Psicologia “A Clínica Tear chega ao Porto e a Gaia para aproximar o apoio psicológico de quem precisa de um caminho, não apenas de uma consulta” By Revista Spot | Junho 9, 2026 Junho 15, 2026 Share Tweet Share Pin Email Nunca se falou tanto de saúde mental em Portugal. Ansiedade, depressão, burnout e exaustão emocional deixaram de ser palavras escondidas e entraram na conversa pública, nas empresas, nas famílias e nas consultas. Mas falar mais não significa, necessariamente, cuidar melhor. Entre listas de espera, consultas avulsas e percursos interrompidos, muitas pessoas continuam a procurar uma resposta que lhes dê direção, continuidade e confiança. É nesse ponto que a Clínica Tear quer afirmar-se. Nascida em Braga, prepara agora a abertura no Porto e em Vila Nova de Gaia, defendendo um modelo de acompanhamento psicológico estruturado, com avaliação, plano de intervenção e reavaliação. Diogo Rego, CEO e cofundador, e Margarida Garcês, psicóloga clínica e diretora clínica nacional, falam sobre expansão, acompanhamento estruturado, vínculo terapêutico e sobre a coragem silenciosa de quem decide dar o primeiro passo. Porquê agora, porquê o Porto, e que necessidade concreta sentiram no terreno para avançar com esta expansão? Diogo Rego: A Clínica Tear é uma clínica de saúde mental que nasceu em Braga, no início de 2024, com a convicção de que a saúde mental em Portugal precisa de menos consultas avulsas e de mais acompanhamento psicológico estruturado. Abrir no Porto e em Vila Nova de Gaia foi o passo natural, porque é no Grande Porto que sentimos, de forma muito clara, uma procura que ainda não está bem servida. Chegam-nos pedidos de quem procura um psicólogo no Porto e em Gaia em busca de algo que dizem não encontrar: um percurso clínico com princípio, meio e reavaliação, e não apenas uma marcação solta de tempos a tempos. O que mais nos motivou foi, acima de tudo, a continuidade. Demasiadas pessoas começam terapia e abandonam às três ou quatro sessões, não por falta de vontade, mas por falta de estrutura à volta delas. Sentem que andam a falar sem rumo e desistem. É esse vazio que viemos preencher, primeiro em Braga e agora no Porto e em Gaia, estando mais perto das pessoas que já nos procuravam. Falamos muito de ansiedade, depressão, burnout e exaustão emocional, mas talvez ainda falemos pouco da forma como o sistema responde a estes sofrimentos. Na vossa leitura, qual é hoje o verdadeiro estado da saúde mental em Portugal? Margarida Garcês: O estado da saúde mental em Portugal vive um paradoxo, nunca se falou tanto de ansiedade, depressão e burnout e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta dificuldade em obter acompanhamento psicológico contínuo e de qualidade. Conquistámos algo precioso, que foi reduzir o estigma. Hoje uma pessoa fala com mais naturalidade que faz terapia ou que precisa de ajuda. Mas a resposta não acompanhou essa abertura. Com mais de dez anos de prática clínica e milhares de sessões, o que observo é uma população que reconhece o sofrimento mais cedo, mas que continua a esbarrar em listas de espera longas no setor público e, no privado, numa lógica muitas vezes fragmentada, de consultas isoladas sem fio condutor. O verdadeiro problema já não é convencer alguém a procurar ajuda. É garantir que, quando essa pessoa dá o passo, encontra do outro lado um percurso coerente e não um conjunto de sessões desligadas umas das outras. A literacia emocional subiu, e isso é uma vitória. Falta agora subir a qualidade e a consistência daquilo que se oferece a quem chega. O país tem uma reforma da saúde mental em curso. Mas, no dia a dia, muitas pessoas continuam a procurar ajuda fora do SNS. O que é que o setor privado está a conseguir responder e o que ainda está a falhar? Diogo Rego: O setor privado de saúde mental está a conseguir responder, sobretudo, em duas coisas, tempo de acesso e continuidade. Quem precisa de começar não pode esperar meses, e o privado consegue dar uma resposta rápida e personalizada. É aí que ganhamos relevância e é aí que a Clínica Tear se posiciona, com um acompanhamento desenhado para durar e produzir resultados, não para se esgotar numa consulta. Margarida Garcês: Mas seria desonesto pintar só o lado bom, e há coisas