Neurodesenvolvimento/Saúde Infantil InterAge: A importância de diagnosticar precocemente problemas no desenvolvimento infantil By Revista Spot | Maio 30, 2023 Junho 1, 2023 Share Tweet Share Pin Email Saber identificar os sinais de perturbações no neurodesenvolvimento infantil é essencial para um acompanhamento precoce e uma terapêutica atempada. Passo a passo, a experiência da equipa interdisciplinar da InterAge desenvolve novas respostas, abordagens e terapias, num importante trabalho em rede em prol da evolução integral da criança… Neurodesenvolvimento Infantil Que resposta tem procurado a InterAge face ao acréscimo na diversidade e frequência das doenças que afetam o neurodesenvolvimento infantil? Helena Santos, terapeuta da fala e diretora do InterAge: Procuramos manter-nos sempre atualizadas, tanto no que se refere à formação contínua de cada terapeuta, como a todos os métodos e abordagens que vão surgindo. Por outro lado, gostamos de integrar as várias abordagens de forma a retirar o melhor de cada uma e ajustar ao perfil de cada criança. Uma alteração no sistema sensorial acarreta dificuldades no processo de desenvolvimento? Isabel Costa, Terapeuta Ocupacional: Verdade, cada sentido desempenha um papel importante, e matura em timings chave do desenvolvimento humano, qualquer falha neste processo compromete a aquisição de competências e respetivo desempenho nas diferentes áreas de ocupação Maria Castilho, Terapia da Fala: O desenvolvimento infantil ocorre de forma gradual e sequencial, pelo que é necessário que todos os sistemas sensoriais estejam íntegros. Estando um dos sistemas desequilibrado, o desenvolvimento global poderá estar comprometido. Um exemplo muito simples e prático poderá ser, uma simples etiqueta de uma camisola que incomoda a criança, criando desconforto, muitas vezes sem que ela consiga transmitir o que está a acontecer, e isso pode até comprometer a forma como passa o seu dia, o facto de não conseguir estar tão focada para responder às perguntas ou interagir de forma funcional com os outros. Há sempre algo a fazer, no sentido de promover o bem-estar e potencializar a comunicação da criança? Maria Castilho: Sempre, comunicar é essencial, por esse motivo, seja qual for a dificuldade da criança, é sempre nosso objetivo máximo dotá-la de ferramentas para que a comunicação seja tão eficaz quanto possível. Deste modo, introduzimos sistemas aumentativos ou alternativos de comunicação, baseados em baixa tecnologia ou alta tecnologia, e assim, ajustamos cada sistema de comunicação a cada criança, para se tornar a melhor comunicadora possível. Marta Monteiro, Musicoterapeuta: A musicoterapia pode também ser um poderoso aliado para o sistema sensorial, recorrendo a sons, melodias, instrumentos musicais, para auxiliar na modelação dos estímulos exigidos durante certas atividades, o que pode ser benéfico para crianças com tendências hiper ou hipo-sensíveis, permitindo-lhes experimentar estímulos adequados num ambiente seguro e controlado. Que áreas podemos hoje encontrar na InterAge? Helena Santos: Temos as especialidades de terapia da fala, terapia ocupacional, psicologia, coach e coach infanto-juvenil, musicoterapia e psicomotricidade. Para dar a conhecer um pouco as que podem criar mais dúvidas, cabe-nos esclarecer que a musicoterapia, tem sido uma excelente mais-valia ao nível do desenvolvimento infantil, com o intuito de proporcionar uma resposta complementar ao processo de intervenção terapêutica. Marta Monteiro: Consiste numa intervenção terapêutica com base em evidências científicas, exercida por um musicoterapeuta qualificado, que tem por princípio a utilização da música e dos seus elementos como meio de comunicação e expressão, para alcançar objetivos terapêuticos. Tem sido um facilitador da promoção e estimulação comunicativa, emocional, social, cognitiva e motora, no neurodesenvolvimento infantil. Viviana Zuada, Coach: O Coaching infanto-juvenil é uma abordagem de coaching totalmente orientada para atender crianças desde os 8 anos. Utiliza ferramentas e técnicas adequadas para que a criança/jovem encontre rapidamente soluções para as suas questões internas, seja por falta de segurança, medos, timidez, dificuldades no contexto familiar, nas relações sociais, bullying. Os ganhos para as crianças/jovens com o método são inúmeros: maior autoconfiança; automotivação e compromisso com as suas rotinas; resolução de