Cirurgia “Entre reconstrução e identidade, a Cirurgia Plástica pode começar numa cicatriz, num pós-parto, numa perda de peso ou numa doença oncológica” By Revista Spot | Março 13, 2026 Março 19, 2026 Share Tweet Share Pin Email A Cirurgia Plástica é quase sempre associada à estética. Mas esta especialidade começa muito antes disso: numa cicatriz, numa gravidez, numa perda de peso abrupta, numa doença, num acidente ou numa imagem que deixou de coincidir com a forma como a pessoa se sente por dentro. Entre reconstrução e identidade, entre o que precisa de ser reparado e o que pode ser devolvido com rigor, medida e responsabilidade, a realidade é muito mais vasta e exigente. Há queimados, doentes oncológicos, mãos feridas, faces traumatizadas, pós-operatórios complexos e decisões que pedem não só técnica, mas também escuta e sentido ético. Leonor Rios, médica especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, conhece bem esse território onde cada decisão obriga a pesar limites, expectativas e verdade clínica. Num tempo em que o corpo se expõe, se compara e se corrige à velocidade das redes sociais, lembra que operar continua a ser um ato médico sério. O que é que a levou a escolher a Cirurgia Plástica? Durante a licenciatura, cedo percebemos quais as especialidades com que nos identificamos menos. Eu sabia que não queria determinadas especialidades. Já quase no final, fiz um estágio em Faro onde tive o meu primeiro contacto com a Cirurgia Plástica. A forma como fui recebida marcou-me e gostei da especialidade, embora a prática fosse muito diferente daquela que tenho hoje. Mais tarde, vivi um momento pessoal muito duro, com a doença terminal da minha mãe, e isso fez-me perceber que não queria trabalhar numa área em que, muitas vezes, temos de dar respostas ambíguas, sem conseguir oferecer uma solução clara. Eu queria uma especialidade cirúrgica, objetiva, resolutiva. E a Cirurgia Plástica tem isso: permite-nos melhorar a vida das pessoas de forma muito concreta, devolver bem-estar, autoestima, qualidade de vida. Mas, ao mesmo tempo, é uma especialidade muito mais complexa do que o público imagina. Não vive só da estética: trata os grandes queimados, os politraumatizados, cirurgia da mão e da face, a oncologia cutânea e da cabeça e pescoço. Numa consulta de Cirurgia Plástica, como é que distingue um desejo legítimo de uma expectativa irrealista? Essa talvez seja uma das partes mais delicadas e mais importantes da consulta. Já disse que não a várias pessoas, porque nem tudo o que alguém pede é clinicamente aceitável, seguro ou sequer compreensível do ponto de vista médico. Lembro-me, por exemplo, de uma doente que me pediu para lhe retirar o clítoris. Disse-lhe imediatamente que não, que não fazia sentido para mim e que não o faria. Depois há situações menos extremas, mas igualmente difíceis, em que a pessoa projeta no corpo uma expectativa inatingível. E aí entra uma parte muito fina da medicina, que não se aprende nos livros: observar, ouvir, perceber a pessoa à nossa frente, os seus gestos, a forma como fala de si, aquilo que realmente procura. A consulta é demasiado curta, mas é ali que tentamos perceber se o desejo é realista, se é tecnicamente exequível e se a pessoa está à espera de algo possível ou de uma transformação impossível. Costumo dizer, meio a brincar mas também a falar a sério, que “não é de qualquer barro que se faz porcelana Vista Alegre”. E é mesmo assim: há limites técnicos, biológicos e humanos. Felizmente, hoje em dia, muitos dos meus pacientes chegam até mim por referenciação direta, de outros pacientes ou de colegas, e isso ajuda, porque já existe um ponto de confiança e alguma afinidade de perfil. Quais são, para si, os princípios fundamentais antes de marcar uma cirurgia e o que considera verdadeiramente inegociável? Há aspetos que, para