Psicologia “Muitas vezes, a ansiedade é uma mensagem urgente sobre a forma como estamos a viver” By Revista Spot | Julho 4, 2026 Julho 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email E se a ansiedade não fosse apenas uma doença, mas uma mensagem urgente sobre a forma como estamos a viver? E se o vazio, a fadiga, a tensão, a dor ou a desconexão não fossem apenas sintomas a calar, mas sinais de um organismo que permaneceu demasiado tempo afastado de si próprio? Margarida Seco de Oliveira, psicóloga clínica com 25 anos de prática, trabalha precisamente nesse território onde a saúde mental deixa de ser diagnóstico ou comportamento e passa a ser corpo, biografia, vínculo, consciência e contexto. Com um percurso que une Psicologia Clínica, Medicina Tradicional Chinesa, Psiconeuroacupuntura, Saúde Mental Integrativa e Neurociências da Consciência, defende uma abordagem capaz de escutar a pessoa inteira. Nesta entrevista, fala-se de um sofrimento psíquico que se torna biológico, de relações, de mulheres em transformação e de uma ideia de cura que ultrapassa a simples eliminação do sintoma. Que experiências clínicas a levaram a perceber que o sofrimento psicológico não podia ser compreendido apenas através do diagnóstico? A minha formação superior iniciou-se paralelamente com a licenciatura em Psicologia Clínica e o curso de Medicina Tradicional Chinesa, ambos realizados entre 1997 e 2002. Após esta base integrada de pensamento, conhecimento e vivência clínica, era natural evoluir para o mestrado em Saúde Mental e a especialização em Psiconeuroacupuntura. Posteriormente, com toda a informação que a ciência nos oferece, a Saúde Mental Integrativa e a Neurociência da Consciência tornaram-se sedutoras para mim. Ao longo de 25 anos de prática clínica e de milhares de consultas, fui percebendo que, por detrás de cada diagnóstico, existia uma história humana única que não cabia inteiramente numa classificação. Encontrei pessoas com o mesmo diagnóstico, mas com percursos de vida, padrões emocionais, relações, traumas e formas de adaptação completamente diferentes. Foi precisamente no contacto diário com a complexidade humana que senti necessidade de aprofundar a minha visão. Cada pessoa como um sistema vivo dinâmico em constante adaptação e evolução. O meu trabalho centra-se precisamente nessa ponte: unir conhecimento científico, compreensão emocional e uma visão profunda do potencial humano para criar processos regenerativos. Estamos a compreender melhor o sofrimento humano ou apenas a dar-lhe novos nomes? Estamos, sem dúvida, a compreender cada vez melhor os mecanismos envolvidos no sofrimento humano. Nunca tivemos tanto conhecimento sobre o funcionamento do cérebro, a influência do trauma, a comunicação entre os sistemas nervoso, imunitário, neuroendócrino, ou sobre a forma como as experiências de vida podem moldar a nossa expressão genética através da epigenética. Mas compreender os mecanismos não significa compreender profundamente a pessoa. Um dos grandes desafios da saúde contemporânea é precisamente este: passámos a identificar com maior precisão os processos bioenergéticos e neuropsíquicos associados ao sofrimento, mas precisamos de olhar para o ser humano na sua totalidade, com uma história única, inserida numa linha de vida singular. A mudança de paradigma já está a acontecer: deixar de olhar apenas para o sintoma e compreender a pessoa que o manifesta, através de uma intervenção clínica funcional, integrativa e personalizada. A ansiedade, o burnout ou a exaustão emocional não são apenas sinais de desequilíbrio; são mensagens de um organismo que permaneceu demasiado tempo afastado das suas necessidades profundas, dos seus limites, da sua identidade e da sua capacidade de autorregulação, permanecendo num contexto que deixou de ser saudável. A ciência ensinou-nos a compreender o “como”. O próximo grande passo é aprofundar o “para quê”: Para quê permaneço onde sofro? Para quê continuo a silenciar-me? Para quê me afasto de mim próprio? Para quê me abandono? Na minha prática clínica, é nesta integração que encontro a verdadeira transformação: quando unimos neurociência e experiência humana, biologia e história pessoal, conhecimento científico e consciência. O que muda quando olhamos para a ansiedade, o vazio, a exaustão ou a desconexão não apenas como “problemas a eliminar”, mas como sinais de que algo no modo de vida precisa de ser revisto? A doença mental esteve naturalmente focada na