Saúde Infantil “Crianças que dormem de boca aberta não descansam, um ciclo que afeta o crescimento, o comportamento e o rendimento escolar” By Revista Spot | Novembro 30, 2025 Dezembro 2, 2025 Share Tweet Share Pin Email A saúde oral infantil é hoje um dos capítulos mais importantes da pediatria. A primeira consulta odontopediátrica, muitas vezes subestimada, revela padrões de respiração, tonicidade da língua, postura, aleitamento, mastigação e sinais precoces de disfunção orofacial capazes de moldar o crescimento craniofacial, o sono e até o comportamento. Num contexto em que a respiração oral se banaliza, a alimentação processada reduz estímulos mastigatórios e o sono fragmentado afeta rendimento escolar, a Odontopediatra Catarina Bonito Vítor alerta para o perigo de normalizarmos sinais clínicos que são, na verdade, indicadores silenciosos de risco. Esta entrevista expõe a urgência silenciosa da prevenção e a evidência que já não podemos ignorar. Porque, como lembra a especialista, “pequenas decisões do dia a dia podem determinar o sorriso, e a saúde global, de uma geração inteira.” Afinal, quando deve acontecer a primeira consulta odontopediátrica e o que pode ser avaliado já nessa fase inicial? Ainda existe a ideia, muito enraizada, de que a criança só deve ir ao dentista quando já tem todos os dentes de leite. Mas a verdade é que a primeira consulta deve acontecer muito antes disso. Hoje, felizmente, chegam-nos cada vez mais bebés enviados pelos pediatras ou por iniciativa dos próprios pais, muitas vezes já no primeiro ano de vida e essa mudança é fundamental. A primeira consulta não é, de todo, um momento técnico ou invasivo. É sobretudo uma oportunidade de criar uma memória positiva: a criança explora o espaço, vê instrumentos, brinca, escova um peluche, conhece a equipa, percebe que não há ameaça. Quando isto acontece cedo, reduzimos drasticamente o medo do dentista que tantas vezes nasce por transmissão familiar: comentários, experiências negativas dos pais ou avós, ou simplesmente o desconhecido. Uma criança que chega pela primeira vez aos 3, 4 ou 5 anos, e já ouviu que “dói”, “é assustador” ou “a doutora vai tirar um dente”, tende a sentar-se na cadeira com medo antes mesmo de sabermos o nome dela. Por isso, concordo com as recomendações da American Academy of Pediatric Dentistry, que defende que a primeira consulta deve ser feita até ao primeiro aniversário ou até 6 meses após o nascimento do primeiro dente. Nesta fase, conseguimos já avaliar os rodetes gengivais, a forma dos maxilares, os freios orais, o posicionamento da língua, a tonicidade dos lábios e até padrões de respiração, como sinais precoces de respiração oral. Observamos hábitos de sucção, pega na mama, tipo de biberão, chupetas, mordedores, bem como a forma como a criança interage, deglute e se organiza corporalmente. Trabalho muito com o método 90/10: noventa por cento da consulta é conversa. É história clínica, é perceber rotinas, é capacitar os pais e filtrar informação que hoje circula sem critério, desde influencers até vídeos virais que, embora bem-intencionados, criam confusão. Apenas dez por cento é exame clínico, sempre ao ritmo do bebé, com leveza, jogo e zero pressão. Só assim construímos um caminho de prevenção autêntica, que protege a saúde oral e o bem-estar global desde o primeiro dia. Por que razão os dentes de leite, tantas vezes desvalorizados, são tão importantes para o desenvolvimento facial, mastigação, fala e autoestima da criança? Os dentes de leite continuam a ser dos elementos mais subvalorizados na saúde infantil, talvez porque são temporários. Contudo, são decisivos para o desenvolvimento global da criança. A dentição decídua surge entre os 4 e os 14 meses e mantém-se até cerca dos 5-6 anos, precisamente o período em que a criança aprende a falar, descobre o mundo, forma vínculos sociais, desenvolve coordenação motora, mastigação, respiração e identidade. Do ponto de vista funcional, estes dentes são muito mais do que “mantenedores de espaço” para os definitivos. Permitem mastigar de forma