Psicologia “Muitas vezes, o problema não é a falta de libido, mas o excesso de pressão na intimidade” By Revista Spot | Fevereiro 6, 2026 Fevereiro 9, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há conversas que continuam a acontecer em surdina, mesmo num tempo em que tudo parece exposto. Fala-se de sexualidade em todo o lado, mas raramente se fala de intimidade com verdade. Do desejo que falha quando o corpo está em alerta, da vergonha que se instala na comparação, do medo de “não estar à altura”, da dor que ninguém sabe nomear. Raquel Pereira, psicóloga e terapeuta sexual, trabalha precisamente nessa ponte onde ansiedade, autoimagem, vinculação e prazer deixam de ser “gavetas separadas” e passam a ser uma pessoa à sua frente. No consultório, desmonta mitos sobre performance e propõe menos exigência, mais presença e mais escuta. Nesta entrevista, fala-se de libido e de orgasmo, mas sobretudo de tudo aquilo que está por trás: o stress, o burnout, as discrepâncias de desejo, a comunicação e de como a intimidade pode voltar a ser um lugar seguro. Se tivesse de contar o seu percurso como quem abre um livro, o que é que veio primeiro: a vontade de compreender as pessoas, a curiosidade pela sexualidade, ou a necessidade de dar nome ao que muitos vivem em silêncio? Talvez tudo estivesse, desde sempre, junto e misturado. No entanto, fui descobrindo aos poucos, tudo começou por uma empatia e capacidade de escuta desde cedo reconhecidas e uma vontade de compreender o comportamento humano, que me levaram a escolher a Psicologia como curso superior. Foi já durante a licenciatura que descobri o interesse pela terapia sexual. Tenho uma atração particular por temas tabu, e pelo estigma e sofrimento que leva as pessoas a isolarem-se e viverem as suas dores em silêncio. Quis cuidar daqueles que experienciam problemas e dificuldades nesta área, mas também dar visibilidade e ser uma das vozes que se expressa pela conquista de direitos sexuais. O papel “celebrante”, para o qual estou a terminar formação, surgiu mais recentemente, até porque é algo que não existia há 15 ou 20 anos atrás. É algo que já conhecia desde o covid, e que me suscitou curiosidade imediata. No entanto, deixei de lado, por um tempo, até que a vida me impulsionou a diversificar e a arriscar. E hoje não tenho dúvidas, ser Celebrante era a peça que faltava, porque reconhecer e celebrar momentos e ritos de passagem é, em si, uma transformação. Porque é que ainda insistimos em separar aquilo que, na prática, vive interligado: ansiedade, autoimagem, desejo, intimidade, vergonha e pertença? É uma tendência humana natural e, até certo ponto, necessária, a de categorizar e “pôr em caixinhas” como forma de organizar o caos e compreender o mundo à nossa volta. O pensamento concreto, se formos a ver, é uma forma de pensamento que evolui para o pensamento abstrato, mas requer maturidade. É importante conhecer cada um destes conceitos, mas, efetivamente, na prática é importante ter uma visão holística que os integre na pessoa que está à nossa frente. É por isso que, na grande maioria das vezes, quando atendo pessoas em terapia sexual acabamos por também trabalhar questões psicológicas. E vejo, efetivamente, como as questões da sexualidade se cruzam com a forma como nos vinculamos aos outros, isto é, os nossos estilos de vinculação, que nos dão representações de nós próprios e do mundo e que nos deixam mais ou menos seguros para interagir com os outros. São padrões que se formam desde muito cedo, mas que são passíveis de mudança. Trata-se de viver em maior equilíbrio com as nossas necessidades de individualidade e autenticidade, mas também de pertença e rede. Um equilíbrio que é, sobretudo, interno. Na terapia sexual, quais são hoje os mitos mais persistentes sobre libido, orgasmo, “normalidade”, compatibilidade e que dano silencioso provocam? Diria que muitos dos mitos mais conservadores, sobretudo em torno dos papéis de género, não desapareceram completamente, e há mesmo um perigo real de ressurgirem face aos movimentos políticos mais demagógicos. No entanto, gostava de dar destaque a mitos mais “modernos”, talvez também provocados por um uso inconsciente da sexologia, e que hoje desconstruo muito em consultório. São mitos mais relacionados com performance sexual, uma certa idealização e exigência: por exemplo “os casais sexualmente competentes têm sexo com muita frequência” ou “experimentam muitas posições e brinquedos” ou “o sexo tem de ser sempre maravilhoso e transcendente”, como se ter uma vida sexual e prazerosa fosse mais um requisito para se ser alguém bem sucedido. Mas