CASA & DESIGN/LADO B “A casa certa é aquela onde conseguimos imaginar a vida que ainda não aconteceu” By Revista Spot | Agosto 4, 2026 Agosto 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email Nem todas as casas contam imediatamente a sua história. Algumas chegam vazias, outras incompletas, outras ainda marcadas por uma vida que acabou de mudar. Susana e Christopher Diener sabem que um espaço não deve ser interpretado depressa. Para ele, uma casa revela-se na construção, nos metros quadrados, no potencial e na capacidade de preservar valor. Para ela, começa na luz, no conforto e na relação silenciosa entre os espaços. São duas leituras diferentes, mas não opostas: uma procura perceber o que a casa é; a outra imagina aquilo em que pode transformar-se. É nesse encontro entre razão e sensibilidade que se constrói também a forma como acompanham cada cliente na Engel & Völkers Minho. Porque escolher uma casa não é apenas avaliar o que existe. É conseguir perceber tudo aquilo que, um dia, poderá acontecer dentro dela, com tempo, intimidade, escolhas e memória construída em conjunto. O trabalho ensinou-vos a interpretar as pessoas através das casas onde vivem? E o que revelaria a vossa própria casa vocês? Susana: É verdade que uma casa pode revelar bastante sobre quem lá mora, mas também pode refletir apenas uma determinada fase da vida. Pode estar incompleta porque alguém acabou de se mudar, porque houve um divórcio e uma das pessoas levou parte da mobília, porque existem outras prioridades financeiras ou simplesmente porque ainda não houve tempo para a decorar. Com a experiência, naturalmente, vamos aprendendo a reconhecer alguns padrões. Mas, como em tudo na vida, os gostos são relativos. Aquilo que para mim pode ser um critério de exclusão absoluto pode ser precisamente aquilo que outra pessoa procura. Christopher: Na nossa casa predominam as cores sóbrias. Gostamos de ambientes tranquilos, simples e intemporais. Apesar de a Susana ser uma pessoa muito alegre, não gosta de uma decoração demasiado colorida. E depois há a organização. Susana: Tudo tem um lugar próprio. Não é apenas porque fica bonito. A desorganização também influencia o humor e eu gosto de saber exatamente onde está tudo, mesmo aquelas coisas de que precisamos apenas uma ou duas vezes por ano. Christopher: O único problema é quando ela decide mudar o lugar próprio de tudo. Susana: Não é um problema. É uma melhoria. Christopher: Uma melhoria que só ela compreende durante os primeiros dias. Susana: Depois habituam-se (risos). Como é que cada um de vocês olha para uma casa? Christopher: Eu olho para uma casa de uma forma bastante racional. Reparo nos metros quadrados, na qualidade da construção, no potencial, no investimento e no valor que a propriedade pode ter hoje e no futuro. Gosto de design, de linhas simples e de arquitetura. Provavelmente sou a pessoa que faz primeiro as contas e só depois deixa entrar a emoção. A minha filosofia é simples: no risk, no fun. Susana: Eu olho primeiro para o conforto. Reparo na luz, no ambiente, na forma como os espaços se relacionam e no cuidado com que alguém decorou a sua casa, mesmo quando não corresponde ao meu gosto pessoal. Adoro, por exemplo, entrar numa casa que cheira bem. Pode parecer um pormenor, mas, para mim, faz toda a diferença. Sou muito sensível aos cheiros e ao ambiente que um espaço transmite. Apesar de ser mais emocional do que o Chris, também penso muito no futuro. Muitas vezes reparo em caraterísticas que hoje parecem não ter grande impacto, mas que daqui a alguns anos podem tornar-se importantes no dia a dia. Sou emocional, mas consigo analisar decisões de forma objetiva e penso bastante antes de avançar. Se a filosofia do Chris é no risk, no fun, a minha é mais less risk, more fun. Christopher: O que, traduzido, significa: pensar mais vinte vezes antes de decidir. Susana: Exatamente. E evitar vender cadeiras poucas semanas depois de as comprar. Como conciliam gostos tão diferentes nas decisões sobre a casa? Susana: Eu sou mais cautelosa