eficaz, estimulando o crescimento ósseo e muscular da face; orientam os movimentos da língua, essenciais para uma fala clara; contribuem para uma respiração nasal adequada; e participam no desenvolvimento orofacial que vai determinar a forma dos maxilares, a qualidade da mordida e até a estética facial futura. Quando há cárie precoce de infância, com infeções ou perdas dentárias antecipadas, todo este equilíbrio se rompe. A criança sente dor, evita alimentos, tem alterações na fala. Os maxilares deixam de receber o estímulo mecânico necessário, a língua perde a sua “referência natural” e instala-se, muitas vezes, um padrão de hipodesenvolvimento facial. Isto traduz-se em arcos dentários estreitos, más oclusões, dificuldades alimentares e problemas no posicionamento da dentição permanente. É também com estes dentes que a criança se olha ao espelho, sorri, cria relações e constrói autoestima. A saúde oral não é uma questão estética, é desenvolvimento, funcionalidade, linguagem, alimentação, respiração e bem-estar emocional. Cuidar dos dentes de leite é cuidar da infância e, de certa forma, do adulto que essa criança virá a ser. Do aleitamento à introdução alimentar, como é que hábitos orais e alimentares moldam a face e o futuro sorriso de uma criança? O aleitamento materno é, literalmente, o primeiro “aparelho funcional” da vida de um bebé. Quando a pega é correta, com língua elevada e selamento labial eficaz, todo o sistema cervicoestomatognático funciona em harmonia. A sucção ritmada da mama promove um avanço equilibrado da mandíbula, estimula músculos periorais, tonifica a língua e orienta o crescimento dos maxilares. Nenhum biberão ou chupeta consegue replicar este conjunto de forças, porque a mama adapta-se à boca do bebé e não o contrário. Depois, quando chega a alimentação complementar, o corpo continua este diálogo com a função. As texturas passam a ser a grande linguagem de desenvolvimento. Alimentos que exigem esmagar, apreender, cortar com os incisivos e triturar com os molares estimulam músculos, ligamentos e ossos num ciclo contínuo de distensão e compressão, exatamente o estímulo que permite que os maxilares cresçam de forma tridimensional. O problema é que, nas últimas décadas, as nossas rotinas tornaram-se rápidas e altamente processadas. As crianças mastigam cada vez menos. Purés, boiões, pouchs de fruta, refeições suaves e homogéneas criam línguas pouco tonificadas e um palato sem estímulo lateral. Já uma criança que mastiga frutas inteiras, legumes crocantes e alimentos fibrosos está a fazer diariamente uma verdadeira “ginástica orofacial”. Mastiga bilateralmente, mantém a boca fechada, fortalece a língua e estimula a expansão natural do maxilar. Este estímulo precoce reduz significativamente o risco de futuras intervenções ortodônticas ou ortopédicas. É por isso que vemos, cada vez mais, necessidade de intervir em gerações que cresceram com hábitos de sucção, como chuchar no dedo ou uso prolongado de chupeta: maxilares estreitos, mordidas abertas, respiração oral instalada e musculatura desequilibrada. Hoje, trabalhamos frequentemente em equipa com terapeutas da fala especializadas em motricidade orofacial para restaurar a função e permitir que o esqueleto cresça com o estímulo adequado. A forma segue a função e não o inverso. “Grande parte das más oclusões da adolescência começam na primeira infância” De que forma a respiração, a postura e o sono podem afetar a oclusão dentária? E até que ponto a intervenção precoce muda o futuro de uma criança? Quando falamos de oclusão dentária, raramente estamos apenas a falar de dentes. Estamos a falar de funções vitais, como respiração, mastigação, deglutição e postura, que influenciam o esqueleto da face e orientam o crescimento mandibular. A pergunta “o que aparece primeiro?” é quase filosófica, porque muitas vezes o problema instala-se em simultâneo: uma respiração oral leva a uma língua baixa; uma língua baixa leva a um palato estreito; e um palato estreito condiciona a própria forma de respirar. Quando a criança respira pela boca, a língua