SAÚDE “Da reconstrução de tecidos ao tratamento do linfedema, o futuro da cirurgia plástica já acontece nas salas de operações” By Revista Spot | Outubro 1, 2025 Outubro 6, 2025 Share Tweet Share Pin Email Quando pensamos em cirurgia plástica, imaginamos bisturis e mudanças estéticas. Mas esta especialidade vai muito além disso: reconstrói tecidos, devolve mobilidade, trata doenças crónicas e devolve dignidade a quem sofreu um trauma ou um cancro. Hoje, o futuro já acontece dentro das salas de operações: vasos linfáticos reparados com fios mais finos do que um cabelo, tecidos reconstruídos com outras partes do corpo e, quem sabe em breve, órgãos impressos em 3D. É nessa linha ténue onde a ciência procura respostas, a tecnologia abre caminhos e a arte oferece sentido, que Marta Sá de Azevedo encontra o seu lugar como cirurgiã plástica. O linfedema é uma das suas áreas de maior interesse, tendo concluído recentemente uma especialização internacional em Cirurgia Linfática, ao lado de alguns dos cirurgiões plásticos que mais revolucionaram esta área nas últimas décadas. Para a cirurgiã, cada intervenção é um encontro entre conhecimento médico e criatividade, com o propósito de transformar vidas, seja na reconstrução após um cancro, no tratamento do linfedema através da supermicrocirurgia, na abordagem ao lipedema, recentemente reconhecido pela OMS ou na recuperação de autoestima através da cirurgia estética. No horizonte, a regeneração, a bioengenharia e a impressão 3D anunciam revoluções. Mas a maior lição, confessa, continua a vir dos pacientes: a resiliência perante a adversidade. O que é que a levou a escolher a especialidade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética? Desde pequena que o desenho e a pintura fazem parte das minhas atividades preferidas nos tempos livres. A cirurgia plástica é a especialidade médica que me permitiu continuar a alimentar a minha veia artística e criativa, aliando-a à possibilidade de contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos meus pacientes, não apenas através do aumento da autoestima, no caso da cirurgia e medicina estética, mas também de forma curativa e funcional, nas reconstruções necessárias após um cancro, trauma ou queimaduras. A criatividade, associada ao conhecimento técnico, é essencial num cirurgião plástico e, muitas vezes, é o que o distingue não só entre colegas da mesma especialidade, mas sobretudo em relação a outras áreas médicas. Existem várias formas cirúrgicas de corrigir uma deformidade, e é necessário conhecê-las e praticá-las para poder oferecer ao paciente o melhor tratamento possível, tanto do ponto de vista estético como funcional. O lipedema foi recentemente reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como doença. Que impacto tem este reconhecimento no diagnóstico precoce, no acesso a cuidados multidisciplinares e no tratamento cirúrgico? O lipedema é uma condição crónica, estimando-se que afete cerca de 10% das mulheres a nível mundial, um valor bastante elevado. Carateriza-se pela acumulação anormal, desproporcional e simétrica de gordura, principalmente ao nível dos membros inferiores, associada a outros sintomas, como dor local, edema e equimoses, podendo tornar-se incapacitante. A obesidade, a doença venosa crónica, o linfedema e até a própria celulite são patologias com as quais foi confundido durante décadas, mas que, na verdade, também podem coexistir. O seu reconhecimento recente pela Organização Mundial de Saúde permite, atualmente, uma maior consciencialização da sua existência, com um número crescente de profissionais atentos ao diagnóstico e com a formação de equipas multidisciplinares especializadas no seu tratamento. O papel do cirurgião plástico é crucial, não só no diagnóstico e exclusão de outras patologias, em conjunto com a cirurgia vascular, mas também como parte integrante da equipa no tratamento conservador. O linfedema, inchaço crónico de um membro, é uma das complicações mais temidas após o tratamento do cancro da mama, surgindo em 20 a 40% dos casos quando há esvaziamento ganglionar. As técnicas de microcirurgia e supermicrocirurgia têm trazido esperança com resultados promissores. Pode explicar de forma simples como funcionam e qual o impacto na vida dos pacientes? Esta é, sem dúvida, uma pergunta que me agrada bastante. O linfedema é uma das minhas áreas de maior interesse. Terminei recentemente uma especialização internacional em Cirurgia Linfática, que me permitiu aprofundar conhecimentos e técnicas com alguns dos cirurgiões plásticos