problemas e sentimento de conquista; melhor relacionamento com os pais, irmãos e amigos; maior aceitação, tolerância e empatia no convívio com os outros; sentimento de pertença; melhor entendimento de si mesmas; maior capacidade para lidar com as próprias emoções e dificuldades do seu dia a dia. Em idades inferiores aos 8 anos o trabalho realizado é o Coaching Parental Sara Moreira, Psicomotricista: A Psicomotricidade é uma terapia dedicada às crianças com necessidades especiais, que apresentam perturbações do desenvolvimento, dificuldades de aprendizagem, atraso do desenvolvimento, problemáticas relacionais e emocionais. Contudo, também atua na área da educação onde é promovido o desenvolvimento infantil, desde o primeiro dia do bebé, com vista a maximizar o seu potencial de aprendizagem. Acompanhar o desenvolvimento desde bebé permite ter uma atitude preventiva e potenciar as aquisições nos períodos sensíveis das mesmas. Falando de problemas do neurodesenvolvimento, um diagnóstico precoce e uma terapêutica adequada podem ser a solução? Helena Santos: O diagnóstico precoce é essencial para uma intervenção atempada e com base em metodologias e estratégias específicas. É importante para os adultos como para os pares compreenderem melhor a criança. Precisamente nesse sentido que eu e mais duas amigas terapeutas da fala, Ana Pereira e Ana Mina, iremos lançar, em breve, um livro ‘o meu amigo João’ que pretende abordar o tema do autismo de uma forma ajustada às crianças e retratando o dia-a-dia de uma criança com autismo, os seus desafios e alguns exemplos de possíveis adaptações a serem realizadas no contexto. Quais os principais sinais de alerta de que algo não vai bem? Joana Mota, Terapia da Fala: Os sinais de alerta remetem para presença ou ausência de determinado comportamento, pelo que existem vários sinais no desenvolvimento das crianças aos quais se deve estar atento. Podemos enumerar alguns tais como, dificuldades em estabelecer contacto ocular, a aversão ou recusa de determinados alimentos e texturas, não reagir ao próprio nome, ter alguma alteração a nível motor (andar, pegar no lápis, saltar, presença de movimentos estereotipados, entre outros), discurso confuso e pouco ou nada percetível, vocabulário muito restrito, dificuldades em aprender e reter informação, entre muitos outros Terapia Ocupacional Em que áreas é que a Terapia Ocupacional pode intervir? Filipa Gomes e Isabel Costa, Terapeutas Ocupacionais: Ao nível da criança esta intervenção ocorre quando há uma Disfunção do Processamento Sensorial; Perturbação do Espectro do Autismo (PEA); Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA); Alterações na alimentação; Dificuldades no brincar; Atraso Global do Desenvolvimento; Dificuldades na coordenação oculomotora; Dificuldades na grafomotricidade e escrita; Dificuldades no planeamento motor; Alterações genéticas; entre outras. Que casos têm acompanhado na InterAge? Isabel Costa e Sandra Freitas, Terapeutas Ocupacionais: Atualmente surgem-nos muitas crianças com alterações no processamento sensorial, as “queixas” mais frequentes evidenciadas pelas famílias e/ou pelas escolas estão relacionadas com o facto de estas crianças não permanecerem sentadas, andarem sempre a correr de um lado para o outro, terem dificuldades nas transições das tarefas, terem problemas alimentares, colocarem objetos não comestíveis na boca, sentirem dificuldades no desfralde, assim como problemas de defecação ou recusa na utilização da sanita. Destaque ainda para dificuldades na motricidade fina, dificuldades em tolerar sons/ambientes barulhentos, dificuldade em lavar e/ou cortar cabelo, andar em bicos de pés, flapping, problemas relacionados com o sono, agitação motora, entre outros. Que tipo de atividades se desenvolvem na sala da Integração Sensorial? Sandra Freitas: A IS é um processo cerebral que leva à organização e interpretação da informação que recebemos dos nossos sentidos: vestibular; propriocepção, tato, visão, olfato, paladar, audição e interoceção. Filipa Gomes: Este tipo de intervenção é caraterizada por um ambiente lúdico em que a criança é incentivada a gerar ideias para atividades, de forma a adaptar-se e a responder a novos desafios e a desenvolver a confiança, bem como as competências. Geralmente, este tipo de intervenção ocorre dentro de um ambiente terapêutico pormenorizadamente criado, que permite ao terapeuta apresentar