nestes mitos, vistos de uma maneira simplista, perde-se qualidade e leveza. Há um conceito que é basilar na minha prática, proposto pelo sexólogo Barry McCarthy, de “sexo bom o suficiente”. A satisfação sexual é algo mais subjetivo, e prende-se com a qualidade da interação íntima e emocional, com espaço para exploração e aventura, mas também para o conforto e o familiar. Há algo de libertador e saudável quando os casais se permitem cuidar da sua vida sexual e erótica com atenção e dedicação, mas sem pressão ou exigências irrealistas. Entre pornografia, redes sociais e a lógica do “corpo perfeito”, que padrões está a ver crescer, a ansiedade de desempenho, as disfunções sexuais, a comparação ou desconexão emocional? São fenómenos que já não são recentes, mas que, efetivamente, parecem perdurar, e que fazem com que o nosso trabalho enquanto terapeutas sexuais seja muito de reeducação e de psicoeducação. O vício em pornografia é algo que traz frequentemente as pessoas à terapia sexual e que tem um impacto negativo na vivência da experiência sexual. Queixas de dificuldades de ereção e ejaculação são frequentes nestes casos, e demonstram como lhes é difícil vir para o presente, para o real. Homens (sobretudo) e mulheres que cresceram com um consumo exagerado de pornografia desenvolvem representações irrealistas do que é o ato sexual, muito também pelo fato de muitos destes produtos serem feitos de acordo com uma lógica performativa e de objetificação. Mas costumo dizer que o problema não é a pornografia em si, mas esta falta de sentido crítico e, no fundo, de educação sexual. E costumo direcionar as pessoas para tipos de pornografia mais ética e humana, como é o trabalho de Erika Lust, por exemplo. A par disso, ideias e representações sobre o “corpo perfeito” influenciam diversas áreas da nossa vida, e também a sexualidade, alimentam vozes críticas e padrões de perfeccionismo que não são saudáveis para a nossa saúde mental. Mas também temos de dar liberdade para as pessoas escolherem aquilo que faz sentido para elas, ajudando-as a perceber o que lhes faz bem. Quando o stress, o burnout e a exaustão entram em casa, o que costuma acontecer primeiro à intimidade? Que estratégias realistas podem devolver segurança e presença? O desejo e o prazer florescem em estilos de vida mais saudáveis e livres de stress. Porém, o stress faz parte da vida, e é provável que muitas pessoas passem por situações de exaustão e burnout em algum momento das suas vidas. É aí que devemos ajudar as pessoas a trazer um olhar realista, flexível e compassivo perante as suas dificuldades, sem cair no conformismo. Estratégias como o mindfulness e o foco sensorial ajudam-nos a perceber que o prazer pode estar em coisas simples, sobretudo quando não há pressa de chegar a nenhum resultado… apenas abertura e curiosidade perante o que está a acontecer no aqui e agora. E reforçar o autocuidado como uma prioridade, mesmo em alturas mais difíceis ou exigentes, é central para se ultrapassar momentos mais difíceis da nossa vida, adequando expectativas e gerindo os recursos energéticos que temos da melhor forma possível. A discrepância de desejo é hoje uma das maiores fontes de conflito? O que distingue um “problema sexual” de um problema de comunicação, de poder, ou de cansaço acumulado? A discrepância do desejo é dos problemas sexuais mais frequentes dos casais, mas muitas vezes estes só procuram ajuda quando o problema já se arrasta há muito tempo, e quando até já se acumularam com outros problemas do casal. Quando existe boa comunicação, isso também se associa a casais emocionalmente mais satisfeitos e proativos, que procuram ajuda mais prontamente e com melhor prognóstico. Por isso é que a comunicação é fundamental, sendo que esta parte de um bom autoconhecimento. Com boa comunicação, os problemas de discrepância de desejo tendem a ser facilmente negociáveis, e ambas as partes estão dispostas a ir ao encontro uma da outra. Quando assim não é, o impasse está na inflexibilidade e na luta de poder, alimentando ciclos de dor e ressentimento, onde será preciso uma grande sensibilidade para desmontar. No entanto, embora este seja um problema comum dos casais, a verdade é que não é a disfunção sexual que mais frequentemente surge na clínica. É como se fosse, de certo modo, naturalizada e, por isso, os casais tendem a resolver sozinhos ou a relativizar e “deixar andar”. As disfunções sexuais que mais trazem as pessoas à consulta (se bem que sozinhos, muitas vezes), são as questões da falta de ereção e a dor sexual. Nessas situações, existe algo em que a resposta sexual “falha”, sendo por isso mais impactante e “urgente”. Mas é importante perceber que, embora seja expectável uma certa discrepância de desejo nos casais, quando é vivida com enorme sofrimento é preciso pedir ajuda. Como lê as grandes transições, como o pós-parto, a menopausa e perimenopausa, as mudanças corporais, ou mesmo medicação, na vida sexual e emocional e o que lhe parece ainda pouco falado, até entre profissionais? Os momentos de transição de vida, como gravidez e pós-parto, menopausa/perimenopausa ou doenças e envelhecimento são momentos de mudanças a nível físico e psicológico, com impacto na sexualidade. Parte da solução para integrarmos e nos adaptarmos a esses momentos passa por aceitar que são momentos de perda, mas também oportunidades de crescimento. De olharmos para a vida, e em particular, para a sexualidade, com mais flexibilidade e criatividade. E, em determinadas situações, não se trata de voltar ao que era; trata-se de construir algo novo. Aí, existem diferentes perspetivas, até entre profissionais. Mas tenho assistido a cada vez mais abertura para uma multidisciplinaridade e para o diálogo entre diferentes saberes. O que é que os homens ainda não sabem comunicar sobre ereção, desejo, controlo, vulnerabilidade e medo de falhar? Não sei se não sabem ou, mesmo sabendo, têm resistência em acreditar: que o seu valor enquanto homens não está na sua performance sexual. É um pouco “remar contra a maré”, e desconstruir padrões que foram sendo incutidos desde pequenos. E trata-se também de encontrar um equilíbrio saudável, em que a sua força não se apaga, mas que sabe abrir lugar para se conectar às suas emoções. A sua investigação e percurso em torno da sexualidade em pessoas com incapacidade física obrigam a perguntas novas? O que falta mudar na prática clínica e na educação sexual? Ter tido o privilégio de me dedicar ao tema da sexualidade e incapacidade foi o que me sensibilizou ainda mais para a diversidade do que é a sexualidade e do que é o ser humano. Do quanto todos temos a aprender e a beneficiar com sairmos dos guiões e scripts pré-definidos e sermos mais flexíveis e criativos. Quando estamos perante limitações físicas permanentes que alteram a nossa vivência e acessibilidade a diversas dimensões da vida, baixamos os braços ou adaptamo-nos? Em geral, vamos adaptar-nos. A questão é que não o podemos fazer sozinhos, e os profissionais têm um papel fundamental em ajudar estas pessoas a viverem de forma mais plena a sua intimidade. E, por vezes, basta pouco para ajudar: escutar, dar informação, já vai desbloquear uma boa parte dos problemas, como demonstra o Modelo PLISSIT. Se, por algum motivo, não nos sentimos confortáveis em abordar estas questões com os nossos clientes, devemos, pelo menos, saber encaminhar, partindo sempre deste pressuposto: sim, estas pessoas têm desejo e necessidades sexuais e sim, há formas de as ajudar a concretizá-las. No seu trabalho como celebrante, porque é que as celebrações e rituais podem ser “higiene mental”? Que papel têm no luto, nas separações, nos recomeços, na reconciliação com a própria história? Como futura celebrante, mas permanecendo psicóloga, acredito que as palavras bem escolhidas ajudam a viver momentos de mudança de forma mais consciente, ajudando a quebrar ciclos negativos e a iniciar novos capítulos na nossa jornada de vida. De fato, interesso-me pela arte de celebrar não só pelo lado bom da vida, mas também como forma de dar significado ao que é mais duro e difícil, mas que faz parte e nos ajuda a crescer. Creio que se atribui a Jung a seguinte frase: “Os sonhos são as mensagens do inconsciente para o consciente. Os rituais são as mensagens do consciente para o inconsciente.” Então, quando escolhemos conscientemente marcar um determinado momento estamos a tornar real e concreto o seu significado, marcando assim a nossa trajetória de vida. E isto é algo que transforma, porque vem de dentro. Não é imposto, é escolhido de forma consciente. O celebrante não é o protagonista, é o facilitador daquele momento na vida daquela(s) pessoas. Ao marcar aquele momento, a pessoa assume responsabilidade por aquilo com que se está a comprometer. O momento é seu, e é uma base para a qual pode olhar em momentos de dúvida e de desafio, o que é bastante empoderador. Facebook: Raquel Pereira – Psicóloga & Terapeuta Sexual Instagram: @a_psicologa.celebrante Site: raquelpereirapsicologia.com “O ciclo menstrual é um verdadeiro barómetro de saúde” Amor e Requinte em Braga: Duas propostas exclusivas para um São Valentim inesquecível
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