CLÍNICAS DENTÁRIAS “A boca é, muitas vezes, o primeiro local onde o corpo manifesta desregulação” By Revista Spot | Fevereiro 28, 2026 Fevereiro 28, 2026 Share Tweet Share Pin Email Na cadeira de dentista, a história repete-se todos os dias com pequenas variações. “Sangra um bocadinho quando escovo, mas deve ser normal.” Não é, responde Elisa Pedrosa, médica dentista na Seabra Clinic, na Maia. O que parece um detalhe doméstico é, muitas vezes, inflamação ativa. E a inflamação, quando se instala, não fica “presa” à boca. Circula, soma-se, dialoga com o metabolismo, com o sistema imunitário, com o risco que já existe em silêncio. Foi isso que a surpreendeu na investigação. A doença periodontal como estado inflamatório crónico, de baixo grau, com repercussões reais. Na consulta, essa visão muda decisões, sobretudo quando se suspeita de desregulação glicémica, quando a gravidez torna a gengiva mais vulnerável, quando o desgaste dentário denuncia stress e noites mal dormidas. Entre biomimética, planeamento digital e uma estética de well-aging, esta entrevista devolve a pergunta essencial: o que é um sorriso bonito quando a saúde é o primeiro critério? A sua tese teve como tema central a ligação entre saúde oral e saúde sistémica. Qual foi a descoberta que mais a surpreendeu? O que mais me marcou foi perceber que a inflamação periodontal não é apenas local, é um estado inflamatório crónico com impacto sistémico real. Ao estudar os mecanismos biológicos envolvidos, tornou-se claro que uma gengiva que sangra não é um detalhe clínico, pode contribuir para uma cascata inflamatória com repercussão noutras áreas do organismo. Isso consolidou aquilo que me fascinou desde o início do curso, perceber que somos médicas antes de sermos dentistas. Hoje não olho para uma lesão isolada. Olho para o contexto biológico do paciente. O que é que, na prática, liga uma gengiva inflamada ao resto do organismo? Estamos a falar de bactérias, inflamação crónica e resposta imunitária? Estamos a falar de bactérias, dos seus subprodutos e, sobretudo, de inflamação crónica de baixo grau. A doença periodontal ativa permite a entrada de mediadores inflamatórios na circulação sistémica. Essa carga inflamatória contribui para estados de stress oxidativo e desequilíbrio imunitário, associados a diversas patologias metabólicas e cardiovasculares. Biologicamente, não existe separação entre boca e corpo, apenas especialidades médicas diferentes. Que sinais orais vê todos os dias e que, na prática, deviam soar a alarme sistémico? Na prática clínica, há sinais que nunca devem ser banalizados. Sangramento gengival espontâneo ou persistente não é normal, é inflamação ativa. Mobilidade dentária desproporcional à quantidade de placa pode levantar suspeita de alterações metabólicas. Boca seca marcada pode indicar respiração oral, disfunção das glândulas salivares, efeitos medicamentosos ou até alterações sistémicas. Infeções recorrentes, cicatrização lenta ou inflamação gengival excessiva face a estímulos mínimos também nos fazem questionar o estado imunitário do paciente. A boca é muitas vezes o primeiro local onde o corpo manifesta desregulação. Se estivermos atentos, conseguimos identificar precocemente padrões que justificam investigação médica complementar. Não se trata apenas de tratar o dente. Trata-se de perceber o que aquele sinal está a tentar revelar sobre o organismo como um todo. Diabetes e doença periodontal são frequentemente citadas como uma relação de duas vias. Na consulta, como é que isso se traduz em decisões concretas? A relação é claramente bidirecional. Se encontro uma periodontite agressiva ou desproporcional à presença de placa, suspeito de possível desregulação glicémica e encaminho para avaliação médica. Na clínica trabalhamos com hemograma porque é uma ferramenta essencial para compreender o estado inflamatório e imunológico do paciente. Muitas vezes não é apenas a bactéria, é o terreno biológico que está fragilizado. A diabetes está intimamente ligada ao aumento do stress oxidativo e à disfunção imunitária. Se não modulamos esse contexto, a resposta ao tratamento periodontal pode ser limitada. É também por isso que valorizamos a ozonoterapia médica, área em que estou a realizar pós-graduação. A ozonoterapia reduz stress oxidativo, tem efeito anti-inflamatório e analgésico e melhora a resposta do sistema imunitário. Um paciente biologicamente equilibrado responde melhor, e é isso que procuramos otimizar. A doença periodontal aumenta o risco cardiovascular, ou é sobretudo um marcador de inflamação global? Existe associação consistente entre doença periodontal e maior risco cardiovascular. A evidência é particularmente sólida no que toca ao papel da inflamação crónica na progressão da aterosclerose. O que exige prudência é afirmar causalidade direta universal. Mas sabemos que reduzir a inflamação periodontal é reduzir a carga inflamatória sistémica e isso é sempre benéfico. Na