GINECOLOGIA “A mulher não termina no parto nem perde importância depois dos 40” By Revista Spot | Julho 28, 2026 Julho 31, 2026 Share Tweet Share Pin Email Durante anos, a Medicina soube acompanhar o nascimento de um bebé melhor do que a transformação de uma mulher. Sabia medir, vigiar e diagnosticar a gravidez, mas nem sempre tinha respostas para o que vinha depois: a secura vaginal, as perdas urinárias, a insónia, a quebra de energia, o desaparecimento do desejo. Joana Félix conheceu esse vazio em consulta e recusou continuar a preenchê-lo com a frase “é normal”. Ginecologista e obstetra, alargou o seu trabalho à saúde hormonal, à menopausa, à ginecologia regenerativa e ao slow-aging, defendendo uma visão que não divide a mulher em episódios clínicos. O corpo feminino não começa na primeira menstruação, não termina no parto e não perde importância depois dos 40. Precisa de ser acompanhado como uma história inteira, com ciência, prevenção e soluções antes que o silêncio se transforme em sofrimento evitável. A nova Ginecologia está a deixar de ser uma especialidade centrada apenas na doença para acompanhar a mulher em todas as fases da vida? Sem dúvida. Costumo dizer que os médicos têm de se adaptar à evolução das mulheres. As mulheres mudaram e foram elas que também me fizeram mudar. Escolhi inicialmente a Obstetrícia. Durante muito tempo, a maioria das minhas utentes eram grávidas e o meu trabalho estava muito centrado no acompanhamento da gravidez. Mas, ao fim de cerca de dez anos, essas mulheres começaram a regressar à consulta noutras fases da vida. Vinham com alterações hormonais, desconforto íntimo, dificuldades na sexualidade e um conjunto de queixas para as quais eu sentia que não tinha respostas suficientes. Muitas vezes, limitava-me a ouvi-las e a dizer-lhes que aquilo era normal. Era quase uma consulta de Psicologia: compreendia o que estavam a viver, mas não tinha soluções concretas para lhes oferecer. E comecei a ficar profundamente incomodada com a ideia de dizer às mulheres que era normal sofrerem. Foi essa inquietação que me levou a pesquisar e a aprofundar áreas como a ginecologia regenerativa e funcional. Hoje, o objetivo já não é esperar que a mulher fique mal para depois tratar. É perceber a fase seguinte, antecipar alterações e intervir antes de o problema se instalar. Agora sinto que tenho soluções e que não preciso de dizer a uma mulher que aquilo que a incomoda simplesmente “faz parte”. Estamos finalmente a olhar para o envelhecimento feminino de forma mais preventiva, personalizada e integrada? Mais do que nunca. Com o aumento da esperança média de vida, as mulheres passam uma parte muito significativa da sua vida na perimenopausa e na pós-menopausa. Temos, por isso, de encontrar soluções que lhes permitam viver esses anos com saúde e qualidade de vida. O problema é que a sociedade continua a ensinar a mulher a aceitar o sofrimento. Dizemos às meninas que é normal terem dores menstruais. Dizemos às mulheres que o parto tem de ser doloroso e traumático. Mais tarde, dizemos-lhes que é normal terem afrontamentos, perderem energia, dormirem mal ou deixarem de se sentir elas próprias. Esta ideia precisa de ser desmistificada entre as mulheres, mas também entre os médicos. Ainda existem profissionais que encaram o sofrimento como uma consequência inevitável das diferentes fases da vida feminina. Costumo dar um exemplo muito simples: com a idade, muitas pessoas começam a ver pior e passam a usar óculos. Não deixam de ler apenas porque a visão envelheceu. Com a saúde íntima deve acontecer o mesmo. O corpo muda, mas isso não significa que tenhamos de desistir da função, do conforto ou da qualidade de vida. Existem soluções e devemos utilizá-las de forma individualizada. A saúde íntima continua a ser um tabu ou já é encarada como qualidade de vida? A sexualidade continua a ser um grande tabu. Como trabalho especificamente