Bebés/Pré - Natal/SAÚDE DA MULHER/Saúde Infantil “Estamos perante uma geração de mães mais informadas, mas também mais pressionadas a fazer tudo bem” By Revista Spot | Dezembro 5, 2025 Dezembro 7, 2025 Share Tweet Share Pin Email Num tempo em que a maternidade se tornou um território público opinado, escrutinado e romantizado, a enfermeira Daniela Ribeiro trabalha no contexto onde tudo volta a ser íntimo: o encontro entre uma mãe e o seu bebé. A amamentação, tantas vezes vendida como instinto, revela-se um exercício de técnica, biologia e delicadeza emocional. E é precisamente aqui que esta nova geração de mães tropeça: são mais informadas, mas também mais vigiadas, mais competentes e simultaneamente mais culpabilizadas. Nas consultas prévias ao parto, Daniela Ribeiro alinha expectativas, desmonta mitos e treina aquilo que mais protege o início desta jornada: confiança e técnica. No pós-parto, onde a vulnerabilidade é máxima, a sua intervenção precoce corrige pegas, evita fissuras, reduz risco de mastite e impede desmames involuntários. A laserterapia acrescenta precisão clínica, acelerando cicatrizações e devolvendo conforto. Mas o trabalho maior é outro: recentrar a família, envolver o pai, aliviar culpas, devolver humanidade. Porque amamentar não é perfeição, é relação, regulação e presença. A amamentação é muitas vezes descrita como algo natural, mas a realidade mostra que nem sempre é intuitiva. Quais são hoje os principais mitos ou ideias erradas que ainda dificultam o início da amamentação? Apesar de ser um comportamento profundamente biológico, a amamentação nem sempre é intuitiva e esse é precisamente um dos maiores mitos que ainda hoje dificultam o seu início. Existe uma crença generalizada de que “todas as mulheres sabem amamentar por instinto”, como se bastasse colocar o bebé na mama e tudo acontecesse de forma automática. Outro mito fortemente enraizado é a ideia do “leite fraco”. Sempre que há um comportamento do bebé que os adultos não conseguem justificar, como pedir colo, querer mamar mais vezes, ter noites agitadas ou fases de crescimento, a culpa recai imediatamente no leite materno. Como se fosse preciso encontrar uma razão concreta para tudo, e como se a responsabilidade estivesse sempre no corpo da mãe. Este mito sobrevive porque ainda falta muita literacia sobre o que é normal no bebé humano. E, infelizmente, o nosso sistema de saúde, tanto público, como privado, continua muitas vezes a reforçar essa culpa, prescrevendo suplementação com leite adaptado sem antes avaliar aquela amamentação, otimizar e apoiar a díade mãe/bebé. Qual a importância de uma consulta de amamentação na gravidez? Que tipo de preparação física, emocional e prática pode fazer a diferença nos primeiros dias com o bebé? A Consulta de Amamentação na Gravidez faz toda a diferença porque a preparação na gravidez é leveza no pós-parto. Nos primeiros dias com o bebé, a mãe está emocional e fisicamente vulnerável, não é o melhor momento para aprender tudo de raiz. Quando chegamos a essa fase já com conhecimento, confiança e expectativas alinhadas, tudo se torna mais simples e seguro. A preparação integra três dimensões que se entrelaçam. A dimensão física envolve aprender a alcançar uma pega eficaz, explorar posicionamentos, compreender como se produz o leite e saber prevenir dor, fissuras e ingurgitamento. Ao dominar estes fundamentos, reduzem-se complicações e abre-se caminho para um início mais tranquilo. A dimensão emocional reforça a autoconfiança, diminui o medo do desconhecido e ajuda a mãe a lidar com o choro, o cansaço e a pressão externa, uma verdadeira viagem de autoconhecimento e autoestima. Já a dimensão prática prepara para o que acontece nas primeiras 48 horas, orienta sobre o envolvimento do parceiro, os sinais de dificuldade e o momento certo para procurar apoio. Esta preparação permite que a família viva o pós-parto com mais calma, presença e segurança. No fundo, preparar a amamentação antes de o bebé nascer é garantir que os primeiros dias são mais serenos, porque a família já sabe o que fazer, como fazer e porque o está a fazer. O pós-parto é uma fase de grande vulnerabilidade. Quais são as dificuldades mais frequentes que as mães enfrentam nas primeiras semanas e como pode uma intervenção precoce evitar o desmame