e consigo esperar mais tempo para ter exatamente aquilo que quero, porque tenho mais receio de tomar uma decisão errada. Dou muita importância ao conforto e à praticidade no dia a dia: ao sofá, à disposição da cozinha, à circulação dentro da casa e à forma como realmente vamos utilizar os espaços. O Chris olha mais para o design, para a forma e para o impacto visual. Chris: Eu gosto de coisas bonitas. Susana: Eu também. Só gosto que, para além de bonitas, sejam confortáveis e práticas. Mas o amor também é isso: por vezes, dar um passo atrás pelo outro ou até dar um passo em frente pelos dois. No final, conseguimos encontrar um bom equilíbrio. Na prática, eu escolho tudo (risos). Christopher: Não é completamente verdade. Susana: Claro que não. Por vezes, deixo-te escolher. Há pouco tempo, por exemplo, o Chris comprou umas cadeiras para a sala. Eram lindíssimas. Eu não gostava muito delas, mas deixei que, daquela vez, o gosto dele prevalecesse. Poucas semanas depois, as cadeiras estavam à venda. Eram muito bonitas. Confortáveis e práticas é que não. Christopher: É verdade. As cadeiras acabaram por ser vendidas. Susana: E eu pude dizer que tinha razão. Portanto, está-se bem. Christopher: No fundo, complementamo-nos. Eu puxo por ela para arriscar um pouco mais e ela impede-me de comprar demasiadas cadeiras bonitas e desconfortáveis. Quem são vocês quando não estão a trabalhar? Susana:Eu sou muito transparente. Sou bastante parecida em casa e na empresa. Toda a gente sabe que adoro comer, falar, estar bem-disposta, rir e fazer os outros rir. Em casa sou exatamente igual. Gosto muito de receber pessoas. O Chris prefere um ambiente mais tranquilo. Christopher: Eu gosto de receber. Só não preciso de receber tantas vezes como a Susana. Susana: Eu também não consigo estar parada. Ao fim de semana, penso sempre que desta vez vou descansar. Chego mesmo a prometer. Mas, passada uma ou duas horas, começo a entrar em pânico e tenho de inventar alguma coisa para fazer. Se não houver mais nada, reorganizo os armários. Lá em casa, ouve-se muitas vezes: “Pronto, a mãe estava aborrecida e voltou a organizar tudo. Agora já ninguém sabe onde está isto ou aquilo.” Christopher: É uma frase bastante frequente. Susana: E, quando não estou a inventar projetos em casa, tive a infeliz ideia de montar um pequeno escritório na sala. Por isso, muitas vezes, o Chris está a cozinhar e eu continuo a trabalhar naquilo que trouxe para casa. Talvez esta não seja a parte mais positiva da minha personalidade, mas… I am what I am. Christopher: Eu sou mais reservado. Gosto de cozinhar, de experimentar receitas e de ler os meus livros de ficção científica. Quando encontro uma receita, raramente a sigo exatamente como está escrita. Para mim, é apenas uma base. Depois começo a alterar, a acrescentar e a experimentar. Susana: Ele é o melhor cozinheiro do mundo. E nunca faz duas vezes a mesma receita, porque não se lembra exatamente do que acrescentou da primeira vez. Christopher: Isso também faz parte da experiência. Susana: De vez em quando, também entro eu em cena. Ele adora a minha comida. Tal como em quase tudo o que faço, gosto de pôr bastante sabor naquilo que cozinho. Consigo olhar para o que existe no frigorífico, inventar qualquer coisa e, normalmente, sabe bem a toda a gente. Christopher: É verdade. Ela consegue fazer uma refeição com aquilo que eu achava que já não servia para refeição nenhuma. O que diferencia a vossa forma de acompanhar os clientes? Susana: A resposta é muito simples: colocarmo-nos no lugar dos outros. Isso torna-se ainda mais fácil porque nós próprios já estivemos no lugar de quem realiza o sonho de comprar uma casa em Portugal. Também fomos os clientes. Comprámos aqui uma casa de férias e, para ser completamente honesta, não senti o acompanhamento que gostaria de ter recebido. Apesar de falar português, era a primeira vez que comprava uma casa em Portugal. Não conhecia o processo, não sabia exatamente o que esperar e houve momentos em que me senti pouco acompanhada. É precisamente