LADO B/LADO B “A fotografia ensinou-me a olhar para os outros. A vida obrigou-me a aprender a olhar para mim” By Revista Spot | Julho 25, 2026 Julho 25, 2026 Share Tweet Share Pin Email Aida Oliveira passa grande parte dos seus dias a pedir aos outros que parem diante da sua câmara. O desafio mais difícil, porém, tem sido aprender a parar ela própria. Fotógrafa, mãe, mulher ativa e criadora inquieta, habituou-se desde cedo a cuidar, antecipar problemas e tentar resolver a vida de quem estava à sua volta. Até perceber que, algures nesse movimento, se tinha colocado para trás. Hoje, o treino é inegociável, a fotografia tornou-se verdade e vulnerabilidade e os projetos multiplicam-se entre o macramé e os primeiros livros infantis que está a escrever e ilustrar. Mas a maior transformação aconteceu por dentro: Aida aprendeu a estabelecer limites, a aceitar que nenhuma vida é perfeita e a trocar a necessidade de controlar tudo por uma palavra mais simples: paz. Antes de seres a Aida que as pessoas conhecem hoje, fotógrafa, mãe, criadora e empreendedora, houve certamente versões tuas que ficaram pelo caminho. Que Aida já não és? Já não sou aquela Aida tão inocente, excessivamente romântica e, talvez, um pouco ingénua. Continuo a ser muito sensível ao mundo, às pessoas e ao que acontece à minha volta. Isso não mudou. Mas hoje sou muito mais realista e tenho os pés muito mais assentes no chão. Acho que a vida nos vai retirando algumas ilusões, mas também nos dá outra clareza. Não significa que deixemos de acreditar ou de sentir. Significa apenas que começamos a olhar para as coisas como elas são, e não apenas como gostaríamos que fossem. Muitas mulheres habituam-se a colocar tudo à frente: os filhos, o trabalho, os clientes, a casa e as urgências dos outros. Houve um momento em que percebeste que também tinhas de entrar na tua própria lista de prioridades? Houve um momento em que tive de me salvar a mim própria. E acho que, muitas vezes, não seria necessário chegarmos a esse limite para percebermos que também precisamos de cuidar de nós. Mas, no meu caso, foi aí que aconteceu a mudança. Não teve diretamente a ver com a maternidade, com o trabalho ou com o facto de ter uma vida ocupada. Teve a ver com perceber que eu não me estava a priorizar. Durante muito tempo, preocupei-me em resolver os problemas dos outros, em garantir que toda a gente estava bem e em estar sempre disponível. Cheguei a um ponto em que precisei de encontrar novamente o meu lugar na minha própria vida. Aliás, nem sei se foi reencontrar. Talvez tenha sido encontrá-lo pela primeira vez. A maternidade transforma tudo, mas também pode fazer com que uma mulher se procure no meio de muitas responsabilidades. O que é que a maternidade te deu, te tirou ou te obrigou a reconstruir em ti? Não sinto que a maternidade me tenha tirado alguma coisa. Naturalmente, as rotinas mudaram e houve momentos muito exigentes, sobretudo nos primeiros anos. Antes de ser mãe, era muito organizada e, durante algum tempo, senti que tinha perdido esse controlo. Hoje, com três crianças em casa, sinto que voltei a ter a vida organizada. A organização e o planeamento tornaram-se fundamentais. Aprendi que não conseguimos controlar tudo, mas podemos criar uma estrutura suficientemente flexível para que a vida aconteça lá dentro. Também quero que as crianças cresçam a perceber que são capazes. Faço questão de que assistam às provas em que participo, de que vejam o esforço, o cansaço e a superação. Quero que compreendam que ninguém nasce a conseguir tudo. Vamos descobrindo aquilo de que somos capazes à medida que avançamos. Durante muito tempo, ajudaste outras pessoas a olharem para si através da fotografia. Quando começaste a cuidar mais do teu corpo através do treino, sentiste que também estavas a regressar a ti? Comecei a praticar desporto por volta dos 30 anos. Estava de férias, vi-me em