SAÚDE “Para muitas mulheres, o masking é uma forma de sobrevivência social” By Revista Spot | Março 5, 2026 Março 12, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há mulheres que passam anos a tentar ajustar-se a uma medida que nunca foi pensada para elas. Aprendem a parecer organizadas quando vivem em sobrecarga, a sorrir quando estão exaustas, a cumprir quando, por dentro, tudo se desorganiza. Durante muito tempo, muitos destes percursos foram lidos apenas à luz da ansiedade, do burnout ou de determinados traços de personalidade, quando podiam também traduzir uma neurodivergência não reconhecida. É nesse ponto cego, onde a biografia pesa tanto como o diagnóstico, que trabalha Odete Nombora, psiquiatra com foco em autismo e PHDA em mulheres. Em consulta, encontra frequentemente histórias de vida inteiras escondidas atrás de diagnósticos parciais. Infâncias de esforço silencioso, vidas organizadas à custa de exaustão, histórias em que o sofrimento raramente se apresentou de forma óbvia. Numa altura em que se fala mais de neurodiversidade, mas em que o reconhecimento continua a chegar tarde a muitas mulheres, o seu olhar pede uma psiquiatria menos apressada, mais contextualizada e mais capaz de ler o invisível. Da formação em Medicina à especialização em Psiquiatria, o que a levou a focar-se na neurodivergência e na saúde mental da mulher? A Psiquiatria ensinou-me cedo que, por trás de muitos diagnósticos aparentemente simples, existe uma história muito mais complexa. Ao longo da minha prática comecei a perceber que muitas mulheres chegavam à consulta com anos de sofrimento mal explicado. Ansiedade, burnout ou depressão eram frequentemente apenas a ponta do icebergue. Com o tempo passei a reconhecer padrões de neurodivergência que, nas mulheres, tendem a passar despercebidos ou a ser mascarados por estratégias de adaptação. Isto levou-me a aprofundar o estudo desta área. Hoje procuro compreender a história de vida da mulher de forma mais ampla, considerando fatores psicossociais, hormonais e de neurodesenvolvimento. Muitas vezes aquilo que parece um diagnóstico isolado é, na verdade, uma história inteira à espera de ser compreendida. Quando uma mulher adulta lhe chega com anos de ansiedade, burnout ou sensação de “não encaixar”, o que é que ainda está a falhar no caminho até ser vista com o diagnóstico certo? Durante décadas, os critérios diagnósticos foram construídos sobretudo com base em amostras masculinas. Ao mesmo tempo, ainda existe pouca formação clínica orientada para reconhecer as apresentações femininas da neurodivergência. Muitas mulheres desenvolvem, desde cedo, estratégias sofisticadas para esconder ou compensar dificuldades. Quando finalmente chegam à consulta, muitas descrevem uma vida inteira a tentar encaixar e pertencer. É comum ouvir algo como: “finalmente alguém percebe o que sempre senti”. O diagnóstico traz frequentemente uma mistura de alívio e reorganização da própria identidade. Para muitas mulheres é a primeira vez que a sua história finalmente faz sentido. Que sinais mais subtis a fazem suspeitar de autismo ou PHDA em mulheres que “sempre deram conta de tudo”? E que preço muitas pagam para manter essa aparência? O masking é uma forma de sobrevivência social. Muitas mulheres passam anos a observar, a imitar e a ajustar o seu comportamento para parecerem “normais”. Por fora parecem altamente funcionais, competentes, até exemplares, mas por dentro vivem frequentemente exaustas e com uma sensação persistente de inadequação. Entre os sinais mais subtis estão a exaustão social intensa, necessidade de longos períodos de recuperação e hipervigilância nas interações sociais. Também são comuns padrões de perfeccionismo, ansiedade e burnout. O problema é que esse sofrimento raramente é visível. E aquilo que parece sucesso pode, na verdade, ser um grande esforço de adaptação. Como separa neurodivergência de hipóteses que podem mimetizar sintomas? O diagnóstico não começa com um questionário. Começa com escuta. Uma avaliação rigorosa procura compreender a história de desenvolvimento da pessoa, a infância, as relações, os padrões de funcionamento ao longo da vida e investigar diagnósticos diferenciais. Nas minhas avaliações utilizo instrumentos validados e entrevistas clínicas estruturadas, mas nunca como substituto do raciocínio clínico. É igualmente essencial avaliar comorbilidades e fatores que podem mimetizar sintomas, como trauma, as perturbações do humor e até mesmo a privação de sono. O diagnóstico resulta da integração cuidadosa de várias fontes de informação. Não é um processo rápido, exige tempo e cuidado. Como evita que todo o sofrimento seja explicado por um único rótulo diagnóstico? Na prática clínica raramente encontramos histórias lineares. Trauma, luto e neurodivergência podem coexistir e influenciar-se mutuamente. O mais importante é compreender o que veio primeiro, o que mantém o sofrimento e o que precisa de ser priorizado no tratamento. Evito explicações simplistas que tentam encaixar tudo numa única narrativa. Cada história clínica pede nuance. E a psiquiatria precisa de espaço para essa complexidade. Onde traça