SAÚDE “Durante a jornada oncológica, há uma pergunta silenciosa: quem sou eu neste corpo?” By Revista Spot | Maio 11, 2026 Maio 18, 2026 Share Tweet Share Pin Email Nem todas as sequelas do cancro aparecem nos exames. Algumas surgem quando a pessoa se olha ao espelho e já não encontra a sua identidade. Durante muito tempo, as alterações do corpo, da pele e do cabelo foram tratadas como efeitos colaterais menores, perante a urgência maior de salvar vidas. Mas a experiência oncológica não termina na resposta ao tratamento, continua na identidade, na intimidade, na autoestima, na vida social e na forma como cada pessoa volta a habitar o próprio corpo. Áurea Lima, médica, investigadora e professora, tem construído o seu trabalho precisamente nesse cruzamento entre Oncologia, Cosmetologia e Dermatologia Oncológica e Medicina Oncoestética. Nesta entrevista, fala-se de imagem corporal, empoderamento, sobrevivência e dignidade. Porque tratar o cancro implica lembrar quem a pessoa era antes da doença. Em que momento percebeu que cuidar de um doente oncológico também implicava olhar para aquilo que a doença e os tratamentos fazem ao rosto, à pele, ao cabelo, ao corpo e à identidade? Na verdade, foi um percurso muito natural, muito marcante e desafiante, mas também orgânico. Comecei nas Ciências Farmacêuticas e, dentro da farmácia comunitária, tive sempre uma dedicação muito especial à Dermatocosmética. Por isso, desde cedo percebi a importância da pele, da imagem e da forma como nos apresentamos ao mundo, e o peso que isso tem na forma como comunicamos, como nos relacionamos em sociedade e como somos vistos pelos outros, mas também, e sobretudo, na forma como nos vemos e nos sentimos na nossa própria pele. Mais tarde, ao integrar o ensino e a carreira académica, a Oncologia Molecular entrou no meu percurso através da investigação. Depois surgiu a Medicina e, nesse caminho, a Medicina Estética apareceu antes mesmo da escolha da Oncologia Médica, como uma área que fez muito sentido para mim desde o início. Foi dessa conjugação de caminhos que nasceu a convicção de que a pessoa com doença oncológica merece um olhar verdadeiramente integrado, capaz de reunir investigação, doença e tratamentos, mas também saúde mental, imagem e identidade. A pele, a imagem e o empoderamento pessoal têm um impacto real na forma como cada pessoa vive e gere a sua jornada oncológica, e isso tem, de facto, reflexos nos melhores resultados. É por isso que a Medicina Oncoestética e a Dermatologia Oncológica ocupam, para mim, um lugar muito especial na consulta e na prática clínica. Durante muitos anos, falar de imagem em Oncologia pareceu quase um tema secundário. Porque é que continua a haver resistência em reconhecer que a forma como uma pessoa se vê também interfere com a forma como vive a doença? Porque durante muito tempo a Oncologia esteve organizada quase exclusivamente em torno da doença e da sobrevivência, e não tanto em torno da experiência vivida pela pessoa. Isso fez com que a imagem corporal fosse muitas vezes percebida como um tema menor, quando na verdade é uma dimensão central da identidade, da autoestima e da forma como a pessoa enfrenta a doença. Sabemos hoje que alterações na imagem corporal, o estigma e a comunicação menos centrada na pessoa podem agravar o sofrimento psicológico e influenciar a qualidade de vida. Quando uma pessoa em tratamento oncológico olha para o espelho e deixa de se reconhecer, o que é que está verdadeiramente em causa? O que está em causa é muito mais do que a aparência. Quando uma pessoa em tratamento oncológico se olha ao espelho e deixa de se reconhecer, o que muitas vezes se fragiliza é também a identidade e a dignidade com que se revê. A imagem corporal tem impacto na intimidade, na confiança, no vínculo social e até na vontade de voltar a sair de casa, porque o espelho passa a lembrar, de forma permanente, a presença da doença e dos seus efeitos. Por isso, olhar para a