que mais revolucionaram esta área nas últimas décadas. O linfedema é uma doença que ainda não tem cura, mas isso não significa que não possamos melhorar significativamente a qualidade de vida de quem o apresenta. Muitos dos doentes que me chegam à consulta encontram-se já em estádios avançados, com o linfedema muitas vezes negligenciado durante anos, por ser visto apenas como uma consequência inevitável do tratamento que lhes salvou a vida. Pensam que não há nada a fazer, mas a verdade é que há. Quanto mais cedo forem observados por uma equipa especializada, mais eficaz será o controlo da doença e maior a probabilidade de evitar a sua progressão. A avaliação e intervenção em estádios iniciais é fundamental. Em termos de opções cirúrgicas, existem diferentes possibilidades, sempre adaptadas a cada caso. Para mim, talvez a cirurgia mais surpreendente seja a anastomose linfático-venosa, que consiste em ligar vasos linfáticos ainda funcionantes a veias próximas, criando um trajeto alternativo para o líquido linfático. Esta técnica insere-se na supermicrocirurgia, já que trabalhamos com vasos de menos de 1 mm. Os resultados são visíveis no pós-operatório, com diminuição do peso e da circunferência do membro, tornando possível, por exemplo, voltar a vestir calças ou uma camisola que antes já não serviam. No caso do cancro de mama, a reconstrução mamária é vista como a etapa final da recuperação. Que avanços recentes permitem devolver às mulheres não só a forma, mas também a sensação de feminilidade e confiança? A reconstrução mamária é, de facto, um momento muito importante na jornada de recuperação da identidade da mulher após um cancro da mama. No entanto, não deve ser encarada como a etapa final, mas idealmente como parte integrante da cirurgia principal e esse talvez seja, do meu ponto de vista, o avanço mais relevante dos últimos tempos. De acordo com as orientações internacionais, a reconstrução mamária imediata, ou seja, realizada no mesmo momento da excisão tumoral (remoção do cancro), deve ser a regra, sempre que a situação oncológica o permita. E percebe-se facilmente porquê: em termos psicológicos, evita-se um período de adaptação doloroso a uma nova imagem corporal; em termos cirúrgicos, a intervenção do cirurgião plástico no mesmo ato permite alcançar um resultado mais harmonioso, com uma dimensão não apenas curativa, mas também estética, através de uma solução reconstrutiva pensada desde o início. Por isso, é fundamental que cada caso seja discutido em reunião multidisciplinar, com a presença do cirurgião oncológico e do cirurgião plástico, de forma a que, sempre que possível, a reconstrução mamária imediata seja uma realidade e todas as opções reconstrutivas sejam devidamente avaliadas. A cirurgia de redução mamária e a abdominoplastia são duas cirurgias com conotação estética, mas com impactos físicos, emocionais e de qualidade de vida notórios. Quer falar-nos um pouco sobre isso? A redução mamária é muitas vezes procurada pela melhoria estética da mama, mas é fácil compreender que um peso desproporcional no tórax está frequentemente associado a dor cervical e lombar, desequilíbrios posturais, áreas de vermelhidão nas pregas cutâneas e, muitas vezes, dificuldade na prática de exercício físico. Imagina todas estas queixas a melhorarem com uma cirurgia? O impacto no dia a dia da mulher é enorme, para além do aumento da autoestima. A abdominoplastia é outra cirurgia em que o componente estético está presente, mas não se limita a isso. Para além da melhoria do contorno corporal e da remoção do excesso de pele, é possível corrigir a diástase dos músculos retos abdominais. Este “afastamento” muscular é uma consequência frequente da gravidez e provoca enfraquecimento da parede abdominal, dando a sensação de aumento do volume do abdómen, mesmo em mulheres magras. São, sem dúvida, duas cirurgias que transformam a vida da mulher em várias dimensões: física, emocional e de bem-estar geral. A blefaroplastia é uma das cirurgias mais procuradas atualmente. Como se consegue rejuvenescer a região dos olhos preservando a naturalidade da expressão facial? A blefaroplastia – cirurgia para remoção de pele e/ou bolsas de gordura ao nível das pálpebras – é, de facto, uma das intervenções estéticas mais realizadas atualmente. O excesso de pele nas pálpebras superiores transmite uma expressão de olhar cansado e, nos casos mais acentuados, pode mesmo reduzir o campo visual e provocar cefaleias. Apesar de ser um procedimento aparentemente simples, é fundamental que a decisão