Saúde Infantil Muito antes da cárie, há uma história para ouvir. No consultório da Dra. Didi fala-se de parentalidade consciente, vínculo familiar e desenvolvimento infantil By Revista Spot | Agosto 5, 2025 Agosto 8, 2025 Share Tweet Share Pin Email E se o médico dentista do seu filho visse mais do que dentes? Na cadeira do consultório da Dra. Didi, odontopediatra, com formação em medicina dentária integrativa, funcional e biológica e diretora clínica do Ikimed – Instituto de Medicina Integrativa do Baixo Vouga, o tratamento começa no olhar da criança, na forma como respira, dorme, se alimenta e se move. Aqui, a medicina dentária é apenas a porta de entrada para algo maior: uma escuta atenta e integral da infância. Com uma abordagem que alia medicina dentária integrativa, funcional e biológica ao desenvolvimento infantil e ao vínculo familiar, a Dra. Didi procura sinais que, muitas vezes, passam despercebidos. Uma lesão de cárie precoce pode denunciar noites mal dormidas. Um bruxismo pode esconder ansiedade. E uma mordida desalinhada pode ser o reflexo de uma respiração disfuncional ou de padrões musculares alterados. Neste espaço, não se tratam apenas dentes, compreendem-se histórias. Os pais saem com mais perguntas, sim, mas também com mais respostas. E, sobretudo, com uma nova forma de olhar para os seus filhos: mais curiosa, mais consciente, mais conectada. Porque cuidar da boca é o primeiro passo para cuidar da saúde como um todo. Dra. Didi, como nasceu a sua paixão pela medicina dentária integrativa e como idealizou este espaço pensado para acolher os mais pequenos com afeto, respeito e segurança emocional? A minha paixão pela saúde e pelas crianças nasceu muito cedo, ainda na infância, movida por uma curiosidade natural pelo corpo humano e pelo desejo profundo de cuidar. Mas foi ao longo do meu percurso académico e da prática clínica que compreendi que queria exercer de uma forma diferente, mais humana e verdadeiramente centrada nas pessoas e mais especificamente, na criança, como um todo. Percebi que o que verdadeiramente me realizava ia além da técnica: era o encontro humano. Sempre senti que a infância merece uma atenção especial, não apenas pelo impacto que os primeiros anos têm no desenvolvimento global, mas porque é nessa fase que se forma a relação com o próprio corpo, com o autocuidado e com o outro. Ao tratar uma criança, estamos a entrar num universo mais sensível, responsável, simbólico e tão impactante. Isso exigia, para além de conhecimento, uma escuta que integrasse o corpo, a mente, as emoções e o contexto da criança, com empatia, leveza e profundo respeito. Ao longo do tempo, fui percebendo que os aspetos emocionais, ambientais e relacionais influenciam profundamente a forma como as crianças vivenciam os cuidados de saúde. Isso, juntamente com alguns problemas de saúde pessoais em que não tinha respostas concretas e eficazes por parte da medicina convencional, levaram-me a procurar uma abordagem mais integrativa, que me dava mais respostas, que procurasse a causa raiz, que unisse o rigor da ciência à escuta ativa, que trabalhasse sobre os vários pilares de saúde, e construísse um vínculo de confiança. Mais do que tratar dentes, acredito que cuido de pessoas pequenas em crescimento, atuando assim num terreno fértil e contribuindo para um futuro melhor e isso exige delicadeza, presença e uma escuta profunda. Acredito que é neste encontro entre ciência, afeto e respeito que realmente fazemos a diferença. Foi esta inquietação que me levou a mergulhar no mundo da medicina dentária integrativa. Através dela, encontrei uma forma de unir ciência atualizada, práticas baseadas em evidência e abordagens complementares, com uma visão mais humana e respeitosa da infância. Entendi que o verdadeiro impacto acontece quando olhamos a criança como um todo e não apenas como dentes a tratar. Hoje, acredito profundamente no poder do ambiente como coterapeuta. Um espaço preparado com intenção e sensibilidade pode transformar completamente a experiência da criança e também dos pais. Pode reduzir o medo, abrir portas à colaboração e tornar o cuidado em algo leve e