Medicina Estética/SAÚDE ORAL “Antes de corrigir uma ruga, é preciso perceber por que razão ela apareceu” By Revista Spot | Julho 28, 2026 Julho 28, 2026 Share Tweet Share Pin Email Cada rosto tem uma biografia. Guarda noites mal dormidas, mudanças hormonais, perdas de volume, movimentos repetidos, assimetrias, emoções e formas muito próprias de atravessar o tempo. Reduzi-lo a uma ruga, a um lábio ou a uma linha mandibular é ignorar quase tudo o que o torna humano. Irina Bernardino fez dessa leitura global a base da sua prática clínica. Médica dentista, Mestre em Harmonização Orofacial, professora, coordenadora científica e diretora da clínica com o seu nome, desenvolveu uma leitura global do rosto ao longo de mais de 23 anos de experiência em anatomia, função e reabilitação. Criadora do Protocolo Toxina 360 e do conceito Soft Harmony Lips™, acredita que harmonizar não é perseguir a perfeição, mas restaurar o equilíbrio sem uniformizar. Entre a influência dos filtros, a estética regenerativa e a responsabilidade de recusar procedimentos, deixa uma ideia clara: o melhor resultado não cria um rosto novo. Devolve coerência ao rosto que sempre esteve lá. O seu percurso na Medicina Dentária influenciou a sua leitura da anatomia, da proporção e do equilíbrio facial? A Medicina Dentária deu-me uma base muito sólida para compreender a anatomia, a função e as proporções da face. Ao longo de mais de 23 anos de prática clínica, passei por áreas como a Ortodontia, a Implantologia e a Reabilitação Oral, o que me permitiu desenvolver uma visão cada vez mais global do rosto. Mais tarde, o Mestrado em Harmonização Orofacial veio reforçar essa forma de pensar. Hoje, quando observo um rosto, não o vejo por regiões, mas como um “todo”, e procuro perceber como envelheceu, o que perdeu ao longo do tempo e de que forma posso restaurar esse equilíbrio, mas respeitando sempre a identidade e as caraterísticas únicas de cada paciente. O que muda quando se deixa de olhar para zonas isoladas e se começa verdadeiramente a “ler” o rosto como um todo? Quando passamos a analisar o rosto na sua globalidade, deixamos de tratar apenas sinais de envelhecimento e começamos a compreender a sua verdadeira origem. O envelhecimento facial não acontece apenas à superfície da pele. Ao longo dos anos, ocorrem alterações na estrutura óssea, há perda de volume, mudanças na dinâmica dos músculos, flacidez dos tecidos e alterações na qualidade da pele. Por isso, mais importante do que tratar uma região é perceber a origem dessas mudanças. É esta avaliação global que me permite definir um plano de tratamento personalizado e alcançar resultados mais equilibrados, naturais e duradouros. O que é que a levou a criar o Protocolo Toxina 360 e o que significa, na prática, trabalhar a toxina numa perspetiva global? O Protocolo Toxina 360 nasceu da minha experiência clínica e da necessidade de encontrar uma abordagem mais completa para o rejuvenescimento facial apenas com toxina botulínica, que é aquele tratamento de que quem faz procedimentos estéticos não abdica. Ao longo dos anos, fui percebendo que a aplicação tradicional da toxina botulínica, muito centrada no terço superior da face, nem sempre permitia alcançar um resultado verdadeiramente harmonioso. Foi essa observação que me levou a desenvolver esta abordagem global da face. O conceito “360” significa precisamente isso: olhar para o rosto como um todo e definir uma estratégia de tratamento personalizada, respeitando a anatomia, a expressão e as caraterísticas de cada pessoa. Ao conjugar toxina botulínica e estética regenerativa, estamos a passar da correção para uma abordagem que melhora a qualidade dos tecidos e a forma como envelhecem? Acredito que a Medicina Estética está a viver uma fase muito interessante. Durante muitos anos, o foco foi sobretudo corrigir os sinais do envelhecimento. Hoje, queremos ir mais longe: queremos melhorar a qualidade dos tecidos e ajudar a pele a envelhecer de forma mais saudável. Foi precisamente dessa visão que nasceu a versão Premium do Protocolo Toxina 360. Ao associar a toxina botulínica a uma estratégia regenerativa, conseguimos estimular a produção de colagénio, melhorar a qualidade da pele e potenciar resultados mais duradouros. Para mim, o futuro da Medicina Estética passa cada vez mais por preservar, regenerar e prevenir, e não apenas por corrigir. Com o conceito Soft Harmony Lips™, procura lábios suaves e naturais. Os pacientes pedem hoje mais naturalidade ou