cirúrgica seja tomada por um profissional que conheça e respeite a anatomia e as caraterísticas de cada rosto. É essencial compreender as causas do envelhecimento do olhar: se se deve apenas ao excesso de pele ou se, por exemplo, a queda da sobrancelha também desempenha um papel determinante. A técnica cirúrgica é decisiva para alcançar um bom resultado; contudo, a correta avaliação pré-operatória e a definição da melhor abordagem, seja apenas a blefaroplastia ou a sua combinação com outros procedimentos, são indispensáveis para garantir um rejuvenescimento do olhar natural, equilibrado e harmonioso. As alterações físicas, resultantes de acidentes, doenças oncológicas ou por motivos estéticos, têm um enorme impacto emocional. Enquanto cirurgiã, como concilia o lado técnico e científico da cirurgia com a sensibilidade necessária para compreender as expectativas e fragilidades dos pacientes? Esse equilíbrio é, sem dúvida, o maior desafio do meu trabalho diário. É essencial ouvir o paciente para compreender as suas expectativas, principais receios e, quando aplicável, a recuperação funcional que procura, de forma a definir uma estratégia cirúrgica adequada e ajustar expectativas. O objetivo será sempre realizar o procedimento mais indicado, independentemente da sua complexidade, integrando toda a informação recolhida em consulta. Por isso, cada caso é sempre individualizado. A capacidade de transformar vidas e comportamentos através de um resultado visível é, claramente, o que me apaixona todos os dias na Cirurgia Plástica. Se, por um lado, a melhoria da autoestima está quase sempre presente, por outro, é muitas vezes possível recuperar funções previamente perdidas, como, por exemplo, devolver o sorriso após uma paralisia facial. Hoje fala-se cada vez mais em prevenção e em “slow aging”. Que procedimentos considera que melhor representam esta mudança de paradigma para uma estética mais natural e sustentável? Sem dúvida que a prevenção é atualmente considerada o ponto-chave e faz todo o sentido. Começa pela adoção de hábitos saudáveis, como proteção solar diária, alimentação equilibrada, prática regular de exercício físico e evicção tabágica. Em termos de procedimentos, a utilização da toxina botulínica (botox) para suavizar rugas de expressão está cada vez mais difundida, tendo como objetivo evitar que certas rugas se tornem profundas. Os skinboosters também desempenham um papel importante na prevenção, estimulando a produção de colagénio e melhorando a firmeza, a qualidade e a hidratação da pele. O preenchimento com ácido hialurónico, para corrigir pequenas imperfeições e sinais ligeiros de envelhecimento, contribui igualmente para a reposição do volume perdido. Associadas a estas estratégias, podem ainda ser indicadas tecnologias de rejuvenescimento não cirúrgico, como laser, radiofrequência com microagulhamento ou ultrassom microfocado. É importante, no entanto, sublinhar que é essencial uma avaliação inicial por um médico com conhecimento das indicações para tratamentos cirúrgicos e não cirúrgicos. Em determinadas situações, um procedimento cirúrgico, como, por exemplo, o facelift, pode ser a opção mais adequada para alcançar um resultado natural. Apesar de parecer um paradoxo, a verdade é que a realização excessiva e descoordenada de procedimentos menos invasivos pode, sim, conduzir a resultados pouco naturais. Estamos a assistir ao crescimento da medicina regenerativa. O uso de gordura autóloga já é uma realidade. Qual é o verdadeiro potencial desta abordagem no futuro da cirurgia plástica? Sim, o uso de gordura autóloga (do próprio paciente) é atualmente uma prática comum, tanto em reconstrução como em procedimentos estéticos. Permite não só o preenchimento, como a correção de pequenas assimetrias ou o reforço de contorno, mas também tem um efeito regenerador, por ser rica em células estaminais (capazes de se diferenciar noutros tipos celulares), melhorando inclusivamente a qualidade da pele. É hoje um grande aliado, por exemplo, na melhoria da elasticidade dos tecidos após radioterapia ou no rejuvenescimento facial. Outro exemplo é a utilização de plasma rico em plaquetas (PRP), obtido através da remoção e centrifugação de sangue do próprio paciente, aproveitando-se o plasma com elevada concentração de plaquetas e fatores de crescimento para injeção nas áreas a tratar. Este recurso tem aplicação em várias áreas: na ortopedia, no tratamento de lesões ligamentares ou tendinosas desportivas; na medicina e cirurgia estética, para rejuvenescimento; e na