Psicologia “O luto é vivido de forma única por cada pessoa: não há um tempo certo, nem uma dor igual à outra” By Revista Spot | Junho 19, 2025 Junho 20, 2025 Share Tweet Share Pin Email Vivemos numa era em que se fala cada vez mais de saúde mental. No entanto, temas como o trauma, o luto e o autoconhecimento continuam a ser, muitas vezes, vividos em silêncio. A dor emocional, sobretudo quando resulta de eventos inesperados e devastadores, pode ser invisível, mas profundamente limitadora. Cada pessoa sente e reage de forma única, e nem sempre o sofrimento é compreendido por quem está à volta. Nesta entrevista à psicóloga Maria Mendes, exploramos o que acontece na mente e nas emoções quando enfrentamos traumas ou perdas, como distinguir reações naturais de sinais de alarme, e o papel essencial do autoconhecimento e da terapia no processo de cura. Falamos ainda da importância da empatia, do apoio das redes próximas e da desconstrução de mitos associados à “força” emocional. Porque procurar ajuda não é sinal de fraqueza é, acima de tudo, um ato de amor-próprio e de coragem. O que é que acontece a nível emocional e psicológico após uma situação traumática? Que reações são comuns e por que variam entre pessoas? Antes de mais, é importante percebermos o que é uma situação traumática. Tratam-se de experiências extremamente stressantes, muitas vezes inesperadas, que nos fazem sentir que não temos recursos suficientes para lidar com o que está a acontecer e que, de alguma forma, ameaçam a nossa integridade psicológica e/ou física. Exemplos comuns incluem acidentes, atos de violência, situações de guerra ou a morte súbita e/ou violenta de alguém que nos é próximo. As reações a este tipo de situações variam muito de pessoa para pessoa. Estas experiências podem-nos fazer sentir em choque, assustados, ameaçados, humilhados, entre outros. É comum surgirem respostas como lutar, fugir, ficar paralisado ou até tentar agradar a quem nos está a fazer mal como uma forma de autoproteção. Podem também manifestar-se emoções como tristeza, ansiedade, confusão, medo ou até uma sensação de entorpecimento que dificulta sentir ou reagir. Em algumas pessoas, a resposta manifesta-se de forma imediata. Noutras, pode surgir apenas horas ou dias depois. Para além disso, é importante reconhecer que podem surgir desafios no funcionamento diário. Atividades que antes eram rotineiras, como cuidar de si ou tomar decisões simples, podem tornar-se exigentes. O sono tende a ser afetado, é comum ter dificuldades em adormecer, manter o sono ou sentir insegurança durante a noite, com receio de pesadelos. A forma como cada pessoa reage pode depender de múltiplos fatores, por exemplo, a sua história de vida, a presença (ou ausência) de uma rede de apoio e as estratégias de coping que foi desenvolvendo ao longo do tempo. Quando é que uma reação natural ao trauma se pode transformar numa Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT)? É importante salientar que ter vivido uma situação traumática não significa, por si só, a existência de um problema de saúde mental. Como já foi referido, é comum que, após um acontecimento traumático, surjam reações como ansiedade, medo, alterações do sono e até dificuldades de concentração. Estas reações são esperadas nas semanas iniciais e fazem parte de um processo normal de ajustamento. Contudo, quando estas respostas persistem ou se intensificam, incluindo recordações intrusivas, involuntárias e recorrentes do acontecimento traumático que causam mal-estar, sonhos perturbadores frequentes, reações dissociativas como flashbacks (em que a pessoa sente ou age como se o trauma estivesse a acontecer novamente), bem como um mal-estar intenso ou reações fisiológicas intensas perante estímulos internos ou externos associados ao trauma, podemos estar perante uma Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT). Neste sentido, a PSPT desenvolve-se quando a resposta natural ao trauma não diminui com o tempo e começa a interferir de forma significativa na vida da pessoa. A presença destes sintomas durante um período prolongado pode comprometer significativamente o