algumas fotografias e percebi que o meu corpo estava a mudar. Inicialmente, foi uma motivação física. Comecei por treinar duas vezes por semana, depois três, passei pelo CrossFit e, atualmente, faço sobretudo treino híbrido, com corrida, resistência e carga. Entretanto, deixou de ser apenas uma questão física. O desporto tornou-se parte da minha vida e da forma como organizo os meus dias. Não acordo a pensar se vou treinar. Vou treinar. A única questão é perceber onde consigo encaixar esse momento. Hoje, o treino é inegociável porque não cuida apenas do meu corpo. Organiza-me mentalmente, limpa-me a cabeça e devolve-me uma sensação de força e de presença. O treino é disciplina e superação, mas também confronto com limites, frustração e persistência. O que descobriste sobre ti quando percebeste que o teu corpo era capaz de mais do que imaginavas? Descobri que sou capaz. Parece uma resposta simples, mas essa perceção transforma muita coisa. Quando conseguimos ultrapassar um limite físico que parecia impossível, começamos a acreditar que também conseguiremos enfrentar outras coisas na vida. O corpo oferece-nos uma prova concreta de que somos mais fortes do que pensávamos. O desporto trouxe-me também uma comunidade muito bonita. Há dias em que somos nós que puxamos por alguém que está cansado e há outros em que é essa pessoa que nos puxa. Não estamos sempre fortes ao mesmo tempo. E perceber que podemos caminhar acompanhados também é uma forma de força. Depois do teu próprio percurso de cuidado, maternidade e transformação, sentes que passaste a fotografar as mulheres de outra maneira? Acho que as mulheres têm muita dificuldade em ver-se de fora. Muitas vezes, não conseguem perceber como os outros realmente as veem. Olham para si e encontram imediatamente um problema, uma imperfeição ou alguma coisa que gostariam de mudar. O meu trabalho não passa apenas por produzir uma fotografia bonita. Para mim, é muito mais importante a conversa que temos, o momento que vivemos e aquilo que a pessoa começa a perceber sobre si durante a experiência. Não sou psicóloga, evidentemente. Mas tento partilhar uma ideia muito simples: a vida não é perfeita para ninguém. Aquela pessoa que parece ter uma vida perfeita também tem medos, dias difíceis e inseguranças. Só quem está dentro de cada casa sabe verdadeiramente o que lá acontece. A fotografia pode ser uma forma de mostrar a uma mulher uma versão de si que ela já não conseguia reconhecer. Num tempo em que a inteligência artificial permite criar rostos, corpos e cenários perfeitos, o que continua a distinguir uma fotografia verdadeiramente vivida? A fotografia é uma imagem, mas essa imagem tem de nos levar a um momento que vivemos. Quando olhamos para ela, devemos conseguir lembrar-nos de onde estávamos, do que sentíamos e das pessoas que estavam connosco. A inteligência artificial pode criar imagens muito bonitas e é uma ferramenta extraordinária. Mas interrogo-me sobre aquilo que uma pessoa sente quando olha para uma imagem que não corresponde a um momento real da sua vida. Onde é que aquela imagem a leva? A inteligência artificial vem revolucionar o mundo da fotografia, mas também acredito que ajudará a distinguir os clientes que procuram apenas um resultado visual daqueles que valorizam a experiência, a memória e o sentimento. E é esse segundo cliente que me interessa. Não quero criar apenas uma imagem perfeita. Quero criar alguma coisa que tenha acontecido. As fotografias mostram rostos, famílias, gestos e momentos. Mas existe sempre uma parte da vida que fica fora do enquadramento. O que é que talvez não vejam quando olham para a Aida Oliveira? Talvez não vejam os dias em que nada corre como estava planeado. Os momentos de exaustão, as dúvidas, a desorganização ou as vezes em que também me sinto perdida. Posso dizer que tenho uma vida organizada e essa é, de facto, a regra geral. Mas