prazeroso. Este é o meu propósito: criar experiências de saúde positivas, que deixem marcas boas na memória afetiva da criança. Porque quando o cuidado é vivido com respeito e afeto, ele não só cura, mas também transforma. A minha vocação sempre teve uma raiz emocional muito forte. Acredito que cuidar de uma criança é, antes de mais, acolhê-la como ela é, no seu tempo, com o seu corpo e as suas necessidades. É respeitar os seus limites, escutar o que ainda não é dito com palavras e criar espaço para que o vínculo aconteça com segurança e amorosidade. A medicina dentária integrativa parte da ideia de que a boca é um espelho do corpo. Na sua prática, que sinais orais têm revelado desequilíbrios sistémicos em crianças? Sem dúvida, a medicina dentária integrativa parte do princípio de que a boca não está isolada do resto do corpo, pelo contrário, é uma porta de entrada e um reflexo direto do estado geral de saúde. Ao longo da minha prática com crianças, tenho observado que muitos sinais orais são, na verdade, manifestações visíveis de desequilíbrios sistémicos mais profundos. Por exemplo, alterações no esmalte dentário ou atrasos na erupção dos dentes podem estar associados a distúrbios hormonais ou carências nutricionais. Problemas digestivos, como refluxo ou disbiose intestinal, muitas vezes refletem-se através de mau hálito persistente, erosões dentárias ou inflamações frequentes na mucosa oral. Também encontramos uma forte ligação com o sistema respiratório: crianças com respiração oral crónica, por exemplo, apresentam alterações no desenvolvimento orofacial, má oclusão e maior suscetibilidade à doença cárie e gengivites. Nestes casos, é essencial trabalhar em equipa, com outras especialidades para intervir na origem do problema, e não apenas no sinal e sintoma. E não esquecendo o impacto do estado emocional. O stress, a ansiedade ou a insegurança, mesmo em idades muito precoces, podem manifestar-se através de bruxismo (ranger dos dentes), lesões autoinduzidas ou dificuldades na aceitação do toque e do ambiente clínico. É por isso que, numa abordagem integrativa, escutamos para além da boca. Observamos o comportamento, acolhemos a história familiar, analisamos os hábitos, a respiração, o sono, a alimentação e o contexto emocional da criança. Cada sintoma oral é uma peça de um puzzle maior e o nosso papel é ajudar a ligá-las para promover uma saúde verdadeiramente global e sustentável. Como é feita uma primeira consulta de odontopediatria integrativa, funcional e biológica? Que áreas da vida da criança são avaliadas? Numa consulta de odontopediatria integrativa, funcional e biológica, a anamnese vai muito além da avaliação dentária tradicional. O nosso foco está em compreender a criança como um todo, na sua individualidade, no seu contexto de vida e nas interações entre os diversos sistemas do corpo. A primeira consulta é, por isso, extensa, delicada e profundamente observadora. Enviamos previamente um questionário de anamnese detalhado e algumas orientações importantes para que a família/cuidadores se preparem adequadamente. Esta antecipação faz parte do nosso compromisso com um cuidado mais consciente, individualizado e respeitador da criança como um todo. O questionário enviado antes da primeira consulta não se limita a perguntas sobre a saúde oral, abrange áreas fundamentais do desenvolvimento infantil, como: histórico da gravidez e do parto; aleitamento materno e uso de chupeta/biberão ou outros bicos artificiais; hábitos parafuncionais; desenvolvimento motor e linguagem; qualidade do sono e padrão respiratório; hábitos alimentares e rotinas diárias; estado emocional e vínculo familiar e sintomas recorrentes ou crónicos. Esta anamnese mais pormenorizada permite-nos já ter uma compreensão mais completa da criança, o que otimiza o tempo clínico e fortalece a nossa escuta e atenção durante a consulta. Juntamente com a anamnese, são enviadas também algumas orientações práticas para garantir uma experiência mais tranquila e positiva para todos. Este cuidado prévio ajuda a criar um vínculo de confiança desde o primeiro contacto, promove a colaboração dos cuidadores e permite que