SAÚDE “Embora confundido com excesso de peso ou celulite, o lipedema é uma doença crónica que afeta milhares de mulheres” By Revista Spot | Maio 30, 2025 Maio 30, 2025 Share Tweet Share Pin Email Embora muitas vezes confundido com excesso de peso ou celulite, o lipedema é uma doença crónica, inflamatória e progressiva do tecido adiposo que afeta milhares de mulheres. Sandra Castro, especialista em avaliação e tratamento conservador do lipedema, conhece bem esta realidade. A sua motivação surgiu a partir de uma experiência pessoal marcada pela dor e pela frustração, face à falta de respostas claras. Hoje, dedica-se a apoiar mulheres que, tal como ela, viveram anos de incompreensão e limitações. Com uma abordagem integrativa que inclui a avaliação do sistema gastrointestinal e dos processos inflamatórios, Sandra reforça a importância de olhar para o corpo como um todo, reconhecendo as ligações entre o sistema linfático, o metabolismo e a saúde intestinal. O seu trabalho é uma ponte vital entre o conhecimento científico e o cuidado humano, fundamental para melhorar a qualidade de vida de quem enfrenta esta condição. Sandra, o que é que a levou a especializar-se no tratamento do lipedema? Na verdade, o meu interesse pelo lipedema surgiu antes de se tornar uma “tendência” ou um tema muito falado nas redes sociais. Tudo começou por uma experiência pessoal, por altura da pandemia. Durante o confinamento, ao contrário do que aconteceu com muita gente, eu e o meu marido conseguimos perder peso, com disciplina e foco no bem-estar. No entanto, em 2022, após o ciclo de vacinações, comecei a notar subitamente um aumento de volume corporal, sobretudo nas pernas. A dada altura, senti dores tão intensas que nem conseguia tocar nas pernas ou pousar os pés no chão. Passei dias com compressas de gelo, completamente incapacitada. Procurei ajuda médica, mas a explicação foi vaga: disseram-me que podia estar relacionado com o pós-Covid, com o stress, ou que era “normal”. Não fiquei satisfeita com essa resposta. Foi aí que decidi pesquisar por iniciativa própria. Descobri uma fisioterapeuta brasileira que estava a estagiar no Porto e que falava sobre lipedema, um termo até então desconhecido para mim. Comecei a investigar e a falar com ela, por pura curiosidade. Sou de formação em contabilidade e gestão financeira, mas este tema mexeu tanto comigo que, sem dar por isso, comecei a mudar o rumo da minha vida. Fiz formação na área, inicialmente por autocuidado, mas depois percebi que não era só eu. Comecei a identificar sintomas em outras mulheres à minha volta e compreendi que havia ali um problema de saúde mais profundo e, até hoje, pouco compreendido. Essa fisioterapeuta tinha feito um estágio com o Dr. Burgos de la Obra, um dos maiores especialistas em lipedema da Europa. Foi através dessa rede de conhecimento que comecei a envolver-me mais a sério. E foi assim que tudo começou: por necessidade pessoal, por frustração com respostas vagas e por um desejo de entender e ajudar outras mulheres que, como eu, passaram anos a sentir-se incompreendidas. Para quem nunca ouviu falar, o que é exatamente o lipedema e por que razão é frequentemente confundido com excesso de peso ou celulite? O lipedema é uma doença crónica, progressiva e inflamatória do tecido adiposo, que afeta quase exclusivamente as mulheres. É de origem genética e hormonal, e carateriza-se pela acumulação desproporcional e dolorosa de gordura, sobretudo nas pernas e, por vezes, nos braços, poupando geralmente mãos e pés, o que é um dos sinais distintivos. Muitas vezes é confundido com obesidade ou celulite, mas são coisas muito diferentes. Enquanto a obesidade é uma condição sistémica relacionada com excesso de gordura generalizada, e a celulite é uma alteração estética da pele causada por má circulação e fibrose do tecido, o lipedema é uma inflamação do tecido adiposo. Esta inflamação provoca dor crónica, inchaço persistente, hematomas fáceis e sensibilidade extrema ao toque. As células de gordura tornam-se rígidas, deformadas e resistentes à dieta e ao exercício, por isso é que muitas mulheres sentem que “fazem tudo certo” e, mesmo assim, continuam a ganhar volume ou não conseguem perder gordura em certas zonas. Além do impacto estético e emocional, o lipedema afeta também o sistema linfático e endócrino, podendo desencadear desequilíbrios hormonais, alterações na tiroide, problemas hepáticos e, a longo prazo, linfedema (acumulação de líquido linfático). É uma condição que, durante muito tempo, foi desvalorizada e confundida com excesso de peso. Mas em 2018, foi oficialmente reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma patologia. E, mais recentemente, têm surgido estudos que sugerem uma possível ligação entre o lipedema e alterações imunológicas, como as que ocorrem após infeções virais ou processos inflamatórios sistémicos, incluindo, em alguns casos, pós-vacinação. É fundamental diferenciar estas condições para que o diagnóstico seja feito precocemente, evitando anos de sofrimento e frustração. O lipedema não é preguiça, nem má alimentação. É uma doença real, com causas fisiológicas profundas, e merece atenção médica especializada. Quais são os sinais de alerta mais comuns que devem levar uma mulher a suspeitar de lipedema? Um dos principais sinais de alerta é o aumento de volume nas pernas ou braços que não responde às estratégias habituais de perda de peso, como dieta equilibrada ou prática regular de exercício físico. Muitas mulheres que sofrem de lipedema queixam-se precisamente de que, apesar de adotarem um estilo de vida saudável, continuam a ganhar volume de forma desproporcional, especialmente da cintura para baixo. Outro sinal muito caraterístico é a desproporção corporal evidente, por exemplo, um tronco esguio e tonificado contrastando com pernas volumosas e com acúmulo de gordura. Muitas vezes, observa-se também um “estrangulamento” visual acima dos tornozelos, como se as pernas terminassem num “garrote” antes dos pés, que permanecem relativamente poupados. Além disso, há uma tendência marcada para a formação de hematomas com facilidade (os chamados “negros” ou equimoses), mesmo com pequenos toques ou pressões, o que revela uma fragilidade capilar associada ao lipedema. Muitas mulheres relatam também uma sensação constante de peso ou cansaço nas pernas, mesmo sem alterações de peso significativas na balança, bem como dor ao toque. Embora o lipedema afete maioritariamente mulheres, os homens também podem ser afetados, embora com manifestações mais internas, nomeadamente a nível inflamatório e endócrino. A presença de casos familiares, especialmente em linha materna, pode ser uma pista importante, pois trata-se de uma condição com forte componente genética. É igualmente relevante distinguir o lipedema do linfedema. No lipedema, a distribuição é simétrica (afeta ambos os membros), enquanto o linfedema tende a ser unilateral e está associado ao comprometimento do sistema linfático, resultando em inchaço localizado, geralmente após cirurgias ou traumas que danificam os gânglios linfáticos. Qual é a importância da avaliação gastrointestinal e inflamatória num quadro de lipedema O lipedema, embora essencialmente uma doença do tecido adiposo com base genética, está profundamente ligado à inflamação crónica do organismo e, nesse sentido, a saúde gastrointestinal desempenha um papel determinante. O intestino é uma peça central na regulação da inflamação sistémica: quando existe disbiose intestinal (desequilíbrio da microbiota), permeabilidade aumentada (“intestino permeável”) ou outras disfunções digestivas como SIBO (supercrescimento bacteriano no intestino delgado), pode ocorrer um estado inflamatório de baixo grau contínuo que agrava ou até desencadeia o lipedema. Esta interligação pode ser comparada a uma autoestrada de dois sentidos: tal como a inflamação intestinal pode ser um gatilho para o desenvolvimento ou agravamento do lipedema, o próprio lipedema, enquanto doença inflamatória do tecido adiposo, pode alimentar um estado inflamatório sistémico que repercute no intestino. É uma relação bidirecional, em que a inflamação se perpetua por múltiplas vias. Além disso, alterações hormonais (como as que ocorrem na puberdade, gravidez ou menopausa) e fatores de stress crónico também podem ser gatilhos. Por vezes, crianças já apresentam sinais precoces da doença, mas são muitas vezes confundidas com obesidade simples, o que atrasa o diagnóstico. É por isso fundamental considerar uma abordagem integrativa no acompanhamento do lipedema: além do controlo físico dos sintomas, é essencial avaliar o estado inflamatório, a função intestinal e até possíveis alterações endócrinas como disfunções da tiroide, que podem ser simultaneamente causa e consequência do estado inflamatório. A investigação e modulação do eixo intestino–inflamação–tecido adiposo tem vindo a ganhar cada vez mais espaço na compreensão do lipedema e na melhoria da qualidade de vida das pessoas afetadas. Embora o lipedema não tenha cura, uma abordagem multidisciplinar pode fazer toda a diferença no controlo da progressão da doença e na redução dos sintomas. Que sinais ou exames a ajudam a identificar inflamação sistémica? Os