NUTRIÇÃO/Saúde Infantil Da cozinha real às redes sociais: a nutricionista que conquistou as famílias com lancheiras saudáveis para crianças By Revista Spot | Setembro 29, 2025 Setembro 29, 2025 Share Tweet Share Pin Email A nutrição materno-infantil vive hoje um momento de viragem. Nunca tivemos tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil perceber o que realmente importa. É neste encontro entre ciência e vida real que o trabalho de Ana Magalhães Pereira, Nutricionista Materno-Infantil, se torna especial. Ter crescido com excesso de peso e ter vivido os desafios da gravidez deu-lhe uma perspetiva única. Ana não fala apenas de calorias ou nutrientes, fala de histórias, de mulheres e de famílias que procuram equilíbrio num mundo cheio de pressões. A maternidade trouxe-lhe uma visão ainda mais humana, porque sentir na pele transforma a forma como cuidamos do outro. Em workshops animados, na sua cozinha mágica ou em vídeos gravados na pressa do dia a dia antes de sair de casa, ensina-nos a preparar lancheiras saudáveis e pratos simples, desmontando mitos e oferecendo algo mais valioso do que planos alimentares: ferramentas para vivermos a comida com leveza, cultura e prazer. No fundo, a sua mensagem é clara. A nutrição é ciência, mas também é vínculo, identidade e herança. Viver na pele os desafios do peso e da gravidez transformou a sua forma de acompanhar mulheres e famílias? Completamente. Cresci com excesso de peso e senti desde cedo a falta de empatia e de um acompanhamento adaptado às crianças. Foi isso que me levou à nutrição, no fundo quis tornar-me na profissional que eu própria teria precisado em criança. A maternidade acrescentou outra camada: viver os desafios na pele mudou a forma como comunico e como apoio as famílias. Hoje sabemos que a alimentação antes da gravidez pode influenciar não só a fertilidade, mas também a saúde futura do bebé. Que estratégias nutricionais considera mais relevantes nesta fase de preparação? Na preparação para a gravidez não podemos olhar só para a comida. Todo o estilo de vida conta: reduzir álcool e cafeína, evitar disruptores endócrinos, dormir melhor, gerir o stress e manter atividade física. No campo nutricional, é essencial otimizar o peso, melhorar a qualidade da alimentação e corrigir défices que muitas vezes passam despercebidos, mas que podem afetar a fertilidade e aumentar riscos para mãe e bebé. Nas redes sociais vemos muitas vezes gravidezes perfeitas, mas falou publicamente da sua experiência com hiperémese gravídica e malformação uterina. Como é que esta vivência mudou a sua forma de comunicar sobre nutrição e saúde materna? Partilhar experiências reais não assusta, prepara. Muitas mulheres entram na gravidez e no pós-parto sem imaginar o que vão viver, porque só veem imagens perfeitas. No meu caso, só no segundo parto descobri que tinha uma malformação uterina congénita, que me levou a duas cesarianas. É importante perceber que estas alterações podem (ou não) estar ligadas a défices ou comportamentos durante a gravidez da minha mãe (o facto de um bebé nascer saudável não significa ausência de impacto a longo prazo). Também enfrentei hiperémese gravídica, que tornou a gravidez difícil. Posso dizer sem culpa que não gostei de estar grávida, mas faria tudo outra vez pelas minhas filhas. Estas experiências mostraram-me que nem tudo é controlável e que precisamos de estar abertas ao plano B. É isso que transmito às mulheres que acompanho: focar no que está ao alcance e dar ferramentas para se sentirem o melhor possível na sua realidade. Muitas mulheres no pós-parto procuram estratégias rápidas para “recuperar o corpo”, como o jejum intermitente. Porque é que esta prática pode ser arriscada nesta fase e como conciliar estética, saúde e amamentação? No pós-parto não faz sentido falar em jejum. A rotina da mãe não é estável: num dia pode estar 20 horas acordada, noutro muito menos, quase sempre com interrupções para cuidar do bebé. Se restringirmos a janela de alimentação, reduzimos as oportunidades de comer, muitas vezes em momentos em que a mulher está acordada e a precisar de energia. Isso aumenta o risco de défices, não só calóricos, mas também de nutrientes como proteína, ferro ou iodo, fundamentais nesta fase e sobretudo em quem amamenta. O resultado pode ser mais fadiga, menos recuperação e até comprometer a produção de leite. O foco deve ser outro: garantir energia suficiente e qualidade alimentar. O corpo recupera melhor quando está nutrido, não quando é forçado a restrições que não respeitam a realidade. O “Pratinho do Dia” e as lancheiras virais refletem uma abordagem prática e acessível. Quais são os maiores erros que os pais cometem na introdução alimentar e como podemos tornar esta etapa mais leve e segura? Os pratinhos e lancheiras