GINECOLOGIA “Há consultas de ginecologia que começam como rotina e acabam em histórias de vida” By Revista Spot | Março 9, 2026 Março 9, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há consultas que começam com um calendário e acabam com uma biografia. No gabinete da ginecologista e obstetra Filipa Brás, a pergunta pode começar por ser, “quando é que vamos conseguir ter um bebé?” e, anos depois, regressar com outra urgência, “porque é que já não durmo, porque é que o desejo mudou, porque é que o corpo perdeu vitalidade?”. Entre a medicina da reprodução e a menopausa existe uma vida inteira que a prática clínica nem sempre sabe narrar. Filipa Brás aprendeu-o a acompanhar casais em PMA e centena de mulheres, em diversas fases do seu ciclo, carregadas de mitos, crenças e dúvidas. Hoje cruza fertilidade, modulação hormonal e saúde íntima. Da dor na relação sexual à secura, da incontinência ao pós-parto, acredita, essencialmente, que não faz sentido olhar para a saúde da mulher por capítulos separados. A sua prática cruza fertilidade, menopausa e saúde íntima. Em que momento percebeu que a saúde da mulher precisava de ser olhada como um “continuum” e não por capítulos separados? Durante muitos anos trabalhei exclusivamente em medicina da reprodução, acompanhando mulheres num dos momentos mais intensos e exigentes da sua vida reprodutiva. Vi-as viver o impacto profundo das oscilações hormonais, não apenas no corpo, mas também na identidade, na relação conjugal, na autoestima. O meu foco era ajudá-las a concretizar o desejo da maternidade. Mas foi por volta dos meus 40 anos, quando comecei a experienciar as minhas próprias mudanças, que a perspectiva se ampliou. Percebi que algumas das mulheres que tinha acompanhado na fertilidade, regressavam com queixas que já não eram sobre engravidar, mas sobre sono, libido, humor, cansaço, perda de vitalidade. E muitas sentiam-se novamente, pouco compreendidas. Nesse momento ficou claro que não faz sentido olhar para a saúde da mulher por capítulos separados. O eixo hormonal é continuo, dinâmico e merece ser acompanhado com o mesmo cuidado, conhecimento científico e empatia em todas as fases. Hoje, na minha prática clínica, uno estes dois mundos com a convicção de que a mulher deve ser acompanhada de forma integrada ao longo de toda a sua linha de vida. O que mudou mais na infertilidade? Chegam mais tarde, mais informados, ou mais ansiosos e o que é que isso faz ao diagnóstico e às decisões do casal? Em muitos países, e Portugal não é exceção, as pessoas adiam o projeto parental devido a fatores socioeconómicos como educação, carreira, habitação e estabilidade financeira. Chegam mais tarde e mais conscientes. A informação é abundante e de fácil acesso, mas nem sempre é filtrada. Muitas vezes vêm já com exames feitos, opiniões recolhidas nas redes sociais e expectativas muito elevadas em relação às técnicas de PMA. Isso exige de nós mais tempo de escuta, mais pedagogia e uma comunicação muito clara sobre probabilidades reais, limitações biológicas e opções disponíveis. Quando um casal entra pela primeira vez numa consulta de Medicina da Reprodução, qual é a pergunta que quase ninguém faz e devia fazer logo no início? “Qual é a nossa probabilidade real de ter um bebé?”. Perguntam quanto tempo vai demorar, qual a melhor técnica, quanto vão gastar, qual a taxa de sucesso da clínica, mas raramente perguntam algo mais direto e personalizado. E por que é isto tão importante? As estatísticas gerais não refletem a idade da mulher, reserva ovárica, qualidade de esperma tempo de infertilidade endometriose, SOP, etc. É completamente diferente ter uma taxa de sucesso global da clínica de 40% e o casal em questão de 18%, e isto ajuda a alinhar expectativas e evitar frustrações. Outra questão igualmente crucial e que ninguém coloca é: “Em que momento é que faz sentido parar?”. Na minha opinião, ter um plano de limites – financeiros, emocionais e médicos – protege o casal de entrar num ciclo indefinido de tentativas sem reflexão estratégica. Sobre a preservação da fertilidade, como é que tem a conversa honesta entre “há tempo” e “não vamos adiar indefinidamente”, sem alarmismo e sem falsas promessas? A criopreservação de ovócitos é uma ferramenta extraordinária, mas não é um seguro absoluto. A conversa tem de ser transparente: congelar aos 32 anos não é igual a congelar aos 39. A idade continua a ser o fator determinante da qualidade ovocitária e o declínio é real e progressivo a partir dos 35 anos. Eu costumo dizer: não é uma garantia, é uma estratégia. Entre o “há tempo” e o “não vamos adiar indefinidamente” existe espaço de decisão informada, baseada em dados objetivos, como a reserva ovárica e o contexto pessoal. Ainda há a tendência para “centrar” o tema na mulher? Sim. Embora já exista maior consciência, ainda há uma tendência cultural para centrar a infertilidade na mulher. Sabemos que cerca de 30-40% dos casos têm fator masculino isolado ou combinado. Alterações subtis no espermograma, fragmentação do DNA espermático, estilo de vida, obesidade, consumo de tabaco ou exposição ambiental continuam subvalorizados. Integrar o homem desde o primeiro momento muda o plano terapêutico