redução do sofrimento e no controlo dos sintomas. Esse contributo foi fundamental e continua a ser essencial em crise, porque aliviar o sofrimento é o primeiro passo para que se possa recuperar um certo equilíbrio. No entanto, a experiência clínica ensinou-me que o sintoma é também uma forma de comunicação do organismo vivo. A ansiedade, a exaustão, o vazio, a sensação de desconexão, como referiu, podem ser compreendidos como sinais de que existe um desequilíbrio maior que merece ser escutado. Estamos constantemente a tentar adaptar-nos às experiências que vivemos. Uma vivência cada vez mais antibiológica e desumana. Por vezes, aquilo que chamamos de “sintoma” é uma resposta excelente de proteção desenvolvida pelo sistema nervoso, perante excesso de stress, experiências emocionais difíceis, padrões relacionais tóxicos, exigências prolongadas, vida afastada das próprias necessidades com estrangulação de ritmos. Quando mudamos esta perspetiva, deixamos de perguntar apenas “como retiro este sintoma?”, e começamos a perguntar “o que é que este sintoma está a tentar revelar?”. Esta mudança não significa aceitar o sofrimento, mas compreendê-lo com maior profundidade para intervir mais próximo da raiz. Este fenómeno é muito belo. A ansiedade crónica é uma das grandes marcas da nossa época. Devemos entendê-la apenas como doença, como um alarme do sistema nervoso em sobrecarga ou também como uma tentativa do organismo se reorganizar perante uma vida demasiado acelerada? A saúde mental é a expressão mais profunda da relação entre o ser humano e o seu ecossistema de vida. A ciência atual demonstra que emoções, cérebro, corpo e consciência são influenciados pelos contextos sociais, culturais, económicos e ambientais. Por isso, promover saúde mental implica transformar também os sistemas onde o ser humano nasce, cresce e evolui. A ansiedade, especificamente, é uma experiência humana complexa que não pode ser compreendida através de uma única perspetiva ou teoria. Em determinadas situações, pode assumir uma dimensão clínica que requer avaliação e tratamento. Mas também é uma função biológica essencial: um sistema de alerta desenvolvido pelo organismo para nos proteger de situações de ameaça ou insegurança. O desafio surge quando esse sistema percetivo permanece ativado durante demasiado tempo e a pessoa começa a interpretar a própria forma de viver como um estado de perigo. Vivemos numa época de hiperestimulação: excesso de informação, pressão constante por desempenho, dificuldade em parar, ritmos acelerados, afastamento do corpo e da natureza, cultura da comparação e a sensação persistente de que nunca somos suficientes. Muitas pessoas vivem uma profunda desconexão entre aquilo que fazem diariamente para responder às exigências externas e aquilo que verdadeiramente lhes dá sentido, energia e nutrição interior. Neste contexto, a ansiedade pode surgir como um sinal de que algo necessita de ser escutado e reorganizado. Sinto ser uma expressão do sistema humano que pede compreensão. Interessa-me perceber como o sistema nervoso responde às experiências de vida, que memórias emocionais moldaram determinados padrões, que estratégias de sobrevivência foram desenvolvidas e que recursos internos podem ser recuperados. A transformação acontece quando deixamos de lutar contra o próprio organismo e aprendemos a restabelecer as condições que permitem segurança, escolha, equilíbrio e coerência interna. Porque, muitas vezes, a ansiedade não é apenas aquilo que sentimos, é uma mensagem urgente sobre a forma como estamos a viver. Fala-se cada vez mais de trauma, memória corporal e sistema nervoso. De que forma o corpo pode continuar a guardar aquilo que a mente tentou esquecer, através da hipervigilância, dos bloqueios emocionais, dos padrões repetidos, da dor, da tensão ou da exaustão? Para uma pergunta complexa, a resposta não pode ser linear. Durante muito tempo, acreditámos que a memória pertencia essencialmente ao cérebro e que aquilo que não conseguíamos recordar deixava de exercer influência sobre nós. Hoje compreendemos que a relação entre cérebro, corpo e experiência vivida é muito mais complexa. As experiências que atravessamos ao longo da vida, incluindo o período intrauterino, a infância e momentos de grande stress, ameaça ou insegurança, influenciam a forma como o sistema nervoso aprende a interpretar o mundo. O corpo não guarda memórias como uma narrativa consciente, mas conserva padrões de adaptação: estados