Eventos E se a música nos dissesse quem somos? Leo Valmont lança “4What?”, um álbum intimista num mundo em ruído By Revista Spot | Dezembro 16, 2025 Dezembro 17, 2025 Share Tweet Share Pin Email De dia, advogada. De noite, e às vezes no intervalo entre duas vidas, Leo Valmont. Leonor Valente Monteiro, habituada à precisão das palavras e à disciplina do argumento, lançou a 10 de outubro um álbum que não parece feito para o mundo da urgência, “4What?” é um lugar de suspensão, um corpo de canções que pede silêncio e atenção, como se cada faixa abrisse uma janela para dentro. A história começou cedo, aos nove anos, quando se perdia no quarto a cantar durante horas, mas a música ficou em pausa aos 17, a vida entrou sem metáforas e mudou-lhe o rumo. Só na quarentena, quando o mundo desligou o “exaustor” do ruído e o silêncio voltou a ser audível, é que o gesto regressou: beats nos headphones, letra primeiro, melodia a acontecer como se fosse uma visita. O resultado é um álbum de paisagens sonoras modernas e intimistas, com vocação cinematográfica e um objetivo declarado: produzir paz num tempo de ruído. Como se, por dentro da advogada, houvesse uma storyteller de emoções à espera de ser ouvida. Quando o mundo se cala, finalmente ouvimos o que nos faltava Há vozes que nascem no palco. E há vozes que nascem no escuro, não por timidez, mas por instinto. Leo Valmont começou cedo, aos nove anos, nessa idade em que a imaginação ainda é um espaço físico: uma criança fechada no quarto, a cantar até o tempo perder utilidade. Não era ensaio, era refúgio. Um laboratório íntimo onde a voz se experimenta como se experimenta um segredo. Hoje, diz que já não é “da forma como era”, mas reconhece o traço, ainda há qualquer coisa nela que consegue ficar horas a fio, sozinha, a insistir numa nota, num verso, num estado. Como quem acende e apaga a mesma luz para perceber onde começa a sombra. A música, nela, nunca foi entretenimento, mas uma forma de estar no mundo. A educação sentimental de um ouvido inquieto Em casa, o som vinha de fora dela: “o que eu mais ouvia era cala-te”, brinca, muito por influência do irmão, esse motor familiar que, às vezes, nos dá o primeiro empurrão sem saber. Depois vieram as descobertas que formam uma personalidade: o primeiro vinil (The Cure), e aquela adolescência feita de bandas que não obedecem ao mesmo guarda-roupa, Pixies, Faith No More, Guns N’ Roses, David Bowie, como quem aprende cedo que o gosto não tem de ser coerente para ser verdadeiro. “Essa heterogeneidade é que faz um artista”, diz, e há ali uma frase que serve de mapa: a identidade não nasce da pureza, nasce do choque entre coisas diferentes. A música, no caso dela, não é uma linha reta. É uma colagem. Um arquivo emocional. Aos 17, o silêncio e o peso bonito de uma escolha Aos 16 começou a cantar em público, gravou originais, fez concertos, habitou garagens e ensaios como quem habita um futuro. Há um episódio que parece escrito por um argumentista que acredita em coincidências: cantar com Pedro Abrunhosa numa garagem nas traseiras do Foz Club, no lugar onde se montavam as coisas antes de serem “coisas”. E depois, corte brusco. Aos 17, a música para. A gravidez. A vida real a entrar com uma força que não pergunta se já acabámos a canção. E ela diz “paz”. Não “perda”. Não “tristeza”. Paz. Como se aquele silêncio tivesse sido uma espécie de pacto: há alturas em que o mundo exige presença noutra dimensão, e a música, por amor, fica em suspenso. O que é duro é que o suspenso, às vezes, dura anos. E, ainda assim, não morre. Dorme. A quarentena: quando o exaustor se desliga e o silêncio nos devolve a nós O regresso não vem com um grande manifesto. Vem com a pandemia. Com o mundo a parar, com o ruído a baixar, com aquela sensação estranha de, finalmente, nos ouvirmos. Leo descreve-o com uma metáfora perfeita: como um exaustor ou um ar-condicionado que está sempre ligado e nós já nem damos por ele, até ao dia em que se desliga e percebemos o silêncio. Foi isso. A quarentena desligou o aparelho invisível. E, nesse silêncio, aconteceu uma espécie de improviso guiado: encontrou uma aplicação online de beats, ligou os headphones e começou a improvisar. Não foi “uma canção” que abriu a porta, foi um método. Letras antigas, letras novas, e um princípio quase sagrado: a letra primeiro. Porque ela gosta, mesmo, de escrever. A letra é a coluna vertebral; a melodia vem depois como um fenómeno. Ela chama-lhe channeling: “é a primeira coisa que sai”, como se a canção não fosse construída, mas revelada. A imagem é forte: deita-se no chão, ouve um beat, ouve outro, e há um som que a “levanta”. A música, aqui, não é só composição. É estado. Quase meditação. “4What?”: a estética do sussurro, o cinema por dentro O título do álbum não é um enfeite, é uma porta. “4What?” soa a bilhete para um lugar interior onde cabem “todas as emoções”: raiva, tristeza, nostalgia, alegria, paz. E ela repete paz como quem repete uma nota fundamental, a nota que sustenta tudo o resto. Quer que a música faça o ouvinte levitar, como se fosse possível sair do corpo por instantes e voltar com menos peso. “4What?” reúne 11 originais, não como catálogo, mas como urgência. Há ali uma vontade declarada de dizer coisas importantes, e a pergunta que dá nome ao disco funciona como bússola: “para quê?”