nesta área, muitas das mulheres que chegam à minha consulta já vêm informadas e preparadas para falar. Mas, numa consulta de Ginecologia Geral, sou frequentemente eu que tenho de introduzir ativamente o tema. Mesmo assim, nem sempre conseguimos falar sobre sexualidade na primeira consulta. Por vezes, são necessárias duas ou três consultas até existir confiança suficiente para que a mulher partilhe aquilo que está verdadeiramente a acontecer. Para uma parte significativa da população, continua a ser um assunto muito difícil. As mulheres falam pouco com os médicos, mas também falam pouco entre si. Existe vergonha, receio de julgamento e a ideia de que aquilo que estão a viver é demasiado íntimo ou pouco importante para ser discutido. Enquanto não tratarmos a sexualidade, o conforto íntimo e o bem-estar como componentes da saúde, muitas mulheres continuarão a viver em silêncio com problemas para os quais podem existir respostas. A tecnologia está a mudar a forma como vivemos a gravidez? A ecografia permitiu aos casais aproximarem-se muito mais da gravidez e perceberem melhor o que está a acontecer. É uma ferramenta extraordinária, tanto do ponto de vista clínico como emocional. É também uma das áreas de que mais gosto, porque a ecografia cria um momento de ligação entre os pais e o bebé. As imagens tridimensionais estão cada vez mais realistas e ouvir o coração do bebé pode ser particularmente emocionante. Quando os irmãos mais velhos acompanham a consulta, também podemos envolvê-los nesse momento e ajudá-los a criar uma relação com o bebé que vai nascer. Do ponto de vista médico, a ecografia permite identificar alterações, avaliar riscos e preparar os pais para diferentes cenários. Quando existe a possibilidade de uma malformação ou de outro problema, conseguimos explicar o que está a acontecer e dar ao casal informação para tomar decisões conscientes. Contudo, também chegámos, por vezes, ao extremo de acreditar que a tecnologia consegue prever tudo. Não consegue. A ecografia trouxe uma enorme capacidade de diagnóstico e preparação, mas continua a haver limites e incerteza na Medicina. O que muda quando uma médica também ensina outros médicos? A formação obriga-nos a estar constantemente atualizados, sobretudo quando ensinamos outros médicos e sentimos que temos de estar um passo à frente. Para dar formação, preciso de estudar mais, rever evidência e questionar aquilo que faço. Ao mesmo tempo, as formações permitem-me receber muito dos outros colegas. Partilhamos experiências, dúvidas, receios e diferentes realidades clínicas. Percebo quais são as perguntas que os profissionais fazem, que dificuldades encontram e quais são as necessidades das mulheres que acompanham. É um processo de crescimento mútuo. Também considero essencial transmitir aos médicos mais jovens que a mulher mudou e que a Ginecologia tem de mudar com ela. Temos de abandonar a ideia de que a mulher foi feita para sofrer e evitar olhar para cada problema como se existisse dentro de uma caixa isolada. Não consigo compreender uma Medicina em que um profissional trata apenas a menopausa, outro apenas a contraceção e outro apenas a incontinência urinária, sem que alguém observe a mulher como um todo. A Ginecologia deve acompanhá-la desde as primeiras alterações ginecológicas até às fases mais avançadas da vida, numa perspetiva de saúde e não apenas de doença. Por que razão continua a existir tanta confusão na escolha do método contracetivo? Ainda existe muita desinformação. Portugal é tradicionalmente um país com uma utilização muito elevada da pílula. A pílula foi uma ferramenta extraordinária: permitiu às mulheres controlar a fertilidade, organizar a vida e conquistar maior autonomia pessoal e profissional. Mas, atualmente, temos um leque muito mais alargado de métodos e opções. Mesmo entre as pílulas existem diferentes formulações, que podem ser mais adequadas