mim, não são negociáveis. O primeiro é a segurança. Nunca trabalhei, nem trabalharia, em locais que não oferecessem condições clínicas adequadas. Pode haver complicações em qualquer cirurgia, mesmo quando tudo é feito corretamente, mas operar num hospital ou numa clínica com todas as condições dá-me a tranquilidade de saber que estou a oferecer àquela pessoa o melhor. Depois há fatores que tento sempre negociar e otimizar antes da cirurgia, como o tabagismo, o excesso de peso, as comorbilidades, a medicação, o risco tromboembólico ou o plano de recuperação e controlo da dor. Na Cirurgia Plástica, o impacto do tabaco vê-se na pele: nas cicatrizes, na vascularização, no envelhecimento. Sempre que possível, opero a pessoa no seu melhor! Claro que há exceções, por exemplo, um doente oncológico nem sempre pode esperar, mas sempre que há margem, o objetivo é esse, reduzir risco, preparar bem e acompanhar de forma séria no pós-operatório. A Cirurgia Plástica mudou nos últimos anos? Quais são hoje as principais motivações dos pacientes e onde sente que ainda falta literacia? Mudou, sem dúvida. E mudou por várias razões. Por um lado, as redes sociais democratizaram a Cirurgia Plástica. Fala-se mais sobre o corpo, expoe-se o que existe, vê-se mais resultados, mais relatos, mais percursos. Por outro, a pandemia trouxe uma mudança muito concreta: com o uso de plataformas online e a exposição constante do nosso rosto em ecrãs, passámos a olhar-nos de outra forma. Muitas pessoas começaram a reparar mais no envelhecimento da face, nas assimetrias, nos sinais que antes passavam despercebidos. E isso deslocou o foco do corpo para o rosto. Ao mesmo tempo, vejo que a mulher portuguesa, de forma característica, continua a operar-se muito para si própria, para se sentir melhor consigo, mais do que para corresponder ao olhar dos outros. O que falta, acima de tudo, é literacia para perceber que a Cirurgia Plástica não é uma solução mágica, nem uma resposta indiferenciada para qualquer insegurança. É Medicina. Tem critérios, limites, riscos, indicações e exige tempo, maturidade e acompanhamento. Quanto mais se banaliza o acesso, mais importante se torna explicar o que é possível, o que não é e o que realmente está em causa quando alguém decide submeter-se a uma cirurgia. A “mommy makeover” é hoje uma das áreas que mais desperta interesse entre muitas mulheres. Como define critérios seguros para combinar procedimentos e que mensagens considera essenciais sobre tempo pós-parto, amamentação, estabilidade de peso e recuperação? A “mommy makeover” deve ser pensada com serenidade e no momento certo da vida da mulher. A gravidez, o pós-parto e a amamentação transformam o corpo, mas também a mente. Durante muito tempo, a mulher está focada no bebé, e isso é natural, há uma vida inteira a depender dela. Muitas vezes, só mais tarde volta a conseguir olhar para si própria com tempo, disponibilidade e distância emocional. A gravidez pode alterar a mama, o abdómen, a região genital e a forma como a gordura se distribui no corpo. Há mudanças que fazem parte desse processo e que podem deixar marcas mais ou menos permanentes. Quando uma mulher procura recuperar o seu contorno corporal, o ideal é que o faça já numa fase de estabilidade. De forma geral, espera-se pelo menos seis meses após a última gravidez e o fim da amamentação, embora existam situações em que outro timing é aceitável. Não de deve esperar uma vida inteira por uma mudança que dá qualidade de vida e se consegue em 1 hora de cirurgia! Além disso, a mulher deve estar no seu melhor do ponto de vista físico, com um peso estável, o mais próximo possível do seu ideal, sem fumar e com a decisão tomada de não voltar a engravidar. Isso não significa que uma futura gravidez seja impossível, mas que o melhor momento para operar é quando esse ciclo