SAÚDE DA MULHER “A menopausa não começa no espelho, mas muitas vezes é aí que a mulher percebe que o corpo mudou” By Revista Spot | Março 5, 2026 Março 6, 2026 Share Tweet Share Pin Email Na menopausa a pele perde densidade, surgem manchas, secura e flacidez, o sono desorganiza-se, o humor oscila, a memória falha, a líbido pode mudar. E, no meio deste processo, multiplicam-se nas redes sociais promessas rápidas, rotinas caras, suplementos sem critério e uma avalanche de desinformação que confunde mais do que esclarece. Mariana Carvalho, médica de Medicina Geral e Familiar com Pós-Graduação em Medicina Estética e um olhar clínico atento à menopausa, procura devolver clareza a mulheres que muitas vezes chegam ao consultório cansadas, por vezes sem nome para o que sentem. Com método e escuta, ajuda a distinguir o sofrimento que durante anos foi desvalorizado das soluções fáceis que surgem hoje em dia. A menopausa não é um “problema estético”, mas o corpo muda. Onde é que coloca a fronteira entre cuidar da saúde e da autoestima e “perseguir” um ideal de juventude? A meu ver, não existe uma fronteira quando falamos em saúde como um bem-estar global. A autoestima é uma necessidade de qualquer ser humano, mas na mulher que desempenha tantos papéis na sociedade (mulher, mãe, filha, avó, profissional, dona de casa), na maioria das vezes, não sobra o espaço que precisa para cuidar da sua saúde sem se sentir culpada. Não se trata de não aceitar o envelhecimento ou de desejar voltar atrás no tempo, mas a menopausa é um marco na vida da mulher a todos os níveis. É muito importante que as mulheres estejam informadas sobre o que acontece ao seu corpo devido às alterações hormonais. Defendo que deve haver mais profissionais competentes e com disponibilidade para responder às necessidades específicas desta fase. Na prática, o que é que mais traz as mulheres ao consultório nesta fase? O que motiva a mulher a marcar consulta é variável porque, na verdade, muitas nem se apercebem que a queixa está relacionada com a menopausa. Falo, por exemplo, das alterações do sono, do humor, da memória, da líbido, do peso e queixas do foro genital e urinário. Esteticamente, o que mais incomoda nesta fase são as manchas, a secura e a flacidez da pele. Apercebo-me também que nesta faixa etária existe uma imensa dificuldade em filtrar o que veem nas redes sociais. A inteligência artificial vem agravar a distinção entre o que é ciência real do que é informação que nos quer vender uma ideia ou um produto que não nos acrescenta valor. Chegam ao consultório a tomar muitos suplementos e a usar produtos cosméticos, que muitas vezes são caros e desadequados. É necessário combater esta desinformação nos meios de comunicação e no consultório que podem até ser um risco para a saúde. De que forma a queda estrogénica se traduz, de facto, na pele e o que é que os tratamentos conseguem melhorar com evidência? Na pele, as consequências da queda do estrogénio são inegáveis. Além disso, este órgão, o maior do corpo humano, é um fiel reflexo da nossa saúde e estilo de vida. Na minha consulta, abordo sempre questões como o sono, a alimentação, o exercício físico, a ansiedade, a exposição ao tabaco, ao álcool e ao sol. Também a rotina cosmética é uma componente fundamental na consulta. A prescrição de tratamentos cosméticos também é feita com base na evidência científica e não no que a indústria nos quer vender. É fundamental gerir as expectativas sobre os resultados de qualquer tratamento hormonal ou estético. Quando os resultados não são satisfatórios é preciso compreender que há muitos fatores que não dependem só do produto ou da técnica. Mas cabe-nos a nós, profissionais de saúde, avaliar e orientar da melhor forma possível a situação de cada paciente. O seu olhar muda quando a paciente está em perimenopausa ou na menopausa? Na perimenopausa ainda conseguimos fazer intervenções no sentido preventivo antes das alterações na pele serem visíveis. Quanto mais cedo começarmos a prevenir, menos teremos de investir no futuro em tratamentos. Quando a mulher, já na menopausa, procura um procedimento estético pela primeira vez é mais desafiante, ainda assim há uma grande possibilidade de melhorarmos muito a confiança destas mulheres. A nível de tratamentos é aconselhável combinar vários estímulos de forma a melhorar a qualidade da pele, a promover a hidratação, a produção de colagénio e a reestruturação de volume perdido. Eu gosto de personalizar o plano de acordo com as prioridades das pacientes, mas sempre ajustado ao meu olhar mais técnico. Uma queixa ao nível da face pode precisar de várias intervenções para ser corrigida. Por exemplo, o famoso bigode chinês não deve ser corrigido com preenchimento de ácido hialurónico no local. É