perde o contacto natural com o palato. Sem a língua a exercer pressão superior, o maxilar não se desenvolve em largura: torna-se alto, estreito, em forma de “V”. E se o palato é estreito, o rebordo alveolar, onde assenta a dentição, também é reduzido, ficando sem espaço para alinhar corretamente os dentes. Além disso, quando a arcada superior não cobre de forma estável a inferior, como a tampa de uma caixa cobre o seu recipiente, o cérebro interpreta esta mordida instável como um alerta. Para “resolver” o problema, a mandíbula desloca-se ligeiramente para um lado ou para a frente à procura de maior contacto dentário. É um mecanismo de sobrevivência funcional, mas cria uma alteração do eixo de crescimento mandibular. Chamamos a isto mordida cruzada funcional. E este é o exemplo perfeito para explicar a importância da intervenção precoce: se deixássemos o crescimento seguir sozinho, a criança instala uma mastigação unilateral, ativa mais músculos de um lado do que do outro e a mandíbula cresce de forma assimétrica. Corrigir isto na adolescência ou idade adulta implica tratamentos muito mais complexos e, por vezes, cirúrgicos. A qualidade do sono acrescenta outra camada importante. Crianças que respiram mal, devido a amigdalas aumentadas, rinite, palato estreito ou fraqueza muscular orofacial, acumulam microdespertares noturnos. Dormem de boca aberta, com ronco leve, numa postura cervical compensatória. E o corpo adapta-se: a cabeça projeta-se para a frente, o tónus muscular altera-se e a postura geral influencia novamente o posicionamento mandibular e a oclusão. Daí que uma criança com respiração nasal adequada, boa postura, língua no palato e mastigação bilateral tenha um “mapa de crescimento” completamente diferente. O equilíbrio das funções orais é o verdadeiro guia do desenvolvimento dentário. Intervir cedo é, muitas vezes, evitar anos de tratamento futuro e ganhar qualidade de vida na infância. Hoje fala-se cada vez mais em ortodontia intercetiva. Em que consiste esta abordagem e em que difere dos tratamentos ortodônticos convencionais realizados na adolescência? Quando falamos em ortodontia na infância, não falamos apenas em “aparelhos” para alinhar dentes, mas em três grandes áreas que se cruzam: ortodontia preventiva, intercetiva e ortopedia funcional dos maxilares. Todas têm um objetivo comum: atuar cedo, enquanto a criança ainda está em crescimento, para evitar que pequenas alterações se transformem em más oclusões estruturadas e difíceis de corrigir. A ortodontia preventiva entra em cena antes de existir uma má oclusão instalada. É o caso dos mantenedores de espaço: se uma criança perde um dente de leite demasiado cedo, por cárie ou trauma, a tendência natural é os dentes vizinhos migrarem e fecharem esse espaço. Ao confecionar um dispositivo personalizado que “guarda” esse espaço, estamos a proteger o lugar do dente definitivo que ainda vai nascer. Parece um gesto simples, mas pode significar evitar, anos mais tarde, extrações, apinhamentos severos ou tratamentos muito prolongados. A ortodontia intercetiva atua quando já começamos a ver alterações no crescimento dos maxilares ou na forma como os dentes encaixam, mas ainda temos uma enorme margem de manobra, porque a criança está em fase de crescimento ativo. Aqui entra, por exemplo, a correção de mordidas cruzadas, mordidas abertas associadas a chupeta ou sucção digital prolongada, desvio funcional da mandíbula ou falta de espaço inicial. Através de aparelhos simples, muitas vezes removíveis ou de baixa complexidade, ou até mesmo “pequenas massinhas mais altas” (pistas diretas), conseguimos “mudar o carril do comboio” enquanto o comboio ainda está a ganhar velocidade. Orientamos o crescimento, em vez de tentar corrigi-lo tardiamente. Já a ortopedia funcional dos maxilares (OFM) dedica-se à relação entre músculos, língua, lábios, postura e oclusão. Muitas vezes, trabalha em articulação com terapeutas da fala e outros profissionais para reeducar funções como a mastigação, a deglutição e a posição de repouso da língua, porque são essas funções