Cirurgia/Medicina Estética “Na cirurgia mamária, não basta alterar o volume ou a posição. É preciso pensar na estrutura que vai sustentar o resultado” By Revista Spot | Julho 26, 2026 Julho 28, 2026 Share Tweet Share Pin Email Uma prótese aumenta a mama. Não a impede de envelhecer, não substitui a qualidade da pele e, sozinha, não consegue vencer a gravidade. Ainda assim, muitas mulheres chegam à consulta convencidas de que um implante resolverá simultaneamente a falta de volume, a flacidez e o desejo de um colo perfeito. A cirurgia mamária tornou-se, porém, muito mais complexa do que simplesmente aumentar, reduzir ou levantar. Hoje, fala-se de estrutura, suporte, distribuição dos tecidos e estabilidade do resultado. Patrícia Tatsch conhece de perto essa evolução. Entre Portugal e o Brasil, a cirurgiã plástica cruza duas culturas, diferentes expectativas e décadas de experiência iniciadas na reconstrução de queimados. Nesta entrevista, desmonta a ideia de uma mama “antigravidade”, entra no universo do sutiã interno e da arquitetura da mama e revela os motivos que tornam algumas reintervenções inevitáveis. Porque uma mama não é apenas volume. É estrutura, tempo, identidade e a história de um corpo em permanente mudança. Costuma dizer que foi a Cirurgia Plástica que a escolheu. Como começou essa história? Quando entrei em Medicina, já sabia que queria ser cirurgiã. No Brasil, depois do curso, temos de realizar dois anos de Cirurgia Geral e, posteriormente, fazer uma nova prova para entrar numa subespecialidade cirúrgica. Durante esse período, comecei a experimentar diferentes áreas. Inicialmente, queria seguir Urologia, mas, naquela altura, era um meio ainda muito masculino e nem sequer me permitiram realizar a prova. Fui fazendo estágios noutras especialidades e a Cirurgia Plástica acabou por ser a última que experimentei. O meu primeiro contacto foi na área dos queimados, muito influenciada pelo legado do professor Ivo Pitanguy, uma grande referência nesta área. Comecei a trabalhar numa enfermaria de queimados e apaixonei-me pela especialidade, não pela vertente estética, mas pela capacidade de reconstruir e devolver qualidade de vida. A estética surgiu mais tarde, quando abri o consultório privado. Fiz também formação com o Dr. Farid Hakme, discípulo de Pitanguy, que teve uma influência enorme no meu percurso. O Rio de Janeiro era, nessa época, um ambiente muito rico, onde contactávamos com profissionais e técnicas de várias partes do mundo, sobretudo dos Estados Unidos. Por isso, continuo a dizer que não fui eu que escolhi a Cirurgia Plástica. Foi ela que me encontrou. Há cerca de 25 anos que vive profissionalmente entre Portugal e o Brasil. O que lhe trouxe este percurso entre dois países? Sinto-me literalmente dividida entre dois mundos. Venho a Portugal há cerca de 25 anos e exerço Medicina aqui há mais de duas décadas. Trabalho no setor público e no privado, conheço profundamente a cultura portuguesa e a minha filha é portuguesa, mas mantenho também toda a minha ligação pessoal e profissional ao Brasil. Esta experiência permite-me contactar com realidades muito diferentes e compreender melhor aquilo que cada paciente procura. O Brasil continua a ser um dos maiores mercados mundiais de Cirurgia Plástica e sempre teve uma ligação muito próxima às principais escolas e tendências internacionais. Ao mesmo tempo, a Europa tem crescido muito nesta área. A cirurgia estética está progressivamente a deixar de ser vista como um tabu. As pessoas começam a compreender que cuidar da imagem, quando existe equilíbrio e uma indicação adequada, também pode ter impacto na autoestima, na saúde emocional e na forma como habitamos o nosso corpo. Durante muito tempo, a cirurgia mamária foi comunicada de forma simplista: aumentar, reduzir ou levantar. O que mudou? A cirurgia mamária sempre teve um lugar muito importante dentro da Cirurgia Plástica porque a mama está profundamente ligada à feminilidade, à maternidade e à forma como muitas mulheres se reconhecem. O que aconteceu foi uma evolução progressiva das técnicas e também das expectativas das pacientes. No Brasil, costumo brincar que muitas mulheres procuram uma espécie de “mama antigravidade”: querem que o resultado se mantenha estável, elevado e praticamente inalterado ao longo do tempo. Isso obrigou-nos a pensar cada vez mais na estrutura da mama, e não apenas no seu