Psicologia/Saúde Infantil “Há uma geração inteira a crescer sem espaço para parar” By Revista Spot | Março 31, 2026 Abril 2, 2026 Share Tweet Share Pin Email Num país onde tantas famílias vivem a correr entre escola, trabalho, cansaço e uma permanente sensação de que falta tempo para tudo, há problemas que se vão instalando em silêncio. Uma criança que tarda em falar, um adolescente sob pressão, um adulto em burnout, uma família inteira a tentar aguentar mais do que consegue. Muitas vezes, as respostas existem, mas surgem soltas, fragmentadas, sem articulação. Em Mondim de Basto, a Desenhar Futuros nasceu para romper com essa fragmentação. Uma clínica onde diferentes especialidades trabalham em conjunto e onde a pessoa não é separada da sua história, da sua família nem do seu contexto. Nesta entrevista, Gabriela Machado, terapeuta da fala e CEO do projeto, e Marcela Leite, psicóloga clínica e coordenadora do departamento de psicologia, falam de sinais de alerta que continuam a ser ignorados, de sofrimento emocional silencioso e da urgência de cuidar mais cedo, melhor e de forma mais humana. Mais do que uma clínica, a Desenhar Futuros apresenta-se como um espaço de acolhimento e acompanhamento ao longo da vida. Que necessidade concreta sentiu no terreno para criar este projeto? Gabriela Machado: Senti que faltava um espaço de saúde e bem-estar que olhasse para a família como um todo. Ninguém cresce sozinho, por isso, para nós, não faz sentido cuidar do indivíduo sem envolver ou acolher quem está ao seu lado. A Desenhar Futuros nasceu para ser um apoio contínuo, estamos presentes desde o útero materno até à idade sénior, disponibilizando vários serviços na área da saúde e bem-estar, para que as pessoas que nos procuram encontrem no mesmo espaço, uma equipa ampla, que comunica entre si, e que está habilitada a dar respostas aos seus problemas e da sua família também. Exemplo disso, são as pessoas da mesma família que temos em acompanhamento de psicologia em simultâneo com profissionais diferentes, as que têm os filhos na terapia da fala e procuram psicologia para si ou ainda aqueles que terminam o acompanhamento numa área e são encaminhados para outra, com o conforto e segurança de já conhecerem o nosso trabalho. Num tempo em que se fala tanto de saúde integrada, o que distingue verdadeiramente a abordagem da Desenhar Futuros da lógica mais fragmentada? Na Desenhar Futuros, olhamos para quem nos procura como um todo. Não analisamos apenas a “queixa”, mas todos os contextos, incluindo o familiar, pois acreditamos que a saúde começa no equilíbrio com quem nos rodeia. Privilegiamos a prevenção e trabalhamos diariamente na consciencialização da comunidade, porque o melhor cuidado é aquele que antecipa as necessidades. Como somos uma equipa com várias especialidades, partilhamos conhecimento e discutimos, sempre que necessário, as situações em conjunto para dar uma resposta completa. Se o que a pessoa precisa não estiver disponível na DF, não a deixamos sem solução, ajudamos, sem qualquer reserva, a encontrar o que melhor se adequa ao seu caso. Este compromisso de proximidade mantém-se quer estejamos em Mondim ou a apoiar famílias online pelo mundo fora. Quando falamos em terapia da fala, muitas pessoas continuam a associá-la apenas à infância ou à dicção. Que mitos ainda persistem e o que é importante que o público perceba sobre o verdadeiro alcance desta intervenção? Gabriela Machado: O maior mito é achar que o Terapeuta da Fala “apenas” ensina a falar melhor. O nosso alcance é muito mais profundo. Atuamos em funções vitais como a amamentação, a mastigação e a deglutição, mas também somos aliados essenciais no sucesso escolar. Trabalhamos as dificuldades de comunicação que impedem uma criança ou adulto de se expressar, e somos fundamentais na aprendizagem da leitura e da escrita, áreas onde muitos problemas podem ser superados com a intervenção certa e atempada. É importante que o público perceba que a Terapia da Fala não tem idade, estamos presentes desde o nascimento até ao idoso que precisa de recuperar a sua voz ou autonomia. No fundo, contribuímos muito para a qualidade de vida das pessoas, em diversas áreas e em todas as idades. Que sinais de alerta são hoje mais ignorados por pais, educadores ou até adultos, e que deviam motivar uma avaliação em terapia da fala mais cedo? Gabriela Machado: Muitas vezes, os