SAÚDE DA MULHER “A dor não é normal, seja qual for a fase da vida da mulher” By Revista Spot | Fevereiro 18, 2026 Fevereiro 23, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há idades em que o corpo muda depressa e falta vocabulário para o explicar. Entre os 13 e os 15 anos, a primeira consulta de ginecologia pode ser o lugar onde uma adolescente aprende, sem medo nem julgamentos, o que é normal no seu ciclo, quando deve pedir ajuda e como se protege do HPV, das infeções, da desinformação e, inclusive, da violência. Teresa Ramos, ginecologista-obstetra e coordenadora do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Trofa Saúde – Braga Centro, defende tempo a sós, consentimento e linguagem simples. Mas esta entrevista vai muito além da adolescência. É um roteiro de literacia em saúde da mulher ao longo da vida. Falamos de ciclos irregulares, de suspeita de SOP, de contraceção, intimidade, dor na relação sexual, gravidez, pós-parto, climatério e menopausa. Em todas estas fases fica uma conclusão: a dor não é normal, seja qual for a fase da vida da mulher. A primeira consulta de ginecologia aos 13–15 anos deve incluir o quê exatamente? A primeira consulta de Ginecologia na adolescência deve ser uma consulta abrangente, ajustada à idade, com foco na educação para a saúde, no respeito pela confidencialidade e na criação de um ambiente seguro, simples e sem julgamentos. A forma de abordar, ou não, determinados temas depende, sobretudo, do desenvolvimento emocional e do grau de maturidade da jovem, por isso, cada consulta deve ser individualizada. Na prática, começa por um acolhimento claro, explicar o caráter confidencial da consulta, esclarecer como funciona e, sempre que possível e adequado, reservar um momento em que a adolescente possa falar a sós com o médico. Depois, importa perceber o motivo da vinda, muitas jovens vêm por iniciativa dos pais, mas podem existir queixas ou dúvidas como irregularidades menstruais, dores menstruais, corrimento ou prurido, questões sobre o próprio corpo, sexualidade ou contraceção. Segue-se uma história clínica completa, explicando à adolescente porque é importante falar de antecedentes e de como as queixas interferem com a escola e a vida diária. O tema “sexualidade” deve ser introduzido de forma progressiva, positiva e adequada, quando for do interesse da jovem e ou dos pais, ou quando o ginecologista identificar fatores de risco; para algumas adolescentes pode ser prematuro, para outras é essencial. Nesta abordagem, reforça-se a ideia de que a sexualidade implica consentimento mútuo, deve ser respeitada e vivida com segurança e vontade de ambas as partes. É também fundamental educar para reconhecer e prevenir submissão e violência sexual, em relações de intimidade, exploração, assédio, perseguição ou pornografia. Com base em dados recentes da OMS (2025), 1 em cada 3 mulheres refere ter sido vítima de violência física e ou sexual por parceiro, o que torna esta educação um tema de saúde pública e de direitos humanos. No mesmo espírito preventivo, deve falar-se de infeções sexualmente transmissíveis, sinais de alerta e prevenção, verificar o Plano Nacional de Vacinação e reforçar a importância da vacinação contra o HPV (Papiloma Vírus Humano), por estar associado ao cancro do colo do útero e também a cancros da cavidade orofaríngea e ano-retal em ambos os sexos. A contraceção deve ser explicada quando fizer sentido para a adolescente, desfazendo mitos, e destacando a dupla proteção (preservativo + outro método), se necessário. Quanto ao exame físico, não é obrigatório: só deve ser feito se for estritamente necessário, com explicação prévia, linguagem tranquila e consentimento da adolescente; em geral é apenas externo, sendo o exame ginecológico interno raramente necessário nesta idade. A consulta deve ainda incluir educação prática para a saúde: conhecer o corpo e o ciclo, perceber o que é um corrimento fisiológico (mucoso/fluido, transparente ou branco, sem cheiro e sem sintomas), orientar higiene íntima adequada (incluindo a escolha de produtos apropriados), distinguir menstruação “normal” de sinais de alarme, avaliar autoestima e imagem corporal e ensinar quando procurar ajuda médica. Por fim, avalia-se como e quando envolver a família, idealmente com uma parte com pais ou cuidadores e outra em privado com a adolescente, orientando os pais para uma comunicação mais aberta e de apoio. O objetivo não é apenas “ver se está