a criança seja recebida com mais segurança e respeito. Avaliamos com especial cuidado o sono (qualidade, posição, despertares noturnos), o padrão respiratório (se respira pelo nariz ou pela boca), a nutrição (variedade alimentar, dificuldades mastigatórias ou seletividade), as rotinas diárias, a dinâmica familiar e o estado emocional da criança. Tudo isso influencia diretamente o desenvolvimento orofacial, a saúde oral e geral e a relação com o cuidado. Durante o exame clínico, observamos muito mais do que dentes: avaliamos a tonicidade muscular, a postura lingual, o freio labial e lingual, o padrão de deglutição, a articulação temporomandibular, o formato da face, a simetria e a oclusão, sempre com empatia e respeito pelo ritmo da criança. Este olhar abrangente permite-nos identificar precocemente alterações funcionais e estruturais que podem interferir no desenvolvimento global da criança. Mais do que tratar, queremos compreender as causas profundas, acompanhar o crescimento com consciência e promover saúde de forma integrada, respeitando o corpo, a mente e o vínculo emocional da criança com o seu ambiente. A Dra. Didi defende a parentalidade consciente como parte da promoção da saúde. De que forma o estilo parental pode influenciar a saúde oral e geral das crianças? Ligar stress familiar, vínculos, hábitos orais, birras na escovagem, alimentação emocional, etc. A parentalidade consciente é, para mim, uma peça fundamental na promoção da saúde, não só oral, mas global. Quando os cuidadores estão presentes de forma atenta, empática e conectada, criam-se vínculos seguros que influenciam diretamente o bem-estar emocional, o comportamento e até a fisiologia da criança. Na prática clínica, vejo com frequência como o estilo parental pode moldar hábitos orais desde muito cedo. Por exemplo, em contextos de stress familiar crónico, é comum observarmos crianças com bruxismo, distúrbios do sono, alimentação emocional ou recusa e seletividade, resistência intensa à escovagem dos dentes, uso prolongado de chupeta ou até comportamentos regressivos. Muitas vezes, as chamadas “birras” na hora da higiene oral não são caprichos, mas sim expressões de desconforto, de cansaço ou de necessidade de atenção ou regulação emocional. Quando há uma parentalidade presente, empática e conectada, a criança sente-se segura. E essa segurança reflete-se na forma como ela coopera nos cuidados diários, como a escovagem dos dentes, a alimentação ou a ida ao consultório. Além disso, padrões parentais muito rígidos ou, pelo contrário, excessivamente permissivos podem dificultar o estabelecimento de rotinas saudáveis, como uma escovagem consistente, a adoção de uma alimentação equilibrada ou o controlo do uso de bicos artificiais. Já quando os cuidadores adotam uma postura consciente, com escuta, paciência e presença, conseguimos criar momentos de cuidado que não são apenas funcionais, mas também relacionais, que fortalecem o vínculo e a autonomia da criança. A saúde oral é profundamente comportamental e emocional. Quando os pais estão sintonizados com as necessidades da criança, conseguem transformar pequenos rituais diários, como escovar os dentes ou preparar uma refeição, em oportunidades de conexão, segurança e aprendizagem. E isso tem um impacto imenso, não só nos dentes, mas no desenvolvimento relacional da criança. Se o cuidado oral for vivido como um momento de afeto, jogo e rotina segura, ele será bem integrado. Mas se for vivido com pressa, ameaças ou distração, pode gerar resistência, medo ou desinteresse. Por isso, na abordagem integrativa, olhamos para o sistema familiar como um todo. Escutamos, acolhemos dúvidas, oferecemos orientação prática e afetuosa sem julgamento e valorizamos os pequenos gestos do dia a dia como verdadeiros promotores de saúde. Porque quando há vínculo, presença e respeito, a prevenção acontece naturalmente e o cuidado deixa de ser uma luta para se tornar um gesto de amor. A ortopedia funcional dos maxilares ganha cada vez mais espaço como alternativa precoce à ortodontia convencional. Quando e porquê intervir com esta abordagem? A ortopedia funcional dos maxilares (OFM) é