FISIOTERAPIA “Dores persistentes, sono agitado, falta de energia e alterações de humor são sinais claros de que o corpo está a pedir pausa” By Revista Spot | Novembro 3, 2025 Novembro 3, 2025 Share Tweet Share Pin Email Há quem diga que o corpo tem memória, Rui Rocha aprendeu a traduzi-la com as mãos. Terapeuta manual em Vila Nova de Gaia, acredita que cada tensão conta uma história e que o toque pode ser tão transformador como uma conversa. “Hoje sabemos que o toque consciente reduz os níveis de cortisol, melhora a circulação, estimula o sistema linfático e ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável pela regeneração e pelo equilíbrio emocional”, explica. Rui alia sabedoria ancestral e tecnologia, fazendo parte de uma nova geração de profissionais que vê a terapia manual como uma ferramenta terapêutica com base científica. Recebe corpos em alerta permanente, músculos que espelham ansiedade e fadiga, e devolve-lhes respiração, presença e movimento. Num mundo que vive em modo acelerado, o seu trabalho recorda-nos que parar também é progresso. Porque, como diz, “quando o corpo relaxa, a mente acompanha” e é aí que a verdadeira recuperação começa. O que é que o levou a escolher a terapia manual como profissão? Tudo começou quase por acaso e talvez por instinto. A minha companheira, que é profissional de saúde, sofria frequentemente de dores nas costas e, em tom de brincadeira, comecei a tentar aliviar-lhe o desconforto com as mãos. Curiosamente, mesmo sem formação, percebia que tinha um certo “toque”, uma sensibilidade natural para identificar onde estava a tensão. Nessa altura, atravessava uma fase de transição profissional. Um dia, ao fazer scroll nas redes sociais, apareceu-me um anúncio de um curso de Massagista de Recuperação e Relaxamento Desportivo. Comentei com ela, e a resposta foi imediata: “Acho que é mesmo a tua cara.” Decidi arriscar e aquilo que começou como uma brincadeira transformou-se numa verdadeira paixão. A partir daí mergulhei na área da terapia manual, aprendi sobre anatomia, tecidos, músculos, e percebi que havia ali algo maior: o poder de aliviar dor, restaurar movimento e devolver bem-estar. Foi o toque que me trouxe até aqui e é ele que continua a guiar o meu caminho. Recebe diariamente pessoas que chegam com dores crónicas, tensão acumulada ou exaustão emocional. Como distingue uma dor física de uma dor que nasce do stress e do cansaço mental? Cada vez mais, o corpo comunica aquilo que a mente silencia. Hoje, grande parte das dores musculares que recebo em consulta têm origem no stress, na ansiedade e no ritmo acelerado em que vivemos. As pessoas chegam tensas, com o corpo em constante estado de alerta, respiração curta e músculos rígidos. Com a experiência, aprendemos a perceber quando a dor nasce de uma lesão física, um esforço repetitivo, uma postura incorreta, e quando vem do desgaste emocional. A diferença está muitas vezes na forma como o corpo reage ao toque: a dor física é localizada, mas a dor emocional é difusa, parece espalhar-se e não cede apenas com a massagem. Nesses casos, o trabalho vai além do músculo, é um convite à consciência corporal, à pausa e à escuta. Porque o stress acumulado não se descarrega apenas com as mãos, mas com presença, empatia e um cuidado que integra corpo e mente. Ainda persiste a ideia de que a massagem é um mimo ou um extra. Como explica aos seus pacientes que a massagem terapêutica é, na verdade, manutenção preventiva e inteligência corporal? Costumo dizer que a massagem terapêutica não é luxo, é autocuidado. É manutenção preventiva e inteligência corporal. O corpo fala através da dor, da tensão e da fadiga e quando o ouvimos com regularidade, conseguimos evitar que pequenas disfunções se transformem em problemas maiores. Muitos pacientes chegam sem dormir bem há meses, com dores cervicais, tensão mandibular ou lombar. Depois de uma sessão, dizem: “Já não me lembrava da última vez que dormi assim.” A verdade é que quando libertamos tensão muscular, o corpo entra num estado de relaxamento profundo que melhora o sono, o humor e até o sistema imunitário. Defendo que todos deviam passar por esta experiência, pelo menos uma vez por mês. E não basta deitar-se na marquesa, há também um “trabalho de casa”: corrigir posturas, ajustar a forma de sentar, conduzir ou levantar. A terapia manual é o ponto de partida para um corpo mais consciente, equilibrado e resiliente. “Quando libertamos tensão muscular, o corpo entra num estado de relaxamento profundo que melhora o sono, o humor e até o sistema imunitário” Depois de uma lesão muscular, o corpo cria mecanismos de defesa que podem gerar novas dores. Quais são os erros mais