dermatologia, para prevenção e/ou tratamento da queda de cabelo. E este é apenas o início. Com a pressão dos filtros digitais e do “body dysmorphic disorder” a aumentar, sobretudo nos mais jovens, qual deve ser o papel do cirurgião plástico nesta situação? Vivemos numa época em que os filtros do Instagram e do Snapchat podem criar uma realidade distorcida, rostos lisos, sem poros e com proporções irreais, tornando fácil para os jovens (e até para os adultos) compararem-se com esses padrões impossíveis. Ao mesmo tempo, o body dysmorphic disorder (transtorno dismórfico corporal) é uma condição séria, em que a pessoa tem uma perceção distorcida de si própria e se fixa obsessivamente em “defeitos” mínimos ou inexistentes. Tendo isto em consideração, o meu papel como cirurgiã plástica passa por desmistificar e, sobretudo, ter a capacidade de dizer “não” a pedidos de mudança irreais. O momento da consulta é determinante para definir expectativas, avaliar o estado emocional e as motivações do paciente e, sempre que necessário, encaminhar para acompanhamento psicológico antes de qualquer intervenção. Cabe ainda ao cirurgião plástico desmistificar os “truques fotográficos” das redes sociais e incentivar a valorização da beleza individual de cada pessoa. Se tivesse de apostar numa inovação disruptiva, seja impressão de tecidos humanos, terapias celulares ou robótica, qual acredita que será a grande revolução da cirurgia plástica na próxima década? Não sei se uma década será suficiente, mas, se tivesse mesmo de apostar, diria que a bioengenharia de tecidos, incluindo a impressão 3D de tecidos humanos, será a maior revolução. Imaginemos poder “imprimir” um enxerto de pele totalmente compatível para um grande queimado ou gerar em laboratório uma orelha nova para alguém que nasceu sem ela; isso mudaria completamente o paradigma e seria uma verdadeira revolução no que hoje conhecemos como cirurgia plástica. A robótica também continuará a evoluir. Atualmente, já existem microscópios robóticos em algumas partes do mundo que permitem realizar ligações vasculares de dimensões quase invisíveis a olho nu, e estas tecnologias tenderão a tornar-se cada vez mais acessíveis globalmente. Paralelamente, a cirurgia minimamente invasiva, com recurso à endoscopia, também terá um desenvolvimento significativo, com a definição de novas indicações e a sua crescente popularização nos próximos anos. Com tantas histórias de superação e transformação no seu dia a dia, o que é que os seus pacientes lhe ensinaram ao longo dos anos? No meu trabalho diário, lido com pacientes em diferentes contextos, desde acidentes graves que podem pôr em causa a vida até pacientes que me procuram para melhorar algo com que não se sentem bem. Em cada uma destas vidas, eu terei um papel. As minhas atitudes, desde as conversas em consulta à decisão cirúrgica, modificam a vida de cada um deles. E é neste sentido de responsabilidade constante que aprendo muito, porque me motivam a ser cada vez melhor no meu trabalho, porque são histórias de força, resiliência e superação…em que a minha motivação, presença e empatia são essenciais para o processo. Ensinaram-me e ensinam-me a importância de ser esperança e realismo ao mesmo tempo. Lembro-me bem da primeira vez que um paciente me perguntou: Doutora, a cirurgia custa muito?”, lembro-me de que já lhe tinha falado das complicações possíveis e de, na altura, lhe ter voltado a explicar isso. Hoje, vejo essa pergunta de outra forma, é importante falarmos sobre o processo e sobre o que pode correr mal, mas é igualmente importante falar de tudo o que vai mudar para melhor. Talvez a principal lição seja a resiliência e a capacidade de encontrar forças onde pensavam não existir. Tento sempre estar presente, incentivar o pensamento positivo e transmitir confiança, embora saiba o quão desafiante pode ser esse processo. Acreditar faz parte da recuperação, e sei o quanto os pacientes confiam em mim, algo que reforça ainda mais o meu sentido de responsabilidade e a minha determinação em ser, todos os dias, melhor naquilo que faço e exigente nos resultados Ser médico é estar presente em todo o percurso e não há sentimento maior do que saber que estamos, de facto, a ajudar. Instagram: @dramartaazevedo.cirplastica Agendamentos: https://linktr.ee/dramartaazevedo “Mais do que uma posição, o tummy time é treino para o cérebro e para o corpo do bebé” “A natureza é o maior recreio do mundo. É nela que as crianças crescem mais livres, saudáveis e felizes”
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