que vão continuar a moldar os ossos ao longo do crescimento. A grande diferença em relação à ortodontia tradicional da adolescência é esta: na ortodontia precoce trabalhamos com o crescimento, na convencional frequentemente trabalhamos contra ele ou sobre o que já ficou “cristalizado”. Quando atuamos cedo, conseguimos muitas vezes evitar extrações de dentes definitivos, aparelhos fixos muito complexos ou até cirurgias ortognáticas na idade adulta. Não significa que a criança nunca vá precisar de tratamento na adolescência, mas esse tratamento tende a ser mais curto, mais simples e com resultados mais estáveis, porque respeitou o desenvolvimento natural desde o início. “O meu filho dorme de boca aberta, é normal?”, é uma das perguntas mais frequentes dos pais. Como identificar sinais de respiração oral e que impacto pode ter no crescimento orofacial, no sono e até no desempenho escolar? Dormir de boca aberta, ficar longos períodos distraído com a boca entreaberta ou ter uma respiração ruidosa não é “apenas uma mania” da criança, nem um traço de personalidade. São sinais de alerta de respiração oral e devem ser valorizados. Numa criança saudável, a regra é clara: respiração nasal, silenciosa, de boca fechada, tanto acordada como a dormir. Gosto de explicar esta relação com uma imagem simples: imaginemos uma casa em que a boca é o rés-do-chão e o nariz é o primeiro andar. O palato (o “céu da boca”) é, ao mesmo tempo, o teto da boca e o chão do nariz. O nariz foi desenhado para respirar: tem cílios, cornetos nasais em forma de labirinto, tecido linfóide como as adenóides, que aquecem, filtram e humidificam o ar antes de ele chegar aos pulmões. Quando respiramos pela boca, tudo isto é “atalhado”. O ar entra mais frio, mais seco e carregado de partículas, o que aumenta o risco de inflamação crónica das vias respiratórias, otites, amigdalites e infeções de repetição. O corpo tenta defender-se. As amígdalas palatinas tornam-se o primeiro filtro desse ar agressivo, hipertrofiam, ocupam mais espaço na garganta e acabam por empurrar a língua para a frente e para baixo. A língua deixa então de ocupar o palato, perde a sua função de “moldador natural” do maxilar superior e instala-se um círculo vicioso: palato estreito, nariz estreito, mais dificuldade em respirar pelo nariz, mais boca aberta. Este padrão dá origem ao chamado fácies adenoideu: face mais alongada, olheiras marcadas, lábios entreabertos, expressão cansada. Do ponto de vista orofacial, as consequências são profundas. Uma língua baixa e uma boca constantemente aberta comprometem o desenvolvimento transversal do maxilar, favorecem arcadas estreitas, apinhamento dentário, mordidas abertas e alterações na forma de mastigar e engolir. Como a postura de cabeça e pescoço se adapta à dificuldade respiratória, surgem também compensações posturais globais. No sono, a respiração oral está muitas vezes associada a ressonar, microdespertares, sono agitado e, em alguns casos, síndromes de apneia do sono na criança. Uma criança que não dorme bem não descansa, não consolida memórias da mesma forma, tem mais dificuldade em regular emoções e atenção. Não é raro vermos crianças com queixas de desatenção, irritabilidade, cansaço diurno ou aparente “falta de concentração” que, na verdade, estão a sofrer as consequências de uma respiração inadequada e de um sono pouco reparador. Identificar estes sinais cedo – boca aberta em repouso, ronco, sono inquieto, cansaço diurno, infeções de repetição, alterações de mordida – permite encaminhar a criança para uma avaliação integrada, que pode envolver médico dentista, otorrinolaringologista, alergologista e terapeuta da fala. A boa notícia é que, quando se intervém na infância, é muitas vezes possível corrigir o padrão respiratório, reequilibrar a função e permitir que o crescimento orofacial retome o seu caminho mais saudável. Aqui, como em quase tudo em desenvolvimento infantil, quanto mais cedo se olha para o problema certo, mais leve é a solução. “O odontopediatra devia acompanhar a saúde da criança desde cedo, tal como o