precoce? O pós-parto é uma fase de grande vulnerabilidade e, nas primeiras semanas, as dificuldades mais frequentes estão quase sempre ligadas à pega ineficaz e, como consequência, à dor ao amamentar. Ainda existe a ideia errada de que “é normal doer, tens de aguentar até calejar”, mas a verdade é que a dor não é parte natural da amamentação, é um sinal de que algo precisa de ser avaliado e ajustado. Esta dor é, aliás, uma das principais causas de desmame precoce, muitas vezes porque as mães não têm o apoio necessário para ressignificar a amamentação e recuperar a confiança no seu corpo. É aqui que a intervenção precoce faz toda a diferença: uma avaliação completa da amamentação na primeira semana de vida do bebé permite corrigir a pega, o posicionamento e a dinâmica da mamada antes que o problema evolua. Quando aliamos isso a conhecimento adquirido ainda na gravidez, criamos as condições ideais para uma amamentação confortável, eficaz e sustentável. No fundo, prevenir e acompanhar de perto nos primeiros dias não só reduz dificuldades, como protege a saúde emocional da mãe e evita que os desafios contribuam para a interrupção da amamentação. Muitas famílias enfrentam o tema das cólicas com ansiedade. Que papel têm a pega, a posição e o padrão de sucção na prevenção ou alívio das cólicas? As cólicas são de etiologia multifatorial e podem surgir por vários motivos, desde imaturidade gastrointestinal, desconforto físico ou emocional, hiperestimulação, ritmo de crescimento, alterações do microbioma ou até desafios na amamentação. Neste último ponto, a pega, a posição e o padrão de sucção têm um papel importante na prevenção e no alívio das cólicas. Uma pega pouco eficaz pode levar o bebé a engolir mais ar, aumentando o desconforto abdominal. Já uma posição inadequada interfere com a coordenação entre sucção, deglutição e respiração, tornando a mamada mais tensa e favorecendo a entrada de ar. Por isso, garantir uma amamentação eficiente é uma estratégia simples e altamente eficaz: melhora a coordenação do bebé, reduz a entrada de ar, promove digestões mais tranquilas e ajuda a aliviar grande parte do desconforto que muitas famílias associam às cólicas. “Existe uma crença generalizada de que todas as mulheres sabem amamentar por instinto” Tem-se falado muito no uso da laserterapia em casos de fissuras, ingurgitamento ou mastite. Como atua esta tecnologia e em que situações se revela mais eficaz e segura? O laser de baixa potência tem vindo a ganhar espaço no apoio à amamentação porque oferece uma intervenção rápida, segura e altamente eficaz na redução da dor e da inflamação. Atua através da fotobiomodulação, um processo em que a luz laser estimula as células a regenerar o tecido, melhorar a circulação, diminuir o edema e acelerar a cicatrização, tudo isto sem efeitos secundários, sendo totalmente seguro para mãe e bebé, quando usado por profissionais capacitados. Em Portugal, apesar do acesso a esta ferramenta ainda estar mais concentrado no setor privado, devido à escassez de formação especializada e de equipamentos apropriados, os resultados clínicos têm sido tão positivos que o interesse tem aumentado. É precisamente por reconhecer esta lacuna que estou a desenvolver um trabalho de investigação académico, com o objetivo de produzir evidência científica nacional e contribuir para que o laser seja, no futuro, um recurso mais acessível e valorizado nas práticas de amamentação em Portugal. O laser revela-se um recurso particularmente eficaz em várias situações que podem surgir durante a amamentação. Nas fissuras mamilares, acelera a cicatrização e reduz de forma muito significativa a dor, permitindo que a mãe continue a amamentar enquanto recupera. No ingurgitamento, atua diminuindo o edema e a inflamação, facilitando a drenagem do leite e trazendo alívio quase imediato. Em casos de mastite, contribui para reduzir a dor e a inflamação, promove uma melhor drenagem e, muitas vezes, impede que o quadro evolua. Também se mostra útil na obstrução dos ductos, ajudando a desinflamar, a melhorar o fluxo do leite e a prevenir complicações. No vasoespasmo, melhora a circulação local e atenua aquela sensação de ardor e dor intensa. Já na candidíase mamária, a sua ação antimicrobiana ajuda a controlar o fungo e a diminuir o desconforto