vir antes da estética? A função é primordial. A estética deve surgir de uma boa função. Tudo o que existe no nosso corpo tem uma razão e uma função. Quando intervimos, temos de respeitar essa lógica. A Medicina Dentária, a Dermatologia e a Cirurgia Plástica têm uma componente estética evidente, mas os bons profissionais destas áreas começam sempre por pensar na função. O problema surge quando tentamos impor um ideal estético que não existe na vida real. Os rostos não são completamente simétricos. O lado esquerdo é ligeiramente diferente do direito e são precisamente essas diferenças que nos tornam únicos. Durante anos, Tom Cruise foi considerado um símbolo de beleza, apesar de ter um desvio bastante evidente da linha média dentária. Sara Sampaio tem caraterísticas gengivais e dentárias que, analisadas isoladamente segundo determinados padrões, poderiam ser consideradas imperfeitas. No entanto, no conjunto do rosto, são harmoniosas. Temos de deixar de olhar apenas para uma medida, uma proporção ou um dente e voltar a observar o todo. A beleza não nasce da reprodução exata de um padrão. Muitas vezes, nasce da harmonia entre pequenas imperfeições. Essa procura por um padrão também explica a obsessão pelos dentes excessivamente brancos? Em parte, sim. Cada vez mais se procura um resultado natural, mas ainda existe uma forte influência do modelo americano, em que os dentes aparecem extremamente brancos. A cor natural dos dentes é determinada sobretudo pela dentina, que tem um tom ligeiramente amarelado. O esmalte é translúcido e deixa essa cor passar. Os caninos, por exemplo, são habitualmente um pouco mais escuros. Isso não significa que estejam menos saudáveis. Também existe a questão do contraste. O mesmo tom dentário pode parecer mais branco numa pessoa com a pele mais escura do que numa pessoa com a pele clara. Além disso, muitas das imagens que vemos foram trabalhadas, iluminadas ou editadas. Um branqueamento pode ser adequado para determinadas pigmentações ou simplesmente para melhorar dois ou três tons, mesmo quando não existe um problema clínico. A dimensão estética também é legítima. Mas o tratamento tem de respeitar limites e ser realizado depois de uma avaliação. Uma pessoa com sensibilidade, doença periodontal ou raízes expostas não pode ser tratada da mesma forma que outra pessoa com esmalte íntegro e uma boca saudável. Não podemos transformar uma tendência estética numa receita universal. Que riscos vê na proliferação de tratamentos, branqueamentos e alinhadores promovidos nas redes sociais? As redes sociais tornaram-se uma ferramenta de marketing muito poderosa, mas reduzir um tratamento a uma fotografia de antes e depois pode ser profundamente enganador. Primeiro, existe uma questão de privacidade. Um utente pode autorizar hoje a publicação de um caso clínico, mas aquela imagem continuará disponível daqui a dez anos. Depois, uma fotografia não conta a história clínica: não mostra se existia sensibilidade, doença periodontal, perda óssea, exposição radicular ou qualquer outra limitação. Acabamos por fazer na saúde aquilo que antigamente acontecia entre vizinhos: alguém experimentava um medicamento, dizia que tinha resultado e recomendava-o a outra pessoa. Hoje, um influenciador experimenta um branqueamento, um alinhador ou outro tratamento e milhares de pessoas assumem que aquilo também serve para elas. Não considero negativo que os utentes procurem informação e cheguem à consulta com perguntas. O problema é confundirmos informação com conhecimento. Temos atualmente um excesso monumental de informação, seja através do Google, das redes sociais ou das ferramentas de inteligência artificial. Mas a existência de uma resposta não significa que essa resposta seja credível ou aplicável a todas as pessoas. A consulta tem, por isso, de ser também um espaço de literacia. Não basta tratar. É necessário explicar. Até que ponto a Medicina Dentária deve trabalhar em articulação com outras especialidades? É fundamental. A especialização trouxe enormes benefícios, mas não pode fazer-nos perder a capacidade de observar o doente como um todo. Antes de sermos bons especialistas, temos de ser bons generalistas. Eu posso dedicar-me à cirurgia e à implantologia, mas continuo a realizar consultas generalistas, quanto mais não seja para saber identificar um problema e encaminhar a pessoa para o profissional certo. Recordo-me de um utente que chegou à consulta com boca seca ao acordar, sensação de amargo, algumas lesões na face interna dos dentes e sintomas de acidez. Não tinha cáries nem qualquer problema dentário que explicasse as queixas. Tudo apontava para refluxo e para a necessidade de avaliação por Medicina Geral e Familiar ou Gastroenterologia. Saiu da consulta já orientado para realizar exames e procurar a especialidade adequada. A boca pode revelar défices nutricionais, alterações hormonais, problemas digestivos, doenças sistémicas e lesões que precisam de ser investigadas. A halitose, por exemplo, tem muitas vezes