pediatra e o médico de família” Quais são os traumatismos dentários mais frequentes na infância? Os primeiros anos de vida são marcados por quedas constantes: as crianças aprendem a andar, ganham autonomia, exploram o ambiente e isso traduz-se frequentemente em pequenos traumatismos dentários. Nessas idades, as lesões mais comuns são as concussões e subluxações, o dente bate no chão, não chega a fraturar, mas sofre um impacto que pode magoar o ligamento periodontal. Muitas vezes, os pais nem associam o episódio à lesão nos dentes porque não houve sangue nem queixas de dor. Só semanas ou meses depois percebem que o dente escureceu, o que costuma motivar a primeira consulta. Na maioria dos casos, estas lesões estabilizam sem grande intervenção, mas é fundamental avaliá-las porque um traumatismo aparentemente ligeiro num dente de leite pode, por contiguidade anatómica, afetar o desenvolvimento do dente definitivo que está em formação logo acima. Já em idades escolares, sobretudo entre os 7 e os 9 anos, o cenário muda. Nesta fase, pela combinação de maxilares ainda em crescimento, incisivos permanentes em erupção e grande plasticidade do osso alveolar, é frequente ocorrer avulsão dentária, ou seja, a saída completa de um dente permanente. Jogos de bola, brincadeiras de confronto, quedas de bicicleta ou simples acidentes no recreio são suficientes para desalojar completamente um dente que, naquele momento, ainda está pouco estabilizado ao osso. O que devem os pais fazer perante a perda de um dente num acidente? Perante um acidente, a prioridade absoluta é garantir que a criança está consciente e sem lesões graves. Confirmada a estabilidade geral, deve-se procurar o dente ou fragmento, segurando-o sempre pela coroa (a parte branca) e nunca pela raiz. Idealmente, deve ser lavado rapidamente com soro fisiológico ou leite, sem esfregar, e colocado num meio húmido que preserve as células do ligamento: leite, soro, saliva ou até dentro da boca do próprio cuidador, debaixo da língua, se não houver outra alternativa. A rapidez aqui é crítica. Nos dentes definitivos, se o dente avulsionado for reimplantado nos primeiros 30 minutos, a probabilidade de ele voltar a aderir ao osso e de manter vitalidade aumenta drasticamente. Após este período, as células da raiz começam a morrer e o risco de reabsorções, perda de vitalidade ou falência do reimplante sobe significativamente. Por isso, em caso de dúvida, o ideal é colocar o dente novamente no alvéolo, pedir à criança para morder suavemente uma compressa e dirigir-se ao dentista de urgência imediatamente. A literatura mostra que a diferença entre salvar ou perder um dente permanente pode literalmente depender de minutos. E experiências clínicas confirmam-no: há dentes que, quando reimplantados a tempo, recuperam integralmente e acompanham a criança até à idade adulta. A resposta rápida e informada dos pais é, por isso, tão importante quanto a intervenção do profissional. Que hábitos de higiene oral devem ser ensinados desde cedo? Como podem os pais transformar a escovagem numa rotina educativa e positiva? Na teoria parece simples; na prática, quase todos os pais admitem que nem sempre conseguem que a criança colabore na escovagem. A sensibilização oral deve começar muito antes da escovagem propriamente dita: mordedores, massajadores gengivais e pequenas manipulações dentro da boca ajudam o bebé a integrar o toque oral como algo natural. Logo após o nascimento do primeiro dente, inicia-se a escovagem com uma escova de cerdas macias e pasta com 1000 ppm de flúor, mesmo que o gesto dure apenas alguns segundos. Quando dois dentes de leite tocam entre si, deve ser introduzido o fio dentário, porque a escova simplesmente não consegue aceder ao espaço de contacto e cáries interproximais em dentes de leite são extremamente comuns quando este passo é negligenciado. Mas a chave do sucesso é a previsibilidade. As crianças sentem-se seguras quando o dia tem uma estrutura e quando percebem que a escovagem faz parte de uma rotina de higiene tão inevitável como o banho. A imitação