que falham. Recebo em consulta muitas pessoas que já chegaram a fazer consultas de psicologia e que me dizem a mesma coisa: foram, gostaram, mas ao fim de umas semanas sentiram que aquilo não estava a levar a lado nenhum, e pararam. Falta-lhes muitas vezes uma avaliação cuidadosa no início, alguém que pare para refletir no que realmente se passa antes de começar a intervir. E falta articulação. Quando uma pessoa precisa de psicologia e de psiquiatria ao mesmo tempo, ou de acompanhamento médico, acaba a saltar entre profissionais que não falam uns com os outros, e é ela que carrega o peso de juntar as peças. Entendo que isto exige muito trabalho da nossa parte, mas é necessário. É isto que me preocupa enquanto clínica. Não basta haver mais oferta, é preciso que essa oferta cuide a sério da pessoa do princípio ao fim. O que ainda está por construir, e que é aquilo em que acredito, é um privado que trabalhe de forma integrada e responsável, que complemente o SNS em vez de o substituir mal. Como é que um paciente distingue uma resposta séria de uma resposta apenas bem comunicada? Margarida Garcês: Para escolher um bom psicólogo e distinguir uma resposta séria de uma resposta apenas bem comunicada, há três sinais concretos a procurar: formação clínica certificada de quem acompanha, um método transparente que a pessoa consegue compreender, e ausência de promessas de cura rápida. Quem comunica bem, mas não tem substância, costuma prometer transformação em poucas sessões, usa linguagem de motivação em vez de linguagem clínica, e raramente explica os objetivos, os métodos de intervenção e como vai avaliando o progresso ao longo do tempo. Eu diria a quem procura ajuda que faça perguntas simples e exigentes antes de marcar a primeira consulta. Quem me vai acompanhar e qual é a sua formação? Existe uma avaliação inicial ou começo logo a falar sem qualquer enquadramento? Como vão saber se isto está a resultar? Uma resposta bem comunicada evita estas perguntas ou responde com generalidades. Uma resposta séria recebe-as bem, porque tem estrutura por trás. A diferença entre um psicólogo e um coach, por exemplo, não é uma questão de estilo, é uma questão de habilitação e de responsabilidade clínica. Confiar a saúde mental a quem não tem formação para a tratar é um risco que vale a pena evitar. A Tear fala de um método estruturado, com avaliação, diagnóstico, plano de intervenção e reavaliação. O que muda, na prática, quando a terapia deixa de ser apenas um espaço para falar e passa a ter objetivos clínicos, monitorização e revisão do percurso? Margarida Garcês: O Método Tear transforma a terapia de um espaço para desabafar num percurso clínico com direção e resultados mensuráveis. Na prática, muda quase tudo. Começa com uma triagem e uma entrevista clínica de avaliação, segue para um plano de intervenção terapêutico com objetivos definidos, e inclui momentos formais de reavaliação ao longo do caminho. Não andamos a navegar à vista. Falar é necessário, mas não é suficiente. Quando existe um plano, a pessoa sabe para onde vai e porquê. Definimos pontos de verificação obrigatórios ao longo do acompanhamento, momentos em que paramos para perceber se estamos no rumo certo ou se é preciso ajustar. Numa altura prevista do percurso há uma consulta de reavaliação, em que olhamos para trás com honestidade e decidimos os próximos passos em conjunto com a pessoa. Isto dá três coisas que a terapia desestruturada raramente dá: direção, sentido de progresso, e a possibilidade de corrigir o rumo a tempo. O acompanhamento deixa de depender da memória ou da intuição do momento e passa a assentar num percurso pensado. Para quem sofre, isto é profundamente tranquilizador, porque sente que há um plano e que não está entregue ao acaso. Dizem que tratam a pessoa e não apenas a condição. Mas como se evita que esta frase se torne um slogan? O que significa, concretamente, olhar para alguém para lá do rótulo ansiedade, depressão ou burnout? Margarida Garcês: Tratar a pessoa e não apenas a condição significa, na prática, recusar que um diagnóstico defina por inteiro quem está à nossa frente. A ansiedade, a depressão ou o burnout descrevem um conjunto de sintomas, mas não explicam a história, o contexto, as relações, o trabalho e os recursos de cada pessoa. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico precisam, muitas vezes, de caminhos diferentes. Esta frase só deixa de ser slogan quando se traduz em decisões clínicas concretas. Para nós traduz-se logo na triagem, em que procuramos perceber a pessoa antes de a encaixar numa categoria, e traduz-se na forma como construímos o plano, ajustado àquela vida e não a um manual. Um burnout de quem é cuidador de um familiar doente não é o mesmo que o burnout de quem está num ambiente de trabalho tóxico, ainda que o rótulo seja igual. Olhar para lá do rótulo é fazer as perguntas certas sobre o que está por trás do sintoma, e é também não reduzir a pessoa ao seu pior momento. O rótulo é um ponto de partida útil para a comunicação entre profissionais. Nunca pode ser o ponto de chegada do cuidado. Muitas pessoas chegam à terapia sem saber explicar o que sentem, apenas sabem que já não conseguem continuar como estavam. Como é feita essa primeira triagem e como se decide qual é o profissional mais indicado para cada caso? Margarida Garcês: Na Clínica Tear, o acompanhamento começa antes da primeira consulta, logo no primeiro contacto com a clínica. É aí que fazemos a triagem, precisamente para quem chega sem conseguir nomear o que sente. Ninguém precisa de chegar com um diagnóstico ou com as palavras certas. Basta saber que algo não está bem. O nosso trabalho começa nesse momento, em escutar a história e ajudar a pessoa a traduzir aquele mal-estar difuso em algo que se possa compreender e trabalhar. É também nesse primeiro contacto que percebemos o contexto e a urgência e identificamos o que está realmente em causa, que muitas vezes não é aquilo que a pessoa pensava à partida, e é a partir daí que decidimos qual o profissional mais indicado. Essa decisão não é aleatória. Tem em conta a natureza da dificuldade, a área de especialidade que melhor responde àquele caso, e o tipo de acompanhamento que faz sentido. Alguém com problemas e desafios conjugais não é encaminhado da mesma forma que alguém com uma perturbação de ansiedade ou que apresente sintomas que possam exigir articulação com a psiquiatria. O encaminhamento certo, logo no início, é o ponto de partida de todo o percurso, porque define a qualidade de tudo o que vem a seguir. Por isso o levamos tão a sério. Uma das grandes inseguranças de quem começa terapia é: como sei se isto está a resultar? Que sinais mostram que há progresso terapêutico, mesmo quando a vida continua difícil ou os sintomas não desaparecem de imediato? Margarida Garcês: Para saber se a terapia está a resultar, o sinal mais importante raramente é o desaparecimento imediato dos sintomas. O progresso terapêutico é, antes, uma mudança na forma como a pessoa se relaciona com aquilo que sente. Não se mede só pela ausência de sofrimento, mede-se por sinais mais subtis e mais sólidos: maior capacidade de lidar com situações que antes eram esmagadoras, melhor compreensão de si próprio, e a recuperação de uma sensação de controlo sobre a própria vida. É aqui que encontramos os fatores protetores, uma maior compreensão e resiliência para saber identificar e agir perante situações semelhantes e prevenir recaídas. Há sinais concretos a que prestamos atenção. A pessoa começa a reagir de forma diferente a um gatilho que antes a condicionava. Consegue pôr em palavras o que sente, quando antes era só um nó na garganta que se refletia em sintomas físicos e emocionais. Recupera pequenas coisas do dia a dia que tinha abandonado. Estes sinais aparecem muitas vezes antes de os sintomas mais visíveis cederem, e é importante saber reconhecê-los, porque é fácil desvalorizá-los. É exatamente por isto que medimos o percurso de forma estruturada, com momentos formais de reavaliação. Não deixamos a perceção de progresso entregue apenas à sensação de um dia bom ou de um dia mau. Olhamos para a evolução ao longo do tempo, em conjunto com a pessoa, para que ela própria consiga ver o caminho que já fez, sobretudo nos dias em que sente que não saiu do sítio. Escalar uma rede de clínicas de saúde mental pode trazer acesso, organização e consistência, mas também levanta um risco: transformar cuidado em processo industrial. Como se cresce