seu funcionamento diário, seja a nível pessoal, profissional ou social. No contexto do luto, ouvimos muitas vezes que “não existe uma forma certa de sofrer uma perda”, cada pessoa reage de forma única. Que conselhos daria para que as pessoas respeitem o seu próprio ritmo neste processo? De facto, o luto é uma experiência universal. Todos nós, em algum momento da vida, iremos passar por perdas significativas. Mas apesar de ser uma experiência comum, a forma como cada pessoa vive o luto é inteiramente individual, ou seja, não existe uma forma certa de sentir ou expressar o luto. O luto é uma resposta natural à perda e um processo de adaptação a uma nova realidade. Tem como objetivo ajudar-nos a lidar com o que aconteceu e a recuperar a nível emocional. Cada pessoa tem a sua própria história, valores, crenças e formas de lidar com o sofrimento. Por isso, o ritmo de cada um deve ser respeitado. É importante dar espaço ao que se sente, sem julgamento. Permitir-se viver as emoções é essencial, sejam elas tristeza, raiva, culpa, saudade ou até alívio. O importante é que a pessoa possa reconhecer o que está a sentir, em vez de reprimir. Outro aspeto importante é evitar comparações com o processo de luto de outras pessoas. O tempo necessário para integrar a perda varia muito, e não é possível impor prazos. Expressões como “não chores, a pessoa não gostaria de te ver assim” ou “tens de ser forte”, mesmo que bem-intencionadas, podem aumentar o sofrimento e a sensação de inadequação. Por fim, procurar apoio psicológico pode ser muito importante, sobretudo quando a pessoa sente dificuldade em retomar a sua vida ou quando surgem sinais de sofrimento prolongado. Como podemos distinguir tristeza normal, ligada ao luto, de um quadro de depressão que requer intervenção profissional? A tristeza é uma resposta emocional comum perante uma perda significativa. A morte de alguém que nos é querido pode desencadear uma diversidade de emoções e sentimentos. No entanto, é importante sabermos distinguir a tristeza de um quadro clínico de depressão. A dor e a tristeza, no caso do luto, surgem sobretudo quando pensamos na pessoa ou em momentos marcantes partilhados com ela. Apesar do sofrimento, a pessoa enlutada consegue ter pequenos momentos de conforto e de ligação com os outros, sem comprometer de forma significativa o seu funcionamento diário. Mesmo estando triste, a pessoa continua a cuidar de si, a cumprir responsabilidades, a trabalhar e a relacionar-se. Na depressão, por outro lado, o sofrimento é mais intenso e persistente. A tristeza é apenas um dos sintomas entre muitos outros, que se mantêm durante um período prolongado. Entre os sinais mais comuns estão o humor deprimido durante a maior parte do dia (quase todos os dias), perda acentuada de interesse ou prazer em quase todas as atividades, alterações no apetite, insónia ou hipersónia, culpa excessiva e dificuldades de concentração ou tomada de decisões. Um dos principais sinais de alerta é a duração e a intensidade dos sintomas. Na depressão, o mal-estar é contínuo e tende a agravar-se com o tempo. Também é importante observar o impacto na vida diária, por exemplo, quando a pessoa deixa de conseguir cumprir a sua rotina ou se isola de forma persistente, isso pode indicar que o sofrimento vai para além do que seria esperado num processo de luto saudável. Muitas pessoas sentem culpa após um trauma ou perda. Por que é que esta culpa é tão comum e como se pode começar a lidar com ela sem julgamentos? Sim, a culpa é uma emoção muito comum após uma experiência traumática ou uma perda significativa. Muitas pessoas sentem-se culpadas por não terem feito mais, por não terem conseguido evitar o que aconteceu ou por não terem conseguido ajudar alguém. Outras sentem-se culpadas por estarem a lidar com a situação de forma diferente daquilo que acreditam ser “o correto”. Por vezes, esse sentimento de culpa surge da própria pessoa, outras vezes é reforçado por comentários de terceiros que, direta ou indiretamente, fazem a pessoa sentir-se responsável. Curiosamente, a culpa pode até funcionar como uma espécie de escudo. Em vez de se