imagem em Oncologia é reconhecer uma dimensão profundamente humana da experiência da doença. Na sua experiência, que alterações da pele, do cabelo, das unhas ou da imagem corporal têm maior impacto ao longo da jornada oncológica? E quais são as que continuam mais desvalorizadas? Da minha experiência, e claramente na minha opinião, as alterações que maior impacto têm são, por um lado, as que são mais visíveis e mais difíceis de ocultar, porque expõem imediatamente a doença ao olhar dos outros; e, por outro, as que se traduzem numa perda da feminilidade, como a ausência de uma mama ou a queda do cabelo, das sobrancelhas e das pestanas. Porque aqui falamos, por um lado de imagem e da forma como se apresenta ao mundo, mas também de identidade e da forma como a pessoa se reconhece. E há ainda as marcas mais permanentes, como as cicatrizes, que fazem com que a pessoa nunca deixe verdadeiramente de se lembrar da doença, mesmo depois da alta hospitalar, precisamente porque a transformam numa presença contínua no corpo e na memória. O que os doentes tendem a desvalorizar são algumas alterações cutâneas e ungueais que, apesar de parecerem menos graves, podem ter grande impacto no quotidiano e até na vida profissional. A secura, o prurido, a pigmentação ou certas alterações das unhas podem comprometer o conforto e a capacidade de manter tarefas diárias com normalidade, pelo que não devem ser vistas como secundárias. A Medicina Oncoestética ainda é muitas vezes mal compreendida. O que é que as pessoas, e até alguns profissionais, continuam a confundir quando ouvem falar de Medicina Estética aplicada ao doente oncológico? O que muitas pessoas, e até alguns profissionais de saúde, continuam a confundir é a ideia de que a Medicina Oncoestética é sinónimo de “embelezamento”, futilidade ou de luxo, quando na verdade é uma abordagem de cuidado médico que procura reduzir sequelas, melhorar tolerabilidade e apoiar a qualidade de vida ao longo do tratamento e na sobrevivência. Também se confunde muitas vezes com procedimentos feitos sem critério, quando, na realidade, na pessoa com doença oncológica tudo tem de ser avaliado caso a caso, com conhecimento da doença, do timing terapêutico e da segurança clínica. Onde termina o cuidado dermocosmético de suporte e onde começa a intervenção médico-estética? Porque é que essa fronteira tem de ser muito clara, individualizada e clinicamente segura, sobretudo em fases ativas de tratamento? A fronteira começa no momento em que o objetivo deixa de ser apenas apoiar e proteger a pele e passa a ser intervir de forma médica sobre alterações mais específicas. No doente oncológico, sobretudo em tratamento ativo, essa distinção tem de ser muito clara porque a tolerância cutânea, o risco de infeção, a inflamação e as interações com terapêuticas oncológicas podem tornar um procedimento inadequado ou até prejudicial. O cuidado dermocosmético de suporte foca-se, em geral, em preparar, cuidar e proteger a pele, e aliviar sintomas como secura, prurido ou desconforto, enquanto a intervenção médico-estética já envolve atos com maior profundidade clínica, maior possibilidade de efeitos adversos e necessidade de avaliação formal. Por isso, a linha entre ambos não é só técnica; é também ética e clínica, porque tem de ser individualizada, coordenada com a Oncologia e ajustada à fase do tratamento. Na prática, o que significa verdadeiramente personalizar cuidados à pele e à imagem num doente oncológico? Que variáveis nunca podem ser ignoradas? Na prática, personalizar cuidados significa tratar a pele e a imagem de acordo com a realidade clínica e humana daquela pessoa, e não com um protocolo genérico. Isso implica ajustar produtos, procedimentos e expectativas ao tipo de terapêutica, ao momento do tratamento, ao fototipo, à idade, aos sintomas cutâneos e ao impacto emocional vivido pela pessoa. Há variáveis que nunca podem ser ignoradas: o tratamento oncológico em curso, porque pode