volume. Hoje avaliamos o suporte, a distribuição dos tecidos, a qualidade da pele, a posição do implante, o músculo e a forma como todos estes elementos interagem. Existem fatores relacionados com a técnica que escolhemos, mas existem também fatores próprios de cada mulher: a qualidade do colagénio, a flacidez, a idade, as caraterísticas da pele, as oscilações de peso, as gravidezes e a amamentação. Uma cirurgia não pode ser planeada sem considerar todo este conjunto. Muitas das técnicas que agora se tornaram populares já existem há vários anos. A internet e as redes sociais deram-lhes novos nomes e maior visibilidade, mas não apareceram de repente. O que existe é um aperfeiçoamento contínuo e uma comunicação muito mais intensa em torno da cirurgia mamária. Porque é que algumas próteses descem ou perdem a posição ao longo do tempo? Uma prótese tem peso. Ela aumenta o volume da mama, mas não é, por si só, uma estrutura de sustentação. Pelo contrário: se os tecidos não tiverem capacidade para suportar esse peso, o implante pode contribuir para uma nova descida da mama. A estabilidade do resultado depende de vários fatores. Depende da qualidade da pele e dos tecidos, da existência de flacidez, do tamanho e peso do implante, da técnica utilizada, da posição em que foi colocado e da forma como foi construído o suporte interno. Também temos de considerar o envelhecimento natural, as alterações de peso, uma futura gravidez ou amamentação. Não podemos prometer uma mama completamente imune ao tempo e à gravidade. O nosso papel é estudar cada paciente, escolher a técnica mais adequada e criar as melhores condições possíveis para que o resultado seja estável. Mas a longevidade de uma cirurgia não depende apenas da operação. Depende também do corpo que recebe essa cirurgia. O chamado “sutiã interno” veio realmente mudar a cirurgia mamária? O sutiã interno e a alça muscular são técnicas de estruturação e sustentação da mama. Não são propriamente uma novidade absoluta, apesar de atualmente serem muito divulgadas nas redes sociais. Temos, de forma simplificada, diferentes planos para a colocação dos implantes, nomeadamente o plano subglandular e o plano submuscular. Quando colocamos o implante sob o músculo, podemos preservar uma porção muscular que funciona como uma alça e ajuda a apoiar a prótese. No chamado sutiã interno, utilizamos os próprios tecidos da paciente para criar uma estrutura de sustentação. Em vez de removermos todo o tecido excedente, podemos preservar e reposicionar determinadas estruturas para ajudar a suportar a mama. Mais recentemente, surgiram também materiais e fios específicos que permitem reforçar a fixação aos tecidos, à musculatura ou à parede torácica. Houve, portanto, um aperfeiçoamento dos recursos disponíveis. No entanto, estas técnicas não são uma garantia de que a mama nunca voltará a descer. Têm indicações específicas e devem ser escolhidas de acordo com a anatomia, a qualidade dos tecidos e aquilo que pretendemos alcançar em cada paciente. Há mulheres que chegam à consulta convencidas de que precisam de uma prótese, mas que podem conseguir um resultado melhor sem implantes? Sem dúvida. Essa realidade tem mudado muito nos últimos anos. Existe uma procura crescente por resultados mais naturais e também um debate cada vez maior em torno dos implantes, da sua manutenção e das possíveis reações associadas. Quando uma mulher tem tecido mamário suficiente, podemos utilizá-lo para remodelar a mama. Numa mastopexia ou numa redução mamária, é possível reposicionar o próprio tecido e construir volume, quase como se criássemos uma pequena prótese com a própria mama. A dificuldade surge quando a paciente tem muito pouco tecido e pretende um colo bastante preenchido. Nesses casos, podemos precisar de acrescentar volume. É importante explicar que levantar uma mama e aumentar uma mama são objetivos diferentes. Quem procura um resultado mais natural pode ficar muito satisfeita apenas com o reposicionamento dos seus próprios tecidos. Quem deseja uma maior projeção ou um colo muito preenchido poderá continuar a beneficiar de um implante. Existem também técnicas complementares, como a enxertia de gordura, que pode ser utilizada em situações selecionadas. Ainda assim, a prótese continua a ter o seu lugar. A decisão não deve ser ideológica nem seguir uma tendência. Deve resultar da anatomia da paciente, do resultado