isso que não quero que os nossos clientes sintam. Christopher: Quando alguém chega de outro país, não está apenas a comprar uma casa. Está a lidar com uma língua diferente, uma cultura diferente, processos que não conhece e, muitas vezes, decisões muito importantes tomadas à distância. Susana: Queremos tornar todo o processo o mais simples, tranquilo e transparente possível, sobretudo para quem não conhece o país, a língua ou os procedimentos. Claro que também temos limitações. Existem situações cuja resolução não depende de nós. Mas há uma coisa que nunca fazemos: prometer aquilo que não podemos cumprir. Prefiro explicar honestamente que algo não está nas nossas mãos do que criar uma expectativa que depois não conseguimos concretizar. Christopher: A confiança também se constrói dizendo a verdade quando a resposta não é aquela que o cliente gostaria de ouvir. O que é, para vocês, uma casa inteligente? Susana: Nesta área, acredito que ainda estamos a falar bastante do futuro. Já existem casas com algumas funcionalidades inteligentes, mas ainda há muito caminho a percorrer. E isso é perfeitamente normal. A evolução tecnológica faz-se por etapas, mesmo numa época em que sentimos que tudo acontece muito depressa. Para mim, a tecnologia numa casa só faz sentido quando melhora verdadeiramente a nossa qualidade de vida. Não é uma questão de ter dezenas de botões, aplicações ou equipamentos apenas porque são modernos. Christopher: A tecnologia deve simplificar. Quando complica mais do que ajuda, deixa de ser inteligente. Susana: Exatamente. Uma casa inteligente é aquela que reduz tarefas, antecipa necessidades e se adapta à forma como vivemos. Mas, acima de tudo, continua a ser uma casa onde nos conseguimos imaginar a viver. Cada pessoa tem necessidades diferentes. Para uns, será a eficiência energética. Para outros, a segurança, a acessibilidade, a automatização ou simplesmente uma boa disposição dos espaços. A tecnologia deve servir as pessoas, e não obrigar as pessoas a adaptar toda a sua vida à tecnologia. A relação com o cliente termina na entrega das chaves? Susana: A entrega das chaves só representa o fim da relação se o cliente assim o desejar. Ao longo dos anos, ganhámos alguns amigos depois da conclusão dos negócios. Já fomos convidados para visitar casas depois de os novos proprietários as mobilarem, renovarem ou adaptarem à sua forma de viver. Continuamos disponíveis, seja para futuros negócios, seja para tomarem um café connosco no escritório ou para irmos almoçar ou jantar quando estão novamente na região. Christopher: Também mantemos contacto com alguns clientes vendedores que regressaram aos seus países de origem. O negócio terminou, mas a relação continuou. Susana: Nós não acompanhamos apenas a compra ou a venda de uma casa. Acompanhamos pessoas numa fase importante da vida delas. Mais uma vez, a nossa própria experiência serve de base. Também chegámos a uma região diferente, onde começámos uma nova história. E gostamos de ajudar outras pessoas a começar aqui a sua. Como tem evoluído a vossa marca? Christopher: Qualquer marca evolui com o tempo, com a experiência e com as pessoas que encontra pelo caminho. Ninguém começa um projeto e permanece exatamente igual ao longo dos anos. Susana: Cada cliente deixa uma marca. Cada negócio traz uma ideia nova. Cada desafio obriga-nos a pensar, a corrigir, a aprender e a melhorar. A nossa marca de hoje é diferente daquilo que era no início, não porque os nossos valores tenham mudado, mas porque nós próprios evoluímos. Aprendemos com aquilo que correu bem e, talvez ainda mais, com aquilo que correu menos bem. Christopher: A experiência não deve alterar a essência de uma marca. Susana: Deve torná-la mais forte, mais consciente e mais preparada. E também mais humilde, porque quanto mais experiência temos, mais percebemos que há sempre alguma coisa nova para aprender. O que gostariam que Portugal preservasse no futuro? Susana: Eu sou uma pessoa muito tradicional. Dou muito valor aos hábitos, às tradições e às histórias