sem perder vínculo, escuta e humanidade? Diogo Rego: Crescer sem industrializar o cuidado é precisamente o desafio que define a Clínica Tear, e a nossa resposta é contraintuitiva, o método é o que protege a humanidade, não o que a ameaça. Muita gente assume que estruturar o cuidado o torna frio. É o contrário. A falta de estrutura é que produz tratamento desigual, dependente da sorte de calhar a um bom dia de um profissional. O método garante que, em qualquer Clínica Tear, toda a gente recebe o mesmo nível de cuidado. Margarida Garcês: E há um limite que não negociamos, o método organiza o percurso, mas nunca substitui o vínculo entre o profissional e a pessoa. Esse vínculo é insubstituível e é a essência do que fazemos. O que padronizamos é o rigor, a avaliação, os momentos de reavaliação, a forma como garantimos qualidade. O que nunca padronizamos é a relação humana dentro da consulta, que é, e tem de continuar a ser, única para cada pessoa. Diogo Rego: Na prática, isto significa crescer devagar no que importa. Não abrimos uma clínica de saúde mental sem direção clínica à altura, sem equipa formada no método, sem garantir que a experiência de quem é acompanhado em Gaia ou no Porto é tão cuidada como em Braga. Preferimos crescer com solidez a crescer depressa. A escala, para nós, só faz sentido se for ao serviço do cuidado, e nunca o contrário. Olhando para 2026 e para o futuro da Clínica Tear, que mudanças acredita que vão marcar a saúde mental nos próximos anos? Diogo Rego: Olhando para 2026 e para os próximos anos, acredito que a procura vai continuar a crescer e que a literacia emocional também, e isso é positivo. As pessoas estão mais atentas ao seu bem-estar e mais dispostas a cuidar dele. A par disso, noto uma exigência saudável a crescer: quem procura ajuda, quer cada vez mais sentir que o acompanhamento tem sentido e direção, e não apenas ocupar uma hora do seu tempo por semana. É uma exigência que me parece justa e que faz bem a todo o setor. Margarida Garcês: Acrescentaria duas tendências que considero inevitáveis e desejáveis. A primeira é a integração. O futuro passa por equipas em que psicologia, psiquiatria e, quando necessário, outras especialidades, comunicam entre si à volta da mesma pessoa, em vez de a tratarem de forma fragmentada. A segunda é uma relação mais madura e responsável com a tecnologia, usada para apoiar o acompanhamento e dar continuidade entre consultas, sem nunca substituir a relação clínica. A tecnologia deve servir o cuidado humano, não disfarçar a sua ausência. É essa a clínica que queremos ser, humana primeiro, e bem organizada para o conseguir ser sempre. Se pudessem deixar uma ideia a alguém que está há meses a adiar pedir ajuda, por vergonha, medo ou por achar que ainda aguenta, o que lhe diria? Margarida Garcês: Diria, com toda a frontalidade e com todo o carinho, que aguentar não é o mesmo que estar bem. Há muita gente que confunde a resiliência do aguentar com saúde, e que segura tudo durante meses, às vezes anos, até já não conseguir. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza nem uma derrota. É, na verdade, uma das decisões mais corajosas e mais lúcidas que alguém pode tomar. A vergonha e o medo são companhias normais nesse momento, e não há nada de errado em senti-los. Mas costumo dizer que ninguém espera estar de rastos para ir ao médico quando tem uma dor física que não passa. Com o sofrimento emocional devia ser igual. Quanto mais cedo se pede ajuda, mais simples costuma ser o caminho, e menos a pessoa carrega sozinha. A quem está há meses a adiar, deixo uma ideia muito simples: dar o primeiro passo não obriga a nada, mas pode mudar tudo. Não tem de ter as palavras certas, não tem de saber explicar o que sente. Só tem de se permitir ser escutado. Esse primeiro gesto é, muitas vezes, o início do alívio que a pessoa já desistiu de procurar. Clínica Tear – Saúde mental com método próprio Facebook: Clínica Tear Instagram: @clinicatear.pt Site: clinicatear.pt “A sociedade quer bebés regulados e silenciosos. Mas os bebés reais não cabem em rotinas perfeitas” “Uma pessoa pode ver bem e, ainda assim, ter uma doença silenciosa a ameaçar a retina ou o nervo ótico”
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