desafios sensoriais para a criança. No que diz respeito ao planeamento das atividades estas podem fornecer um ou mais estímulos sensoriais e, em simultâneo, trabalhar os padrões motores em défice na criança. Quais os benefícios destas terapias? Filipa Gomes: A integração sensorial tem como objetivo ajudar as crianças a desenvolverem competências de organização e responder de forma adequada aos estímulos a que são sujeitos no seu dia a dia. O brincar promove o criar, ensinar, aprender, trabalhar em equipa e desenvolve competências cognitivas, motoras, percetivas, sensoriais e emocionais. Estas competências são essenciais para o desenvolvimento infantil, permitindo preparar as crianças para a vida adulta. Além de todas estas competências o brincar também favorece o desenvolvimento da autonomia da criança. Há também um importante trabalho em casa a ser desenvolvido pelos pais? Filipa Gomes e Isabel Costa: Sem dúvida, os pais têm um papel fundamental no desenvolvimento das crianças, além de serem a figura referência destas. São elementos-chave na passagem de informação/estratégias com os demais intervenientes onde a criança acaba por desenvolver as suas rotinas, assim como na aplicação e respetiva integração do trabalho prévio desenvolvido em contexto clínico Psicologia É necessário investir na saúde mental infantil? Sandrine Vale, Psicóloga: Sim. Investir no cuidado da saúde mental das crianças e jovens é prioritário, uma vez que os primeiros anos de vida são a base para as aquisições que o cérebro irá exercer no decorrer da vida. É desta forma fundamental promover o bem-estar psicológico, estar atento a sinais e sintomas, bem como proteger as crianças e jovens de experiências adversas e fatores de risco que podem interferir de forma negativa no seu potencial de crescimento. Por que razão é tão importante olharmos de uma forma atenta para as emoções das nossas crianças e jovens? Luíza Arezes, Psicóloga: A infância e adolescência são fases da vida marcadas por grandes desafios e aprendizagens. As crianças e adolescentes podem ter dificuldade em lidar com mudanças físicas e emocionais pelas quais passam e, por isso, é natural apresentarem problemas, algumas vezes, e expressarem emoções como zanga, tristeza ou frustração. Quando alguns sinais são intensos e duram várias semanas, interferindo com a capacidade da criança ou adolescente desempenhar o seu dia-a-dia e fazer atividades habituais, podem significar que a criança/adolescente está com problemas e precisa de ajuda. Por isso, é importante prestar atenção a alguns sinais/ mudanças como: sentimentos de tristeza duradouros, irritação e nervosismo sem razão aparente, falta de motivação, agressividade contra si ou outros, sentir muito medo sem razão aparente, mudanças bruscas de humor ou comportamento que duram mais do que duas semanas consecutivas, ansiedade e preocupação intensas e persistentes, comportamento agitado, isolamento e falta de interesse pela interação com os outros. Quando existem suspeitas de que existe algum problema é importante estabelecer e manter uma comunicação aberta com a criança ou com o adolescente, questionando-a sem julgamentos, ouvindo-a e validando os seus sentimentos, sem nunca desvalorizar nem esperar que ‘passem com a idade’. Nos primeiros anos de vida é essencial haver uma avaliação emocional e psicológica da criança de forma a garantir uma intervenção precoce? Susana Horta Moreira, Psicóloga: Sim, nas idades que antecedem as transições da Creche para o Jardim de Infância (2-3A) e do Jardim de Infância para o 1.º Ciclo do Ensino Básico (5-6A), merece ser dado particular destaque a uma avaliação do desenvolvimento global da criança, que deve incluir, naturalmente também, as dimensões psicoafetivas e socioemocionais. A transição para 1.º Ciclo do Ensino Básico é, à partida, aquela que implica maior necessidade de adaptação. O confronto com tanta mudança e diversidade é seguramente gerador de muita expectativa, quer para as crianças, quer para os pais, mas muitas vezes pode ser vivenciado por ambos com muita ansiedade e perturbação, pelos desafios que encerra. Em termos educativos o repto não é menos desafiante. Aquando do ingresso no ensino formal (1.