SAÚDE “Hoje o nosso corpo vive entre o sedentarismo e os picos de esforço” By Revista Spot | Abril 7, 2026 Abril 7, 2026 Share Tweet Share Pin Email Passamos o dia quase imóveis, presos a ecrãs, cadeiras e rotinas rígidas, mas exigimos de nós próprios energia, rendimento e recuperação como se o corpo estivesse sempre pronto a responder. Talvez por isso a fisioterapia esteja hoje a sair do lugar onde durante muito tempo foi arrumada, o da resposta tardia à dor, para ocupar um espaço mais amplo, mais preventivo e mais decisivo. António Maia trabalha exatamente nesse ponto de viragem. Fisioterapeuta, integra reabilitação, ecografia e câmara hiperbárica numa leitura clínica que, mais do que aliviar sintomas, procura perceber cargas, contextos, limites e capacidade de adaptação. Num tempo em que há menos tolerância ao desconforto, mais sobrecarga mal gerida e pouca escuta do corpo, defende uma abordagem mais objetiva, integrada e consciente. Porque a dor raramente aparece do nada. Antes disso, o corpo já tentou avisar. No seu perfil, apresenta-se de forma muito objetiva, com três eixos que dizem muito sobre o seu trabalho: reabilitação, ecografia e câmara hiperbárica. Em que momento percebeu que este seria o núcleo da sua identidade enquanto fisioterapeuta? A reabilitação e a prevenção sempre foram a base da fisioterapia. A ecografia surgiu mais tarde, quase como uma extensão natural do raciocínio clínico. É a ferramenta que ajuda a confirmar se estamos no caminho certo e a ajustar melhor a intervenção. A câmara hiperbárica apareceu numa fase seguinte, já no contexto da Physioclinic, quando fez sentido acrescentar algo que pudesse potenciar a recuperação em casos específicos. Hoje já não olho para isto como áreas separadas. Vejo como um sistema integrado, uma forma mais completa de ler o corpo e decidir melhor. No fundo, é juntar peças para fazer um trabalho mais consistente. O corpo de hoje vive numa contradição constante, passa horas imóvel, em frente a ecrãs, e depois exige de si próprio picos de treino, rendimento e recuperação rápida. Em consulta, sente que este estilo de vida está a criar um novo tipo de dor e lesão? Sem dúvida que há aqui uma contradição grande, e nota-se bem em consulta. O corpo passa muito tempo “em pausa” e depois, de repente, pedimos-lhe tudo ao mesmo tempo. Não diria que surgiram lesões totalmente novas, mas há claramente mais casos de sobrecarga mal gerida e dor persistente. E há outro fator importante: hoje existe menos tolerância ao desconforto e menor literacia em saúde, o que acaba por complicar todo o processo. É quase como querer resultados de alta performance com preparação mínima… e o corpo, naturalmente, acaba por responder. A reabilitação exige tempo, leitura clínica e capacidade de adaptação. O que é que mais o desafia hoje, tratar a lesão em si ou ajudar a pessoa a recuperar confiança no corpo e no movimento? A lesão é só uma parte da equação. O verdadeiro desafio está em perceber a pessoa como um todo, não só o problema físico, mas o impacto real no dia a dia, no trabalho, na rotina. Torna-se essencial enquadrar o paciente no modelo biopsicossocial. Na prática clínica, vemos muito isso, pessoas que melhoram fisicamente, mas continuam com receio de voltar ao normal. E é aí que o trabalho se torna mais interessante… e mais exigente! A ecografia tem ganho cada vez mais espaço na fisioterapia. O que é que esta ferramenta lhe permite ver, confirmar ou afinar no raciocínio clínico que muda verdadeiramente a qualidade da intervenção? A ecografia trouxe-me algo muito simples, mas muito valioso: mais objetividade. Permite confirmar hipóteses, excluir outras e ajustar melhor a intervenção. Não substitui o raciocínio clínico, isso continua a ser a base, mas ajuda a afiná-lo. E há um lado que faz muita diferença, quando o doente vê o que se passa, percebe melhor. E quando percebe melhor, envolve-se mais. Na Physioclinic isso nota-se muito: a comunicação melhora bastante quando deixamos de falar só de “sensações” e passamos a mostrar. A dor lombar continua a ser uma das queixas mais comuns. O que é que continua a ser mito, o que é que vê com mais frequência na prática clínica e o que é que as pessoas deviam deixar de fazer imediatamente? A dor lombar continua rodeada de mitos, e alguns são difíceis de largar! Um dos principais é achar que dor significa sempre algo grave. Outro é achar que a solução é parar completamente. Na maioria dos casos, não é nenhuma dessas coisas. O que vejo mais, tanto em consulta como no dia a dia da Physioclinic, são lombalgias ligadas a sedentarismo, picos de esforço sem preparação e pouca variedade de movimento. Se tivesse de dizer algo que as pessoas deviam parar de fazer: evitar o movimento por medo… e procurar soluções rápidas para algo que precisa de contexto. O corpo não funciona em modo “resolver em 48h”. O