preciso um tratamento estrutural de toda a face para que esta queixa seja devidamente corrigida. Os melhores resultados são os que se obtêm com paciência e consistência. É importante manter sempre as expetativas alinhadas e explicar que, como em tudo, não há soluções fáceis, únicas e milagrosas. A conversa sobre hormonas está por todo o lado. Como explica, com rigor, a diferença entre terapêutica hormonal com indicação clínica, otimização de estilo de vida e promessas de “modulação” que são mais marketing do que medicina? Antes de mais, agradeço que esta questão tenha sido aqui colocada. A otimização do estilo de vida é uma peça fundamental e indispensável na saúde de todas as mulheres, sobretudo na menopausa. A terapêutica hormonal de substituição tem as suas indicações clínicas que se baseiam na evidência científica e em guidelines nacionais e internacionais. A terapia hormonal que é prescrita pelas especialidades Ginecologia, Endocrinologia e Medicina Geral e Familiar são fármacos regulados tanto pela EMA a nível europeu, quanto pelo INFARMED a nível nacional. Assim, conseguimos garantir a eficácia e segurança da sua utilização. A modulação hormonal baseia-se na combinação do estilo de vida com a suplementação e a utilização de hormonas bioidênticas manipuladas. No campo dos suplementos, é importante referir que estes não são regulados pelo INFARMED, mas sim pela ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica). A suplementação na consulta de menopausa também é considerada, quando há défices específicos detetados em análises clínicas. Um suplemento do qual não prescindo nesta fase é a vitamina D, também com prescrição médica adquirida na farmácia. Relativamente a tratamentos hormonais manipulados, é preciso compreender que nem sempre se baseiam na evidência científica e podem ter riscos para a saúde, porque não passam pelo escrutínio de testes antes de serem aplicados. O que muitas pessoas desconhecem é que temos hormonas bioidênticas que fazem parte das nossas opções como terapêutica hormonal de substituição. Estas não são manipuladas, são testadas, reguladas e estão disponíveis em farmácias, como é o caso do estradiol (oral, transdérmico e vaginal) e da progesterona micronizada. Quando uma mulher chega com várias queixas ao mesmo tempo, qual é o seu “algoritmo” de prioridades? Quando há uma ou duas queixas, eu gosto de começar pelo problema que mais incomoda a cada momento, porque à medida que tratamos um problema, começam a reparar noutro problema estético que não tinham reparado antes. Quando as queixas são várias requer uma abordagem mais abrangente e um plano de tratamentos deve ser orientado mais pelo conhecimento técnico. A qualidade da pele (manchas, textura, acne, rugas) é sempre uma prioridade porque a satisfação de qualquer outro tratamento que se faça depende de uma boa pele. Aplicamos toxina botulínica, peelings, microagulhamento e prescrevemos tratamento cosmético para o domicílio, ou seja, uma rotina de skincare personalizada. Existe a necessidade de estimular a produção de colagénio na pele para a melhorar a sua tensão e densidade. A reestruturação de volumes com preenchimentos de ácido hialurónico depende mais de cada rosto, por isso deve ser avaliado caso a caso. Acredito que deve haver um equilíbrio entre os desejos da paciente e o conhecimento técnico na orientação de um plano de tratamentos. Ainda assim, admito que muitas vezes o plano inicial tem de ser ajustado consoante a necessidade do paciente. Nos procedimentos mais procurados nesta fase, qual é o seu ‘top 3’ e o que define um bom resultado? Nos procedimentos mais procurados nesta fase, o meu “top 3” seria a toxina botulínica, o bioestimulador de colagénio e o peeling químico. A toxina botulínica permite melhorar as rugas dinâmicas e a textura da pele, deixa o olhar mais descansado e a expressão mais leve, e diminui a força dos músculos do pescoço que “puxam” a pele para baixo. Tem ainda outras aplicações menos conhecidas, como o alívio da enxaqueca, do bruxismo e da transpiração excessiva nas axilas. Demora cerca de 5 dias a surgir e dura entre 3 a 6 meses. Como efeitos secundários podem surgir hematomas no local e dor de cabeça; muito raro, mas importante, a queda temporária da pálpebra. O bioestimulador de colagénio corrige a flacidez da pele, melhora a tensão e a espessura da pele, pois estimula a nossa pele a produzir o próprio colagénio. O efeito é visível a partir de 1 mês após a aplicação e os resultados têm melhoria progressiva, com duração de 6 a 18 meses. Os efeitos secundários comuns incluem desconforto no local de injeção nas primeiras horas; raro, mas importante, a formação de nódulos. Já o peeling químico melhora a textura e a cor da pele, rugas, manchas, poros, acne, rosácea, estimulando também o colagénio e ativando a renovação da pele. Os resultados são visíveis 1 a 2 semanas após a aplicação e, idealmente, o tratamento deve ser repetido a cada 4 semanas para resultados mais satisfatórios, que podem durar entre 6 a 12 meses, dependendo da queixa e do peeling aplicado. Como efeitos secundários, pode causar prurido e sensação de queimadura temporários, bem como descamação mais ou menos intensa entre o 2.