ºCEB) é pois importante que estejam consolidadas aprendizagens e competências ao nível: do Desenvolvimento Pessoal e Social (construção da identidade da autoestima; independência e autonomia; consciência de si como protagonista da sua aprendizagem; convivência democrática e cidadania), do Desenvolvimento Motor e Expressão Artística (locomoção, manipulação, psicomotricidade, gosto pelo exercício físico e contacto com diferentes áreas artísticas), do Domínio da Linguagem Oral e Abordagem à Escrita (comunicação oral e consciência linguística; contacto com o impresso; funcionalidade da linguagem escrita e a sua utilização em contexto; identificação das convenções da escrita; prazer e motivação para ler e escrever), do Domínio da Matemática (números e operações; organização de dados, noções de posicionamento no espaço e medidas, interesse e curiosidade pela matemática), e do Conhecimento do Mundo (físico e natural, social, tecnológico e científico). E, não mais relevante do que estas competências estarem adquiridas, são igualmente importantes a motivação da criança para a aprendizagem, bem como a sua estabilidade e maturidade psicoafectiva e socioemocional. Assim, no período que antecede a transição para o Ensino Formal faz todo o sentido que haja uma avaliação médica (com particular destaque para a audição e visão), mas também psicológica, sobretudo no caso de se tratarem de crianças em situação condicional de matrícula para entrada no 1.º Ciclo do Ensino Básico (i.e., situação de crianças mais novas, cujo ingresso no 1.º Ciclo não está assegurado e terá que ser analisado com cuidado, e debatida com os pais ou seus representantes legais). Neste sentido, uma avaliação psicopedagógica por Psicólogo com formação e experiência no desenvolvimento infantil permitirá apurar se estão adquiridas e consolidadas competências facilitadoras da aprendizagem escolar, se a criança apresenta maturidade e estabilidade psicoafetiva e socioemocional, bem como se está motivada para se iniciar nesta nova etapa do seu processo educativo. Helena Santos: Neste sentido também iremos realizar, neste verão, no InterAge, um grupo para consolidação das competências pré-académicas, de crianças que estão em transição para o primeiro ciclo. Problemas de saúde mental podem comprometer a vida futura da criança e do jovem e devem ser encarados com seriedade? Sandrine Vale: Os problemas de saúde mental que têm início na infância e não são devidamente intervencionados irão certamente impactar no desenvolvimento da criança até e durante a sua vida adulta, levando com frequência ao agravamento das problemáticas e comprometimento de diferentes áreas de vida A título de exemplo, crianças com perturbação de défice de atenção com hiperatividade (PHDA), ou problemas de comportamento, tendem por exemplo ao abandono escolar precoce e, em consequência disso, apresentam na idade adulta dificuldades para se relacionarem ou conseguirem um emprego. Assim, encarar estas problemáticas com seriedade permite prevenir danos futuros e comprometedores não só da saúde mental, mas também da saúde física e social da criança ou jovem Quais as grandes consequências de não existir um acompanhamento atempado? Filipa Ferreira, Psicóloga: O desenvolvimento do cérebro acontece num ritmo muito acelerado nos nossos primeiros anos de vida e a plasticidade cerebral é maior quando somos crianças. Neste sentido, a intervenção deve ser precoce e deve ocorrer numa fase em que o cérebro está capaz de recolher e processar informação de forma mais rápida e os seus circuitos neuronais ainda não estejam estáveis. A identificação precoce das alterações no desenvolvimento da criança possibilita uma intervenção mais eficaz, assegura e promove o desenvolvimento da criança, fortalece as competências familiares e fomenta a inclusão social. As consequências de uma intervenção tardia passam pelo agravamento ou surgimento de sinais e sintomas que podem comprometer o bem-estar da pessoa e influenciar, significativamente, a sua evolução. Uma terapêutica de confiança é essencial para o sucesso da intervenção? Luísa Arezes: Várias pesquisas mostram que o sucesso das intervenções psicológicas está fortemente correlacionado com a qualidade do vínculo da díade terapeuta-paciente, independentemente do tipo de tratamento usado. Uma relação terapêutica de confiança mostra-se, portanto, como um meio facilitador de aspetos importantes no processo de mudança, pois aumenta o valor reforçador do terapeuta, levando a um maior envolvimento na terapia, e a uma facilidade maior na modelagem de comportamentos adequados, promovendo expectativas positivas