movimento, bem doseado e orientado, é uma das melhores ferramentas para recuperar função e confiança no corpo. Fala de dores muito comuns, como as do ombro e do pescoço. Sente que estas queixas dizem apenas respeito aos ecrãs e ao telemóvel ou revelam um problema mais fundo de gestão de esforço, stress e recuperação? Os ecrãs têm a sua responsabilidade, claro… mas não são os únicos culpados. Na prática, estas queixas estão quase sempre ligadas a um conjunto de fatores: carga mal gerida, stress acumulado, pouco descanso e, muitas vezes, sono de baixa qualidade. O corpo acaba por “descarregar” nas zonas mais vulneráveis, e o pescoço e os ombros costumam ser os primeiros a dar sinais. Se não olharmos para o sistema como um todo, corremos o risco de apenas tratar sintomas que acabam por voltar com o tempo. A câmara hiperbárica ainda desperta curiosidade e, por vezes, algum desconhecimento. O que é que sente que continua a ser mais mal compreendido sobre o seu papel na recuperação e em que casos pode realmente fazer diferença, sem cair em promessas exageradas? A câmara hiperbárica ainda vive muito entre dois extremos: ou é vista como solução milagrosa ou como algo sem grande utilidade. A verdade está no meio. Funciona bem, mas no contexto certo. Na Physioclinic, utilizamo-la em casos específicos: lesões musculares graves, entorses com hematoma extenso, lesões ósseas com dificuldade de consolidação, processos inflamatórios ou isquémicos que atrasam a recuperação tecidular, no pós-operatório para acelerar cicatrização, em feridas difíceis como o pé diabético, e também na recuperação do treino em atletas de alta competição. O mais importante é que seja sempre bem indicada e integrada num plano de tratamento global, sem criar expectativas exageradas. Porque quando é bem integrada, pode fazer diferença. Quando não é… é só mais uma ferramenta mal utilizada. A punção continua a gerar dúvidas e até algum receio em muitos doentes. O que é que considera importante explicar melhor ao público sobre este tipo de abordagem para que deixe de ser vista com desconfiança ou simplismo? A reação mais comum à punção é simples: “agulhas? Não, obrigado.” E é perfeitamente normal. Mas a verdade é que estamos a falar de uma técnica muito específica, com agulhas de calibre muito pequeno, e que, na maioria dos casos, é bem tolerada. É praticamente indolor. É uma ferramenta, não é um tratamento isolado nem um fim em si mesma. Ajuda a modular a dor e a melhorar a função muscular quando bem utilizada. É muito importante darmos sempre contexto: explicar o porquê, o que esperar e como se integra no plano. Quando as pessoas percebem isso, o receio diminui bastante. E ninguém é obrigado a nada, o consentimento vem sempre primeiro! Cruza tecnologia e intervenção clínica, sem deixar de lado a dimensão humana. Numa área como a sua, onde é que termina o valor da técnica e começa a diferença feita pela escuta e pela experiência? A técnica é essencial. Mas sozinha não chega. Na prática, a diferença muitas vezes está na forma como ouvimos e interpretamos cada pessoa. Ouvir, perceber o contexto de cada pessoa e adaptar a intervenção à sua realidade faz toda a diferença. Porque dois casos iguais no papel raramente são iguais na realidade. Na Physioclinic isso é muito evidente: perceber o contexto, adaptar a abordagem e criar a relação faz tanta diferença como qualquer técnica. Esta dimensão humana não substitui a técnica, mas complementa-a e potencia os resultados. No fundo, não é uma questão de onde termina uma e a outra começa. É perceber que as duas funcionam melhor juntas. Durante muito tempo, a fisioterapia foi vista sobretudo como resposta à dor já instalada. Sente que esse é também um dos grandes desafios do presente, ensinar as pessoas a não esperarem pelo colapso para finalmente ouvirem o corpo? Sem dúvida que esse é um dos grandes desafios! Ainda existe muito a lógica de “só faço quando dói mesmo”. E isso acaba por atrasar processos que podiam ser muito mais simples. Parte do trabalho, e também daquilo que tentamos passar através dos conteúdos online da Physioclinic, é precisamente ajudar as pessoas a reconhecer sinais mais cedo, a ajustar comportamentos e a perceber que prevenir não é exagero… é inteligência. Porque esperar pelo colapso pode até funcionar em alguns casos, mas raramente é o caminho mais fácil. No fundo, precisamos mesmo de melhorar a literacia em saúde da nossa população e dar ao nosso corpo capacidade de suportar a carga da nossa atividade profissional, que é essencial. Morada: Rua de 5 de Outubro 357, 4100-175 Porto Contacto: 912 000 116 (chamada para a rede móvel nacional) Instagram: @fisioterapeutaantoniomaia “Na Medicina Dentária hospitalar uma intervenção pode salvar vidas” “Rejuvenescer não devia significar descaraterizar”
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