pretendido e da solução que ofereça maior segurança e previsibilidade. Corrigir uma cirurgia anterior é mais difícil do que operar pela primeira vez? Muito mais difícil. Recebo pacientes que já foram operadas três ou quatro vezes e, frequentemente, chegam à consulta sem saber exatamente que implante têm, qual foi a técnica utilizada ou o que foi feito em cada intervenção. Quando abrimos uma mama que já passou por várias cirurgias, podemos encontrar cicatrizes internas, alterações da anatomia, tecidos fragilizados e uma quantidade muito limitada de pele ou glândula disponível. Nem sempre sabemos antecipadamente o que resta ou em que condições se encontra. Por isso, uma cirurgia de revisão exige uma preparação muito mais ampla. Posso precisar de ter disponíveis diferentes tamanhos e formatos de implantes porque a decisão final só será tomada depois de avaliar os tecidos durante a própria cirurgia. Nestes casos, não é responsável prometer um resultado exato antes de operar. Temos de começar praticamente do zero, reconstruir a mama e tomar decisões de acordo com aquilo que encontramos. É uma cirurgia mais complexa, mais imprevisível e que exige muito raciocínio. Ainda assim, com planeamento e experiência, é possível melhorar significativamente situações muito difíceis. A lipoaspiração de alta definição pode definir o corpo sem o tornar artificial? Pode e, na verdade, esse deveria ser o objetivo. A lipoaspiração de alta definição surgiu para melhorar o contorno corporal e acompanhar a anatomia da paciente, não para criar um corpo artificial ou desenhar músculos que não existem. Durante algum tempo, tornaram-se populares resultados extremamente marcados, com abdómens quase esculpidos de forma padronizada. Atualmente, essa tendência está a mudar. Cada vez menos se procura aquela definição excessiva e evidentemente cirúrgica. As pacientes querem resultados mais delicados. Querem que a musculatura que já possuem se torne um pouco mais visível, mas sem perder a naturalidade. A lipo HD deve respeitar as linhas anatómicas, as proporções, a estrutura muscular e o tipo de corpo de cada pessoa. Quando é bem indicada e bem executada, conseguimos um resultado muito bonito precisamente porque não parece desenhado. A qualidade da pele tornou-se um dos maiores desafios da cirurgia de contorno corporal? Sim. Podemos retirar gordura, melhorar o contorno ou corrigir uma diástase, mas, se a pele não tiver qualidade ou capacidade de retração, o resultado será limitado. Este desafio tornou-se ainda mais evidente com o aumento das perdas de peso rápidas. Temos cada vez mais pacientes que perderam bastante volume, mas ficaram com flacidez na face, na mama, no abdómen, nos braços, nas coxas e noutras zonas do corpo. Quando existe uma flacidez muito significativa, a solução continua a passar pelas cirurgias convencionais, como a abdominoplastia, a mastopexia ou as cirurgias de remoção de pele realizadas após grandes emagrecimentos. Atualmente, também dispomos de tecnologias que promovem a retração dos tecidos e podem ser associadas à lipoaspiração. São aparelhos que ajudam a melhorar a qualidade da pele e podem evitar cicatrizes maiores em pacientes com uma flacidez ligeira ou moderada. No entanto, não resolvem tudo. Quando existe um grande excesso de pele, é necessário removê-lo cirurgicamente. Uma tecnologia pode apoiar uma indicação bem feita, mas não deve ser apresentada como uma alternativa milagrosa a uma cirurgia de excisão. Tudo depende da avaliação da pele, da quantidade de flacidez e da expectativa da paciente. As chamadas “canetas para emagrecer” já estão a criar um novo perfil de paciente na Cirurgia Plástica? Essa mudança não está apenas a começar. Já aconteceu e será cada vez mais evidente. Os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade estão a permitir que muitas pessoas percam peso e melhorem a sua saúde, o que é extremamente positivo. No entanto, para a Cirurgia Plástica, surge um novo desafio: o volume desaparece, mas a pele nem sempre acompanha essa transformação. Temos cada vez mais pacientes com flacidez em várias regiões do corpo e com necessidades muito específicas. Algumas têm indicação para tecnologias de retração; outras precisam de cirurgias de remoção de pele semelhantes às que realizamos em pacientes pós-bariátricos. Não se trata apenas do abdómen. Estamos a falar da face, das mamas, dos braços, das