gravidez, a saúde oral continua a ser desvalorizada. O que é que uma grávida devia saber e o que é que gostaria que obstetras e médicos de família repetissem mais vezes? A gravidez é uma fase de profundas alterações hormonais que tornam a gengiva mais suscetível à inflamação. A chamada gengivite gravídica é comum, mas não deve ser banalizada. Existe maior vascularização e resposta inflamatória exacerbada aos mesmos níveis de placa bacteriana, o que exige vigilância e cuidados redobrados. Além disso, qualquer foco de infeção ativa, periodontal ou não, pode estar associado a maior risco de parto prematuro, baixo peso à nascença ou pré-eclâmpsia. Ainda persiste o mito de que tratar uma grávida é arriscado. Na realidade, o maior risco está em não tratar. A medicina dentária é segura durante a gravidez quando realizada com os devidos cuidados. Infelizmente, em Portugal ainda não existe uma carreira estruturada de médico dentista no Serviço Nacional de Saúde, o que limita a promoção consistente de saúde oral e a sua integração plena nos cuidados primários. É fundamental que obstetras, médicos de família e profissionais de saúde materna reforcem que a avaliação médico-dentária deve estar integrada no acompanhamento pré-natal e também no pós-parto. Saúde oral é parte da saúde materna e fetal. Até que ponto a medicina dentária é hoje uma porta de entrada para identificar stress crónico, apneia do sono, dor orofacial e padrões musculares que estão a desgastar o corpo inteiro? Hoje, a medicina dentária é muitas vezes a primeira especialidade a identificar sinais de desequilíbrio funcional que vão muito além dos dentes. O desgaste dentário, as fraturas recorrentes, as dores cervicais, as cefaleias matinais ou a tensão mandibular não são apenas “problemas dentários”. São frequentemente manifestações de stress crónico, alterações musculares, padrões respiratórios inadequados ou distúrbios do sono. O bruxismo, por exemplo, tem uma componente neuromuscular e psicossomática muito relevante. Pode estar associado a estados de hipervigilância do sistema nervoso, ansiedade, má qualidade de sono ou apneia obstrutiva. Por isso, limitar a abordagem à proteção dentária seria redutor. Na nossa prática começamos por uma avaliação funcional global. Utilizamos termografia para mapear padrões de inflamação e atividade muscular, o que nos permite identificar assimetrias e zonas de sobrecarga. Trabalhamos em articulação com osteopatia para corrigir disfunções estruturais e posturais que influenciam diretamente a oclusão e a musculatura orofacial. Exploramos também ativamente o sono. Perguntamos se o paciente acorda cansado, se tem boca seca ao despertar, o que pode indicar respiração oral, se ressona, se acorda várias vezes durante a noite ou se apresenta excesso de peso. Muitas vezes o paciente não associa estes sintomas à saúde oral. Para despiste de apneia do sono, dispomos da tecnologia BTI Apneia, que nos permite identificar precocemente esta patologia e encaminhar adequadamente. A apneia não tratada não afeta apenas o descanso, está associada a risco cardiovascular, alterações metabólicas e défice cognitivo. O que nos diferencia é precisamente esta visão integrada. Não esperamos que o paciente traga a queixa estruturada. Cabe-nos fazer as perguntas certas, cruzar sinais clínicos e perceber quando um desgaste dentário é apenas a ponta do icebergue. A medicina dentária pode e deve ser uma porta de entrada para diagnóstico funcional e sistémico. Quando olhamos para o paciente como um todo, conseguimos intervir de forma mais eficaz, mais preventiva e mais responsável. Vivemos num tempo de sorrisos “clonados”. O que é, para si, um sorriso bonito do ponto de vista científico e não apenas visual? Vivemos uma era em que, por vezes, nos focamos demasiado em implantologia extensiva e cerâmicas padronizadas. Essas áreas têm o seu lugar, mas não podem fazer-nos esquecer que a medicina dentária deve ser, sempre que possível, preventiva e conservadora. Nem todos os casos exigem substituição. Muitos exigem preservação. O conceito de beleza é individual. A natureza não é uniforme, cada sorriso tem proporções, caraterísticas e pequenas assimetrias que lhe dão identidade. Um sorriso bonito é um sorriso equilibrado: gengiva saudável, oclusão estável, mastigação eficiente e harmonia facial. A estética verdadeira nasce da função. Quando respeitamos a biologia, o resultado é naturalmente bonito e sustentável. Há um conceito que aparece muito, mas nem sempre bem explicado: dentisteria biomimética. O que significa, na prática, “imitar a natureza” em forma, textura, translucidez e resistência? Dentisteria biomimética significa reproduzir a natureza respeitando a biologia, a mecânica e a estética individual de cada dente. E inerente a este conceito está, necessariamente, uma abordagem de consulta diferente. O processo começa com um estudo detalhado. Realizamos registos fotográficos para fazer um verdadeiro