tudo bem”, mas detetar precocemente riscos, apoiar um desenvolvimento saudável e criar um vínculo de confiança para que a jovem se sinta confortável em voltar, respeitando sempre a sua autonomia. Muitas jovens têm ciclos irregulares nos primeiros anos. Isso é expectável ou pode ser sinal de SOP, disfunção ovulatória ou stress extremo? Quais são hoje os melhores marcadores? Nos primeiros anos, é habitual que exista alguma instabilidade até cerca de dois anos após a primeira menstruação. Ainda assim, quando os ciclos se mantêm muito irregulares, muito espaçados, ou quando há ausência de ovulação de forma persistente, pode ser necessário investigar causas como Síndrome do Ovário Poliquístico (SOP), outras formas de disfunção ovulatória ou o impacto do stress extremo e alterações marcadas de estilo de vida. Para considerar SOP, é essencial a utilização dos critérios de Roterdão, em que devem estar presentes dois de três: alterações do padrão menstrual por poucas menstruações e ou ausência de ovulação; sinais clínicos e ou laboratoriais de hiperandrogenismo (aumento de hormonas tipicamente “masculinas”); e ovários com padrão poliquístico em ecografia, com exclusão de outras causas. Não existe um teste único, a SOP pode apresentar-se de forma variada e, frequentemente, associa-se a hirsutismo, excesso de peso ou obesidade, amenorreia ou oligomenorreia e, em alguns casos, infertilidade. Já a disfunção ovulatória corresponde a alteração ou ausência de ovulação e manifesta-se por ciclos irregulares, longos ou ausentes, sendo uma causa comum de infertilidade; o diagnóstico faz-se com base na história clínica e em exames como avaliação hormonal e ecografia pélvica, e o tratamento pode passar por mudança de hábitos e ou indução da ovulação, consoante o caso. Entre as causas incluem-se a SOP, disfunções hormonais (como alterações da tiroide e aumento da prolactina), fatores de estilo de vida (stress extremo, perda ou ganho de peso drástico, exercício físico excessivo e perturbações do comportamento alimentar) e outras causas como perimenopausa, falência ovárica prematura ou alterações anatómicas. Não é mito: o stress pode contribuir para disfunção ovulatória, uma vez que o stress crónico se associa a alterações hormonais, nomeadamente aumento do cortisol, que podem interferir com o ciclo menstrual; por isso, quando existem irregularidades persistentes, a investigação deve ser cuidadosa e integrar também o contexto emocional e os hábitos de vida, além dos exames. Quais são os erros mais comuns na escolha do método contracetivo e como personalizar a contraceção? Os erros mais comuns na escolha do método contracetivo continuam a ser surpreendentemente simples e muito frequentes: decidir com base no que a amiga usa, no que “resultou” com alguém conhecido, ou no que aparece nas redes sociais, sem uma avaliação clínica. Em 2026, com tanta informação disponível (e tanta desinformação também), a contraceção só faz sentido quando é personalizada. Deve ter em conta o historial de saúde, o peso, os valores de tensão arterial, os antecedentes familiares, a tolerância a hormonas, o risco cardiovascular, o padrão de hemorragias, e um fator muitas vezes ignorado, o nível real de cumprimento do método (porque um método “perfeito no papel” pode falhar na vida real se for difícil de manter). Também conta aquilo que a mulher procura: mais regularidade, menos menstruação, alívio de dores, discrição, reversibilidade, duração longa, ou simplesmente paz mental. É por isso que a “melhor opção” não é igual para todas e, em muitos casos, a pílula pode não ser a escolha mais adequada, não por ser “má”, mas porque não se ajusta ao perfil clínico e ao estilo de vida de algumas mulheres. Nesse contexto, a contraceção intrauterina com DIU (dispositivo intrauterino) pode ser uma excelente alternativa, sobretudo para quem procura um método de longa duração, reversível, eficaz, económico ao longo do tempo e, em muitos casos, sem estrogénios, sendo particularmente útil para mulheres que não são elegíveis para métodos com estrogénio. Existem duas grandes famílias: o DIU de cobre (não hormonal) e o DIU hormonal (como Levosert®, Mirena®, Kyleena® e Jaydess®). O DIU de cobre costuma ser uma boa opção quando existe desejo ou necessidade de evitar hormonas e, ao mesmo tempo, manter hemorragias menstruais cíclicas, já que não inibe a ovulação. Já o DIU hormonal associa-se a uma contraceção muito eficaz com doses muito baixas