de alerta, respostas automáticas de proteção, tensões corporais, alterações do sono, sensibilidades emocionais ou formas repetidas de reagir perante situações. A hipervigilância é um exemplo disso: um sistema nervoso que aprendeu a permanecer em estado de alerta para garantir proteção. Em determinado momento, essa resposta pode ter sido essencial para a sobrevivência emocional da pessoa. O problema surge quando esse padrão permanece ativo mesmo quando a ameaça já não existe, levando o organismo a viver como se precisasse de se defender cronicamente. É por isso que conseguimos compreender racionalmente que estamos seguros, mas continuamos a sentir medo, tensão, bloqueio ou exaustão. Existe uma diferença entre aquilo que a mente reconhece no presente e aquilo que o sistema nervoso aprendeu através das experiências passadas. O processo terapêutico passa, não por apagar a história, mas por criar novas experiências internas de segurança, regulação e integração. Quando o corpo deixa de estar preso a antigas respostas de proteção, a pessoa recupera maior liberdade para escolher como quer viver o presente. Muitas pessoas chegam às consultas com sintomas físicos aparentemente “sem explicação”: fadiga, inflamação, alterações do sono, intestino desregulado, dores, aperto no peito ou sensação permanente de alarme. Até que ponto o sofrimento psíquico também se torna biológico? O sofrimento psíquico é biológico. Não pode ser compreendido como separado. É, na sua essência, um fenómeno bioenergético integrado. Emoções, pensamentos, experiências de vida têm sempre uma expressão biológica concreta, porque o ser humano não funciona por partes, mas como um sistema vivo, interconectado e dinâmico. Sabemos, através das neurociências e da psiconeuroimunoendocrinologia, que existe uma comunicação contínua entre cérebro, sistema nervoso, sistema neuroendócrino, sistema imunitário, todos órgãos, tecidos e células. Aquilo que sentimos, modula a nossa bioquímica, e a nossa bioquímica, por sua vez, condiciona profundamente a forma como pensamos, sentimos e reagimos ao mundo. Quando vivemos períodos prolongados de stress, insegurança emocional ou sobrecarga, o organismo pode permanecer preso num estado de ativação sustentada. Não se trata apenas de um estado psicológico, mas de uma reorganização fisiológica persistente que impacta o sono, a energia, a digestão e o intestino, os níveis inflamatórios, a perceção da dor e a própria capacidade de regeneração. Observo frequentemente que muitas pessoas passam anos a procurar respostas tratando o corpo e a mente como entidades separadas. No entanto, a transformação mais profunda emerge precisamente quando se restaura a unidade. É por isso que o meu trabalho é, necessariamente, integrado e desenvolvido em rede. Colaboro com diferentes especialidades, da medicina funcional e integrativa, com a Dra. Mariana Pinto Leite, à neuropsiquiatria, com o Dr. José Mendes Padrão, e à nutrição funcional, com a Dra. Sofia Novais, porque a complexidade do sofrimento humano exige uma leitura multidimensional e uma intervenção coordenada. Não se trata apenas de juntar áreas, mas de reconhecer que sempre fizeram parte do mesmo sistema. O vazio existencial parece ser um dos sintomas mais silenciosos da vida moderna. Que impacto têm o excesso de estímulo, a pressão da produtividade, as relações frágeis e a falta de tempo interior na desconexão da pessoa consigo própria? O vazio existencial é talvez uma das expressões mais profundas da desconexão do ser humano contemporâneo. Pode evoluir para ausência de sentido de vida. É algo de grande profundidade e complexidade individual, mas também para a raça humana. Vivemos com possibilidades extraordinárias de comunicação, informação e realização, mas paradoxalmente sentimo-nos afastados de nós próprios. Existe muito movimento, mas pouco espaço para presença e escuta interior. Quando permanecemos orientados para o “fazer”, podemos perder o contacto com o “ser”! Algumas perguntas essenciais que deixo: Quem sou eu para além dos papéis? O que é que verdadeiramente me nutre? Que valores orientam as minhas escolhas? Que sentido encontro naquilo que vivo? O que é que, na minha vida, é essencial e o que é ruído? O que faz sorrir a minha alma quando não estou a tentar agradar? Em que momentos da minha vida estou verdadeiramente presente? Que partes de mim tive de silenciar para ser aceite, amada ou reconhecida? O que vivo que já não corresponde à pessoa que