sinais de inflamação sistémica nem sempre são óbvios à primeira vista, mas há indicadores que levantam suspeitas, como alterações persistentes na digestão, cansaço extremo sem explicação, dificuldade em perder volume apesar de mudanças na alimentação e retenção de líquidos. Muitas vezes, pacientes chegam até mim com diagnósticos vagos, como “síndrome do intestino irritável”, e, após uma avaliação mais detalhada, acabamos por identificar condições como o lipedema, que é muitas vezes subvalorizado ou confundido com questões meramente estéticas, quando na verdade está profundamente ligado à saúde e à inflamação crónica. No que toca a exames, há de facto muita informação a circular nas redes sociais, mas nem todos os métodos são eficazes ou cientificamente validados. No meu caso, utilizo uma abordagem prática e complementar: começo com uma anamnese completa, onde recolho o historial clínico e sintomatologia da paciente, e complemento com uma ferramenta chamada biorressonância magnética quântica. É um dispositivo não invasivo que, através do contacto com a mão, gera em poucos minutos relatórios sobre o estado funcional do organismo, desde o sistema digestivo, nervoso e endócrino, até deficiências vitamínicas, inflamação nos tecidos ou dificuldades na absorção de água e nutrientes a nível intestinal. Embora este método não substitua exames laboratoriais tradicionais, dá-nos uma visão integrada que ajuda a direcionar o tratamento. A avaliação visual e tátil também é fundamental, sobretudo em casos de lipedema, em que o toque pode revelar alterações nos tecidos que não são visíveis ao olhar. Em que consiste o tratamento do lipedema? O tratamento do lipedema deve ser multidisciplinar e profundamente individualizado. O meu ponto de partida é sempre a regulação intestinal, porque grande parte das respostas inflamatórias do organismo está diretamente relacionada com o equilíbrio da microbiota intestinal. A modulação pode ser feita com o apoio de fitoterapia, ou seja, através de compostos naturais com ação anti-inflamatória, desintoxicante e reguladora, ou com massagens terapêuticas específicas, que ajudam na estimulação do sistema linfático. Outro pilar essencial é a alimentação anti-inflamatória, adaptada ao perfil metabólico da pessoa. Quando o corpo está constantemente exposto a alimentos pró-inflamatórios (como açúcares refinados, ultraprocessados, glúten ou laticínios em excesso), a inflamação agrava-se e os sintomas do lipedema tendem a piorar. Nestes casos, a nutrição funcional é indispensável. Só depois desta base reguladora é que introduzo outras abordagens complementares, como técnicas de drenagem, suplementação e orientações para mudanças sustentáveis no estilo de vida. A alimentação, a drenagem linfática e o exercício físico são a tríade perfeita? Esses três pilares são absolutamente centrais, mas precisam de ser adaptados a cada pessoa. Começando pelo exercício físico, é muito importante distinguir entre “atividade física” e “exercício estruturado”. Uma pessoa pode estar fisicamente ativa no dia a dia (como no caso de uma dona de casa), mas isso não significa que esteja a praticar exercício eficaz do ponto de vista terapêutico. Com o lipedema, certos tipos de exercício, especialmente os de alto impacto, podem agravar a inflamação e a dor. Por isso, optamos por atividades de baixo impacto e que favoreçam a circulação linfática, como caminhada, hidroginástica ou treino funcional adaptado. A alimentação atua como base anti-inflamatória. Um plano alimentar personalizado, com enfoque na saúde intestinal, redução de alimentos pró-inflamatórios e aumento de nutrientes com propriedades antioxidantes e drenantes, faz uma grande diferença a médio e longo prazo. Já a drenagem linfática manual é uma ferramenta terapêutica poderosa, porque estimula o sistema linfático, que é um dos principais mecanismos de desintoxicação do organismo. Se o intestino é o primeiro filtro, o fígado o segundo, o sistema linfático é o terceiro. Se este sistema estiver sobrecarregado ou lento, a inflamação permanece e acumula-se nos tecidos. A drenagem ajuda a libertar líquidos intersticiais acumulados e facilita a eliminação de toxinas, reduzindo edema e dor. Quando estes três elementos – intestino equilibrado, corpo em movimento de forma correta e suporte ao sistema linfático – trabalham em conjunto, o organismo começa a reequilibrar-se. E o que noto muitas vezes é que, além da melhoria física, há também uma transformação emocional e psicológica significativa. Recorda-se de um caso clínico que a tenha marcado pelo impacto positivo na vida da