de progestativo e, além da função contracetiva, pode trazer benefícios clínicos relevantes: pode ser usado no tratamento de hemorragia uterina anómala (podendo mesmo levar à ausência de sangramento numa parte das utilizadoras, sobretudo com os de maior dosagem), é útil em mulheres medicadas com anticoagulantes, pode ajudar na dor menstrual, e pode ter um papel no tratamento ou prevenção de patologia do endométrio. Em situações específicas, também permite proteção endometrial quando a mulher está em terapêutica com estrogénios ou com tamoxifeno. E como lidar com os medos das mulheres em relação ao DIU? Quanto aos medos em relação ao DIU, a chave é quase sempre a mesma, informação qualificada e acolhimento. Os receios mais comuns centram-se na dor durante a colocação e no “e se eu me arrepender?”. É importante explicar que a inserção é, regra geral, rápida, e que o medo da dor é comum, mas pode ser contornado com estratégias como analgésicos orais, anestesia local e, em casos selecionados, sedação consciente, além de fazer o procedimento com um médico em quem a mulher confie e com quem se sinta segura. Também ajuda muito clarificar, antes da decisão, quais são os possíveis efeitos secundários, para que a escolha seja consciente e tranquila. E há uma ideia que costuma aliviar muitas mulheres: o DIU é seguro e reversível. Se for necessário, pode ser removido a qualquer momento. E, se durante o procedimento a dor for intensa e não tolerável, algo pouco frequente, deve haver sempre espaço para parar imediatamente. No fundo, quando a mulher se sente ouvida, respeitada e bem informada, o medo deixa de ser um “monstro” e passa a ser apenas uma etapa normal do processo de decisão. Porque é que tantas mulheres ainda normalizam a dor durante a relação sexual? A dor na relação sexual, a chamada dispareunia, é um sintoma clínico que pode afetar profundamente a qualidade de vida e nunca deve ser encarado como “normal”. A ideia-chave é simples e importante, nenhuma dor é normal. Ainda assim, muitas mulheres acabam por tolerá-la em silêncio por uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente: tabus e vergonha, falta de educação sexual, medo de serem julgadas, e crenças culturais antigas que colocam o prazer feminino em segundo plano ou sugerem que “faz parte”. Há também um peso emocional relevante. Ansiedade, stress, experiências negativas e trauma (incluindo abuso) podem desencadear respostas involuntárias do corpo e agravar a dor. E, do lado físico, existem causas frequentes e muitas vezes tratáveis, como endometriose, infeções, alterações do pavimento pélvico, secura vaginal (pós-parto, amamentação, perimenopausa/menopausa), entre outras situações. Por isso, a mensagem clínica é clara: dor não é para aceitar; é para avaliar. Outro ponto que não deve ser ignorado é o contexto relacional. Uma relação conjugal deteriorada, insegura ou com comunicação difícil tende a diminuir desejo, excitação e conforto, e isso pode traduzir-se em mais tensão e menos prazer. O caminho mais saudável passa por retirar a dor do campo do “normal” e colocá-la no lugar certo, um sinal do corpo que merece escuta, diagnóstico e tratamento. Como distinguir vaginismo, dispareunia e diminuição da lubrificação? E qual é o passo-a-passo diagnóstico recomendado hoje? Embora estas três situações possam coexistir, há diferenças úteis. O vaginismo é uma disfunção sexual marcada por contração involuntária dos músculos do pavimento pélvico, o que torna a penetração (na relação sexual, no exame ginecológico ou até com tampões) difícil, dolorosa ou, por vezes, impossível. É uma resposta psicofisiológica frequentemente associada a medo, ansiedade, experiências negativas ou trauma, não significa “imaginação”, nem “falta de vontade”; é o corpo a reagir em modo de defesa. Os sinais típicos incluem dor intensa à tentativa de penetração, ansiedade antecipatória e espasmo involuntário que pode envolver também a zona anal e as coxas. O tratamento, regra geral, é multidisciplinar: ginecologia, fisioterapia pélvica e apoio psicoterapêutico e sexológico. Em casos selecionados, podem ser usados dispositivos e abordagens médicas como complemento (por exemplo, hidratantes, lubrificantes, analgésicos tópicos, entre outros) e algumas equipas recorrem a estratégias adicionais, incluindo toxina botulínica em contextos específicos, mas não como solução isolada e sempre integrada num plano global. A dispareunia é o termo médico