comuns que as pessoas cometem durante a recuperação e que complicam o processo de cura? O erro mais comum é não respeitar o tempo de recuperação. As pessoas querem voltar logo à rotina, ao ginásio, ao treino intenso e esquecem-se de que o corpo precisa de tempo e tratamento para se regenerar. Quando há uma lesão, como uma tendinite ou uma rotura, o corpo entra em modo de defesa: cria compensações para proteger a zona afetada. Se não se respeita esse processo e se insiste em forçar o movimento, o resultado é o agravamento da dor e o aparecimento de novas tensões. O treino pode, e deve, continuar, mas de forma adaptada: com foco em mobilidade, alongamentos e reforço progressivo, sem impacto. O repouso ativo é tão importante como o exercício. E pequenos gestos, como aplicar gelo, fazer alongamentos e respeitar o descanso, fazem toda a diferença na cicatrização. A recuperação é uma parceria entre o terapeuta e o paciente. requer escuta, disciplina e consciência. O corpo tem uma incrível capacidade de se regenerar, mas só se lhe dermos tempo e as condições certas para o fazer. Trabalha com desportistas e pessoas ativas. Acha que os portugueses já entenderam que recuperar é tão importante como treinar? Que sinais dá o corpo quando está “a pedir pausa”? Felizmente, começa a haver mais consciência, mas ainda há um caminho a percorrer. Durante muito tempo, a ideia dominante era a de que “mais é sempre melhor”: treinar todos os dias, ultrapassar limites, ignorar o cansaço. Hoje, até atletas experientes, como culturistas e praticantes de alta intensidade, começam a compreender que o progresso não acontece durante o treino, mas sim durante a recuperação. Quando treinamos, rompemos fibras musculares. É no repouso, na alimentação adequada e na recuperação ativa, com técnicas como massagem terapêutica, crioterapia, alongamentos e descanso programado, que essas fibras se reconstroem, fortalecem e ganham volume. Sem esse processo, o corpo entra em défice: acumula fadiga, perde rendimento e aumenta o risco de lesão. O corpo avisa sempre. Dores persistentes, sono agitado, falta de energia, rigidez muscular e até alterações de humor são sinais claros de que está a pedir pausa. Respeitar esse limite não é desistir, é treinar com inteligência. Recuperar é parte essencial da performance, e quem aprende isso evolui mais rápido e com menos lesões. Integra técnicas milenares como as ventosas com métodos mais atuais como a eletroterapia. Em que momentos decide utilizar uma ou outra? Que resultados surpreendem mais os pacientes? Cada técnica tem o seu momento e o seu propósito. A ventosaterapia é uma das mais antigas formas de terapia manual e continua a ser extremamente eficaz, especialmente em casos de contraturas musculares, rigidez e défice circulatório. Ao aplicar as ventosas, criamos uma sucção que aumenta o fluxo sanguíneo local, estimula a oxigenação dos tecidos e ajuda o corpo a eliminar toxinas. O resultado é uma libertação muscular profunda e um alívio quase imediato, embora, sim, as marcas visíveis possam assustar quem experimenta pela primeira vez. Já a eletroterapia representa o outro lado da moeda: a tecnologia ao serviço da regeneração. Utilizo-a com frequência em situações de rutura muscular, cicatrizes, tendinites ou défice de força. Através de correntes de baixa intensidade, conseguimos uma “micromassagem interna” que acelera a recuperação tecidular e ativa a circulação sem dor nem desconforto. No fundo, a combinação entre técnicas ancestrais e métodos modernos é o que nos permite personalizar o tratamento. Cada corpo responde de forma diferente e é essa leitura fina, entre ciência, experiência e sensibilidade, que faz a verdadeira diferença nos resultados. “O corpo tem uma incrível capacidade de se regenerar, mas só se lhe dermos tempo e as condições certas para o fazer” Cada vez mais pessoas procuram ajuda por tensão no maxilar, dores de cabeça ou bruxismo. Acredita que estas disfunções estão ligadas ao estilo de vida acelerado e à ansiedade? Sem dúvida. A articulação temporomandibular (ATM) é uma das zonas do corpo que mais reflete o stress e a ansiedade do nosso dia a dia. Assim como acumulamos tensão nos ombros ou na zona cervical, também o fazemos nos músculos do maxilar, mas, neste caso, trata-se de uma região que está praticamente sempre ativa: falamos, mastigamos, engolimos, expressamos emoções. O problema é que, em vez de relaxar durante a noite, muitas pessoas mantêm essa contração inconsciente, o famoso ranger ou apertar dos dentes, o que agrava o desgaste muscular e articular. O bruxismo e as disfunções da ATM são, hoje, quase um espelho da vida moderna: excesso de estímulos, pressão constante