uma abordagem que visa muito mais do que alinhar dentes, ela procura equilibrar o desenvolvimento funcional e estrutural de toda a face, desde muito cedo. É uma intervenção preventiva, suave e respeitosa, que ganha cada vez mais relevância justamente porque atua antes de ser necessário recorrer a aparelhos fixos ou a tratamentos ortodônticos ou cirúrgicos mais invasivos. Idealmente, a intervenção com OFM deve começar assim que se identificam alterações no desenvolvimento neuro-oclusal, mesmo em idades precoces. Não se espera que os dentes permanentes nasçam para agir; observa-se atentamente sinais e funções alteradas como respiração oral, deglutição atípica, mastigação unilateral, postura inadequada da língua, alterações no sono, na fala ou na postura corporal. Ao estimular as funções orais corretas (respiração nasal, mastigação bilateral, deglutição e fonação adequadas), a OFM ajuda a guiar o crescimento dos ossos maxilares, promovendo simetria, espaço adequado para os dentes permanentes e uma melhor harmonia facial. E mais importante: promovem saúde global, porque melhor respiração significa melhor sono, melhor oxigenação, melhor cognição, atenção e regulação emocional. Além disso, como a abordagem é funcional, trabalhamos em parceria com outras áreas, como terapia da fala, psicomotricidade, osteopatia, fisioterapia, posturologia, otorrinolaringologia, psicologia, entre outra, para garantir que o corpo inteiro acompanha esse desenvolvimento de forma integrada. Em resumo, a OFM é uma intervenção precoce, mas altamente eficaz, que respeita o tempo biológico da criança e atua na raiz do problema. Em vez de corrigir sintomas mais tarde que se tornam maiores e mais difíceis de tratar, ajudamos o corpo a crescer bem desde o início com saúde, funcionalidade e equilíbrio. Que papel têm os hábitos respiratórios (como a respiração oral) na saúde dentária, postural e neurológica da criança? Os hábitos respiratórios têm um impacto profundo e muitas vezes subestimado no desenvolvimento global da criança. A respiração nasal, fisiológica e silenciosa, é essencial para o crescimento harmonioso do rosto, para a saúde oral e para o equilíbrio neurológico e imunológico. Quando a criança respira habitualmente pela boca, o que chamamos de respiração oral crónica, diversos sistemas do corpo podem ser afetados. No que diz respeito à saúde dentária, a respiração oral altera o equilíbrio das funções orais: a boca permanece aberta, a língua perde a sua posição natural no palato, há menor produção de saliva, o que favorece o aparecimento de lesões de cárie, inflamações gengivais e alterações na oclusão dentária. Além disso, compromete o desenvolvimento dos maxilares, levando muitas vezes a uma face mais alongada, palato ogival (alto e estreito), mordida cruzada ou aberta e falta de espaço para os dentes permanentes. Do ponto de vista postural, a respiração oral pode afetar o posicionamento da cabeça, do pescoço e da coluna, criando compensações musculares que influenciam o equilíbrio corporal da criança. E ao nível neurológico e cognitivo, as consequências também são significativas: dormir de boca aberta reduz a oxigenação cerebral, piora a qualidade do sono e pode originar cansaço diurno, défice de atenção, irritabilidade e dificuldades de aprendizagem. Além disso, a respiração nasal é o primeiro filtro imunológico do organismo, aquece, humidifica e purifica o ar inspirado. Quando este processo é desviado pela respiração oral, o sistema imunitário fica mais vulnerável, aumentando a incidência de infeções respiratórias, otites, amigdalites e alergias. Por isso, na prática integrativa, o padrão respiratório é sempre uma prioridade. Avaliamos, rastreamos causas (como hipertrofia de adenoides, amígdalas, cornetos nasais, alergias, desvios funcionais), e quando necessário, envolvemos uma equipa transdisciplinar – otorrinolaringologista, pneumologista, imunoalergologista, terapia da fala, osteopatia, ortopedia funcional dos maxilares – para devolver à criança uma respiração nasal plena. Porque respirar bem é crescer bem, de dentro para fora. A escolha de materiais biocompatíveis é central na sua