mapeamento cromático, estudamos a cor, a translucidez, as opacidades, as linhas de transição, a textura superficial. Cada dente tem caraterísticas únicas. Depois realizamos um scan digital e desenvolvemos um enceramento digital, ou seja, desenhamos virtualmente o resultado final. Esse planeamento permite-nos trabalhar com precisão e prever proporções, alinhamentos e integração facial. Após validação, esse enceramento é impresso e conseguimos levar à boca do paciente um mockup, uma simulação provisória que permite ao paciente visualizar e sentir um esboço do resultado final antes de qualquer procedimento definitivo. Em muitos casos utilizamos também o Smile Cloud, uma ferramenta com inteligência artificial que nos auxilia no planeamento digital e permite ao paciente visualizar, de forma ainda mais precisa, a proposta estética integrada com o seu rosto. A fase clínica propriamente dita, a consulta de estratificação, é mais demorada e tecnicamente exigente. Utilizamos materiais diferentes dos utilizados em restauros simples, recorrendo a compósitos de diferentes opacidades e propriedades mecânicas. Trabalhamos por camadas, replicando dentina, esmalte, zonas de translucidez incisal e pequenas caraterizações com pigmentos específicos. É um processo mais longo, mas oferece um resultado com maior naturalidade, maior longevidade e, sobretudo, maior individualidade. Para além da estética, é uma abordagem conservadora e minimamente invasiva. Preservamos o máximo de estrutura dentária saudável possível e devolvemos resistência biomecânica semelhante à natural. Pode ser aplicada desde aprimoramentos estéticos subtis até casos clínicos complexos, como hipomineralização ou defeitos estruturais do esmalte. A biomimética não é fazer mais. É fazer com mais respeito pela natureza e com mais precisão. Na harmonização orofacial onde traça a linha entre estética, bem-estar e segurança? Há pedidos que recusa? Estamos claramente a viver uma mudança de paradigma na estética. Durante anos assistimos a uma era muito marcada pelo anti-aging, muitas vezes associada a volumes excessivos e resultados padronizados. Hoje, tanto os profissionais como os pacientes começam a procurar algo diferente: naturalidade, equilíbrio e respeito pela identidade individual. Entramos na era do well-aging, envelhecer bem, com saúde e harmonia, não apagar traços ou transformar rostos. Essa mudança também nos levou, enquanto clínica, a investir em tecnologia que esteja alinhada com esta visão. Trabalhamos com o laser Fotona precisamente porque nos permite estimular o próprio corpo a produzir colagénio e regenerar-se de forma natural, em vez de recorrer exclusivamente à injeção de produtos sintéticos. É uma abordagem mais biológica, mais segura e mais respeitadora da anatomia do paciente. Mas para mim, o ponto mais importante na estética não é a tecnologia, é o limite. É fundamental termos muito claro onde começa, mas sobretudo onde termina, a nossa área de intervenção. Nem sempre o que o paciente pretende é o que ele realmente precisa. Cabe-nos a nós orientar, explicar e conduzir para aquilo que é mais aconselhado e, muitas vezes, o mais aconselhado é não realizar qualquer intervenção. Esse posicionamento exige segurança clínica e ética profissional. É por isso que a consulta de avaliação é tão importante. É nesse momento que criamos empatia, estabelecemos confiança e definimos expectativas realistas. Recentemente passámos também a trabalhar com uma máquina de análise facial com recurso a inteligência artificial, que nos ajuda a avaliar o estado da pele, a qualidade tecidular e a planear procedimentos de forma mais precisa. Permite-nos também adequar rotinas, preparar corretamente o paciente e alinhar todos os passos do tratamento. Na estética, tudo tem de estar alinhado: anatomia, função, qualidade de pele, expectativas e segurança. A verdadeira harmonização não é transformar, é respeitar e potenciar aquilo que já existe. Trabalha em áreas em constante evolução, como a dentisteria biomimética, materiais avançados e harmonização orofacial. A formação e atualização são indispensáveis nesta área? Sem dúvida. Eu diria mesmo imperativa. A medicina dentária evolui a uma velocidade atroz, biomimética, laser, ozonoterapia, diagnóstico funcional, inteligência artificial. A diferenciação hoje não está apenas na técnica, mas na capacidade de integrar ciência, tecnologia e visão global do paciente. A formação contínua não é opcional, é responsabilidade médica. Seabra Clinic Av. Visc. de Barreiros 91 e 93, 4470-151 Maia Contacto: 22 948 7045 (chamada para a rede fixa nacional) Instagram: @ dra.elisapedrosa | @seabra.clinic Facebook: Seabra Clinic Site: seabraclinic.com “Os grandes casos reconstrutivos obrigam-nos a perceber que a cirurgia plástica é muito mais do que imagem” “A Associação Fernando Costa cria bolsas e mentoria para garantir permanência no ensino superior”
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