causar toxicidade cutânea e alterar a tolerância da pele; o timing, porque há fases em que é prudente limitar ou adiar certas intervenções; e o fototipo, sobretudo quando existe maior tendência para hiperpigmentação ou sensibilidade solar. Também contam a idade e o estado geral – porque a pele de cada pessoa responde de forma diferente – e ainda os sintomas cutâneos – porque a presença de secura, prurido, dor ou inflamação mudam totalmente a abordagem. Mais ainda, o lado emocional e as expectativas são igualmente centrais, porque a imagem corporal, a autoestima e a ansiedade podem influenciar tanto a adesão aos cuidados como a forma como a pessoa vive o tratamento. Por isso, personalizar não é apenas escolher o produto certo; é ouvir, avaliar e decidir, de forma partilhada, com segurança. A Medicina Oncoestética exige um olhar integrado. O que é que ainda falta para que estes cuidados estejam mais articulados entre médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais que acompanham a pessoa com cancro? Acredito que ainda falta, acima de tudo, uma cultura de articulação real e sistemática entre todos os profissionais que acompanham a pessoa com doença oncológica, seja na fase de tratamento ativo ou de sobrevivente de cancro. Muitas vezes, os cuidados continuam a acontecer de forma fragmentada, em “silos”, quando o desejável seria uma visão integrada, em que médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais trabalhem com o mesmo objetivo e a uma só voz. Para isso, são essenciais canais de comunicação claros, referenciação fácil entre especialidades e tempo para coordenar decisões com segurança. Falta também mais informação, conhecimento e competência específica nesta área. Ainda existe, em muitos contextos, uma perceção limitada sobre o papel da Medicina Oncoestética e sobre o impacto real que estes cuidados podem ter na qualidade de vida, no conforto e na autoestima da pessoa com cancro. Sem formação adequada, torna-se mais difícil reconhecer necessidades precocemente, distinguir o que é seguro do que deve ser evitado e adaptar as intervenções ao momento certo do tratamento. E, talvez o mais importante seja isto: integrar cuidados não depende apenas de boa vontade, depende de preparação. Cuidar da pele, da imagem e do bem-estar de uma pessoa com cancro não é um extra nem um detalhe secundário; é parte do próprio cuidado em saúde. Quando esta consciência ainda não está plenamente instalada, a resposta torna-se menos coordenada, menos eficaz e, muitas vezes, menos humana. Sendo médica, formadora e investigadora, sente que ainda existe défice de formação nesta área? Onde é que nota mais falhas? Sim, sinto claramente que ainda existe um défice de formação nesta área. Na minha experiência, as falhas aparecem em três níveis: na preparação dos profissionais, na literacia clínica e no facto de estes cuidados continuarem fora de muitos percursos oncológicos. Há recomendações e iniciativas que sublinham precisamente a necessidade de educação estruturada, competências específicas e integração da Oncologia de Suporte nos percursos assistenciais. Na preparação dos profissionais, a lacuna maior é a formação específica e prática para reconhecer o que é seguro, o que é útil e o que deve ser evitado em cada fase do tratamento. A literatura e os programas de formação disponíveis mostram que esta área exige conhecimento clínico próprio, porque não basta saber de Medicina Estética, é preciso saber também, e bem, de mecanismos fisiopatológicos das doenças oncológicas, mecanismos de ação dos fármacos, efeitos secundários previsíveis, esquemas de tratamento e ser capaz de integrar este conhecimento e adaptá-lo a diferentes contextos de imunossupressão ou fragilidade cutânea. Na literacia clínica, falta ainda uma compreensão mais transversal de que cuidar da pele, da imagem e do bem-estar não é um extra, mas parte da qualidade assistencial. E, nos percursos oncológicos, a grande falha é