Medicina Estética “Há cirurgias que mudam vidas” By Revista Spot | Junho 12, 2026 Junho 12, 2026 Share Tweet Share Pin Email A Cirurgia Plástica cruza-se com a oncologia, as queimaduras, a paralisia facial, as cicatrizes, a reconstrução mamária, as grandes perdas de peso, a maternidade, o envelhecimento e a forma como cada pessoa habita o próprio corpo. Está onde há função a recuperar, marcas a integrar, proporções a equilibrar, identidade a reencontrar. Bernardo Correia, cirurgião plástico, olha para esta área a partir da precisão técnica aliada à escuta. Nesta entrevista, fala de rosto, mama, contorno corporal e reconstrução; de naturalidade num tempo de filtros; e de segurança num mercado cada vez mais ruidoso. Mas fala, acima de tudo, de uma medicina onde cada decisão começa antes do bisturi, na história de quem chega. A Cirurgia Plástica manipula tecidos, formas e proporções, mas o impacto raramente é apenas físico. Como é que equilibra, em cada caso, o rigor técnico com aquilo que o paciente espera recuperar em termos de bem-estar? A Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética é uma especialidade médica muito abrangente, que aborda patologias de toda a área corporal, que manipula quase todos os tecidos do corpo humano e trata pacientes de todas as faixas etárias. É classicamente dividida em Cirurgia Reconstrutiva e Cirurgia Estética. A Cirurgia Reconstrutiva tem como objetivo principal restaurar a forma e função de determinada área anatómica, que possa ter sido alterada por traumatismos, queimaduras ou doenças oncológicas, por exemplo. A Cirurgia Estética visa modificar algum aspeto físico que incomode o paciente, de forma a melhorar o seu bem-estar físico e emocional. No entanto, a meu ver, cirurgia reconstrutiva e estética estão sempre relacionadas. Por um lado, quando realizamos cirurgia reconstrutiva, um dos objetivos é alcançar um resultado estético satisfatório (como por exemplo em casos de reconstrução mamária ou reconstrução oncológica cutânea); e, quando realizamos cirurgia estética, no fundo estamos a reconstruir determinada área anatómica do paciente. A Cirurgia Plástica pode ter uma forte influência na vida das pessoas, nomeadamente na (re)construção da sua identidade e na melhoria da sua autoestima. O que verifico diariamente ao lidar com os meus pacientes, é que há cirurgias que mudam vidas e que têm um grande impacto tanto na esfera pessoal, como social, familiar e até profissional. Ao contrário de áreas médicas em que o órgão-alvo de tratamento é interno, na Cirurgia Plástica as pessoas conseguem ver os resultados do tratamento praticamente no imediato, ao espelho. Portanto, a mudança é muito visível e objetiva, e isso leva a que haja uma grande carga emocional em torno dessa intervenção. Como é que um cirurgião plástico ouve um pedido de mudança sem se deixar influenciar pela pressa estética das redes sociais? Atualmente, as redes sociais têm um papel inegável na Medicina Estética e na Cirurgia Plástica. Na minha opinião, têm tanto de positivo como negativo, tanto para os pacientes e para os profissionais. Sem dúvida que vieram aumentar a informação acerca dos procedimentos possíveis, e ajudaram a desmistificar cirurgias e tratamentos, nomeadamente através das explicações dos profissionais e do testemunho de outros pacientes, o que leva a um aumento da procura de cirurgia estética. No entanto, paralelamente, vieram criar standards de beleza e saúde física e emocional que muitas vezes não são reais, nem reproduzíveis. A constante comparação com os outros e o querer resultados semelhantes aos de outras pessoas, desperta emoções negativas, como ansiedade, e expectativas desajustadas às necessidades e características de cada um. É importante avaliar o paciente em consulta, escutar as suas preocupações e objetivos, estabelecer um correto diagnóstico e, com base nisso, propor um plano de tratamento ajustado simultaneamente aos seus desejos, às suas caraterísticas anatómicas e respeitando os limites de segurança dos procedimentos. Acima de tudo é importante estabelecer uma boa relação médico-paciente, com base na confiança, porque o cirurgião também quer o melhor resultado possível para o paciente. Do ponto de vista clínico, o que distingue um resultado verdadeiramente natural? Um resultado verdadeiramente natural consegue-se quando ao olhar para alguém percebemos que está “melhor”, com “bom aspeto”, mas não identificamos imediatamente que foi submetido a alguma cirurgia ou tratamento. A