sinais são desvalorizados com frases como “ele ainda é pequeno” ou “é a preguiça dele”. No entanto, há alertas que não devemos ignorar. Nas crianças, respirar habitualmente pela boca, ter dificuldades em mastigar certos alimentos, não reagir a sons ou demorar muito a começar a dizer as primeiras palavras. Também a dificuldade em aprender a ler ou escrever, que muitas vezes é vista apenas como “falta de atenção”, pode ter na base uma necessidade de intervenção em Terapia da Fala. Nos adultos e idosos, a rouquidão persistente, tosses frequentes ao comer ou beber (engasgamento) ou dificuldades de comunicação decorrentes de AVC ou doença degenerativa, são sempre sintomas que devem ser avaliados por um TF. O mais importante é perceber que, esperar não é solução em caso de sintomas ou dúvidas. Uma avaliação precoce pode evitar que uma pequena dificuldade se transforme em algo maior no futuro, ou amenizar o seu impacto. Na prática, de que forma é que dificuldades na linguagem, comunicação, aprendizagem ou motricidade oral podem ter impacto silencioso na autoestima, no percurso escolar e até nas relações familiares? Gabriela Machado: Estas dificuldades acabam por transbordar para todas as áreas da vida. Na Autoestima, surge o medo de falar em público, de ser julgado ou de falhar. Esse sentimento de incapacidade magoa e faz com que a pessoa comece a retrair-se e a isolar-se. No Percurso Escolar, uma dificuldade na leitura ou na escrita é, muitas vezes, confundida com falta de interesse. Sem o apoio certo, o aluno desiste de tentar porque sente que não consegue acompanhar os outros. Nas Relações Familiares, a frustração de não ser compreendido gera uma enorme tensão em casa, dolorosa para todas as partes e que deixa marcas. O nosso papel é dar as ferramentas certas para ultrapassar os obstáculos devolvendo a confiança e bem-estar a cada família que nos procura. A psicologia clínica trabalha prevenção, avaliação e intervenção nas alterações emocionais, cognitivas e comportamentais. No vosso dia a dia, quais são as queixas que mais chegam à consulta e que melhor espelham o desgaste emocional do nosso tempo? Marcela Leite: Algo que tem sido transversal na procura, em todas as faixas etárias, é a insatisfação corporal e imagem corporal negativa. Atualmente, em idades bastante precoces, crianças de 5 e 6 anos, já observamos uma autocrítica acentuada em relação ao próprio corpo, com verbalizações como “Sou gorda” ou “O meu nariz é feio”. Este foco na imagem corporal tem múltiplas influências: a exposição às redes sociais, experiências de bullying e também influência direta ou indireta dos adultos de referência. Esta preocupação estende-se ao longo da vida, principalmente em fases de transformação corporal significativa como a adolescência, a gravidez, o pós-parto, a menopausa e o envelhecimento, refletindo uma relação com o corpo mais exigente e insatisfatória. Vivemos uma época marcada por ansiedade, excesso de estímulos, pressão escolar e desgaste emocional das famílias. Que sinais de alerta são hoje mais ignorados em crianças, adolescentes e adultos? Marcela Leite: Um dos sinais mais ignorados atualmente é a dificuldade em tolerar a ausência de estímulo, a necessidade constante de estar ocupado, produtivo ou entretido. Nas crianças e adolescentes é notório através dos horários sobrecarregados de atividades extracurriculares e com pouquíssimo tempo livre para simplesmente brincar. Na vida adulta, esta lógica prolonga-se na sobrecarga laboral e na dificuldade em desligar. Não apenas por uma necessidade financeira, mas sim de uma tendência para associar o nosso valor à produtividade constante. Não há lugar para o tédio, para a imaginação ou para se simplesmente estar. Há uma pressão contínua de se estar sempre a fazer, como se parar ou descansar significasse ficar para trás. Há sofrimentos que continuam quase clandestinos: o luto, a sobrecarga de quem cuida, a vida depois de um AVC. Porque é que estas dores continuam tão pouco faladas, mesmo quando reorganizam por completo uma família? Marcela Leite: Na vivência de um luto, seja pela perda de alguém ou pela reorganização profunda da vida familiar, é comum para tentarmos apaziguar a dor do outro, que recorramos a frases feitas ou a “ditados populares” que possam trazer algum conforto nestes momentos. Um muito comumente utilizado é “Deus dá as batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados”. Embora seja dito com boa intenção, a mensagem transmitida pode ser bem diferente, há uma pressão para se ser forte e para não demonstrar sofrimento, porque têm de ser fortes o suficiente para a batalha que lhes foi atribuída. E neste sentido, muitas vezes as pessoas tendem a tentar aguentar “porque têm de ser fortes” acabando por silenciar a dor que muitas vezes carregam, porque lhes é pedido (direta ou indiretamente), não encontram muitas vezes um lugar seguro e sem julgamento para que lhes seja reconhecida e acolhida a dor. O que muda nos resultados quando diferentes especialidades trabalham em articulação real, em vez de cada profissional atuar de forma isolada? Muda tudo. Quando diferentes especialidades trabalham em verdadeira articulação, deixa de se olhar para a pessoa por partes e passa a olhar-se para ela como um todo. Numa abordagem isolada, é frequente a família andar de consulta em consulta, acumulando orientações que nem sempre se cruzam e que, por vezes, até se contradizem. Na Desenhar Futuros, o grande diferencial está precisamente nessa visão integrada. Os casos são pensados em equipa, o que permite cruzar perspetivas, aprofundar a compreensão de cada situação e encontrar respostas mais completas. Aquilo que um terapeuta observa pode ser enriquecido pela leitura de outra especialidade, tornando a intervenção mais ajustada, mais clara e mais eficaz. Essa articulação também torna todo o processo mais rápido e mais seguro. O encaminhamento é imediato, a comunicação é interna e não há perdas de tempo nem de informação pelo caminho. Para a família, isso traduz-se numa sensação de maior confiança, porque sente que todos os profissionais estão alinhados, falam a mesma linguagem e seguem um plano comum, sólido e centrado no mesmo objetivo. Trabalhar desta forma, seja presencialmente em Mondim ou através da rede online, evita que as famílias se sintam perdidas no sistema. E o resultado vai muito além da superação de uma dificuldade específica, traduz-se num equilíbrio mais real, mais consistente e mais sustentável para toda a família. Quando pensam no futuro da Desenhar Futuros, e pegando no próprio nome do projeto, que futuro gostariam de ajudar a desenhar nas pessoas, nas famílias e na comunidade? O futuro que desenhamos foca-se na prevenção e na capacitação das famílias, para que sejam parte ativa no desenvolvimento dos seus filhos. Queremos que os pais tenham o conhecimento necessário para serem protagonistas nesta evolução, com o apoio de uma equipa altamente qualificada. Em Mondim de Basto, o nosso compromisso é garantir cuidados especializados de proximidade. Através de palestras e ações de sensibilização gratuitas, promovemos a literacia em saúde, lembrando a comunidade de que cuidar da família é mais simples quando se tem a informação e os parceiros certos e que cuidar de si não é um luxo. Já no mundo digital, a tecnologia permite-nos levar este rigor e o cuidado humano a qualquer família que fale português. Queremos que, connosco, as famílias se sintam seguras, ouvidas e preparadas para enfrentar qualquer desafio com confiança. Sobre as entrevistadas: Gabriela Machado, CEO e Terapeuta da Fala na Desenhar Futuros, lidera uma equipa de apoio especializado a crianças, adolescentes e adultos. Especialista no desenvolvimento da linguagem e leitura e escrita, foca-se também na reabilitação do processamento auditivo e da motricidade orofacial. Marcela Leite, psicóloga clínica e coordenadora do departamento de psicologia, com formação em TCC na infância e adolescência, intervenção psicológica no luto e na imagem corporal. Acompanha crianças, adolescentes e adultos, combinando experiência e conhecimento para compreender e apoiar o desenvolvimento emocional e cognitivo em todas as fases do ciclo de vida. Desenhar Futuros Clínica: Rua de S. Tiago nº 153 4880-259 Mondim de Basto Contactos: 255 140 778 (chamada para a rede fixa nacional) | 967 544 520 (chamada para a rede móvel nacional) Instagram: @desenhar.futuros Facebook: Desenhar Futuros Clínica Site: desenharfuturos.pt “Ensinar profissionais de diferentes países mostrou-me que, apesar de toda a inovação tecnológica, a boa ortodontia continua a não admitir atalhos” “Durante demasiado tempo tratou-se a obesidade como falha pessoal. É tempo de a tratar como doença”
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