são, para mim, o conteúdo mais genuíno. Partilho aquilo que realmente acontece na minha cozinha e na minha vida, sem filtros, e tem sido um prazer perceber o impacto que isso gera. Acredito que a simplicidade e a empatia são fundamentais: muitas famílias vivem sob a pressão da perfeição e acabam a sentir-se em falha. Eu própria não sigo uma alimentação “impecável” todos os dias e não espero isso de ninguém. Mostrar que é possível ser saudável com escolhas realistas liberta mães e pais desse peso. Qual o impacto dessa autenticidade no combate ao perfeccionismo alimentar? É enorme. Ao partilhar pratos descomplicados e lancheiras possíveis, recebo de volta mensagens de alívio e identificação. O mais transformador é quando percebem que não é preciso corresponder a padrões irreais para alimentar bem a família. Essa naturalidade abre espaço para viver a nutrição com mais leveza, prazer e menos culpa. Vivemos numa era de excesso de informação (e desinformação). Que ferramentas considera essenciais para ensinar crianças e adolescentes a lidar com a comida sem cair em extremos, como restrição ou compulsão? Na educação alimentar, no meio de tanta informação e desinformação, há dois pontos-chave. Primeiro, dar competências às crianças: reconhecer fome e saciedade e perceber que todos os alimentos têm lugar, mas em contextos diferentes. Segundo, o exemplo em casa. Pais em dieta permanente ou a criticar o corpo, próprio ou alheio, passam essa relação às crianças. A escola e as redes sociais também têm um peso enorme, ao exporem padrões pouco realistas. No meu caso, penso sempre nas minhas filhas, quero que cresçam a ver uma mãe que come de tudo, que fala do corpo de forma saudável e que encara a comida como parte da vida, não como problema. Falou da importância de trabalhar com psicólogos e psiquiatras. Como é que a nutrição pode prevenir ou agravar as perturbações de comportamento alimentar, e qual deve ser o papel do nutricionista num acompanhamento multidisciplinar? Nas perturbações do comportamento alimentar a nutrição pode ter dois lados, pode prevenir, mas também pode agravar se for usada de forma rígida ou focada apenas no peso. Quando já existe diagnóstico, a equipa de saúde mental é prioritária: psicólogos e psiquiatras são a base. O nutricionista entra como terceiro elemento, com um papel complementar: dar estrutura alimentar, apoiar na prática do dia a dia, reduzir medos em relação a certos alimentos e ajudar na recuperação física. Tudo isto só faz sentido em articulação com a equipa de saúde mental, porque sem ela não há recuperação verdadeira. A empatia e a relação terapêutica que criamos são centrais para que a pessoa se sinta segura ao longo do processo. De “superalimentos” a dietas da moda, há sempre novidades a circular. Quais são as tendências mais perigosas que observa atualmente e, pelo contrário, quais as abordagens emergentes com evidência científica sólida? As tendências mais perigosas são as que prometem resultados rápidos e sem esforço. Um exemplo é a promoção de suplementos que ‘desincham’ ou ‘desinflamam’, muitas vezes divulgados por influencers com códigos de desconto. Vejo jovens a comprar sem perceber que, além de não terem evidência, podem ser nocivos. O mesmo acontece com dietas extremas que excluem grupos alimentares inteiros. Do outro lado, há abordagens sólidas: o padrão mediterrânico, o foco na qualidade alimentar em vez da contagem obsessiva, a proteína adequada em todas as fases da vida e a ligação entre nutrição e saúde mental. Estes são os caminhos sustentáveis que fazem diferença a longo prazo. Se tivesse de resumir a mensagem central do seu trabalho, que legado gostaria de deixar às famílias que acompanha, não apenas em pratos ou planos alimentares, mas na relação emocional e cultural com a comida? O meu objetivo não é que as famílias dependam de mim para sempre. Quero dar ferramentas e conhecimento para que tomem boas decisões no dia a dia e criem uma relação equilibrada com a comida, sem culpa, com prazer e com autonomia. O legado que gostava de deixar é simples: mostrar que a alimentação pode ser fácil e prática, mas sem perder a nossa cultura e a riqueza da comida portuguesa, sobretudo no Norte. No fundo, quero que cada pessoa encontre uma forma de se alimentar que seja prática, autêntica e sustentável para si. Morada: Av. Dom João IV nº466 2º andar, sala 4, 4810-533 Guimarães Contacto: 910 620 515 (chamada para a rede móvel nacional) Instagram: @nutrianapereira Agendamentos: https://linktr.ee/nutrianampereira “Num mundo que exige pais perfeitos, o que realmente constrói vínculos seguros é a presença consistente, o abraço que permanece depois da birra” “O colo não é mimo. É o início do desenvolvimento do cérebro do bebé”
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