também desempenha um papel central: pais que escovam na presença dos filhos têm crianças mais colaborantes e motivadas. Se os adultos negligenciam a sua própria higiene oral, a criança não compreenderá porque deve fazer aquilo que os pais não fazem. Transformar o momento da escovagem numa experiência positiva é meio caminho andado. Músicas repetidas, histórias, pequenos rituais, permitir que a criança escolha a escova, usar aplicações com temporizadores ou desafios, tudo isto ajuda a criar envolvimento. Há dias em que tudo corre bem e outros em que a escovagem é uma batalha; mas, mesmo nesses dias, o princípio mantém-se: “feito é melhor do que perfeito”. Não se exige perfeição, exige-se consistência. Escovar os dentes é um ensinamento que acompanha a criança para toda a vida. Quanto mais cedo a rotina for instaurada, mais natural e menos conflituosa se torna. E quando a família inteira participa, a criança percebe que não está a cumprir uma obrigação isolada, mas a integrar um hábito de cuidado e saúde que faz parte da própria identidade da casa. Ainda existe muito desconhecimento sobre a importância da saúde oral pediátrica. Como podemos melhorar a literacia dos pais nesta área, nas escolas, nas consultas de vigilância e também nas redes sociais? Para falarmos de literacia em saúde oral pediátrica, temos de começar por reconhecer uma realidade dura: em Portugal, a literacia em saúde, em geral, ainda é muito baixa. Não existe uma consciência clara do que é “normal” em saúde; confunde-se muitas vezes o comum com o aceitável. Se queremos mudar este cenário, a sensibilização tem de começar logo nas primeiras linhas de contacto com a família: equipas de enfermagem, pediatria e médicos de família que acompanham o binómio mãe–bebé. Estas equipas, frequentemente exaustas e sobrecarregadas, focam-se, e bem, em parâmetros vitais como o peso, a alimentação, a vacinação e o desenvolvimento global. Mas a saúde oral da mãe e do bebé, tal como a saúde mental, continua muitas vezes “fora da lista”. Integrar mensagens simples sobre higiene oral, aleitamento, respiração nasal e introdução alimentar nas consultas de vigilância seria um passo enorme: mostrar como se escova o primeiro dente, quando usar pasta com flúor, quando encaminhar para o odontopediatra, porque é que dormir de boca aberta não é um “pormenor”. Ao nível comunitário, o trabalho nas escolas e jardins de infância é absolutamente determinante. Quando trabalhei na ONGD Mundo a Sorrir, em escolas, IPSS e contextos sociais vulneráveis, vi bocas de crianças em que praticamente nenhum dente estava saudável: cáries extensas, raízes residuais, infeções e dor que já se tinham tornado “paisagem de fundo” na vida daquela criança. Quando lhes perguntava se tinham dores, muitas respondiam que não, não porque não doesse, mas porque nunca conheceram outra realidade. Também encontrei crianças que, aos sete anos, nunca tinham tido uma escova de dentes própria; só tomaram consciência disso quando a equipa de saúde oral entrou na escola e lhes falou, pela primeira vez, sobre o que é escovar, para que serve a pasta, porque é que aquilo lhes diz respeito. Houve uma menina que, depois de uma dessas ações, pediu ao Pai Natal um kit de escova e pasta para ter em casa. Quando contamos esta história, muitos imaginam um país distante; mas isto acontece aqui, ao nosso lado. As redes sociais podem e devem ser aliadas, desde que usadas com responsabilidade. São um meio fortíssimo para descomplicar conceitos, mostrar gestos simples (como escovar um dente de leite ou usar fio dentário em crianças), alertar para sinais de risco (respiração oral, cárie precoce, dor à mastigação) e desconstruir mitos (“os dentes de leite não se tratam”, “é normal uma criança ressonar”, “chupeta até aos 4 ou 5 anos não faz mal”). Quando essas mensagens são produzidas por profissionais, em linguagem acessível e repetidas de forma consistente, vão fazendo o seu caminho. Por fim, é importante lembrar que a saúde é um direito, mas o acesso continua a não ser igual para todos. A integração de médicos dentistas