e soluções para superar resistências. Que estratégias devem os pais adotar em casa? Catarina Ribeiro, Psicóloga: Há várias estratégias a implementar e variam muito de caso para caso, mas algumas das principais e mais generalistas podem ser as seguintes: Comunicar: A comunicação deve ser olhos nos olhos, sem distrações dos telemóveis ou televisão e sempre com compreensão e respeito pelo ponto de vista da criança; Encorajamento: Encorajar uma criança é ensiná-la a acreditar em si mesma, no seu potencial e nas suas capacidades. Devemos relembrá-las disso sempre que necessário. Fazer acordos: É a ferramenta mais eficaz, ao nível da prevenção. Todos os acordos devem ser selados com um gesto especial, para reforçar o compromisso. Validar Emoções: Perante uma criança frustrada, desmotivada, com medo ou com raiva, validar as emoções será sempre o primeiro passo para trabalharmos a educação emocional, para além de se sentir compreendida. Conexão em vez de correção: Antes de começarmos a corrigir o comportamento da criança, devemos começar por reconhecer o esforço e validar as suas emoções, dizendo mesmo à criança o quanto gostamos dela. Ter tempo para brincar com a criança: Permite fortalecer laços afetivos, estimular a resolução de problemas e criatividade da criança. 5 formas de promover a saúde mental das crianças? Catarina Ribeiro: É importante ajudar as crianças a colocarem por palavras aquilo que estão a sentir, ensinando-as a nomear as emoções: “Pareces nervoso”; “Já percebi que estás zangado”; “Sentes-te triste?”. Fazer em conjunto uma caixinha dos medos (depositamos aqueles que não nos são úteis (porque não nos protegem) e que só nos atrapalham. Adquirir estratégias de relaxamento, como respiração (imaginar que se cheira uma flor, na inspiração, e que se sopra para longe uma nuvem escura, com a expiração). Pote dos elogios (colocamos frases bonitas e inspiradoras que podemos retirar e ler quando necessitarmos de uma mensagem que nos alegre). Hábitos de Sono (ter bons hábitos de sono melhora o humor, concentração e desempenho na escola). Prevenir é essencial em quando falamos de saúde mental infantil? Catarina Ribeiro: Prevenir e promover a saúde mental significa criar um ambiente favorável para que os filhos se tornem adultos emocionalmente equilibrados, resilientes, positivos e felizes. Cabe aos pais cuidar, estimular, educar, amar, impor limites, fortalecer a autonomia e preparar a criança para os desafios e oportunidades da vida presente e um dia adulta. Devem considerar o que se passa na vida da criança ou adolescente nos diversos contextos em que este está inserido, estarem atentos a sinais/mudanças dos seus comportamentos, ouvi-lo e levar os seus sentimentos a sério. Para além disso, é igualmente fundamental que os pais desenvolvam com os filhos uma relação que os encoraje a partilhar sentimentos e problemas e se, necessário, procurar apoio especializado, nomeadamente com um Psicólogo. Terapia da Fala Em que medida a avaliação da audição é essencial para o desenvolvimento infantil? Helena Santos: A audição deve ser uma das primeiras avaliações a fazer quando há algum tipo de suspeita, tanto de linguagem, como de comunicação, bem como de interação e da fala. Muitas vezes temos crianças mais alheadas, menos envolvidas na interação com os pares, precisamente por não compreenderem tão bem o que lhes é dito e por isso não se sentem competentes para participar ativamente no meio, ou nas conversas dos amigos. Obviamente que em casos de alterações fonológicas no discurso da criança se considera fundamental também este primeiro passo, mas também no simples atraso de desenvolvimento de linguagem que muitas vezes se relaciona com a diminuição da estimulação, resultante de uma diminuição da acuidade auditiva. Também nos casos de perturbações articulatórias, temos muitas vezes meninos com alterações da permeabilidade nasal, resultantes de várias causas, que se repercutem na sua musculatura e estrutura orofacial e consequentemente na fala. É verdade que a comunicação começa na gestação? Helena Santos: Claro que sim, sabe-se que a resposta resposta aos sons da fala acontece perto das 24 semanas de gestação, pelo que desde esse momento o bebé começa a reconhecer vozes e a estar exposto aos sons do meio. Por esse motivo, deve promover-se, desde cedo, esta interação com o bebé mesmo na barriga da mãe. Que tipo de estratégias se desenvolvem em terapia? Helena Santos: Se pretendemos desenvolver comunicação, a título de exemplo, devemos criar pequenos desafios e obstáculos para a criança precisar de nós para atingir os seus objetivos. Se pretendermos desenvolver a fala, é de extrema importância o uso de espelho para a visualização dos diferentes pontos articulatórios e das estruturas orofaciais. Se pretendermos desenvolver a linguagem, devemos comentar/descrever tudo o que fazemos para a criança absorver e não questionar permanentemente a criança sobre ‘o que é?’ O mais importante é modelar, modelar modelar, somos o maior exemplo das crianças. Há um trabalho que deve ter continuidade em casa com os pais? Helena Santos: Sempre, e só faz sentido dessa forma. No InterAge damos muita importância ao facto de serem partilhadas todas as estratégias que usamos com a criança. Durante o período de pandemia os pais não estiveram presentes nas consultas, mas atualmente temos as portas abertas, de forma a que possam ser coterapeutas no processo do seu filho. A questão da pandemia e das máscaras, assim como o uso excessivo da tecnologia, vieram atrasar a produção da fala? Verónica Monteiro: Sim, é verdade que a pandemia e a utilização de máscaras vieram influenciar o desenvolvimento da criança em várias áreas e não apenas nas questões relacionadas com a fala. No primeiro ano de vida, o bebé comunica por trocas recíprocas entre estímulos-resposta com o interlocutor, no entanto, com o uso de máscara o bebé começou a ter o primeiro impacto, sendo difícil realizar a leitura correta da linguagem não verbal do parceiro comunicativo, afetando dessa forma o seu desenvolvimento psicomotor e social. Nas idades posteriores, o uso de máscara dificultou o acesso ao ponto articulatório, e por isso, sabendo que para a aquisição dos sons da fala, são importantes os estímulos visuais produzidos pelo adulto para aprender a posicionar corretamente a língua, as bochechas e os lábios em cada fonema, também o desenvolvimento fonológico pode sofrer atrasos. Já no primeiro ciclo, principalmente no primeiro ano, onde são adquiridos os pilares das competências para a aquisição da leitura e escrita, é fundamental o apoio visual da leitura labial do seu professor, para melhor compreensão da associação do fonema ao grafema. Outra consequência causada pelo uso prolongado da máscara foram as alterações na qualidade e intensidade vocal resultando em dificuldades vocais (disfonias). E também não nos podemos esquecer do impacto no desenvolvimento das relações sociais e emocionais que também ficou perturbado. Em relação ao uso excessivo das tecnologias, já está mais que provado que tem influência negativa no desenvolvimento normativo da criança. É evidente que, se a utilização for mediada pela família, não haverá grandes impactos, no entanto, atualmente não é isso que se verifica. Uma abordagem multidisciplinar O trabalho em rede é essencial? Helena Santos: Sim, num primeiro momento pretende-se sempre recolher toda a informação dos pais e posteriormente contactamos os elementos externos que intervêm com a criança. As novas tecnologias vieram facilitar estes contactos, uma vez que se criam grupos de WhatsApp que facilitam o contacto entre médicos, terapeutas, educadores, professores, professores de educação especial e elementos das equipas da intervenção precoce. Desta forma, mantemos o contacto com todos permanentemente, estando a par de todas as estratégias, evoluções e desafios de cada criança. Em que vai consistir o ATL InterAge? Helena Santos: Na verdade serão dinamizados dois, um para crianças de primeiro ciclo e outro para crianças de pré-escolar. Surgiu da necessidade dos pais das crianças, sobretudo em idade escolar, não terem respostas para os seus filhos, com NEE (necessidades educativas especiais), no período das pausas letivas. Serão constituídos por grupos pequenos, dinamizados por uma psicóloga ou psicomotricista com especialização em Ensino Especial, com temas definidos previamente, pensando na adaptação necessária a cada criança que os frequentará. Morada: Praça Manuel Fernandes da Silva n.º 74, Braga, Portugal Contacto: 918 117 760 Facebook: InterAge Instagram: @interageterapias Centro Neurosensorial: Os efeitos nocivos da excessiva exposição aos ecrãs no desenvolvimento sensorial da criança Isi Love: Os essenciais para os primeiros meses de vida de um bebé
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