maioria das pessoas continua a priorizar resultados subtis, em que há uma diferença real e objetiva, mas onde as suas feições não são alteradas. Atualmente é necessário ter cautela com o termo “natural”, pois este foi banalizado e aplicado erradamente. Ou seja, vemos muitos resultados rotulados como “naturais” e que desrespeitam muitas das regras de bom senso estético que o deviam caraterizar. Na cirurgia da face onde está hoje a fronteira entre rejuvenescer, harmonizar e transformar demasiado? Acredito que o sucesso da cirurgia estética está em rejuvenescer de forma eficaz e evidente, mas sem alterar os traços principais do rosto da pessoa, para que ela não pareça “outra”. Obviamente que quem se submete a um processo cirúrgico pretende resultados visíveis, mas cabe ao cirurgião ter o bom senso e a noção estética e técnica para conseguir atingir esse resultado, sem que este se mostre “artificial” e sem desrespeitar demasiado a anatomia de base do paciente. O resultado também depende muito da indicação adequada do tratamento. Há pacientes que beneficiam de procedimentos poucos invasivos e estes são suficientes para atingir os objetivos; noutros casos, apenas a cirurgia consegue produzir o efeito desejado e consegue garantir um resultado harmonioso, sem transformar demasiado. Que perguntas devem ser feitas antes de uma intervenção mamária? Há duas questões essenciais a colocar neste contexto: quais os sintomas que a mama provoca no dia-a-dia (como por exemplo a mama com volume elevado que pode provocar dor cervical ou marcas pelo uso do soutien; mama pequena ou caída e com dificuldade em ajustar algumas roupas ou conseguir o decote desejado); e quais os objetivos em termos de formato e volume que a paciente pretende atingir. Devemos analisar bem a anatomia da mama, pois os formatos variam muito e, consequentemente, os resultados possíveis para cada caso também. É fundamental avaliar a largura da mama, o grau de flacidez, a eventual ptose da mama e do complexo aréolo-mamilar, a espessura dos tecidos que cobrem a região do decote e avaliar a existência de acúmulos localizados de gordura na zona axilar. Todos estes parâmetros vão influenciar a escolha da técnica a utilizar. É igualmente importante saber se a paciente já foi mãe e amamentou ou se ainda pretende fazê-lo, se teve oscilações de peso que alteraram o volume da mama ou quais os seus hábitos de vida, nomeadamente desportivos. Com estas informações, podemos sugerir a melhor técnica a utilizar, se faz sentido utilizar próteses mamárias e quais as suas caraterísticas, ou recorrer a técnicas auxiliares como os enxertos de gordura. A reconstrução mamária depois de doença oncológica pode ajudar uma mulher a reencontrar-se com o corpo. O que mudou nos últimos anos na forma como se olha para esta etapa do tratamento? Há alguns anos atrás, a reconstrução mamária era oferecida a apenas a um grupo limitado de mulheres. Atualmente, com as técnicas disponíveis, praticamente todas a mulheres poderão ser candidatas a alguma forma de reconstrução mamária. Serão poucos os casos em que, por motivos de estado clínico ou de tratamentos inadiáveis, não se possa fazer algum tipo de intervenção. É uma etapa fundamental no processo de tratamento do carcinoma da mama. Devolve a aparência feminina à mulher, aumentando a sua autoestima e permitindo que encare o tratamento da sua doença e o processo de recuperação com mais confiança. O contorno corporal é muitas vezes visto apenas como estética, mas pode envolver gravidez, grandes perdas de peso, flacidez, desconforto físico, lipedema ou alterações que condicionam a vida diária. Quando é que a cirurgia deixa de responder apenas à imagem e passa também a devolver conforto, mobilidade e qualidade de vida? Há muitos casos em que as alterações corporais decorrentes das situações descritas são tão significativas que têm um impacto importante no dia-a-dia dos pacientes. O excesso de pele e flacidez podem condicionar atos simples como a higiene diária, o caminhar, a utilização de vestuário ou a realização de atividade física ligeira. As zonas mais afetadas são a região abdominal, mamas, coxas e pernas. Nestas situações, a cirurgia é verdadeiramente modificadora do estilo de vida, permitindo às pessoas tornarem-se mais ativas e funcionais para as tarefas diárias. Com a crescente utilização de fármacos para emagrecer e com perdas de peso cada vez mais rápidas e significativas, há um novo desafio: excesso de pele, flacidez, alterações no