continuam condicionados pelas redes sociais? Durante alguns anos, os lábios acabaram por simbolizar alguns dos excessos da Harmonização Orofacial. Felizmente, essa tendência tem vindo a mudar e sinto que hoje existe uma procura cada vez maior por resultados naturais. Foi precisamente dessa filosofia que nasceu o conceito Soft Harmony Lips™. O objetivo nunca foi criar lábios maiores, mas sim lábios proporcionais, equilibrados e em harmonia com o rosto. As redes sociais continuam a influenciar muitos pacientes, mas noto uma mudança muito positiva. Cada vez mais, chegam à consulta a dizer: “Quero um resultado natural, quero continuar a parecer eu.” E, para mim, esse é o melhor ponto de partida para qualquer tratamento. Como gere pacientes que chegam com um procedimento ou resultado já escolhido? Perante que pedidos é essencial recusar intervir? Sem dúvida. Saber dizer “não” faz parte da responsabilidade de qualquer médico. É muito comum os pacientes chegarem à consulta com uma ideia muito concreta do tratamento que querem fazer, muitas vezes influenciados pelas redes sociais ou por resultados que viram noutras pessoas. Mas o que resulta num rosto pode não fazer sentido noutro. Sempre que considero que um tratamento não tem indicação, que pode comprometer a harmonia do rosto ou que não vai ao encontro daquilo que é melhor para o paciente, sinto que tenho o dever de o explicar. A confiança constrói-se precisamente nessa honestidade. Às vezes, o melhor tratamento é aquele que decidimos não fazer. Enquanto professora e mentora, o que é que mais a preocupa na formação dos novos profissionais de Harmonização Orofacial? O ensino permitiu-me olhar para esta realidade de uma forma muito próxima. Como coordenadora científica, docente e orientadora de dissertações de mestrado, acompanho a evolução de muitos profissionais e acredito que o maior desafio continua a ser desenvolver o pensamento clínico. As técnicas aprendem-se. O mais difícil é saber observar um rosto, compreender a sua anatomia, perceber como envelhece e, a partir daí, escolher o tratamento mais adequado para cada paciente. É isso que procuro transmitir aos profissionais que acompanho: antes de aprender a injetar, é preciso aprender a avaliar, a pensar e a decidir. O que distingue um verdadeiro protocolo clínico de uma estratégia de marketing? Que critérios lhe dão consistência? Criar um protocolo implica uma grande responsabilidade. Não basta dar um nome a uma técnica. É preciso que exista uma base científica e uma metodologia consistente, construída com base na experiência clínica, no conhecimento científico e em resultados que se confirmem ao longo do tempo. O marketing e as redes sociais podem despertar interesse, mas a credibilidade conquista-se com conhecimento e resultados consistentes. Até que ponto a procura por simetria e proporções ideais pode apagar as caraterísticas que tornam cada rosto único? Não acredito em rostos perfeitos. Acredito em rostos autênticos. As pequenas assimetrias fazem parte da identidade de cada pessoa e são, muitas vezes, aquilo que a torna única. O nosso papel não é apagá-las, mas preservar a expressão, restaurar o equilíbrio e respeitar a individualidade de cada rosto. Costumo dizer que o maior elogio que um paciente pode receber não é: “Que tratamento fizeste?”, mas sim: “Estás com um ótimo aspeto.” Quando isso acontece, significa que o tratamento valorizou a pessoa sem lhe retirar a sua identidade. Para mim, esse é o verdadeiro objetivo da Harmonização Orofacial. O verdadeiro avanço da área estará em ter mais ferramentas ou em saber selecionar melhor, intervir com critério e preservar a identidade? Acredito que o futuro da Harmonização Orofacial não passa por fazer mais procedimentos, mas por fazer melhores escolhas. Hoje, temos à nossa disposição mais produtos, mais tecnologia e mais opções de tratamento do que nunca. Mas a verdadeira evolução está na capacidade de selecionar a estratégia mais adequada para cada paciente. Na minha perspetiva, o futuro da Medicina Estética passa por abordagens cada vez mais personalizadas, regenerativas e preventivas. Menos excessos e mais critério para a obtenção de resultados harmoniosos e naturais. Instagram: @irinabernardino.hof | @clinicairinabernardino “A mulher não termina no parto nem perde importância depois dos 40” “A farmacêutica formuladora é quem garante que, por trás de uma fórmula bonita, existe ciência que funciona”
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