para dor genital persistente ou recorrente que aparece antes, durante ou após a relação sexual. Pode ser superficial (à entrada da vagina) ou profunda (pélvica). A dor pode manifestar-se como ardor, picadas, “queimadura”, dor aguda ou dor latejante. Aqui, o ponto central é que a dispareunia é um “guarda-chuva” de sintomas: o tratamento depende da causa e é precisamente por isso que a avaliação clínica é essencial, para evitar soluções genéricas que não resolvem o problema de base. Já a diminuição da lubrificação traduz-se, sobretudo, por secura da mucosa vaginal, mais comum no pós-parto e amamentação, e na perimenopausa e menopausa, embora também possa ocorrer em mulheres mais jovens. Para além das alterações hormonais, pode estar relacionada com stress, alguns medicamentos (incluindo determinados contracetivos e antidepressivos), menor estímulo sexual, dificuldades na relação conjugal e hábitos como tabagismo ou consumo de substâncias. A secura pode, por si só, provocar dor durante a relação (dispareunia), ardor, prurido e maior predisposição para infeções recorrentes. Quanto ao passo-a-passo diagnóstico, na maioria dos casos começa por aquilo que é mais importante e, muitas vezes, decisivo: uma história clínica detalhada e um exame físico cuidadoso, adequado e meticuloso, feito com tempo, explicação e consentimento. A história clínica deve clarificar quando a dor começou, onde dói, em que momentos surge (entrada vs profundidade), se há secura, ardor, corrimento, infeções repetidas, alterações do ciclo, pós-parto e amamentação, menopausa, medicação e contexto emocional e relacional. No exame, avalia-se a vulva e a entrada vaginal, o tónus e a sensibilidade do pavimento pélvico e, quando indicado e tolerado, pode ser realizado exame interno de forma muito gradual. Sempre que necessário, podem acrescentar-se exames complementares orientados pelos achados clínicos (por exemplo, despistes de infeção, avaliação por ecografia quando há dor profunda, ou estudo hormonal quando faz sentido). A partir daí, define-se um plano dirigido: lubrificação e hidratação e eventual terapêutica local quando há secura; abordagem da causa orgânica quando existe; e, quando há componente muscular e emocional (como no vaginismo), um plano integrado com fisioterapia pélvica e apoio psicoterapêutico/sexológico. O objetivo é o mesmo em todos os casos: recuperar conforto, saúde sexual e qualidade de vida, com uma abordagem respeitosa e personalizada. Como avaliar o corrimento vaginal em cor, cheiro, textura e o que indica infeção ou disbiose vaginal? Há exames novos para avaliar microbioma vaginal? Ter corrimento vaginal é normal desde a pré-menarca, ou seja, na proximidade da primeira menstruação até à menopausa. É também uma caraterística de saúde vaginal já que atribui lubrificação, fundamental para um normal funcionamento deste órgão. Considera-se um corrimento de caraterísticas normais e saudáveis desde que mucoso, fluído, transparente ou branco, sem cheiro e sem queixas associadas. Pode ser sinal de infeção ou disbiose vaginal se o corrimento for grumoso, com cor verde, acinzentada ou com sangue, com cheiro fétido, ou se provocar queixas como prurido, ardor ou dor vulvar e vaginal. Apenas quando o corrimento apresenta estas caraterísticas anómalas é que necessita de procurar um Ginecologista para tratamento. Atualmente temos à disposição múltiplos exames laboratoriais para definir a causa da infeção vaginal e a qualidade do microbioma vaginal. Ainda há demasiadas “meias verdades” contadas às mulheres no parto e no pós-parto? O que é que é esperado e o que deve ser visto com urgência? Hoje não faz sentido esconder informação numa consulta de Ginecologia e Obstetrícia. A mulher tem direito a uma explicação clara, séria e realista, sem alarmismos, mas também sem romantizações. O pós-parto implica mudanças físicas e emocionais importantes, e muitas delas são previsíveis. Nas primeiras semanas, há sinais que tendem a ser fisiológicos: a perda de sangue vaginal (lóquios), as contrações do útero, o ingurgitamento mamário (“subida do leite”) e algum desconforto na cicatriz, seja de episiotomia, laceração ou cesariana, que deve melhorar progressivamente. Também é relativamente comum existir instabilidade emocional transitória, o chamado baby blues, com tristeza passageira, choro fácil e ansiedade nas primeiras duas semanas, associada às alterações hormonais e ao impacto da adaptação. De forma geral, o