Psicologia “A dependência pode esconder-se em comportamentos tão comuns como jogar, fazer compras online, comer compulsivamente ou passar horas nas redes sociais” By Revista Spot | Julho 10, 2026 Julho 10, 2026 Share Tweet Share Pin Email Beber para desligar. Apostar para sentir adrenalina. Comer para acalmar a ansiedade. Comprar para preencher um vazio. Passar horas a deslizar o ecrã sem conseguir parar. Nunca vivemos rodeados de tantas formas rápidas de aliviar o desconforto e talvez nunca tenha sido tão difícil perceber quando uma escolha começa a transformar-se numa necessidade. As dependências já não cabem apenas na imagem do álcool ou das drogas. Podem esconder-se atrás de vidas aparentemente funcionais, de carreiras, famílias e rotinas cumpridas, enquanto, em silêncio, a perda de controlo ocupa cada vez mais espaço. Para Dénis Valéria e Sousa, psicóloga clínica com intervenção em comportamentos aditivos, perturbações da personalidade e situações de crise, é preciso olhar para lá do comportamento e perceber a dor que, muitas vezes, ele tenta anestesiar. Porque aquilo que começa por aliviar pode acabar por aprisionar e substituir o julgamento pela compreensão pode ser o primeiro passo para a mudança. O que é que a levou a escolher a Psicologia Clínica e, em particular, áreas tão complexas como os comportamentos aditivos, as perturbações da personalidade e a intervenção em crise? Antes de ser psicóloga, sempre existiu uma enorme curiosidade pelo ser humano. Fascina-me perceber porque é que pessoas diferentes, perante experiências semelhantes, respondem de formas tão distintas. O comportamento humano nunca me pareceu linear. Sempre me interessou aquilo que está para além dos sintomas, aquilo que as pessoas sentem, escondem ou tentam resolver através dos seus comportamentos. O “destino” levou-me a iniciar o meu percurso profissional em áreas mais complexas, como as dependências, as perturbações da personalidade ou a intervenção em crise. São áreas que nos confrontam com o sofrimento em estado puro, mas também com uma enorme capacidade de mudança. Ao longo dos anos, fui percebendo que, por detrás de comportamentos que muitas vezes são julgados ou incompreendidos, existem histórias de dor, vulnerabilidade e tentativas de sobrevivência emocional. Gosto particularmente do facto de estas áreas exigirem um olhar sem preconceito. Na prática clínica, aprendi que as pessoas são sempre muito mais do que os seus diagnósticos. E talvez seja isso que continua a motivar-me: a possibilidade de ajudar alguém a reencontrar esperança num momento em que já deixou de acreditar em si próprio. Vivemos numa sociedade onde muitos comportamentos de risco são normalizados: beber para relaxar, apostar por diversão, comer para compensar, fumar por ansiedade, comprar por impulso. Em que momento é que um hábito deixa de ser apenas um hábito e começa a transformar-se numa dependência? Nem todos os comportamentos frequentes são uma dependência. O problema começa quando aquilo que inicialmente era uma escolha passa a ser uma necessidade. Quando a pessoa sente que precisa de beber para relaxar, apostar para se sentir viva, comer para anestesiar emoções ou comprar para aliviar o vazio, estamos perante algo que merece atenção. Costumo dizer que a pergunta mais importante não é “quanto faz?”, mas sim “o que acontece quando não faz?”. Se surge ansiedade, irritabilidade, pensamentos constantes ou perda de controlo, estamos perante sinais de alerta. Outro indicador importante é quando aquele comportamento começa a ocupar demasiado espaço na vida da pessoa e a interferir com as relações, o trabalho, as finanças ou a saúde. Aquilo que começa por aliviar o sofrimento pode acabar por se tornar a própria fonte de sofrimento. E essa é uma das caraterísticas mais marcantes das dependências. Nem todas as dependências são imediatamente visíveis. Há pessoas que mantêm trabalho, família e rotinas, mas vivem em sofrimento ou perda de controlo. Quais são as dependências mais silenciosas e difíceis de reconhecer? As dependências mais silenciosas são precisamente aquelas que conseguem esconder-se atrás de uma aparente normalidade. Há pessoas que continuam a trabalhar, a cuidar da família e a cumprir as suas responsabilidades, enquanto vivem uma luta diária marcada pela perda de controlo e pelo sofrimento. O jogo online é um exemplo muito atual. Ao contrário do álcool ou das drogas, não deixa sinais físicos evidentes. Também as compras compulsivas, o uso excessivo das redes sociais, a pornografia, a comida ou mesmo o trabalho podem assumir caraterísticas aditivas. São dependências que muitas vezes se desenvolvem em silêncio, alimentadas pela vergonha e pela crença de que “ninguém vai perceber”. A ausência de sinais exteriores não significa ausência de sofrimento. Há pessoas que passam anos a funcionar aparentemente bem, mas à custa de um enorme desgaste emocional. Em Portugal, o álcool continua muito associado ao convívio, às celebrações e até à ideia de “normalidade”. Como se trabalha clinicamente uma dependência que, muitas vezes, é socialmente aceite e até desvalorizada? Em Portugal, o álcool faz parte da