está resolvido. A cirurgia deve vir numa fase de reconstrução e não numa fase ainda marcada por indefinições. Tem sentido mudanças no perfil de procura com o aumento das perdas de peso rápidas, quer por cirurgia bariátrica quer por medicação? Que desafios clínicos surgem e como se decide a melhor sequência cirúrgica? Sem dúvida. Hoje vemos perfis muito diferentes daqueles que víamos há alguns anos. Durante muito tempo, os pacientes que chegavam à Cirurgia Plástica após perda de peso eram sobretudo pessoas submetidas a cirurgia bariátrica, com perdas muito significativas, 30, 40, 50 quilos, e com sequelas corporais importantes que exigiam reconstrução de todo o contorno corporal. Entretanto, a forma como olhamos para a obesidade mudou, e ainda bem. Passou a ser encarada como uma doença, com impacto real na duração e na qualidade de vida. Ao mesmo tempo, surgiram fármacos que ajudam a perder peso, e isso trouxe um novo grupo de pessoas à consulta, não com obesidade mórbida, mas com excesso de peso mais moderado, ou com aqueles quilos persistentes que não se conseguem perder e que fazem diferença no resultado final de uma cirurgia. Isso pode ser muito útil. Em certas situações, se uma doente precisa, por exemplo, de uma abdominoplastia, perder cinco ou seis quilos antes da cirurgia pode melhorar muito o resultado. E, nesses casos, a medicação pode funcionar como uma ponte, desde que usada com critério, supervisão e acompanhamento. Mas é fundamental perceber que perdas de peso rápidas também podem trazer riscos, nomeadamente de desnutrição, pelo que estes pacientes precisam de uma vigilância cuidada. Há ainda outra questão importante: estes fármacos não podem estar ativos no momento da cirurgia, porque atrasam o esvaziamento gástrico e aumentam riscos anestésicos. Por isso, a prioridade continua a ser a segurança. O peso deve estar estabilizado, a medicação suspensa atempadamente, e a cirurgia só deve avançar quando houver condições para acreditar que aquele resultado pode ser mantido no tempo. Não vale a pena operar alguém que perde peso de forma transitória e o recupera logo a seguir. A boa decisão cirúrgica depende sempre de timing, estabilidade e realismo. Tendo subespecialidade em Medicina Estética, como decide o que pode ser tratado com injetáveis ou tecnologias e o que é, de facto, indicação cirúrgica? Na maior parte das vezes, essa diferença é bastante clara numa boa consulta. Se o paciente tem pequenas perdas de volume, isso pode ser corrigido com ácido hialurónico. Se o principal problema são rugas de expressão ou excesso de movimento no terço superior da face, a toxina botulínica pode ser a solução. Mas quando estamos perante flacidez marcada, excesso de pele ou uma queda dos tecidos já muito evidente, então temos de ser honestos, os tratamentos não cirúrgicos não vão conseguir oferecer um resultado verdadeiro e proporcional ao que a pessoa procura. Dito isto, também há pessoas que são candidatas a cirurgia, mas que não querem ser operadas. E isso é legítimo. Nem todos estão preparad0s para uma intervenção mais longa, invasiva e com uma recuperação mais exigente. Nesses casos, é possível melhorar alguma coisa com procedimentos não cirúrgicos, desde que haja clareza absoluta sobre o que esses tratamentos conseguem melhorar e, sobretudo, sobre aquilo que não conseguem. O que me parece desonesto é usar Medicina Estética para mascarar indefinidamente problemas que já são de indicação cirúrgica, sobretudo quando isso implica volumizar excessivamente o rosto e comprometer o futuro. Já me aconteceu operar uma doente jovem e encontrar produtos no rosto que nem sequer consegui identificar! Isso é muito preocupante. O lado mais perigoso da Medicina Estética começa precisamente aí, quando se banaliza o gesto, quando se escolhem produtos de baixa qualidade, quando se fazem