nos centros de saúde foi um passo importante para reduzir o fosso entre saúde pública e privada, mas está ainda longe de garantir cuidados equivalentes aos que existem num consultório privado, quer pelos recursos disponíveis, quer pela cultura instalada. Em muitos casos, mesmo quando se explica que um dente pode ser tratado e mantido em função, o doente prefere extraí-lo por desconhecimento, medo ou falta de valorização da própria saúde oral. Mudar isto exige trabalho de proximidade, tempo para explicar, equipas no terreno, e uma aposta séria em educação para a saúde, começando nas escolas e nas consultas de vigilância e ampliando o alcance através dos meios digitais. Não precisamos de ir a “outros mundos” para encontrar realidades dramáticas; basta olhar com atenção para o que acontece na porta ao lado. “A primeira consulta odontopediátrica revela padrões de respiração e sinais precoces de disfunção orofacial” A medicina dentária infantil parece caminhar para uma abordagem cada vez mais integrativa e multidisciplinar. Para si, qual é o futuro da odontopediatria? Sim, acredito que o futuro da odontopediatria passa inevitavelmente por uma visão integrativa da criança. Mas, para isso, não basta acrescentar mais um profissional à lista de especialistas; é preciso mudar a forma como desenhamos o acompanhamento em saúde infantil desde o nascimento. O ideal seria que o odontopediatra estivesse integrado, a par e passo, no percurso de vigilância de saúde da criança, tal como acontece com o pediatra ou o médico de família. Acompanharia o bebé desde cedo, avaliando não apenas os dentes, mas a sucção, a respiração, a postura, a função da língua, a mastigação e o impacto de cada um destes fatores no crescimento craniofacial. O grande potencial da odontopediatria está precisamente na prevenção verdadeira: intervir quando ainda há plasticidade, quando uma pequena mudança de hábito – corrigir a respiração oral, ajustar a introdução alimentar, encurtar o tempo de chupeta, orientar uma mastigação mais funcional, encaminhar a tempo para terapia da fala -pode fazer a diferença entre uma vida adulta com boa função, autoestima e conforto, ou um percurso marcado por dor, apneia do sono, más oclusões, problemas posturais e baixa autoconfiança. Não significa que a boca explique tudo, mas sabemos hoje que o sistema cervicoestomatognático se relaciona com a postura global, com padrões respiratórios, com a qualidade do sono e com o equilíbrio neuromuscular. Ignorar isto é perder uma oportunidade de ouro. Vejo o futuro da medicina dentária infantil como um trabalho em rede. Odontopediatras, pediatras, otorrinolaringologistas, terapeutas da fala (especializadas em motricidade orofacial e linguagem), fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros profissionais a comunicar entre si, a olhar para a mesma criança com lentes diferentes, mas complementares. Em vez de intervenções avulsas, teríamos planos integrados, em que a decisão de alargar um maxilar, reeducar uma função ou intervir numa amígdala aumentada é pensada em conjunto, com foco no melhor resultado funcional a médio e longo prazo. Como costumo dizer, a boca e a cabeça não estão separadas do resto do corpo e o microbioma oral, a oclusão, a forma como mastigamos e respiramos têm impacto na saúde sistémica, no comportamento, no sono, no rendimento escolar e no bem-estar emocional. O futuro da odontopediatria será, espero, aquele em que deixamos definitivamente de ver “dentes” e passamos a ver crianças inteiras, em que o sorriso é, de facto, um reflexo fiel da sua saúde global. E isso começa muito antes da primeira lesão de cárie: começa na literacia, no olhar atento e na coragem de tratar a prevenção como o eixo central, e não como um extra. Instagram: @bonito.vitor.smiles Facebook: Bonito Vitor Smiles – Dra Catarina dos Dentinhos Marcações: linktr.ee/catarinabonitovitor Existe em Braga uma loja que é um conto de Natal real Arte Total volta a dançar no espaço original de Souto de Moura recém-renovado em Braga
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