a determinadas mulheres ou fases da vida. É impossível uma mulher ter exatamente as mesmas necessidades aos 15 e aos 50 anos. Uma mulher pode utilizar a mesma pílula durante vinte anos e, mais tarde, começar a ter enxaquecas, secura vaginal, diminuição da libido ou outros sintomas. Isso não significa necessariamente que o método tenha sido errado durante todo esse tempo. Significa que o corpo mudou e que as necessidades hormonais também mudaram. A contraceção tem de ser individualizada e revista ao longo da vida. Precisamos de deixar de aplicar protocolos iguais a todas as mulheres. Cada mulher tem a sua história clínica, os seus riscos, os seus objetivos e uma fase hormonal específica. O melhor método é aquele que se adapta àquela mulher naquele momento. A Medicina está finalmente a dar à menopausa a atenção que sempre mereceu? Estamos a começar, mas ainda estamos muito longe do lugar a que precisamos de chegar. Quando comecei a trabalhar mais profundamente a ginecologia funcional e a saúde íntima, recorri a procedimentos como a radiofrequência e o plasma rico em plaquetas. Rapidamente percebi, porém, que não podia trabalhar apenas localmente. Não faria sentido tratar a secura vaginal sem perceber, por exemplo, se existia uma insuficiência hormonal por corrigir. Foi a partir dessa necessidade que surgiu uma consulta mais integrativa, dirigida à mulher depois dos 40 anos. Independentemente do nome que lhe atribuamos, longevidade, slow aging ou acompanhamento da menopausa. O essencial é observar o quadro completo. Mesmo que se corrija uma alteração hormonal, uma mulher com défice de ferro, vitamina B12 ou outro problema continuará provavelmente a não se sentir bem. É necessário perceber tudo aquilo que pode estar a contribuir para os sintomas, desde o estado hormonal às carências nutricionais, ao sono e a outros fatores de saúde. Ainda não estamos onde deveríamos, mas estamos no caminho certo. As mulheres já procuram ajuda, fazem perguntas e começam a recusar a ideia de que têm simplesmente de suportar aquilo que sentem. Como deve uma mulher olhar para a terapêutica hormonal? A terapêutica hormonal não é isenta de riscos e não é adequada a todas as mulheres. Tem sempre de existir uma avaliação individual, uma indicação clínica e uma vigilância apropriada. Ao mesmo tempo, também precisamos de compreender que a menopausa tem consequências que vão muito além da estética. Com a diminuição hormonal, podem aumentar determinados riscos associados à saúde cardiovascular, aos ossos, à cognição e à qualidade de vida. Quando existe indicação e é feita de forma adequada, a terapêutica hormonal pode ajudar a controlar sintomas e a proteger a saúde da mulher. O importante é avaliar a relação entre riscos e benefícios em cada caso. É curioso que muitas mulheres tomem contracetivos hormonais durante vários anos sem grande receio e, quando se fala numa terapêutica hormonal em doses ajustadas à menopausa, sintam um medo muito maior. Parte desse receio está relacionada com a forma como alguns estudos foram divulgados e interpretados no passado, sobretudo no que diz respeito ao cancro da mama. Trabalho precisamente com mulheres numa faixa etária em que o cancro da mama é mais frequente. Por isso, é expectável que alguns casos sejam diagnosticados durante a terapêutica hormonal, sem que isso signifique que tenham sido provocados pelo tratamento. A coincidência no tempo não estabelece, por si só, uma relação de causa. É por essa razão que o rastreio, a vigilância e a avaliação individual do risco são fundamentais. A ginecologia regenerativa ainda vive demasiado entre o preconceito e o marketing? Ainda vivemos entre o preconceito e o marketing. Existe preconceito porque muitas pessoas continuam a considerar estes cuidados fúteis ou desnecessários. E existe marketing porque surgem técnicas novas que, por vezes, são apresentadas como soluções universais. Muitas