nossa cultura. Está presente nas festas, nos jantares, nas celebrações e até nas formas de socialização. Isso faz com que muitas vezes seja difícil identificar quando o consumo deixa de ser recreativo e se transforma numa dependência. Clinicamente, é importante afastarmo-nos de uma visão moralista. O objetivo não é julgar, mas compreender. Muitas pessoas utilizam o álcool para gerir ansiedade, tristeza, solidão ou stress. O consumo acaba por se tornar uma estratégia de regulação emocional, embora com consequências cada vez mais graves. As dependências não são um problema de falta de vontade, são um problema de sofrimento humano. E ninguém escolhe desenvolver uma dependência. Mas todos podem escolher pedir ajuda. Nos últimos anos, o jogo online, as apostas desportivas e os mecanismos de recompensa rápida tornaram-se cada vez mais presentes. O que torna este tipo de dependência particularmente perigoso, sobretudo quando não deixa marcas físicas imediatas? O jogo online reúne várias caraterísticas que o tornam particularmente perigoso. Está disponível vinte e quatro horas por dia, cabe num telemóvel, permite apostar sozinho e oferece recompensas rápidas e imprevisíveis, algo que é extremamente poderoso para o cérebro. Além disso, não deixa marcas físicas evidentes. Muitas vezes, a primeira consequência visível são as dificuldades financeiras, as mentiras, o isolamento ou os conflitos familiares. E quando a família percebe o que se passa, frequentemente as dívidas já são significativas. Vivemos numa sociedade habituada à gratificação imediata. O jogo online explora precisamente essa vulnerabilidade. Promete soluções rápidas, mas acaba por aprisionar a pessoa num ciclo de esperança, perda e tentativa desesperada de recuperar aquilo que perdeu. E esse ciclo pode ser devastador. Há sinais que muitas vezes passam despercebidos até a situação se tornar grave. Que mudanças no comportamento, no humor, nas rotinas, nas finanças ou nas relações devem fazer soar o alarme? As dependências raramente surgem de um dia para o outro. Habitualmente, instalam-se de forma gradual e silenciosa. Por isso, é importante estarmos atentos a pequenas mudanças que, isoladamente, podem parecer pouco significativas, mas que, em conjunto, contam uma história. Um dos primeiros sinais é a perda de controlo. A pessoa promete a si própria que “hoje vai ser diferente”, que vai beber apenas um copo, apostar apenas dez euros ou utilizar o telemóvel durante alguns minutos, mas acaba por fazer muito mais do que planeava. Também é frequente surgirem alterações de humor, maior irritabilidade, isolamento, mentiras, ocultação de comportamentos, dificuldades financeiras, quebra do rendimento profissional ou académico e afastamento de atividades que antes lhe davam prazer. Há uma frase que costumo dizer aos familiares: não olhem apenas para o comportamento, olhem para aquilo que mudou na pessoa. Quando alguém deixa de ser quem era, perde interesse pela vida, vive constantemente preocupado em repetir determinado comportamento ou organiza o seu dia em função dele, é altura de pedir ajuda. Muitas pessoas não procuram ajuda por vergonha, culpa ou medo de serem julgadas. A vergonha continua a ser um dos maiores obstáculos no tratamento das dependências, perturbações alimentares e outros comportamentos compulsivos? A vergonha continua a ser um dos maiores obstáculos ao tratamento. Curiosamente, muitas pessoas conseguem admitir que têm diabetes, hipertensão ou uma doença oncológica, mas sentem uma enorme dificuldade em dizer “tenho uma dependência” ou “tenho uma perturbação do comportamento alimentar”. Ainda existe a ideia errada de que estes problemas resultam de falta de força de vontade ou de falhas de caráter. Na realidade, a vergonha alimenta precisamente aquilo que a pessoa gostaria de esconder. Quanto maior é a culpa, maior tende a ser o isolamento, quanto maior é o isolamento, menor é a probabilidade de procurar ajuda. É um ciclo muito difícil de quebrar. A vergonha isola, mas a recuperação começa precisamente quando deixamos de sofrer em silêncio. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, é, muitas vezes, o primeiro grande ato de coragem. Felizmente, hoje sabemos que a maioria destas situações tem tratamento e que a recuperação é possível, sobretudo quando existe uma intervenção precoce. A dependência raramente aparece sozinha. Que ligação existe entre comportamentos aditivos, ansiedade, depressão, trauma, solidão, baixa autoestima ou dificuldades emocionais não resolvidas? Raramente encontramos uma dependência “sozinha”. Na maior parte das vezes, ela é apenas a parte visível de um sofrimento muito mais profundo. Ansiedade, depressão, trauma, luto, solidão, baixa autoestima ou dificuldades persistentes na gestão emocional coexistem frequentemente com os comportamentos aditivos. Por detrás de muitos comportamentos aditivos existe uma tentativa de regular emoções difíceis, e não uma falta de caráter. Quando alguém bebe para conseguir dormir, aposta para esquecer problemas financeiros, come compulsivamente para aliviar a ansiedade ou consome drogas para silenciar memórias traumáticas, o