sentirem invadidas por emoções e sentimentos como a raiva, dor profunda ou impotência, que podem ser difíceis de suportar, muitas pessoas acabam por se focar na culpa. É quase como se fosse mais fácil pensar “a culpa foi minha” do que aceitar que algo mau aconteceu sem que houvesse qualquer possibilidade de controlo. É importante reforçar que sentir culpa não significa ser culpado. E que essa emoção, por mais confusa e dolorosa que seja, merece ser acolhida, escutada e compreendida, não ignorada. Lidar com a culpa começa por dar espaço ao que se sente e procurar ajuda psicológica pode ser muito importante. O autoconhecimento pode ser uma ferramenta importante no processo de cura emocional. De que forma a terapia ajuda as pessoas a desenvolverem essa consciência interior? Sem dúvida, o autoconhecimento é uma ferramenta essencial para o nosso bem-estar e para a nossa saúde mental. Muitas vezes, quando passamos por experiências difíceis, como as que já foram referidas, pode tornar-se desafiante recuperar o equilíbrio. É nesses momentos que a terapia nos oferece um momento para parar, olhar para dentro e perceber o que estamos a sentir, porquê e o que realmente precisamos. Este processo ocorre num espaço seguro, onde a pessoa se sente livre para explorar pensamentos, emoções e acontecimentos sem medo do julgamento. Assim, é possível identificar as causas do sofrimento e criar estratégias que promovam mudanças, contribuindo para a redução dos sintomas que afetam o dia a dia. Para além disso, a terapia disponibiliza um espaço de escuta ativa, que incentiva a reflexão e a integração de novas perspetivas, tanto sobre si próprio como nas relações com os outros. Aprender a conhecer-se melhor é muitas vezes o primeiro passo para cultivar a autocompaixão, fazer mudanças necessárias e recuperar o bem-estar. Muitas vezes, quem está mais próximo da pessoa em sofrimento percebe primeiro que “algo mudou”. Que papel podem familiares e amigos desempenhar no apoio ao traumatizado ou enlutado? É verdade, muitas vezes são os familiares ou amigos mais próximos que percebem primeiro que algo mudou. Pequenas alterações no comportamento, no humor ou na forma como a pessoa se relaciona com os outros podem ser sinais de que está a passar por um grande sofrimento, mesmo que ela própria não o consiga reconhecer ou verbalizar. Ter alguém que escute sem julgar, que permita à pessoa falar apenas quando quiser e ao seu próprio ritmo, sem a apressar ou pressionar, que esteja presente de forma consistente, respeitando o seu tempo e sem exigir que ultrapasse rapidamente o que está a viver, pode fazer toda a diferença. Oferecer-se para ajudar em tarefas práticas que facilitem o regresso à rotina diária é também uma forma de apoio. É importante que quem está próximo não tente acelerar o processo nem minimize os sentimentos da pessoa com frases como “tens de ser forte” ou “isso passa”. Muitas vezes, não é o que se diz, mas a forma como se está presente: com empatia, escuta ativa e disponibilidade. Quando perceberem que a pessoa está a ter dificuldades em lidar sozinha com a situação, podem incentivá-la a procurar ajuda profissional, se necessário acompanhá-la a uma consulta ou ajudá-la a encontrar recursos adequados. O apoio da rede próxima é, normalmente, o primeiro passo para que a pessoa se sinta segura e apoiada. É comum as pessoas acreditarem que precisam de “ser fortes” e que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Como podemos desconstruir este mito e encorajar uma cultura de cuidado e empatia? A ideia de que temos de “ser fortes” e de que pedir ajuda é um sinal de fraqueza ainda está muito presente na nossa sociedade, embora essa forma de pensar esteja a começar a mudar. É uma crença que foi sendo transmitida de geração em geração, muitas vezes associada à noção de que aguentar tudo sozinho é uma virtude. No entanto, esta mentalidade pode ser bastante prejudicial, pois gera uma pressão enorme para escondermos o que sentimos e para lidarmos isoladamente com o sofrimento, quando, na realidade, somos seres profundamente relacionais. Desconstruir este mito começa por reconhecer que