mulheres só procuram ajuda quando já têm incontinência urinária, prolapso ou uma disfunção sexual evidente. Raramente chegam numa fase inicial, apenas com secura vaginal ou com o objetivo de prevenir problemas. No pós-parto, por exemplo, considero importante falar de recuperação e reabilitação do pavimento pélvico. O objetivo não deve ser esperar que surja incontinência urinária para depois intervir. Deve ser acompanhar a mulher e reduzir o risco de o problema aparecer. Contudo, não podemos aplicar radiofrequência, laser, plasma rico em plaquetas ou qualquer outra técnica da mesma forma a todas as mulheres. Quando se pega numa tecnologia e se cria um protocolo igual para toda a gente, os resultados dificilmente serão consistentes. É preciso selecionar corretamente as mulheres, perceber a origem do problema, adaptar os tratamentos e conhecer os limites de cada técnica. Estamos ainda numa fase de aprendizagem e transição. Para que estas abordagens ganhem credibilidade, é essencial que sejam utilizadas com rigor, formação e indicação adequada. O que é que as mulheres ainda normalizam em silêncio? As mulheres normalizam quase tudo, mas a dimensão sexual continua a ser a mais silenciosa. Recebo mulheres com mais de 40 anos que dizem nunca ter tido um orgasmo ou que tiveram apenas uma ou duas experiências de prazer desde o nascimento de um filho, vários anos antes. Muitas têm vergonha de falar com o médico e até com as amigas. É frequente alguém atravessar uma situação difícil e só mais tarde descobrir que várias mulheres próximas viveram exatamente o mesmo. Isso acontece, por exemplo, com perdas gestacionais, alterações do pós-parto e dificuldades na sexualidade. As experiências existem, mas permanecem escondidas. A dor é um dos principais sinais que não deve ser automaticamente normalizado. Não devemos continuar a dizer às meninas e às mulheres que a dor menstrual, a dor nas relações sexuais ou qualquer outro desconforto tem simplesmente de ser suportado. Mesmo quando existe uma explicação fisiológica, pode haver formas de aliviar ou tratar. O mesmo se aplica a tudo aquilo que interfere com a vida da mulher. Uma alteração nos pequenos lábios pode não representar um problema médico para todas, mas, se impede uma mulher de andar de bicicleta, usar roupa justa, vestir um biquíni ou sentir-se confortável com o próprio corpo, merece ser escutada e avaliada. Também existem mulheres que evitam despir-se ou ter relações sexuais por causa de pequenos sinais, condilomas ou outras lesões vulvares que podem ser tratadas através de procedimentos simples. Algo aparentemente pequeno pode ter um impacto enorme na autoestima e na intimidade. A mensagem principal é esta: a dor não deve ser desvalorizada e aquilo que incomoda a mulher merece ser ouvido. Não significa que todos os casos exijam um procedimento, mas significa que todas as mulheres têm o direito de procurar uma explicação e conhecer as soluções disponíveis. Instagram: @prof.dra.joana_felix | @uffiziclinic “Nenhuma tecnologia consegue reproduzir verdadeiramente o capital biológico de um dente natural” “Antes de corrigir uma ruga, é preciso perceber por que razão ela apareceu”
GINECOLOGIA “A nova Ginecologia nasceu porque as mulheres deixaram de aceitar viver mal em silêncio” “Deve ser da idade.” A frase parece inofensiva. Durante décadas, porém, serviu para encerrar demasiadas conversas sobre o corpo feminino….
GINECOLOGIA / SAÚDE DA MULHER “Há uma pergunta que muitas mulheres nunca fizeram em voz alta: e se isto que me ensinaram a aguentar tiver tratamento?” O silêncio também pode ser um sintoma. Durante demasiado tempo, a saúde íntima feminina foi tratada como um território menor,…
GINECOLOGIA / SAÚDE DA MULHER “Na Medicina da Reprodução o tempo conta e pode mudar vidas” Ainda há temas que continuam a ser vividos em silêncio, a infertilidade é um deles. Num tempo marcado pelo adiamento…