abordagem. O que é que o público precisa de saber sobre os riscos de substâncias comuns, como os amálgamas com mercúrio? A escolha de materiais biocompatíveis é um dos pilares da medicina dentária integrativa, especialmente quando trabalhamos com crianças, cujo organismo está em pleno crescimento e desenvolvimento e é naturalmente mais sensível a substâncias tóxicas. É fundamental que os pais estejam informados sobre os materiais que entram em contacto com o corpo dos seus filhos, não apenas pelo que vemos a curto prazo, mas também pelos efeitos silenciosos e cumulativos a longo prazo. Um exemplo clássico são os amálgamas dentários (compostos por uma liga metálica que contém cerca de 50% de mercúrio, uma substância neurotóxica reconhecida). Embora tenham sido amplamente utilizados pela sua durabilidade e resistência, hoje sabe-se que libertam vapores de mercúrio ao longo do tempo, especialmente durante a mastigação e ingestão de líquidos quentes. Pode haver bioacumulação no organismo, afetando órgãos como o cérebro, rins e fígado. A exposição crónica está associada a distúrbios neurológicos, imunológicos e hormonais, mesmo que silenciosos. O impacto ambiental da eliminação de resíduos com mercúrio é altamente nocivo. A proibição ou restrição do uso de amálgamas dentários, tem vindo a ganhar força a nível internacional, refletindo uma crescente preocupação com a saúde humana e o impacto ambiental desta substância tóxica. A Convenção de Minamata sobre o Mercúrio, um tratado internacional apoiado por mais de 140 países, visa reduzir a utilização do mercúrio em diversas áreas, incluindo na medicina dentária. Muitos países europeus, por exemplo, proibiram ou restringiram severamente o uso de amálgamas em crianças, grávidas e lactantes, com o objetivo de eliminar progressivamente a sua utilização. Embora nem todos manifestem sintomas imediatos, esta toxicidade pode ser silenciosa, afetando o sistema nervoso, imunológico e endócrino ao longo dos anos, algo especialmente preocupante em organismos imaturos como os das crianças. O organismo das crianças está em desenvolvimento sendo mais vulnerável aos efeitos tóxicos do mercúrio. Por isso, é considerada uma população prioritária para proteção. Na abordagem biológica e integrativa, o uso de amálgamas é completamente contraindicado, tanto na colocação quanto na remoção sem protocolos de segurança adequados. Usamos o Protocolo SMART (Safe Mercury Amalgam Removal Technique) que é internacionalmente reconhecido pela IAOMT (International Academy of Oral Medicine and Toxicology) para a remoção segura de amálgamas dentários com mercúrio, com o objetivo de minimizar a exposição tóxica ao paciente, à equipa clínica e ao ambiente. Felizmente, hoje dispomos de alternativas biocompatíveis, estéticas e livres de metais pesados, como as resinas livres de BPA, os cimentos à base de vidro ionómero ou as cerâmicas, que respeitam o corpo e reduzem o risco de reações adversas. Estes materiais são cuidadosamente selecionados, tendo em conta não apenas a função dentária, mas também a saúde sistémica e o equilíbrio do microbioma oral. Mais do que criar alarmismo, o importante é educar os pais e os cuidadores sobre os riscos do mercúrio e outros materiais e a existência de alternativas seguras e eficazes. A medicina dentária moderna deve caminhar no sentido de proteger não só o órgão dentário, mas o organismo e os sistemas como um todo, com consciência, transparência e respeito pela saúde a longo prazo. Como é que a integração com outras áreas da saúde, como nutrição, psicologia ou fisioterapia, enriquece os resultados clínicos e promove uma verdadeira saúde integral? Na odontopediatria integrativa, acreditamos que a criança é muito mais do que uma boca a tratar, é um ser em pleno desenvolvimento físico, emocional e energético. Por isso, a integração com outras áreas da saúde não é um complemento, mas um pilar central da nossa prática. Cuidar de forma integral significa trabalhar em rede, com uma equipa transdisciplinar que escuta, observa e atua de forma coordenada, respeitosa e verdadeiramente transformadora. A integração e sinergia com especialidades