º e o 8.º dia; raros, mas importantes, são a queimadura e a hiperpigmentação, ou seja, manchas. Quais são os pré-requisitos de segurança antes de qualquer procedimento? Como em qualquer outra área da Medicina, os procedimentos estéticos e cosméticos realizados requerem um conhecimento do estado de saúde que inclui: doenças crónicas (sobretudo doenças autoimunes), infeções passadas (por exemplo, herpes), medicação (anticoagulantes), alergias (como à picada de abelha e ao ovo), hábitos de vida, procedimentos e cirurgias anteriores. O consentimento informado é o documento que o paciente assina antes de qualquer procedimento médico, informando sobre o procedimento, os riscos e as possíveis complicações. Explicar o que é expectável e o que deve motivar o contacto com o médico. Além disso, o médico deve estar disponível para acompanhar e resolver qualquer situação que fuja do normal ou que, mesmo que não seja preocupante, esteja a angustiar o paciente. Como decide o que é essencial para a paciente e o que é “extra” que não muda resultados? Apesar de haver muito ruído da indústria, sobretudo através das redes sociais, a verdade é que com a experiência vamos percebendo o que realmente faz a diferença. Também temos de ser críticos quando, em algumas situações, os resultados não são os esperados e existem sempre fatores que não estão no controlo do médico ou do paciente. Mas sobre o que é custo-efetivo, gostava de responder colocando uma questão para reflexão: porque é que é mais atrativo comprar um suplemento de colagénio sem garantias de que realmente funciona, em vez de se apostar no melhor e mais acessível produto antiaging do mercado: o protetor solar? O que é que a entusiasma por trazer melhorias consistentes (e com segurança) e o que é que a deixa mais cautelosa, sobretudo em pele madura? Fascina-me a evolução da medicina estética regenerativa que inclui tratamentos como: o plasma rico em plaquetas, os polinucleótidos, os exossomas que têm o objetivo de melhorar a saúde e a aparência da pele. No entanto, é uma área que requer mais investigação, rigor, regulamentação e aplicação ética para assegurar resultados seguros e eficazes. Não deixa de ser promissor que estas novas terapias possam sinalizar as nossas células para que possam travar, atrasar e até reverter o processo de envelhecimento. Como lida com pedidos desajustados, pressão das redes sociais e sinais de dismorfia corporal e como é que diz “não” sem perder a relação terapêutica? As minhas pacientes, nesse aspeto, são bastante conservadoras e felizmente hoje apostamos em resultados naturais e que respeitam a anatomia de cada um. Quem me procura tem mais receio dos exageros e que se repare que fizeram algum procedimento estético. Vai sempre haver casos em que nos apercebemos que a expectativa está desajustada e temos de estar preparados para lidar com dismorfia corporal. Felizmente, não é a regra para mim. Nesta situação, o nosso dever é oferecer ajuda ou orientar para tratamento especializado, mesmo que isso signifique negar o procedimento estético contra a vontade da paciente. No fim, como mede sucesso? Para lá do “antes e depois”, que indicadores procura e que mensagem deixaria a uma mulher que entra agora na perimenopausa? A minha missão é que as mulheres não se sintam perdidas numa fase delicada e que a sociedade ainda não compreende. Sei que fiz a diferença na vida de alguém quando a autoestima e a qualidade de vida foram recuperadas. Às mulheres na perimenopausa, recomendo que apostem na prevenção e que adotem um estilo de vida saudável. Se o envelhecimento as preocupa esteticamente, há procedimentos estéticos que, se fizerem agora com regularidade, menos intervenções e tratamentos terão de fazer quando chegarem à menopausa. Concluo que nunca é tarde para procurar ajuda, mas como em tudo, é na prevenção que todas as nossas intervenções vão ter mais sucesso. Saúde não é só viver sem doença, é procurarmos o nosso bem-estar todos os dias. Contacto: 918 978 150 (chamada para a rede móvel nacional) Instagram: @dra.mariana_carvalho Facebook: Dra. Mariana Carvalho “Para muitas mulheres, o masking é uma forma de sobrevivência social” “Os pés carregam a pressa do nosso tempo, mesmo quando lhes falta estrutura para a suportar”
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