sou? Se nada tivesse de provar, pagar, agradar o que escolheria viver hoje? As relações também têm um papel fundamental. A ligação humana profunda é uma necessidade bioemocional. Podemos estar conectados e, ainda assim, experienciar solidão, porque a verdadeira ligação implica presença, toque, vulnerabilidade e reconhecimento. Muitas pessoas chegam a mim com sensação de vazio e ausência de sentido de vida, compreendem que vivem afastadas das suas próprias necessidades, escolhas, dons e valores. Perdem-se de si próprias, para se manterem acompanhadas pelos outros! A recuperação desta ligação interna passa por restaurar uma coerência profunda entre pensar, sentir, dizer e fazer. Talvez um dos grandes desafios seja este: ajudar o ser humano a voltar a sentir-se verdadeiramente presente na sua própria experiência humana, resgatando a capacidade de viver com coerência, significado e ligação consigo próprio num ambiente que lhe é fecundo. As relações humanas podem regular ou desregular profundamente o nosso sistema nervoso. Como é que o amor, o vínculo, a rejeição, a solidão, a dependência emocional ou a ausência de intimidade entram também no corpo? Somos seres biologicamente programados para a relação e para a interação. Desde o início da vida, ainda no ambiente intrauterino, as experiências de vínculo influenciam profundamente a nossa bioquímica, a forma como aprendemos a sentir segurança, organizamos o stress e construímos a nossa resposta emocional perante o mundo. As relações humanas constituem um dos principais territórios de regulação ou desregulação do sistema nervoso. Experiências repetidas de presença, cuidado e sintonia favorecem a coerência fisiológica e a capacidade de adaptação; pelo contrário, vivências de rejeição, abandono ou imprevisibilidade emocional podem conduzir o organismo a estados persistentes de alerta, defesa ou retração. Quando falamos de amor, vínculo e intimidade, estamos a falar de processos biológicos concretos: da interação entre o sistema nervoso autónomo, os circuitos emocionais, a regulação hormonal e a construção interna da perceção de segurança. A solidão prolongada não é apenas uma experiência psicológica; é um estado com impacto fisiológico global, capaz de influenciar o stress celular, a inflamação e o equilíbrio neuroemocional. A dependência emocional pode ser compreendida como uma tentativa de encontrar no exterior uma regulação que ainda não foi plenamente integrada no interior. Mas contém muitas outras camadas. O sistema nervoso procura no outro aquilo que, em fases anteriores do desenvolvimento, não conseguiu consolidar como base interna de segurança e autorregulação. Muitas dinâmicas relacionais repetitivas têm origem nas primeiras experiências de vínculo, que moldaram a forma como interpretamos proximidade, confiança, ameaça e pertença. A maturidade relacional nasce da capacidade de unir duas dimensões essenciais: a ligação ao outro e a capacidade de permanecer inteiro dentro dessa ligação. A saúde feminina atravessa fases de enorme complexidade, dos ciclos hormonais à maternidade, passando pela perimenopausa e menopausa, tocando questões como a identidade, o cansaço, a sobrecarga emocional e a transformação pessoal. Que sabedoria existe no corpo feminino que a medicina e a psicologia nem sempre escutaram? A mulher é um ser cíclico. A neuroendocrinologia e a neurociência dos ciclos hormonais mostram-nos que as variações de estrogénios, progesterona, testosterona e outros mediadores neurobiológicos influenciam não apenas o corpo, mas também o cérebro, o sistema nervoso, a regulação do stress, o sono, a memória emocional e a forma como a mulher se relaciona consigo própria e com o mundo. Durante muito tempo, as diferentes fases da vida feminina foram compreendidas de forma fragmentada, como acontecimentos biológicos isolados ou sintomas a controlar. Hoje sabemos que estas transições representam verdadeiros processos de reorganização sistémica. A maternidade, por exemplo, envolve uma profunda neuroplasticidade cerebral, com alterações que favorecem a vinculação, a empatia, a perceção de ameaça e uma nova organização da identidade. Da mesma forma, a perimenopausa e a menopausa não são apenas momentos de diminuição hormonal, mas fases de transformação da regulação neuroendócrina, com impacto na energia, humor, foco, motivação e na forma como a mulher se posiciona perante a própria vida. Vivo esta fase da vida feminina na primeira pessoa, e essa experiência