como nutrição, psicologia, fisioterapia, terapia da fala, osteopatia, otorrinolaringologia, psicomotricidade, terapias complementares, entre outras, permite-nos abordar a raiz dos problemas e ampliar o cuidado. Muitas vezes, aquilo que se manifesta na cavidade oral é apenas um reflexo de desequilíbrios mais profundos. Nutrição: A alimentação está diretamente ligada à saúde oral, desde o risco da doença cárie, ao desenvolvimento dos maxilares, passando pelo microbioma oral e intestinal. Prestamos especial atenção aos primeiros 1000 dias de vida (do pré-natal aos 2 anos), uma janela crítica, uma oportunidade de ouro, para o desenvolvimento neurológico, imunológico e estrutural. Um acompanhamento nutricional consciente nesta fase pode prevenir inúmeros desequilíbrios e fortalecer a saúde futura da criança. Em casos de lesões de cárie recorrentes, erosões dentárias ou recusa e seletividade alimentar, a avaliação nutricional é fundamental. Muitas vezes, ajustando a alimentação e respeitando a relação emocional da criança com os alimentos, conseguimos melhorar a saúde oral, intestinal e emocional ao mesmo tempo. Psicologia: O comportamento oral muitas vezes expressa estados emocionais: bruxismo, recusa à escovagem, ansiedade no consultório ou mesmo seletividade alimentar têm raízes profundas. O acompanhamento psicológico, também dos pais, ajuda a reforçar vínculos, promover a autorregulação emocional e transformar o cuidado oral num momento de afeto e segurança. Fisioterapia ou Osteopatia: Em casos de alterações na postura, tensões musculares, respiração oral ou dificuldades motoras, amamentação difícil, problemas na articulação temporomandibular (ATM) ou assimetrias faciais, o corpo precisa de apoio para se reorganizar. O trabalho conjunto permite restaurar o equilíbrio funcional e favorecer o desenvolvimento global. Terapia da Fala (Miofuncional) e Psicomotricidade: Essenciais em casos de deglutição atípica, padrão mastigatório disfuncional, fala alterada, apneia do sono ou respiração oral. Em conjunto com ortopedia funcional dos maxilares, estas terapias ajudam a reeducar padrões e libertar o potencial neuromuscular da criança. Otorrinolaringologia: A respiração nasal é essencial para o correto crescimento orofacial e para a saúde geral. Problemas como hipertrofia das adenoides, amígdalas, cornetos nasais, rinite alérgica ou apneia do sono interferem diretamente com o sono, a oxigenação do cérebro e o desenvolvimento cognitivo e emocional. A parceria com o otorrinolaringologista permite uma abordagem precoce e colaborativa, muitas vezes antes de haver sintomas evidentes. As terapias complementares também são um apoio suave e eficaz. A integração de fitoterapia, homeopatia, aromaterapia, acupuntura e outras terapias naturais oferece suporte ao equilíbrio do organismo de forma não invasiva e respeitosa. A fitoterapia e a homeopatia auxiliam no reforço imunitário, na gestão de inflamações crónicas, ansiedade, alterações digestivas ou do sono, sempre com prescrição individualizada. A aromaterapia, aplicada de forma segura, transforma o ambiente clínico, reduz a ansiedade e promove o bem-estar emocional, ajudando a criar uma experiência positiva para a criança (por ex. óleo essencial de lavanda). Cada criança é única, e por isso criamos planos de cuidado personalizados e transdisciplinares, onde cada profissional contribui com a sua visão, há comunicação e alinham-se estratégias, sempre com a criança (e a sua família) no centro. Este cuidado em rede, não apenas melhora os resultados clínicos, como também constrói experiências de saúde mais leves, humanas e positivas. A verdadeira prevenção e cura acontecem quando unimos conhecimento, escuta e cooperação, ao serviço de uma infância mais saudável e consciente. O bruxismo infantil tem aumentado significativamente. Esta tensão mandibular pode ter origem emocional ou sistémica? Como é abordado na sua consulta integrativa? Sim, o bruxismo infantil, muitas vezes reduzido à ideia de “ranger os dentes” é, na verdade, um sinal de que algo no organismo da criança precisa de atenção. Na abordagem integrativa, olhamos para o bruxismo como um