que passam de geração em geração. Embora muitos dos nossos clientes sejam estrangeiros, não gostaria de ver Portugal perder aquilo que o torna especial: a sua identidade, a forma de viver, a proximidade entre as pessoas, as tradições locais e a maneira como sabemos receber. Quem escolhe viver em Portugal escolhe-o, ou deveria escolhê-lo, também por aquilo que Portugal é. Eu própria vivi muitos anos na Alemanha. Nunca esperei que a Alemanha mudasse por minha causa. Fui eu que procurei compreender, respeitar e adaptar-me ao país onde tinha escolhido viver. Christopher: E eu, sendo alemão e vivendo em Portugal, penso da mesma forma. Integrar-se não significa deixar de ser quem somos. Significa respeitar o lugar que escolhemos para viver. Susana: Acredito que esse respeito deve existir em qualquer país. Nós não somos perfeitos, e também não é esse o objetivo. Mas somos um povo com alma, com uma história riquíssima e com uma forma muito própria de acolher. Gostaria que conseguíssemos preservar isso durante muitos anos e que quem vem para Portugal saiba reconhecer, respeitar e valorizar aquilo que encontrou. Que venha por bem e que contribua também para manter Portugal um lugar especial. Como pode o setor imobiliário crescer sem descaraterizar Portugal? Susana: Esta é talvez uma das perguntas mais difíceis, porque não existe uma resposta simples nem uma fórmula capaz de garantir esse equilíbrio. O crescimento económico e o investimento estrangeiro são importantes. Trazem desenvolvimento, recuperam património, criam oportunidades e contribuem para dinamizar muitas regiões. Mas também devemos ter consciência de que o crescimento, quando não é pensado com responsabilidade, pode alterar profundamente as comunidades, aumentar desigualdades e descaracterizar os lugares. O desafio do setor imobiliário não pode ser apenas vender mais casas. Christopher: Também deve ser criar valor para as regiões, preservar património e pensar nas consequências a longo prazo. Susana: Devemos atrair pessoas que escolham Portugal porque apreciam aquilo que o país é: a sua cultura, as suas tradições, a forma de viver e a relação entre as pessoas. Pessoas que queiram fazer parte dessa realidade, e não transformá-la numa cópia do lugar de onde vieram. Nós próprios vivemos muitos anos fora de Portugal e trabalhamos diariamente com clientes internacionais. Sabemos, por experiência própria, o que significa chegar a outro país e construir aí uma vida. Mas sabemos também que essa escolha deve ser acompanhada por respeito, curiosidade e vontade de integração. Como fazer esse crivo de forma totalmente objetiva? Sinceramente, não tenho uma resposta perfeita. Nem acredito que seja possível avaliar as intenções de alguém através de um formulário ou de uma primeira conversa. Christopher: Mas podemos escolher a forma como trabalhamos. Susana: Podemos escolher a forma como comunicamos Portugal, os projetos que promovemos, os investidores com quem trabalhamos e os valores que defendemos. Podemos recusar apresentar o país apenas como um produto sem identidade, destinado simplesmente a quem oferece mais. Não conseguimos controlar toda a evolução do mercado. Mas conseguimos decidir como exercemos a nossa atividade e qual é a marca que queremos deixar nas comunidades onde trabalhamos. Portugal não precisa de deixar de ser Portugal para continuar a ser atrativo. Pelo contrário. É precisamente por ser Portugal que tantas pessoas escolhem viver aqui. O verdadeiro desafio é crescer sem perder essa identidade. Porque uma casa pode mudar uma vida, mas não deve mudar a alma de um país. Morada: Rua Eça de Queirós, nº 38, r/c, 4700-315 Braga Contacto: 961 308 322 Facebook: Engel & Völkers Minho Instagram: @engelvoelkers_minho Site: engelvoelkers.com/pt/pt/shops/minho “Vivemos numa sociedade que quer crianças autónomas depressa, silenciosas e fáceis de gerir” “Perder peso é apenas uma parte do caminho. O verdadeiro desafio é construir uma vida capaz de sustentar o resultado”
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