corpo atravessa um processo de recuperação hormonal e física que pode durar cerca de 6 a 8 semanas. A partir daí, quando as queixas são persistentes, incapacitantes ou interferem de forma marcada com a qualidade de vida, deixam de ser “normais” e passam a merecer avaliação e tratamento. Isso inclui, por exemplo, dor persistente na cicatriz, secura vulvovaginal e dor na relação sexual, diminuição prolongada (ou ausência) de libido, incontinência urinária de esforço, sinais de prolapso dos órgãos pélvicos ou sensação de laxidez vaginal, bem como alterações corporais que, quando intensas ou muito impactantes, também podem precisar de orientação clínica (queda de cabelo acentuada, melasma, sudorese excessiva, entre outras). Felizmente, existe margem terapêutica. Em muitos casos, a fisioterapia do pavimento pélvico é uma base decisiva. E, consoante a situação clínica e a indicação médica, podem ser consideradas abordagens adicionais, incluindo opções minimamente invasivas usadas na área da ginecologia funcional/regenerativa, como laser, radiofrequência, ácido hialurónico ou PRP (plasma rico em plaquetas), com o objetivo de recuperar conforto, função urinária e bem-estar íntimo, sempre num plano personalizado e bem indicado. No plano emocional, importa dar o mesmo peso ao que é “invisível”. Cansaço extremo e distúrbios do sono podem acontecer, mas se a sensação de desespero, a apatia, a insónia marcada, a ansiedade intensa ou a perda de interesse persistirem para além de duas semanas, ou se agravarem, deve procurar-se ajuda médica, por suspeita de depressão pós-parto ou outras alterações do humor. Nenhuma destas situações, físicas ou mentais, deve ser desvalorizada. A tendência, quando ignoradas, é agravarem. A mensagem é simples, no pós-parto, o sofrimento não é um “preço a pagar”; é um sinal para intervir. Porque é que tantas mulheres dizem “não tenho desejo e não sei porquê”? O que pesa mais, hormonas, stress, sono, contraceção, medicamentos ou a dinâmica do casal? A diminuição do desejo sexual é uma das queixas mais comuns em consulta e, acima de tudo, é multifatorial. Muitas mulheres descrevem “não ter desejo” como se fosse um interruptor que se desligou, mas, na prática, existe quase sempre uma combinação de fatores físicos, emocionais, relacionais e até farmacológicos. Há dados que sugerem que uma parte significativa das mulheres apresenta, em algum momento da vida, algum tipo de disfunção sexual e o desejo hipoativo surge frequentemente como o motivo principal, muitas vezes associado a dificuldades de excitação, orgasmo ou dor na relação sexual. Entre as causas físicas, destacam-se as alterações hormonais do pós-parto e da amamentação, bem como a perimenopausa e a menopausa. Doenças como diabetes, alterações da tiroide, doenças crónicas e situações oncológicas (e os seus tratamentos, como quimioterapia e radioterapia), dor crónica e incontinência urinária também podem ter impacto direto na resposta sexual e no bem-estar íntimo. A componente farmacológica é igualmente relevante: antidepressivos (sobretudo ISRS), alguns contracetivos orais e anti-hipertensores podem contribuir para redução do desejo, dificuldade de excitação ou alteração da lubrificação. No plano psicológico e relacional, o impacto é enorme: stress, fadiga, ansiedade, depressão e distúrbios do sono reduzem energia, disponibilidade mental e capacidade de prazer. E a dinâmica do casal conta muito. Problemas de comunicação, ressentimento, falta de segurança emocional ou um relacionamento em sofrimento raramente permitem uma sexualidade satisfatória. Para algumas mulheres, existe ainda um histórico de trauma ou experiências negativas que condiciona o corpo e a mente, e que precisa de ser abordado com cuidado clínico e, muitas vezes, com apoio especializado. Por isso, a avaliação por um ginecologista é essencial para identificar a causa (ou as causas) e orientar um tratamento realmente eficaz. Não existe uma solução única, o melhor plano depende do diagnóstico. Em termos terapêuticos, pode passar por terapêutica hormonal com estrogénios e progesterona quando existe indicação clínica e, em situações específicas, pode também considerar-se testosterona, formalmente indicada em determinados casos de desejo sexual hipoativo na menopausa, após avaliação rigorosa e acompanhamento. Existem ainda abordagens não hormonais que podem ser úteis conforme o caso, e os hidratantes/lubrificantes, embora raramente resolvam