sintoma multifatorial, que pode ter origens emocionais, neurológicas, respiratórias, nutricionais ou mesmo estruturais. Cada vez mais comum, este comportamento pode surgir como resposta a ansiedade, mudanças na rotina, insegurança emocional ou sobrecarga sensorial. Crianças sensíveis, exigentes consigo próprias ou que vivenciam ambientes familiares tensos têm maior tendência a descarregar essa tensão acumulada. Mas há também causas sistémicas: distúrbios do sono, respiração oral, apneia, refluxo gastroesofágico, alergias alimentares ou deficiências nutricionais (como falta de magnésio ou ferro) podem estar na base do bruxismo. Por isso, na consulta integrativa, começamos com uma anamnese detalhada: correlacionamos o sono (se é tranquilo ou agitado, se há despertares, se ressona…), o padrão respiratório, os hábitos alimentares, a rotina diária, o ambiente familiar e o estado emocional da criança. Observamos também a oclusão, a postura, a tonicidade muscular e o padrão de deglutição. A abordagem terapêutica pode incluir ajustes na alimentação, técnicas de relaxamento, melhorias nas rotinas de sono, apoio emocional à criança (e aos pais), terapia da fala miofuncional, osteopatia, e em alguns casos, ortopedia funcional dos maxilares. A goteira de proteção só é indicada quando realmente necessária (raramente em crianças e se indicada tem as suas particularidades), e sempre como parte de uma intervenção mais ampla. O nosso objetivo não é apenas silenciar o bruxismo, mas escutar o que ele está a dizer. Porque o corpo fala e, nas crianças, fala muitas vezes através da boca. Quando ouvimos com atenção, conseguimos cuidar com mais verdade. Na sua prática, utiliza também terapias como laserterapia, acupuntura ou homeopatia. Que benefícios tem observado nestas abordagens junto dos mais pequenos? Na minha prática de odontopediatria Integrativa, o uso de terapias complementares (acupuntura, homeopatia, aromaterapia, fitoterapia…) tem-se revelado um verdadeiro apoio ao processo de cura, não apenas no alívio de sintomas, mas também na criação de um ambiente mais saudável, sempre de forma segura, adaptada à infância e com base científica. Acredito que o cuidado vai muito além da técnica, ele deve acolher o corpo, as emoções e a energia da criança. Estas abordagens não substituem a medicina convencional, mas ampliam as possibilidades de atuação com mais suavidade, conforto e escuta do organismo. Os resultados que observo no dia a dia são profundos e, muitas vezes, surpreendentes. Maior aceitação do cuidado: muitas crianças sentem-se mais confiantes e relaxadas quando percebem que estão a ser cuidadas com respeito pelo seu corpo e sensibilidade. O uso de terapias suaves contribui para vínculos clínicos positivos e experiências mais leves no consultório. A acupuntura pediátrica adaptada à idade e sensibilidade da criança ajuda a equilibrar o sistema nervoso com o controlo da ansiedade e da dor, tem mostrado benefícios importantes na regulação do sono, bruxismo, enurese noturna e perturbações respiratórias e digestivas e até estimulando funções fisiológicas essenciais para o desenvolvimento saudável, com excelente tolerância mesmo em crianças pequenas. A homeopatia, personalizada e suave, oferece um suporte delicado e personalizado, potencializando a capacidade natural do corpo para se equilibrar e recuperar, sem efeitos colaterais. Por exemplo, como apoio em situações de dentição difícil, bruxismo, afeções respiratórias, ansiedade, infeções recorrentes ou recuperação após intervenções clínicas, sempre integrada numa visão global do caso e nunca como substituição de cuidados médicos essenciais. Assim como a fitoterapia ajuda a estimular os mecanismos naturais de autorregulação do corpo, trabalhando desde infeções recorrentes até questões comportamentais. A aromaterapia é uma ferramenta complementar valiosa e segura quando usada com critério. Para além de transformar o ambiente clínico (cria um ambiente sensorial acolhedor e relaxante, reduzindo a ansiedade e promovendo o bem-estar emocional durante as consultas), também tem indicações na ajuda de alterações do sistema respiratório, especialmente