também há dias caóticos, discussões, lágrimas e momentos em que tudo parece demasiado. Isso é a vida real. Não tenho qualquer interesse em transmitir a ideia de que a minha vida é perfeita. Nenhuma vida é. A maturidade talvez passe por aceitarmos que nem tudo está sob o nosso controlo e que um dia mau não significa que esteja tudo errado. É preciso respirar, avançar mais devagar e acreditar que as coisas acabarão por se alinhar. Depois de anos a criares imagens com o olhar, começaste também a desenvolver peças em croché e macramé. O que encontraste nesse trabalho manual? Faço croché há cerca de dois anos e comecei precisamente como uma forma de terapia. O macramé é uma paixão mais recente. É um momento em que fico concentrada no movimento das mãos, mas, ao mesmo tempo, consigo estar com os meus pensamentos. Muitas vezes, vou resolvendo interiormente algumas coisas enquanto estou a criar. A pequena marca que comecei não nasceu com a pressão de se tornar a minha profissão. Não estou a colocar nelas uma obrigação económica. É um espaço de criatividade e de prazer. Cheguei a um ponto em que já tinha tantas peças em casa que pensei que talvez fosse bonito partilhá-las com outras pessoas. Também estou a escrever e a ilustrar pequenos contos infantis. A ideia é conseguir transmitir às crianças algumas das aprendizagens que muitos de nós só fazemos aos 40 anos: a importância de não se deixarem sempre para o fim, de aceitarem as suas imperfeições e de acreditarem naquilo que são capazes de fazer. As crianças cá de casa foram as primeiras a ouvir as histórias. E adoraram. Quando já se é reconhecida numa área, começar um novo projeto significa voltar a aprender e mostrar uma parte ainda desconhecida de nós. Não tens medo de começar outra vez? Hoje vivo estes projetos de uma forma muito diferente daquela com que vivi a abertura do meu estúdio. Quando abri o estúdio, era tudo ou nada. Tinha investido aquilo que possuía e precisava que resultasse. Existia uma verdadeira preocupação de sobrevivência. Agora não sinto essa pressão. Posso experimentar, criar, errar e deixar que cada projeto encontre o seu momento. Não preciso de controlar o ritmo a que tudo acontece. Se pudesse falar com a Aida daquela altura, dir-lhe-ia que ela pode estar orgulhosa. Conseguiu colocar em prática grande parte daquilo que sonhava. Talvez ainda não tudo, porque continuo a ter milhares de ideias, mas construiu uma vida que antes apenas imaginava. Existe a Aida mãe, a fotógrafa, a mulher que treina, a criadora, a cuidadora e a mulher que está a aprender a cuidar de si. O que é hoje inegociável na tua vida? Durante muito tempo, a minha palavra preferida foi liberdade. Hoje é paz. Aprendi a estabelecer limites e a perceber que posso continuar a ajudar os outros sem deixar de me ajudar a mim. Sempre fui cuidadora. Desde muito nova que sinto a necessidade de perceber se as pessoas estão bem, de resolver problemas e de não ser indiferente ao sofrimento de alguém. Não quero perder essa parte de mim. Para mim, as coisas só fazem verdadeiramente sentido quando também envolvem os outros. Mas precisei de perceber que não posso resolver a vida de toda a gente e que não devo desaparecer enquanto tento fazê-lo. Hoje sinto-me realizada, embora continue a ser um caminho. Ainda tenho muito para aprender e muitos projetos para concretizar. Neste momento a minha “urgência” é aprender a parar sem culpa. Morada: Rua Dr. Justino Cruz no 154, 1o Andar, Sala 5 4700-314 Braga Email: aida.oliveira@outlook.pt Contacto: 963 436 162 Facebook: Estúdio De Fotografia – Aida Oliveira Instagram: @aidaoliveira Site: HYPERLINK “https://aidaoliveira.wixsite.com/estudiofotografico “A água devolve liberdade ao corpo que a gravidez está a transformar” “A partir dos 40, sinto que começamos a conhecer e a ouvir o nosso corpo de outra forma”
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