rosto, na mama ou no contorno corporal? A utilização de inibidores GLP-1 é uma realidade instalada. A perda significativa e rápida de peso tem como consequência flacidez e excesso de pele, principalmente ao nível do rosto, da mama e da região abdominal. A procura por cirurgias de contorno corporal e mama, como a abdominoplastia e a mastopexia, e de face, como a lifting facial, como consequência da utilização destes fármacos, tem sido crescente. Estas cirurgias vão permitir adequar a estética corporal ao novo peso e estilo de vida. Vão inclusivamente motivar o paciente a continuar com os novos hábitos e manter um estilo de vida saudável. Antes de ponderar avançar com alguma intervenção cirúrgica, o paciente deve ter um acompanhamento médico especializado, plano nutricional otimizado, hábitos de atividade física e o seu peso estabilizado. Deve ser realizada uma consulta de anestesia, para otimização pré-operatória, incluindo a gestão da suspensão da terapêutica farmacológica e a requisição dos meios complementares de diagnóstico considerados pertinentes. A paralisia facial altera o sorriso, o olhar e a expressão emocional. O que muda na vida de uma pessoa e até onde pode a cirurgia ajudar a devolver função, simetria e confiança? A paralisia facial tem um impacto muito grande na vida do paciente. As relações interpessoais, familiares ou sociais ficam prejudicadas e isto tem impacto na saúde mental. A Cirurgia Plástica tem diversas hipóteses de tratamento a oferecer, dependendo de há quanto tempo ocorreu a paralisia e da sua gravidade. No entanto, é fulcral gerir as expectativas dos pacientes, pois nesta área muitas vezes o resultado dos tratamentos pode ficar aquém da expectativa gerada. Existem tratamentos mais simples e que simetrizam o rosto, como a toxina botulínica ou cirurgias de simetrização facial. Para casos mais graves, existem cirurgias de reanimação dinâmica, que são mais complexas, mas produzem resultados mais significativos, principalmente naqueles pacientes com grave compromisso da capacidade de encerramento do olho ou a nível do sorriso. O que é possível fazer hoje no tratamento de cicatrizes e que expectativas devem ser bem explicadas ao doente? As cicatrizes são marcas permanentes, mas que podem ser atenuadas. É interessante ver que há pacientes com cicatrizes muito extensas e que não lhes causa incómodo; e por outro lado, pacientes com cicatrizes pequenas e disfarçadas, podem ter um incómodo muito significativo. É por isso muito importante perceber o objetivo do tratamento e gerir as expectativas. O tratamento das cicatrizes é frequentemente multimodal. Passa por tratamentos tópicos, injetáveis, lasers e cirurgia. É um tratamento moroso, passa por várias etapas, depende do tipo de pele do paciente e da sua adesão ao tratamento. Mas muitas vezes conseguimos chegar ao ponto em que a cicatriz se torna praticamente impercetível e que não causa incómodo. Que literacia considera urgente passar ao público sobre segurança, escolha do médico, limites da cirurgia, bom senso e responsabilidade clínica? Cada vez há mais procura por tratamentos estéticos e cada vez há mais oferta. Os pacientes devem fazer uma escolha informada e não baseada em informações pouco claras ou tendências promovidas pelas redes sociais. Devem escolher profissionais qualificados para a realização dos procedimentos, e para isso podem consultar as páginas oficiais da Ordem dos Médicos e das Sociedades das várias Especialidades acerca da especialização, competências e áreas de formação dos profissionais. Na era digital em que vivemos com uma imensa disponibilização de conteúdos, é importante validar a credibilidade das fontes de informação, e nós médicos temos que ter responsabilidade e rigor na informação que disponibilizamos, nomeadamente nos canais digitais. E por último, essencial quando falamos de Cirurgia Plástica e Estética, é falar de gestão de expectativas. A consulta é um momento crucial para uma decisão informada, e na qual o paciente pode expor as suas preocupações e dúvidas. E conjuntamente com o seu médico, optar pelo tratamento mais adequado tendo em conta a sua anatomia, objetivos, sempre com respeito pelos limites técnicos e de segurança dos procedimentos. Instagram: @bernardocorreia.plastica Facebook: Bernardo Correia Site: bernardocorreia.pt “A harmonização facial também é para homens” “O medo não é sermos substituídos pelas máquinas. É começarmos a viver como elas”
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