comportamento acaba por funcionar como uma solução temporária para uma dor que permanece por resolver. É precisamente por isso que, em Psicologia, não tratamos apenas o comportamento. Procuramos compreender a função que ele desempenha na vida daquela pessoa. Porque, se retirarmos apenas a dependência sem ajudar a pessoa a lidar com aquilo que a levou até ela, deixamos um vazio que facilmente poderá ser preenchido por outro comportamento compulsivo. Num tempo de redes sociais, imediatismo e comparação constante, estamos mais vulneráveis a comportamentos compulsivos? O digital veio criar novas dependências ou apenas tornou mais visíveis fragilidades que já existiam? As redes sociais vieram amplificar caraterísticas que já existiam na natureza humana, a necessidade de pertença, de validação e de comparação social. O problema é que as plataformas digitais foram desenhadas para captar a nossa atenção durante o máximo de tempo possível, recorrendo aos mesmos mecanismos de recompensa utilizados noutras dependências. Não significa que todas as pessoas desenvolvam uma dependência digital. No entanto, quem já apresenta maior impulsividade, dificuldades de regulação emocional, ansiedade ou baixa autoestima pode ser particularmente vulnerável. A procura constante por “likes”, notificações ou novos conteúdos pode transformar-se numa forma de aliviar desconforto emocional. Mais do que criar novas fragilidades, o digital veio potenciar algumas vulnerabilidades que já existiam. E talvez nunca tenha sido tão importante aprender a tolerar o aborrecimento, a frustração e o silêncio, numa época em que tudo acontece de forma imediata. Quando há uma dependência, a família também vive entre o medo, a culpa, a revolta e a impotência. Como podem os familiares ajudar sem julgar, sem controlar em excesso e sem alimentar o problema? E que mensagem deixaria a quem sente que perdeu o controlo, mas ainda tem medo de pedir ajuda? Quando existe uma dependência, ninguém sofre sozinho. A família vive frequentemente entre o medo, a culpa, a zanga e a impotência. Muitos familiares perguntam-me: “Como posso ajudar?” A resposta passa, muitas vezes, por encontrar um equilíbrio muito difícil, apoiar sem proteger em excesso, compreender sem desculpabilizar e estabelecer limites sem abandonar. Controlar todos os passos da pessoa, pagar sucessivamente as suas dívidas ou esconder as consequências dos seus comportamentos, apesar de partir do amor, pode acabar por perpetuar o problema. A recuperação exige responsabilidade, mas também uma rede de suporte que ofereça segurança, escuta e esperança. Àqueles que sentem que perderam o controlo gostaria de deixar uma mensagem simples, não deixem que a vergonha decida por vocês. Ninguém escolhe desenvolver uma dependência, mas todos podem escolher dar o primeiro passo em direção à recuperação. Já acompanhei muitas pessoas que chegaram à consulta convencidas de que não havia solução. Hoje vivem vidas plenas, reconstruiram relações, recuperaram projetos e voltaram a acreditar em si. Há sempre esperança, mesmo quando ela parece muito distante. Trabalha também com perturbações da personalidade. Porque é que estas perturbações continuam tão mal compreendidas e que impacto podem ter nas relações, no trabalho e na forma como a pessoa se vê a si própria? As Perturbações da Personalidade continuam a ser das condições de saúde mental mais mal compreendidas, talvez porque afetam precisamente aquilo que temos de mais íntimo, a forma como pensamos, sentimos, nos relacionamos e interpretamos o mundo. Muitas vezes, quem está de fora vê apenas comportamentos difíceis, intensos ou contraditórios, sem perceber o sofrimento que lhes está subjacente. Na prática clínica, ainda encontramos muito estigma. Expressões como “é manipulador”, “é tóxico” ou “é impossível lidar com aquela pessoa” simplificam excessivamente uma realidade muito mais complexa. É importante lembrar que uma Perturbação da Personalidade não define quem alguém é. Trata-se de um padrão de funcionamento que pode gerar dificuldades significativas nas relações, no trabalho, na autoestima e na regulação emocional, mas que pode ser compreendido e tratado. Uma das mensagens que mais gosto de transmitir é que um diagnóstico não é uma sentença. Com acompanhamento especializado, psicoterapia adequada e, quando necessário, intervenção multidisciplinar, muitas pessoas conseguem desenvolver novas formas de lidar consigo próprias e com os outros. A mudança é possível. Nem sempre é rápida, mas acontece. Se há algo que aprendi ao longo da minha prática clínica por detrás de cada dependência, de cada crise ou de cada comportamento que parece incompreensível existe sempre uma história que merece ser ouvida. É quando substituímos o julgamento pela compreensão que abrimos verdadeiramente espaço para a mudança. Instagram: @denisvaleriasousa Marcações: https://www.trofasaude.pt/senhordobonfim/corpo_clinico/denis-valeria-sousa-dra/ O percurso de um dos rostos que está a transformar a cirurgia da coluna em Portugal “As gengivas podem contar muito mais sobre a nossa saúde do que imaginamos”
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