e ausência de pausa. Estas tensões podem causar dores de cabeça, cervicalgias, tonturas, zumbidos e até dormência facial. O ideal é abordar o problema de forma multidisciplinar, combinando fisioterapia, terapia manual, osteopatia e medicina dentária, porque um tratamento complementa o outro. Mais do que aliviar a dor, trata-se de restaurar o equilíbrio entre corpo e mente. A drenagem é muitas vezes vista apenas como um tratamento estético. Que impacto real tem, do ponto de vista clínico, no sistema imunitário, na circulação e até no humor das pessoas? A drenagem linfática é muito mais do que uma técnica estética, é um poderoso estímulo ao funcionamento natural do sistema linfático, responsável por eliminar toxinas, reduzir inflamações e fortalecer o sistema imunitário. Quando aplicada de forma correta e por profissionais especializados, melhora a oxigenação dos tecidos, reduz edemas, facilita a recuperação pós-cirúrgica e promove uma sensação geral de leveza e bem-estar. Infelizmente, há ainda alguma desinformação. Existem situações em que a drenagem é contraindicada, como em casos de trombose, infeções agudas, tumores ativos ou varizes severas, e por isso é essencial uma avaliação prévia antes do tratamento. Mas quando bem executada, a drenagem tem benefícios que vão muito além do corpo: melhora o sono, reduz a sensação de fadiga e tem impacto direto no humor. O toque suave e rítmico da técnica estimula o sistema nervoso parassimpático, responsável pela calma e relaxamento. O resultado é um corpo mais equilibrado e uma mente mais tranquila, uma verdadeira terapia de dentro para fora. Há pacientes que chegam “sem dor”, mas profundamente cansados. Como é que a terapia manual pode atuar como regulação emocional, ajudando o corpo a voltar ao equilíbrio? Cada vez mais pessoas chegam à consulta sem uma dor física específica, mas exaustas mental e emocionalmente. O corpo pode não gritar com dor, mas fala através da fadiga, da tensão muscular e da incapacidade de relaxar. É aí que a terapia manual tem um papel fundamental: ela atua sobre o sistema nervoso autónomo, ajudando o corpo a sair do modo de alerta constante e a entrar num estado de recuperação e autorregulação. O toque consciente, o ritmo da respiração e o relaxamento muscular profundo enviam ao cérebro uma mensagem de segurança. É nesse momento que o corpo “desliga” o stress e ativa o sistema parassimpático, responsável pela digestão, descanso e regeneração. O resultado vai muito além do físico: melhora o sono, reduz a ansiedade e restabelece o equilíbrio interno. Por isso, gosto de encarar cada sessão como uma experiência dupla: física e emocional. Há pacientes que chegam tensos e saem a rir. O toque cria uma ligação de confiança e intimidade terapêutica, onde o corpo pode finalmente baixar as defesas. Quando o corpo relaxa, a mente acompanha. “A articulação temporomandibular (ATM) é uma das zonas do corpo que mais reflete o stress e a ansiedade do nosso dia a dia” Numa era dominada pela tecnologia e pela automedicação, o toque ainda tem poder de cura? O que mudou na vida das pessoas depois de começarem a incluir a massagem terapêutica como rotina de cuidado? O toque é uma das formas mais antigas e universais de cura e continua insubstituível, mesmo na era digital. Nenhuma tecnologia consegue reproduzir o impacto humano e neurológico do toque terapêutico. Ele estimula recetores sensoriais que reduzem os níveis de cortisol (a hormona do stress) e aumentam a libertação de serotonina e oxitocina, responsáveis pela sensação de bem-estar e conexão. Hoje, atendo desde adolescentes, muitas vezes com dores posturais associadas ao uso prolongado de computadores e telemóveis, até seniores com patologias crónicas. Em todos, o denominador comum é o mesmo: um corpo sobrecarregado e uma mente cansada. A massagem terapêutica devolve-lhes presença, ajuda-os a voltar a sentir o corpo e a sair do piloto automático. E é bonito ver que, com o tempo, muitas destas pessoas reduzem o consumo de analgésicos, ansiolíticos e anti-inflamatórios. Aprendem a confiar novamente na capacidade natural do corpo de se curar. O toque, aliado ao conhecimento técnico e à empatia, é uma poderosa ferramenta de reeducação corporal e emocional. Numa sociedade que corre, ele ensina-nos a parar. Facebook: Rui Rocha – Terapeuta Manual Instagram: @terapeutaruirocha Contacto: 910 019 853 (chamada para a rede móvel nacional) “O cérebro digital vive de swipes e dopamina, mas o corpo pede pausa” “Apesar de afetarem diariamente milhares de mulheres, o lipedema, o linfedema e a reabilitação oncológica continuam envoltos em desinformação”
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