associado. Quando aplicado com a dosimetria correta e sempre aliado à avaliação da pega e da técnica de amamentação, o laser torna-se um aliado poderoso para minimizar complicações e promover uma experiência de amamentação mais confortável e segura. O regresso ao trabalho é um dos momentos mais delicados para muitas mães. Que estratégias recomenda para manter o vínculo e a continuidade da amamentação neste período? O regresso ao trabalho pode ser um momento sensível, mas não precisa de significar o fim da amamentação. O que realmente faz a diferença é o planeamento e a preparação. Quando a mãe compreende as necessidades de leite do bebé durante a sua ausência e organiza a extração de forma adequada, é perfeitamente possível manter tanto o vínculo como a continuidade da amamentação. A escolha da bomba extratora certa, do funil adequado, a aprendizagem do seu funcionamento e o conhecimento dos dispositivos de oferta mais compatíveis com a amamentação são passos essenciais para que o bebé continue a receber leite materno de forma segura e sem comprometer a amamentação. Por isso, a Consulta de Amamentação e Regresso ao Trabalho torna-se fundamental: é nela que se constrói um plano personalizado para aquela família, que se esclarecem direitos laborais, que se planeiam horários, rotinas, quantidades e estratégias práticas para que o cuidador ofereça o leite ao bebé sem interferir com a amamentação direta. Com preparação, conhecimento e apoio, o regresso ao trabalho deixa de ser um ponto de rutura e transforma-se num capítulo de continuidade, confiança e conexão. Como se conduz um desmame que respeite tanto a mãe como o bebé? Quais são os sinais de que chegou o momento certo e como evitar culpas ou pressões externas? Conduzir um desmame que respeite a mãe e o bebé significa reconhecer que esta transição envolve biologia, vínculo e emoção. O desmame deve ser gradual, permitindo que o corpo da mãe ajuste a produção sem dor ou ingurgitamento e que o bebé se adapte sem sentir uma rutura abrupta no seu padrão de regulação emocional. A neurociência mostra-nos que a amamentação é mais do que nutrição: é um regulador de stress, um promotor de segurança e um espaço de conexão. Por isso, os sinais de que chegou o momento certo raramente são apenas técnicos, são relacionais. O momento é adequado quando a mãe sente, de forma consistente, que já não deseja manter a amamentação ou que precisa de reajustar a sua rotina para preservar o seu bem-estar; e/ou quando o bebé demonstra capacidade crescente de se acalmar de outras formas, aceitar outras estratégias de conforto, manter o vínculo mesmo sem recorrer sempre à mama, começar a compreender pequenos comandos e a expressar-se, começar a dizer não, ser capaz de resistir por períodos, quer regular o peito e alternar constantemente de uma mama para a outra. Para evitar culpas ou pressões externas, é fundamental lembrar que o desmame não é um fracasso, mas sim uma etapa natural do desenvolvimento e que a melhor decisão é sempre aquela que protege a saúde emocional da díade. Apoio especializado, validação e um plano individualizado ajudam a mãe a viver este processo com mais leveza, segurança e coerência com os seus valores. O desmame pode ser um ato de cuidado profundo, quando é guiado por conhecimento, respeito e escuta ativa das necessidades da mãe e do bebé. “No pós-parto, onde a vulnerabilidade é máxima, a intervenção precoce corrige pegas, evita fissuras, reduz risco de mastite e impede desmames involuntários” Que papel deve ter o pai (ou outro cuidador) neste processo? Na parentalidade, não existem papéis separados ou funções divididas, existe uma equipa unida por um único objetivo: cuidar do bebé e criar um ambiente seguro, conectado e regulado para toda a família. Cada cuidador significativo tem um lugar essencial neste processo, incluindo na amamentação, contribuindo para que este caminho seja vivido com mais leveza e apoio mútuo. No contexto da amamentação, o cuidador pode assumir responsabilidades que fazem toda a diferença: apoiar a mãe no descanso, preparar o ambiente, ajudar na gestão das rotinas, oferecer contacto pele a pele ao bebé, acalmar o bebé, organizar o espaço e até assumir parte das tarefas logísticas (como higiene, refeições, cuidados com a casa). Isto não só