procedimentos sem critério e quando se trata um rosto como se fosse uma superfície qualquer. Estamos a falar de saúde, de anatomia, de confiança e de consequências que podem durar muitos anos. Por isso, mais do que fazer, é preciso saber quando fazer, quanto fazer e, muitas vezes, quando não fazer. No pós-operatório, o que considera verdadeiramente decisivo para um bom resultado? E que “atalhos” ou rotinas virais sente que mais atrapalham a recuperação? O pós-operatório exige uma coisa que hoje nem sempre é fácil disponibilizar: tempo. Costumo dizer que “não é um sprint, é uma maratona”. Há cirurgias em que a mudança é visível logo no primeiro momento, uma doente que faz uma redução mamária levanta-se e sente imediatamente o alívio, vê o novo volume, percebe que o corpo já mudou. Mas isso não significa que o resultado final esteja ali. O corpo ainda vai inchar, desinchar, reorganizar-se, as cicatrizes vão amadurecer, os tecidos vão adaptar-se. E tudo isso leva tempo. Nos primeiros dias, o essencial é quase sempre o mais simples: repousar o suficiente, alimentar-se bem, hidratar-se, usar corretamente as malhas ou contenções indicadas e cumprir as orientações médicas. O apoio familiar pode fazer muita diferença, porque há um equilíbrio delicado entre descansar quando é preciso e mobilizar-se o necessário. Depois, há um compromisso que considero muito importante: a fisioterapia, a drenagem linfática manual no pós-operatório. Quando bem indicada e realizada, pode ajudar muito na recuperação. O que mais prejudica são precisamente os atalhos. A ideia de que se pode acelerar à força aquilo que o corpo tem tempo para fazer. As rotinas virais, os conselhos sem contexto, as comparações com recuperações de outras pessoas e a pressa de “voltar ao normal” depressa demais muitas vezes só criam ansiedade e comprometem o processo. Recuperar bem também é saber esperar. Se tivesse de escolher três mudanças prioritárias para a próxima década na Cirurgia Plástica em Portugal, quais seriam? A primeira teria de ser, sem hesitação, uma maior exigência nas condições de segurança e na qualificação de quem faz procedimentos estéticos. Quem intervém sobre o corpo e sobre a saúde das pessoas tem de demonstrar conhecimento, formação, boas práticas e condições reais para atuar com segurança. Isso devia ser escrutinado com muito mais rigor. A segunda mudança seria ao nível da informação dada aos pacientes. As pessoas devem chegar à cirurgia verdadeiramente esclarecidas sobre o que vão fazer, não apenas no dia em que assinam um consentimento, mas com antecedência suficiente para perceberem o que aquele procedimento implica em termos de preparação, recuperação, limitações, riscos e expectativas realistas. Muitas vezes, os pacientes não querem ouvir falar de complicações, mas isso não faz com que elas deixem de existir. E a verdade é que qualquer cirurgia tem risco. O nosso dever é explicar isso com clareza, sem alarmismo, mas também sem infantilizar ninguém. A terceira mudança passaria por uma regulação mais firme sobre quem pode fazer o quê, e com que habilitações. Penso que a Ordem dos Médicos e as entidades competentes deviam apertar mais esse controlo. Na saúde, não basta alguém achar que se está preparado para fazer um procedimento. É preciso estar efetivamente preparado. E essa diferença é essencial. Porque quando se banaliza a técnica, banaliza-se também o risco e isso nunca pode acontecer numa área que mexe tanto com a confiança, a integridade física e a vida das pessoas. Instagram: @mleonor_rios Marcações: www.lusiadas.pt/corpo-clinico/dra-maria-leonor-rios “Envelhecer não é uma doença. Há uma diferença entre prevenir e medicalizar o envelhecimento” “O futuro está na quiet beauty, com menos rostos iguais, menos excessos e mais identidade”
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