origem oral, mas nem sempre. Algumas alterações das mucosas são traumáticas e desaparecem quando removemos o estímulo; outras exigem uma investigação mais aprofundada. O médico dentista não observa apenas dentes, cáries e tártaro. Observa tecidos, funções, hábitos, medicação e sinais que podem estar relacionados com todo o organismo. O medo e a vergonha continuam a afastar muitas pessoas das consultas? Continuam. Há pessoas que chegam depois de muitos anos sem acompanhamento e sentem vergonha de mostrar a boca, como se fossem ser julgadas por aquilo que aconteceu. Costumo dizer-lhes que não há nada que possam mostrar a um médico dentista que o vá surpreender ao ponto de deixar de saber como agir. Mesmo perante uma situação complexa, o nosso papel não é julgar. É perceber o que aconteceu e encontrar uma solução possível. A Medicina Dentária também já não é o que era há quarenta anos. Evoluímos muito no controlo da dor e da ansiedade, que são duas das maiores preocupações dos utentes. Temos exames, planeamento e várias alternativas preparadas. Numa cirurgia, podemos começar com um plano A e, ao abrir, perceber que precisamos de avançar para um plano B ou C. Isso faz parte da preparação clínica. Também não é necessário resolver tudo de uma vez. Uma reabilitação pode ser realizada por fases. Uma pessoa pode começar com uma prótese removível, mais tarde colocar implantes para melhorar a estabilidade e, caso existam condições, evoluir posteriormente para uma solução fixa. Um tratamento pode ser pensado como um percurso. O mais importante é começar, mesmo que não seja possível fazer imediatamente a solução ideal. Defende que o sistema de saúde continua mais preparado para tratar a doença do que para promover a saúde? Costumo dizer que temos um Serviço Nacional da Doença. Tratamos as pessoas quando adoecem, como é evidente que devemos fazer, mas investimos pouco em políticas de promoção da saúde e prevenção. O problema é que a prevenção é cara no presente e só produz resultados visíveis daqui a vinte ou trinta anos. Quem ocupa cargos de decisão tende a procurar resultados mais rápidos, mas as políticas de saúde exigem uma visão de longo prazo. Isto aplica-se à saúde oral, à diabetes, à hipertensão, à saúde hormonal e a muitas outras áreas. Se conseguirmos intervir mais cedo através da alimentação, do exercício, do acompanhamento médico e da correção de fatores de risco, podemos adiar o aparecimento de doenças e aumentar os anos de vida com qualidade. A ausência de uma doença não significa automaticamente qualidade de vida, mas prevenir ou atrasar a sua evolução aumenta a probabilidade de chegarmos mais longe com autonomia. Não queremos apenas viver mais anos. Queremos viver mais anos com qualidade, independência e capacidade para continuar a fazer parte da vida das pessoas de quem gostamos. Depois de acompanhar tratamentos longos e transformadores, o que mais o marca: o resultado técnico ou a mudança na vida da pessoa? Sem dúvida, a mudança na vida da pessoa. Quando somos estudantes, estamos muito concentrados na técnica, queremos saber preparar um dente, fazer uma cavidade, realizar uma cirurgia ou executar uma reabilitação corretamente. Depois, queremos acumular experiência e ganhar segurança. Com o tempo, começamos a recuar e a olhar menos para o procedimento isolado e mais para aquilo que ele provocou na vida daquela pessoa. Acompanho uma utente desde 2018 que cresceu num contexto familiar muito difícil e chegou com vários problemas de saúde oral. Foi fazendo os tratamentos com calma, à medida que começou a trabalhar e conseguiu organizar a sua vida. Colocou implantes, está a realizar ortodontia e continua a ser acompanhada por vários profissionais. Lembro-me de, no início, me ter pedido para pagar a primeira prótese em prestações. Precisava dela porque ia começar a trabalhar em contacto direto com o público. Aquela prótese não foi apenas um tratamento dentário. Deu-lhe confiança para começar um trabalho e acabou por desencadear uma transformação muito maior. É isso que fica. Não é apenas o antes e o depois clínico. É perceber que aquilo que fizemos permitiu a alguém voltar a sorrir, trabalhar, comunicar ou ocupar um lugar no mundo com outra segurança. A experiência também nos ensina a dizer não. Há tratamentos que podem ser tecnicamente possíveis, mas que não são adequados para aquela pessoa. E chegará um momento em que direi com toda a tranquilidade: “Mesmo que me pague, não faço, porque não é o melhor para si.” Essa também é uma forma de cuidar. MUTUAL CLINIC GAIA Morada: Rua da Fonte Nova, n.º 426, 4410-415 Arcozelo, Vila Nova de Gaia Contacto: 227 537 000 (chamada para a rede fixa nacional) Instagram: @vitorneves_md | @mutualclinic Facebook: facebook.com/MutualClinic Site: www.mutualclinic.pt “E se a dor nas costas ou no joelho começasse na forma como pousamos os pés?” “Vivemos numa sociedade que quer crianças autónomas depressa, silenciosas e fáceis de gerir”
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