em casos de congestão nasal, tosse, bronquite ou rinites, infeções virais leves, prevenção de infeções respiratórias sazonais e apoio ao sono durante quadros respiratórios Os óleos essenciais têm um impacto direto no sistema límbico, a região cerebral ligada às emoções e memórias, o que permite ajudar a controlar o nervosismo e o medo, tão comuns em crianças na hora dos cuidados dentários. Por exemplo, óleos como lavanda, camomila ou laranja doce são frequentemente usados por terem propriedades calmantes e suavizantes. Além do efeito emocional, alguns óleos essenciais também têm propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, que podem ser integradas em protocolos de suporte à saúde oral, sempre com cuidados rigorosos para garantir a segurança das crianças. Estas terapias permitem respeitar o ritmo biológico e emocional da criança, atuando não apenas sobre sintomas, mas também sobre o terreno onde os desequilíbrios surgem. Integrar estas abordagens tem sido essencial para oferecer um cuidado mais humanizado, preventivo e coerente com os princípios da saúde integrativa. Não se trata de “alternativas”, mas de ferramentas complementares ao serviço da cura com ciência e propósito. Estas terapias são pontes entre o corpo e a emoção, entre a ciência e o cuidado. São formas de dizer à criança: “o teu corpo sabe, e nós estamos aqui para te ouvir e apoiar com delicadeza”. E quando isso acontece, a cura é efetiva. O que diria a um pai ou mãe que ainda encara a ida ao médico dentista apenas como algo pontual ou reativo? Como transformar essa visão para uma abordagem preventiva, educativa e integradora? Prevenir é cuidar com amor, proteção e consciência. A ida ao médico dentista não precisa, nem deve, ser apenas uma resposta à dor ou a um problema já instalado. Na verdade, a saúde oral é uma porta de entrada e ao mesmo tempo um espelho da saúde geral, e cuidar dela desde cedo é um ato de profundo respeito pela criança. A cavidade oral é uma janela para a sua saúde geral, emocional, física e até cognitiva e, por isso, antecipar cuidados faz toda a diferença no crescimento e no bem-estar a longo prazo. A medicina dentária integrativa propõe uma mudança de olhar: ver a boca como parte do corpo, ver a criança como um todo, corpo, mente, emoções, ambiente e ver o cuidado como uma construção partilhada entre família e profissionais. Quando os pais/cuidadores compreendem que a prevenção começa na saúde dos progenitores, na barriga da mãe, nos hábitos de sono, na respiração, na alimentação, nas emoções do dia a dia, passam a ver a consulta não como um evento pontual, mas como um espaço de escuta, orientação e construção de saúde ao longo da vida. A prevenção não é apenas evitar as lesões de cárie ou tratamentos dolorosos; é educar, observar, compreender os sinais que o corpo dá, cultivar hábitos saudáveis e criar uma relação positiva com o cuidado desde a primeira infância. A verdadeira prevenção é silenciosa, gentil e começa cedo. Assim a criança crescerá a sentir-se segura e protagonista do seu próprio processo de saúde. Investir na saúde oral (e consequentemente geral) desde cedo é investir na qualidade de vida, na confiança e no desenvolvimento pleno e promover um futuro de pessoas mais conscientes e saudáveis. Cuidar dos dentes é cuidar do futuro. É ensinar, pelo exemplo, que o corpo merece atenção antes do grito da dor. Porque prevenir não é apenas evitar doenças, é cultivar bem-estar, presença e conexão desde o primeiro sorriso. E cuidar assim transforma não só sorrisos, mas vidas inteiras, temos na infância um terreno fértil para semearmos o que de melhor queremos ver no mundo. Morada: Rua do Barril 121, Águeda, 3750-783 Aveiro Contacto: 923 522 020 (chamada para a rede móvel nacional) Instagram: @dradidi.odontopediatra | ikimed.medicina.integrativa Facebook: Drª Didi | Ikimed.medicina.integrativa “O arquiteto do futuro será cada vez mais um agente estratégico, alguém que pensa em ecossistemas, que cruza economia, ambiente, cultura e tecnologia” “A verdadeira revolução no imobiliário não será digital, será ética”
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