a fronteira entre validar diferenças e tratar sofrimento clinicamente relevante? E como responde à ideia de que “neuroafirmar” é relativizar incapacidade? Uma abordagem neuroafirmativa parte do reconhecimento de que a neurodiversidade é uma expressão legítima da variabilidade humana. Isso não significa negar dificuldades nem evitar intervenção clínica. Pelo contrário, implica compreender melhor o perfil da pessoa e adaptar estratégias de suporte. É importante lembrar que validar diferenças não é romantizar sofrimento. O objetivo é reduzir o sofrimento desnecessário e promover um funcionamento mais alinhado com as necessidades da pessoa. No fundo, trata-se de respeitar a identidade sem deixar de tratar aquilo que gera sofrimento. Como é que a ACT e a Terapia Focada na Compaixão entram no seu trabalho? Estas abordagens são particularmente úteis para trabalhar vergonha, autocriticismo e perfeccionismo, experiências muito comuns em mulheres neurodivergentes. Estas mulheres cresceram a ouvir que eram “muito intensas”, “desorganizadas” ou “sensíveis”. Em vez de tentar eliminar pensamentos e sentimentos difíceis, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Focada na Compaixão (TFC), ajudam a pessoa a mudar a relação que tem com essas vivências. A ACT promove flexibilidade psicológica e ação orientada por valores. A TFC trabalha a capacidade de responder ao sofrimento com bondade, gentileza e regulação emocional. O objetivo não é “consertar” a pessoa, mas ajudá-la a viver com mais direção e menos luta interna. Que medidas não farmacológicas costumam ter mais impacto? E como define “sucesso” sem cair em metas irreais? Receber um diagnóstico de neurodivergência pode ser profundamente reorganizador, mas é apenas o início. O trabalho seguinte passa por traduzir esse conhecimento em mudanças concretas na vida quotidiana. Intervenções como psicoeducação, higiene do sono, organização do ambiente, criação de rotinas, estratégias práticas de regulação e adaptações no trabalho podem ter grande impacto. Muitas mulheres beneficiam de aprender a estabelecer limites e a ajustar expectativas. Quanto ao “sucesso”, procuro afastar-me de métricas rígidas. O objetivo não é tornar a pessoa “mais produtiva”, mas ajudá-la a viver com menos sofrimento e com mais coerência interna. Quais são os pontos mais sensíveis da medicação na PHDA? Que mitos precisa mais vezes de desmontar? A decisão de medicar na PHDA deve ser sempre individualizada e cuidadosamente discutida. É essencial avaliar comorbilidades, expectativas e possíveis riscos. Um mito frequente é que a medicação altera a personalidade. Na realidade, quando bem indicada, a medicação ajuda a reduzir o ruído cognitivo que dificulta o funcionamento. Existe também um receio exagerado de dependência, que raramente corresponde à evidência clínica. Ainda assim, a medicação nunca é uma solução isolada, deve fazer parte de uma abordagem mais ampla. Quando bem prescrita e monitorizada, pode ser uma ferramenta muito útil. A sua experiência em saúde mental perinatal e na perimenopausa traz uma lente muito concreta. Como é que estas fases podem amplificar sintomas? O cérebro feminino não funciona separado do sistema hormonal. As flutuações hormonais podem influenciar significativamente o funcionamento cognitivo e emocional. Em mulheres com PHDA, autismo ou vulnerabilidade afetiva, essas flutuações podem amplificar sintomas. Fases como a gravidez, pós-parto e perimenopausa exigem uma avaliação clínica particularmente cuidadosa. O plano terapêutico precisa de considerar segurança, contexto familiar e rede de suporte. A psicoeducação sobre estas mudanças biológicas também é essencial. Muitas mulheres sentem um grande alívio quando compreendem que aquilo que sentem também tem uma base biológica. No trabalho com pessoas migrantes, refugiadas e com diferentes contextos culturais, quais são os vieses e barreiras mais frequentes? A saúde mental não existe fora do contexto social e cultural. Pessoas migrantes ou refugiadas enfrentam frequentemente barreiras linguísticas, económicas e institucionais no acesso aos cuidados de saúde. Estes e outros desafios podem atrasar diagnósticos adequados. Além disso, persistem ainda vieses implícitos dentro dos próprios sistemas de saúde. Num país cada vez mais multicultural como Portugal, torna-se essencial que os profissionais de saúde desenvolvam competências culturais que lhes permitam compreender melhor as especificidades destas populações. E, se pudesse escolher duas mudanças prioritárias em Portugal para neurodivergência no adulto, quais eram? Em Portugal precisamos de duas mudanças urgentes: mais formação em neurodesenvolvimento no adulto e melhor acesso a avaliações e intervenções especializadas no sistema público. Sem isso, muitas pessoas continuam invisíveis e o custo humano dessa invisibilidade é demasiado elevado para continuar a ser ignorado. Instagram: @odetenombora “Há mecanismos biológicos que fazem com que o corpo resista à perda de peso” “A menopausa não começa no espelho, mas muitas vezes é aí que a mulher percebe que o corpo mudou”
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