precisamente esta, muitos sistemas ainda não integram de forma consistente os cuidados de suporte, apesar de haver chamada clara para equipas multidisciplinares e para formação continuada em Oncologia de Suporte. Quando uma área ainda não está plenamente reconhecida como essencial, tende a ficar dependente da sensibilidade individual de cada profissional, em vez de fazer parte do circuito normal de resposta ao doente. E é aí que a formação, a literacia e a organização dos cuidados precisam de evoluir em conjunto. A acompanhar a evolução da Oncologia, começa também a crescer a atenção à sobrevivência oncológica. Depois de terminado o tratamento ativo, porque é que continua a ser importante cuidar da pele, da imagem e da relação da pessoa com o seu corpo? Porque há coisas que simplesmente não voltam a ser exatamente como eram antes. Mesmo com toda a reabilitação possível, a pele, o cabelo e as unhas ficam muitas vezes marcados pelo próprio tempo, pelo envelhecimento, pelos tratamentos e pelas substâncias a que o organismo foi exposto. E isso faz parte do percurso que a pessoa teve e do estado para o qual vai avançar a partir daí. Além disso, mesmo quando já não há evidência de doença, muitas pessoas continuam em tratamento precisamente para evitar recidivas, é o caso do uso de hormonoterapia com intuito adjuvante. Portanto, não estamos a falar de uma fase em que tudo terminou; estamos a falar de uma fase em que a pessoa continua a viver com efeitos físicos e emocionais que precisam de acompanhamento. E isto importa porque, muitas vezes, a pessoa pode parecer-nos “bem”, mas continua com sintomas relacionados com o tratamento, como a secura, a diminuição da densidade capilar, alterações na cor das unhas, entre outros exemplos, ou até mesmo alterações na forma como se vê, se reconhece e se sente. Por isso, cuidar da pele e da imagem não é uma questão de aparência; é uma forma de ajudar a pessoa a recuperar conforto, confiança, bem-estar e qualidade de vida dentro da nova realidade que ficou. Que mensagem gostava de deixar a quem ainda olha para estes cuidados com desconfiança e os vê como algo acessório, quando para muitos doentes podem representar alívio, autoestima, reconciliação com o espelho e força para continuar? A mensagem que eu deixaria é que estes cuidados não são um capricho nem um detalhe irrelevante; são parte do cuidado integral de qualquer pessoa, e que na pessoa com doença oncológica tem um impacto muito relevante. Para muitos doentes, podem significar alívio, conforto, autoestima e até uma forma de voltar a olhar para o espelho sem estranheza ou sofrimento. Quando percebemos isso, passamos a ver a pele (que é “só” o maior órgão do corpo humano e o nosso “cartão de visita”) como uma dimensão real da experiência da doença. E, nesse sentido, cuidar também é ajudar a pessoa a manter identidade, dignidade e força para continuar. Como eu digo muitas vezes: “O cancro não é cor-de-rosa, mas a vida pode ser um arco-íris.” Facebook: Áurea Lima Instagram: @dra.aurea.lima “Perder peso não é o mesmo que ganhar saúde” “Em cirurgia refrativa, planear bem é tão importante como operar bem”
Bebés / Neurodesenvolvimento / Pré - Natal / SAÚDE DA MULHER / Saúde Infantil “A sociedade quer bebés regulados e silenciosos. Mas os bebés reais não cabem em rotinas perfeitas” O bebé nasce. E, de repente, todos têm uma opinião. A avó, a amiga, o grupo de WhatsApp, o algoritmo,…
Psicologia “A Clínica Tear chega ao Porto e a Gaia para aproximar o apoio psicológico de quem precisa de um caminho, não apenas de uma consulta” Nunca se falou tanto de saúde mental em Portugal. Ansiedade, depressão, burnout e exaustão emocional deixaram de ser palavras escondidas…
CLÍNICAS OFTALMOLOGICAS / SAÚDE OCULAR “Uma pessoa pode ver bem e, ainda assim, ter uma doença silenciosa a ameaçar a retina ou o nervo ótico” Podemos estar a perder visão sem dar por isso. Esta é uma das verdades mais inquietantes das doenças da retina,…