e, muitas vezes, encurta o tempo até ao resultado. As perdas gestacionais continuam a ser um tema vivido em silêncio. O que é que a medicina já consegue explicar melhor hoje e o que é que ainda é incómodo admitir que não sabemos? As técnicas de diagnóstico genético pré-implantatório trouxeram respostas importantes no que diz respeito a causas genéticas embrionárias. Hoje também sabemos e exploramos muito mais as alterações anatómicas, as trombofilias adquiridas e hereditárias, o papel das doenças autoimunes. Recentemente tem ganho especial destaque o estudo do microbioma intestinal e endometrial e o seu impacto na implantação embrionária. No entanto, ainda é desconfortável admitir que, em muitos casos, não conseguimos identificar uma causa clara. E isso é difícil tanto para o casal como para o médico. A medicina evoluiu, mas ainda não controla todos os determinantes da implantação e do desenvolvimento embrionário inicial. Na PMA existe uma pressão enorme por “mais uma técnica, mais um extra”. Como decide o que é evidência e o que é marketing, e como explica isso a quem está a investir emocional e financeiramente? Vivemos uma era de “add-ons”, testes, técnicas e suplementos que prometem aumentar taxas de sucesso. A minha posição é clara e baseada em evidência científica robusta e guidelines nacionais e internacionais. Explico sempre aos casais a diferença entre algo com benefício comprovado e algo experimental ou com benefício marginal. Transparência é essencial, sobretudo quando há investimento emocional e financeiro envolvido. Entre a fertilidade e a menopausa há uma “vida inteira” que muitas vezes fica sem narrativa clínica. O que é que, para si, define uma abordagem verdadeiramente integral e quais são as queixas “silenciosas” que mais chegam tarde? O fascinante desta especialidade é poder acompanhar a mulher em todas as fases da sua vida: desde contraceção, rastreio do colo do útero e HPV, vigilância mamária, gestão de patologias como endometriose, SOP, saúde sexual, sono, saúde mental e óssea. As queixas “silenciosas” que chegam mais tarde? Dor pélvica crónica, diminuição da libido, incontinência urinária ligeira, alterações do humor e da memória e perturbações do sono na perimenopausa. Isto porque muitas mulheres normalizam sintomas durante anos antes de procurar ajuda. Hoje fala-se da gravidez como um “teste de stress” do organismo (diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, ganho ponderal, pós-parto). Na sua prática, como usa estes sinais para antecipar risco cardiometabólico, ósseo e mental mais tarde e para não deixar a mulher “desaparecer” do sistema depois do parto? Complicações como diabetes gestacional ou pré-eclâmpsia são marcadores de risco cardiometabólico futuro. Não são eventos isolados. Após o parto, defendo uma consulta estruturada de reavaliação: peso, pressão arterial, metabolismo, saúde mental e plano de prevenção a longo prazo. A obstetrícia é uma janela para a saúde futura da mulher e não deve terminar na alta hospitalar. Porque é que, apesar de tanto ruído, a menopausa ainda chega tarde à consulta e o que é que se perde quando se adia esta conversa? Muitas mulheres associam menopausa a envelhecimento ou perda de feminilidade. Outras acreditam que os sintomas são normais e têm de ser suportados. A menopausa é uma transição biológica com impacto cardiovascular, ósseo, cognitivo e sexual. Adiar a conversa pode significar perder a oportunidade de prevenir osteoporose, síndrome metabólico, depressão ou demência. A expressão “modulação hormonal” está em todo o lado. O que é, para si, modulação hormonal bem feita e quais são as linhas vermelhas que recusa ultrapassar por segurança e ética clínica? Para mim, modulação hormonal é individualização baseada em sintomas, história clínica, risco cardiovascular e oncológico e evidência científica. Implica dose individualizada, via de administração adequada e monitorização regular. As minhas linhas vermelhas são claras, não prescrevo hormonas sem indicação clínica, não prometo efeitos antienvelhecimento milagrosos e não ultrapasso princípios de segurança por pressão estética ou comercial. Na ginecologia estética, regenerativa e funcional, há quem procure “estética” e quem procure alívio de sintomas. Como separa a necessidade real do ideal irreal? A minha primeira questão nesta consulta é: “Qual é a queixa funcional?” Secura vaginal, dor na relação sexual, incontinência urinária ligeira ou laxidez pós-parto têm base fisiológica. Separo necessidade real de ideal irreal através de avaliação clínica rigorosa, expectativas claras e critérios médicos objetivos. Qualquer intervenção deve ter indicação fundamentada, consentimento informado e benefício comprovado. A estética pode ser legítima, mas nunca pode substituir a ética clínica. Instagram: @dra.filipa_bras “Temos assistido a um aumento significativo da prevalência de doenças alérgicas” “As famílias não precisam de mais conselhos, precisam de uma equipa e esse é o coração da BabyFeelings”
GINECOLOGIA / SAÚDE DA MULHER “Na Medicina da Reprodução o tempo conta e pode mudar vidas” Ainda há temas que continuam a ser vividos em silêncio, a infertilidade é um deles. Num tempo marcado pelo adiamento…