costas, das coxas e das pernas. Em alguns casos, encontramos também situações associadas, como o lipedema, que exigem uma avaliação e uma abordagem próprias. É um público que está a crescer de forma muito significativa. A Cirurgia Plástica terá de continuar a adaptar-se a estes novos corpos pós-emagrecimento, respeitando o tempo necessário para estabilizar o peso e escolhendo cuidadosamente o momento e a técnica de cada intervenção. Fazer várias cirurgias de uma só vez representa eficiência ou um risco desnecessário? Pode representar as duas coisas. Associar procedimentos pode ser vantajoso porque permite realizar uma única anestesia e concentrar a recuperação num só período. Mas isso só é aceitável quando a paciente tem condições clínicas para suportar a intervenção e quando o tempo operatório permanece dentro de limites seguros. Nem todos os pacientes podem realizar cirurgias combinadas. Existem pessoas com maior risco de trombose, embolia, hemorragia ou outras complicações. Quanto mais longa e complexa for a cirurgia, maior será a exigência imposta ao organismo. A decisão depende da saúde da paciente, dos procedimentos que pretendemos associar, do tempo estimado de cirurgia, da equipa, do hospital e da capacidade de acompanhar adequadamente o pós-operatório. No Brasil, algumas instituições começaram já a estabelecer limites mais rigorosos para cirurgias muito prolongadas, precisamente por causa do aumento do risco. É aqui que entra a consciência de cada cirurgião. Nem tudo o que é tecnicamente possível deve ser realizado no mesmo dia. A eficiência nunca pode sobrepor-se à segurança. O melhor resultado de uma cirurgia plástica é aquele que ninguém consegue identificar? Isso depende também da cultura e do público. Tradicionalmente, a mulher brasileira gostava mais de mostrar que tinha sido operada. Falava sobre a cirurgia, assumia-a e, em alguns contextos, o próprio resultado cirúrgico era visto como um símbolo de estatuto. A mulher europeia tende a ser mais discreta. Quer melhorar, mas prefere que ninguém perceba exatamente o que fez. No entanto, estas duas realidades estão a aproximar-se. A brasileira começa a procurar resultados mais contidos e naturais, enquanto a europeia começa a assumir com maior liberdade que se cuida e que pode recorrer à Cirurgia Plástica. É uma diferença sobretudo cultural, não técnica. O nosso trabalho deve adaptar-se à pessoa que temos à frente, às suas proporções, à sua identidade e à forma como deseja sentir-se no próprio corpo. Pessoalmente, acredito que a cirurgia caminha para resultados mais personalizados. Não se trata de aplicar o mesmo corpo, o mesmo peito ou o mesmo abdómen a todas as pessoas. Trata-se de melhorar aquilo que já existe sem apagar a identidade de quem é operado. Escolher o profissional certo é tão importante como escolher a própria cirurgia? É fundamental, sobretudo porque uma cirurgia funciona quase como uma assinatura. Cada cirurgião tem a sua forma de avaliar, planear, operar e compreender o resultado. A formação técnica é essencial, mas não é suficiente. O cirurgião tem de conhecer a anatomia, perceber a qualidade dos tecidos, reconhecer o limite do corpo e saber até onde aquela paciente pode ir em segurança. É também necessário compreender aquilo que cada pessoa deseja. Muitas vezes, o paciente quer sempre mais porque quer sentir-se melhor, mas não tem os conhecimentos necessários para perceber o risco ou o limite da transformação. O cirurgião tem de conseguir proteger o paciente, por vezes, até do seu próprio desejo. Tem de saber explicar que determinado procedimento não é indicado, que uma cirurgia deve ser dividida em diferentes momentos ou que o corpo não permite alcançar exatamente a imagem que a pessoa idealizou. Por isso, costumo dizer que o bom cirurgião não é apenas aquele que sabe operar. É aquele que sabe quando parar. A técnica pode ser dominada por muitos profissionais. O verdadeiro diferencial está no raciocínio clínico, na capacidade de ouvir, na responsabilidade de reconhecer os limites e na coragem de dizer “não” quando avançar pode colocar em causa a segurança ou o bem-estar da paciente. Instagram: @drapatriciatatsch “Há doenças reumáticas que começam aos 20 anos e podem mudar uma vida antes de terem um nome” “Todos os dias temos a possibilidade de escolher a forma como queremos viver”
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