pedir ajudar é, na verdade, um ato de coragem e de responsabilidade para connosco próprios e com os outros. É assumir que “estou a cuidar de mim” e que “não quero continuar a sofrer em silêncio”. Este é, precisamente, o oposto da fraqueza. A mudança passa também por falar mais sobre saúde mental e normalizar estas conversas, seja em casa, nas escolas ou nos locais de trabalho. No nosso dia a dia, quando deixamos de lado o julgamento e abrimos espaço para escutar e perceber o outro lado, contribuímos para uma cultura de cuidado. Portanto, é essencial cultivarmos ambientes onde as pessoas sintam que não estão sozinhas e onde pedir ajuda seja reconhecido como um passo importante para o bem-estar. Tal como procuramos um médico quando sentimos dor física, faz todo o sentido recorrer a apoio psicológico quando algo não está bem a nível mental. Quais são as estratégias ou práticas recomendadas para manter a saúde mental durante momentos difíceis, especialmente quando estamos a viver um trauma ou um luto? Situações traumáticas e processos de luto despertam emoções muito intensas, que normalmente são difíceis de gerir. Cada pessoa é única e, por isso, as estratégias que funcionam para uma podem não ser eficazes para outra, podendo ainda variar em diferentes momentos. Por isso, é importante manter a abertura para experimentar diversas formas de cuidar de nós próprios. Por exemplo, perante flashbacks, pode ser útil repetir para nós mesmos que estamos seguros e focarmo-nos em objetos à nossa volta, algo que nos ajude a ancorar no momento presente. Nos momentos de ansiedade, focarmo-nos nos nossos sentidos e na respiração são métodos que nos ajudam a encontrar estabilidade e diminuir a intensidade daquilo que estamos a sentir. Quando nos sentimos tristes ou sozinhos, dedicarmo-nos a atividades de que gostamos ou escrever sobre os nossos sentimentos pode trazer conforto. Além disso, o autocuidado (e.g., cuidar do sono, da alimentação, fazer exercício) é um pilar para o processo de bem-estar. Sempre que possível, partilhar o que sentimos com alguém em quem confiamos é fundamental. Nem sempre é necessário falar diretamente sobre a situação, mas expressar o que sentimos faz uma grande diferença. Por fim, é importante sermos pacientes connosco próprios e respeitarmos o nosso ritmo. O luto e o trauma não têm um prazo definido. A pressão para superar rapidamente a situação, o isolamento social, a negação dos sentimentos ou a minimização do sofrimento, são comportamentos que podem prolongar o sofrimento. Por fim, é fundamental sermos pacientes connosco e respeitarmos o nosso ritmo. Pedir ajuda profissional quando o sofrimento se prolonga ou se torna difícil de gerir é um passo importante para encontrar estratégias adequadas e apoio especializado. Para terminar, que mensagem gostaria de deixar a quem está a passar por uma experiência traumática ou por um processo de luto, e que ainda não encontrou a coragem para procurar ajuda profissional? Gostaria de dizer a quem está a passar, ou já passou, por uma situação traumática ou por um processo de luto que não está sozinho e que o que sente é válido. Compreendo que procurar ajuda profissional possa ser um passo acompanhado por medo ou insegurança, mas é fundamental reconhecer que esse apoio pode fazer toda a diferença na qualidade de vida. Procurar um psicólogo é uma forma de aprender a viver melhor com esses sentimentos, recuperar o bem-estar e encontrar estratégias para continuar a viver uma vida com sentido. Encorajo todas as pessoas a valorizarem o seu bem-estar emocional e a darem-se a oportunidade de encontrar um espaço seguro, onde possam expressar o que sentem e receber o acompanhamento adequado. Facebook: Psicóloga Maria Mendes Instagram: @psi.mariamendes Marcação de consultas: https://bio.site/mariamendes.psi “A Medicina Tradicional Chinesa devolve-nos aquilo que perdemos: a arte de parar, escutar e viver em sintonia com a natureza” “Trazer o método Linfomodellante da Manuela Shala para Portugal abriu caminho para uma nova era na estética, mais consciente e responsável”
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