paciente? Sim, sem dúvida. Um dos casos que mais me marcou foi o de uma utente com lipedema tipo 2, grau 3, um grau já bastante avançado, com presença de inflamação significativa e dor persistente. Quando chegou até mim, o sofrimento era visível. Trabalhava muitas horas de pé e, no final do dia, sentia-se exausta, com dores intensas e sensação de peso constante nas pernas. Aos fins de semana, já nem saía com os amigos, o desconforto físico e emocional tinha-lhe limitado a vida social. Iniciámos um protocolo intensivo de tratamento: durante as quatro primeiras semanas, trabalhámos de forma mais frequente, focando-nos sobretudo na alimentação anti-inflamatória e na drenagem linfática manual. Nesta fase inicial, não exigimos prática de exercício físico, porque o corpo ainda está em sofrimento e a prioridade é aliviar a dor, reduzir a inflamação e recuperar alguma funcionalidade. Após apenas três semanas, a paciente regressou ao consultório visivelmente emocionada. Disse-me: “Voltei a sair, a dançar com os meus amigos, algo que já não fazia há anos.” Além disso, as dores reduziram substancialmente, sentia-se mais leve e mais ativa. Hoje em dia, faz caminhadas e trilhos com regularidade, algo que, segundo ela, nunca pensou voltar a fazer. O mais impactante foi ouvir: “O que me devolveu foi qualidade de vida, e isso vale mais do que qualquer mudança estética.” Este é um exemplo poderoso de como o tratamento do lipedema não é apenas uma questão de estética, é, acima de tudo, uma questão de saúde, funcionalidade e bem-estar emocional. Que mensagem gostaria de deixar a todas as mulheres que vivem com dor, desconforto ou frustração com o próprio corpo, mas ainda não encontraram uma resposta ou diagnóstico? A minha principal mensagem é: não desistam. Procurem profissionais qualificados que compreendam o corpo de forma integrada e que saibam fazer uma avaliação rigorosa. O lipedema, por exemplo, ainda é uma condição subdiagnosticada. Eu própria sou portadora e sei, na pele, o que é viver com frustração por fazer dietas, praticar exercício e, mesmo assim, não ver resultados. Esse ciclo de tentativa e fracasso pode levar a estados de ansiedade, depressão, desmotivação e, infelizmente, à desistência de si próprias. Vejo isso muitas vezes. Sei que uma pessoa desistiu quando olho para o carrinho de compras e vejo apenas produtos inflamatórios. Isso diz-me que ela já não acredita que vale a pena tentar. Muitas mulheres chegam a este ponto sem saber que a causa do seu sofrimento pode ser uma doença crónica inflamatória, como o lipedema, que exige uma abordagem específica, não basta comer “menos” ou fazer mais exercício. Também é importante compreender que, a partir dos 38 anos nas mulheres e dos 48 nos homens, o metabolismo abranda naturalmente até 40%. E isso não é apenas “culpa das hormonas” ou da idade, é o funcionamento normal do corpo. Eu costumo dizer: o nosso corpo é como um carro novo. No início, basta pôr combustível e trocar o óleo. Mas, com o tempo, precisa de manutenção mais cuidada. O corpo humano é uma máquina perfeita, mas que exige atenção e respeito para continuar a funcionar bem. Há ainda pequenos gestos diários que podem fazer grande diferença e que aconselho sempre no meu acompanhamento: raspar a língua ao acordar, antes de escovar os dentes, para eliminar toxinas acumuladas durante a noite; fazer escovagem a seco das pernas, sempre em movimentos ascendentes, para estimular a circulação e o sistema linfático; beber água com regularidade e ter consciência da qualidade dos alimentos consumidos. Tudo isto são passos simples, mas transformadores. E, sobretudo, são formas de nos reconectarmos com o nosso corpo, com respeito, paciência e amor. Instagram: @sandra.esculpe “Como enfermeira obstetra, vi de perto a insegurança que muitas famílias sentiam ao regressarem a casa com um recém-nascido. Foi assim que nasceu O Vínculo” Há mais um Intimista na cidade e traz comida de conforto num lugar improvável
SAÚDE “A saúde não se improvisa, constrói-se todos os dias” Habituámo-nos a olhar para a saúde em parcelas: uma queixa, uma especialidade, uma resposta. Mas o corpo raramente funciona por…
Cirurgia “O problema começa quando a vontade de melhorar dá lugar ao desejo de parecer outra pessoa” Nem tudo o que chega à consulta é um pedido cirúrgico. Muitas vezes, é uma inquietação, uma comparação, uma ferida…
NUTRIÇÃO “Muitas mulheres vivem em guerra com a comida sem perceberem que estão presas a uma dependência silenciosa” Uma mulher na menopausa, uma mulher no pós-parto e uma empresária sujeita a elevada pressão mental podem até partilhar o…