acrescenta uma compreensão não apenas científica, mas também encarnada, sobre esta profunda transição. O que muitas vezes ainda não é suficientemente escutado é que estas mudanças não dizem apenas respeito ao funcionamento do corpo; dizem respeito à identidade. O corpo feminino transforma-se, mas transforma-se também a perceção de quem somos, do que valorizamos e da forma como habitamos o mundo. Quando reduzimos estas fases a “problemas hormonais”, perdemos uma dimensão essencial: a possibilidade de crescimento, maturação psicológica e reconexão com uma versão mais consciente de nós próprias. Existe, no entanto, uma questão clínica que considero importante abordar: sintomas como ansiedade, irritabilidade, insónia ou exaustão são, por vezes, interpretados e tratados isoladamente, sem uma avaliação suficientemente ampla do contexto hormonal, neurobiológico, emocional e da história de vida da mulher. Defendo uma abordagem integrada. A saúde da mulher exige tempo, escuta e uma avaliação individualizada, porque cada organismo, cada história e cada transição feminina têm uma expressão única na qualidade da longevidade. Quando tratamos apenas o sintoma, podemos perder a oportunidade de compreender a mensagem profunda que o corpo está a comunicar. Entre ciência, intuição, consciência, como podemos falar de transformação humana sem perder rigor clínico e o que significa, afinal, “curar” no século XXI? Talvez este seja um dos temas mais próximos da minha linha conceptual. Para manter rigor, parto de uma distinção essencial, ainda que profundamente interligada: a ciência procura compreender os mecanismos observáveis da vida (scientia – conhecimento, saber, compreensão); a consciência procura compreender a experiência de existir (conscientia – saber conjunto). Permito-me, contudo, uma leitura simbólica: consciência como CONS-ciência, um conhecimento que nasce da relação, da presença e da integração entre quem observa e o que é observado. A ponte entre ambas poderá ser a intuição como forma de perceção e integração que a investigação contemporânea começa a explorar através da neurociência da cognição, da tomada de decisão e dos processos implícitos de organização da experiência. Falar de transformação humana no século XXI exige uma aproximação que una a ciência e a consciência. A consciência pode ser entendida como o campo onde a experiência acontece, o espaço vivo onde a vida é sentida, interpretada e integrada. Antes de qualquer descoberta científica, existe um ser humano consciente capaz de observar, questionar e atribuir significado. Nesse sentido, a própria ciência nasce da consciência que investiga a realidade. As neurociências contemporâneas mostram que a experiência subjetiva não é um epifenómeno: ela participa ativamente na organização da nossa realidade biológica, influenciando o sistema nervoso, a regulação fisiológica e a capacidade de adaptação ao mundo. O cérebro humano processa continuamente uma enorme quantidade de informação consciente e inconsciente, antecipando padrões antes de estes emergirem ao pensamento racional. A intuição pode ser compreendida, neste contexto, como uma inteligência integrativa do organismo, uma forma de síntese viva. No século XXI, “curar” não pode significar apenas eliminar sintomas. Na minha perceção, curar implica restaurar integração: entre corpo e consciência, entre biologia e biografia, entre história e identidade, entre o que sentimos e a forma como nos tornamos. Talvez o grande desafio seja uma ciência suficientemente rigorosa para respeitar a evidência, mas suficientemente humana para reconhecer que, por detrás de cada diagnóstico, existe uma história, uma biografia e uma consciência em busca de integração. A cura, no seu sentido mais profundo, é um processo que é simultaneamente individual e relacional, acontece dentro do sujeito, mas também no encontro com o corpo, com o outro e com o mundo visível e invisível. Por isso chamo, actiente, um conceito que reconhece a pessoa não apenas como paciente, mas como participante ativo no seu próprio processo de transformação e cura. Facebook: Margarida Seco de Oliveira Instagram: @margaridasecodeoliveira Morada: Av. João XXI 70, 1000-219 Lisboa Contacto: 964 723 378 (chamada para a rede móvel nacional) “As gengivas podem contar muito mais sobre a nossa saúde do que imaginamos” Cães-Robot no Estaleiro: Grupo Casais Revoluciona Construção Civil em Portugal
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