fortalece o vínculo com o bebé, como reduz a sobrecarga materna e promove a estabilidade emocional da família. E como podemos promover uma parentalidade mais partilhada e informada? Para cultivarmos uma parentalidade verdadeiramente partilhada e informada, é essencial que ambos os cuidadores tenham acesso ao mesmo conhecimento sobre amamentação, desenvolvimento infantil, sono, necessidades emocionais e comunicação da tríade familiar. Quando ambos entendem o “porquê” das coisas, as decisões deixam de ser um peso e tornam-se escolhas conscientes e alinhadas. A parentalidade não é sobre dividir tarefas, é sobre partilhar intenções, presença e responsabilidade. Quando a mãe sente que não está sozinha e o pai/cuidador se sente competente e envolvido, cria-se um ambiente de segurança que beneficia toda a família e especialmente o bebé. O impacto emocional da amamentação é muitas vezes subvalorizado. Como lidar com o cansaço, a culpa e a comparação nas redes sociais, e quando é importante pedir ajuda? O impacto emocional da amamentação é profundo e, muitas vezes, subvalorizado. Para muitas mães, o cansaço, a culpa e a comparação tornam-se companheiros constantes, mas tudo isto pode ser aliviado quando existe gestão de expectativas e compreensão do comportamento expectável do bebé. Bebés muito pequeninos têm um padrão neurológico imaturo: são mais ativos à noite, mais tranquilos de manhã e precisam de muito contacto, colo e proximidade. Por isso, sempre que possível, os pais devem ajustar o descanso ao ritmo do bebé, e não ao contrário. A comparação, especialmente nas redes sociais, é inevitável, mas raramente justa. Aquilo que vemos online é apenas o recorte perfeito de uma realidade imperfeita. Não há Pós-partos perfeitos, há Pós-partos acompanhados, preparados e mais leves. Quando os pais se munem de informação baseada em evidência, compreendem melhor o que é esperado e deixam de temer sempre que alguém opina sobre a sua jornada. Pedir ajuda torna-se essencial sempre que há dor, exaustão que afeta o bem-estar, dificuldade em interpretar sinais do bebé ou quando a culpa começa a substituir o prazer da maternidade. A ajuda certa, técnica, emocional e humana não é sinal de fragilidade, mas um ato de coragem, autocuidado e amor-próprio, que transforma a experiência da amamentação em algo mais seguro e sustentado. “Estou a desenvolver um trabalho de investigação académico, com o objetivo de produzir evidência científica nacional e contribuir para que a laserterapia seja, no futuro, um recurso mais acessível e valorizado nas práticas de amamentação em Portugal” Que mudança gostaria de ver na forma como a sociedade olha para a amamentação e o cuidado nos primeiros meses de vida? Gostava muito de ver uma mudança profunda na forma como a sociedade observa a maternidade, a amamentação e o cuidado nos primeiros meses. Hoje temos mães mais informadas, sim, mas também mais pressionadas a “acertar” em tudo. E isso pesa. A mudança que gostaria de ver começa por reduzir as opiniões não solicitadas, que muitas vezes magoam mais do que ajudam. Frases como “ter dor ao amamentar é normal” ou “o teu bebé chora porque o teu leite é fraco” deveriam desaparecer de vez. São mitos que geram culpa, insegurança e desvalorizam a competência das mulheres. Gostava também que a sociedade entendesse que apoiar uma mãe não é pegar no bebé, é libertar a mãe para cuidar dele. Ajuda real é pendurar a roupa, arrumar a cozinha, preparar uma refeição, criar espaço para descanso. O cuidado do bebé deve permanecer nas mãos dos pais, porque é ali que acontece o vínculo, a segurança emocional e a base da regulação do bebé. No fundo, a mudança que desejo é simples: menos julgamentos, mais acolhimento; menos opiniões, mais suporte; menos pressão, mais humanidade. Deste modo, cada família poderia viver o início da sua jornada com mais confiança, leveza e respeito. Instagram: @enfdanielaribeiro Marcações: linktr.ee/enfdanielaribeiro “A pálpebra e a órbita estão intimamente ligadas à identidade facial, reconstruí-las é devolver à pessoa a imagem que o espelho deixou de refletir” “Num país onde mais de metade da população vive com dor e stress crónico, cresce a urgência de respostas que olhem para a saúde além do sintoma”
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