tudo sozinhos, são frequentemente importantes como parte do plano, sobretudo quando há secura e desconforto. A psicoterapia, individual ou de casal, pode ser decisiva quando existem fatores emocionais e relacionais relevantes. E, mais recentemente, tem-se dado atenção à ginecologia funcional/regenerativa no apoio ao conforto íntimo e à sexualidade, com técnicas como laser, radiofrequência, PRP, ácido hialurónico e, em casos selecionados, toxina botulínica, sempre com indicação individualizada, expectativas realistas e integração numa abordagem global. Quando bem orientadas, estas intervenções podem melhorar sintomas que condicionam a vida íntima (como secura, desconforto e dor), com impacto na autoestima e na autoconfiança, mas o ponto de partida continua a ser o mesmo: perceber o que está a diminuir o desejo e tratar a causa, não apenas o sintoma. O que é que distingue o climatério da menopausa? O climatério é o período de transição entre a fase reprodutiva e a fase em que a mulher deixa de ter capacidade reprodutiva. É uma etapa marcada por um declínio progressivo da função ovárica e, por isso, pode vir acompanhada de sinais e sintomas como irregularidades menstruais, afrontamentos, suores noturnos, alterações do humor, irritabilidade, cansaço e perturbações do sono. Este percurso costuma englobar pré-menopausa, peri-menopausa e pós-menopausa, mas a passagem de uma fase para a outra não é “linear” nem igual para todas, há mulheres que têm sintomas discretos e outras que sentem um impacto significativo. A menopausa, por sua vez, não é uma “fase longa”, é um momento: corresponde à última menstruação, que acontece quando o ovário esgota de forma definitiva o seu património folicular. Como não é possível saber no próprio mês se aquela foi “a última”, o diagnóstico é clínico e confirma-se após 12 meses consecutivos sem menstruação, devendo ser avaliado e contextualizado por um médico. A terapêutica hormonal voltou a ser recomendada durante a menopausa? Quem pode fazer e quem não deve fazer? As recomendações atuais reconhecem que a terapêutica hormonal pode ser uma opção muito eficaz para mulheres em menopausa com sintomas que afetam a qualidade de vida, desde que exista avaliação médica, indicação e segurança. Na prática, isto significa que tratar a mulher sintomática pode ser hoje uma abordagem frequente, mas nunca “automática”. A decisão deve ser individualizada, ponderando sintomas, idade, tempo desde a menopausa, fatores de risco e expectativas. Há situações em que a terapêutica hormonal não deve ser utilizada ou exige avaliação muito rigorosa. Entre as contraindicações mais relevantes estão hemorragia genital sem causa esclarecida, história atual ou prévia de cancro da mama, do endométrio ou de outras neoplasias hormonodependentes, antecedentes de tromboembolia venosa ou doença trombótica arterial, hipertensão quando não está controlada, doença hepática aguda ou alterações importantes da função hepática, alterações da coagulação, doença neuro-oftalmológica de causa vascular, suspeita de gravidez e hipersensibilidade a substâncias do tratamento. É precisamente por existirem nuances (e diferenças entre contraindicações absolutas e relativas) que o plano deve ser definido em consulta, com uma avaliação clínica completa. Existem alternativas “naturais” ou fitoterapêuticas com evidência? Existem algumas opções não hormonais, incluindo abordagens de origem “natural” ou fitoterapêutica, que podem ter evidência para determinados sintomas, mas é importante não as tratar como soluções inocentes ou universais. Também estas alternativas podem ter efeitos secundários, interações com medicamentos e contraindicações, sobretudo em mulheres com antecedentes pessoais ou familiares relevantes. Por isso, a regra é a mesma: tal como na terapêutica hormonal, também aqui a escolha deve ser feita com orientação médica e de forma individualizada, ajustada às necessidades e ao perfil de risco de cada mulher. Em todas as fases da vida feminina, o que faz a diferença é combinar informação clara, respeito pela autonomia e um plano terapêutico que seja realmente adequado à pessoa e não apenas à “fase” em que se encontra. Instagram: @teresacristinaramos1 “A gravidez, o pós-parto e os primeiros anos de vida de um bebé não são capítulos soltos” Gala Namorar Portugal: Coordenado masculino vence XXII Concurso Internacional de Criadores de Moda
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