. Não é “porquê”, que muitas vezes procura culpados ou justificações; é “para quê”, que procura sentido, direção, consequência. É a pergunta que, quando feita a sério, nos obriga a parar: a perceber onde estamos a gastar a vida por inércia, o que merece o nosso tempo e o que só o está a roubar. No universo de Leo Valmont, essa resposta não vem em forma de moral, vem em canção, como quem acende uma luz por dentro: às vezes para continuar, outras para largar, e, tantas vezes, para escolher o caminho que parece mais nosso. A estética é sensorial e cinematográfica: melodias suaves, texturas modernas, letras íntimas, paisagens sonoras que parecem luz difusa. São canções que não pedem aplauso; pedem silêncio. São mais para serem habitadas do que consumidas. Não é música de algoritmo. É música para desacelerar. Para ouvir o que normalmente não ouvimos em nós. A advogada e a contadora de emoções Há uma dicotomia que torna a história ainda mais contemporânea: de um lado, a advocacia, “tão formal, tão cinzenta”; do outro, a música, que é cor. E Leo conta uma memória de infância que parece um manifesto em miniatura: um desenho de galinhas e telhados onde cada telha tinha uma cor, cada pena uma cor, e o mundo inteiro cabia ali em excesso cromático. E alguém lhe disse que “não pode ser assim”. Ela adaptou-se, como quase todos nos adaptamos, mas guardou a urgência de pôr essa parte colorida em tudo o que faz. A canção “Ignore the Current” surge como síntese: ignorar a corrente, o “suposto”, o manual de instruções social. E essa frase toca num ponto muito geracional: hoje, muitos profissionais procuram um segundo caminho de expressão, uma vida paralela que não anula a primeira, completa-a. “Viver várias vidas dentro da mesma vida”, como ela diz. Talvez seja isso: deixar de pedir desculpa por ser múltiplo. Uma artista total: a imagem, a plataforma Há outra camada de autonomia que impressiona, a comunicação, a imagem, as plataformas, a estética visual, “sou eu que estou a fazer tudo”, diz. E isso vê-se na intenção: pureza, verdade, paz, liberdade. Não é uma marca montada por terceiros; é uma extensão do que ela quer que a música seja. O vinil aparece como objeto-símbolo: não apenas um formato, mas um ritual. Escolher a cor (um branco, em vez do preto clássico) diz muito sobre o cuidado e o desejo de transformar o álbum numa peça. Num tempo de streaming infinito e distraído, o vinil é o contrário: obriga-nos a ficar. A permanecer. E essa palavra liga-se ao yoga, que ela pratica consistentemente há dois anos e que diz tê-la ensinado precisamente isso: permanecer. Permanecer no desconforto sem fugir. Permanecer na calma. É difícil não ver a ponte, a música dela pede ao ouvinte o mesmo que o yoga pede ao corpo, presença. A coragem de começar do zero O processo de produção foi um mergulho sem boia. E há uma presença discreta, mas decisiva, no caminho: um primo, João Carvalho, também músico, que a ajudou na pré-produção das primeiras faixas e lhe deu o empurrão inicial quando ela estava “perdida” no meio de demos e possibilidades. Os melhores elogios não são técnicos, são relatos. Uma pessoa desconhecida escreve: “a tua música faz milagres”. Outra diz que a música a salvou. Uma amiga descreve a primeira vez que ela cantou as próprias canções numa festa como “meditação coletiva”. Isto é o que ela procura: não fama, não barulho, mas transformação subtil. A música como travão de emergência no piloto automático. Como a mão que desliga o exaustor e devolve o silêncio. O palco improvável e o próximo capítulo: português, mais drama, mais saudade O álbum saiu a 10 de outubro, mas já há um próximo capítulo a fermentar: um álbum em português, que ela descreve como mais dramático, mais fado, mais saudade, como se a língua materna puxasse por outro lado dela, mais pesado e mais verdadeiro, menos filtrado. No fim, fica a promessa que ela faz ao público e talvez a si própria: “não posso parar”. Sozinha no palco leva-nos por uma paisagem intimista que soa a encontro. No meio do ruído do mundo, Leo Valmont parece querer oferecer uma coisa simples: um lugar onde a pressa não entra. Uma canção que não grita. Uma paz que se ouve. Facebook: leovalmont_ Instagram: @leovalmont_ Spotify: Leo Valmont Apple Music: Leo Valmont Youtube: @LeoValmont Site: leovalmont.com Enfermeira parteira, mentora e doula, Ana Rita Pinto devolve presença ao parto e um novo fôlego aos profissionais de saúde com o programa PULSO “Contamos calorias, passos, dias de excessos alimentares, números na balança. Temos de aprender a fazer as pazes com a nossa relação com a alimentação”
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