SAÚDE/Saúde Infantil “O bebé fala com o corpo muito antes de usar a voz” By Revista Spot | Setembro 26, 2025 Setembro 27, 2025 Share Tweet Share Pin Email A Terapia Miofuncional é uma área da saúde que, muitas vezes, só ganha visibilidade quando algo não corre como esperado, mas a verdade é que está presente desde o primeiro sopro de vida. O bebé respira, suga e engole num delicado equilíbrio de funções vitais que já vinha a ensaiar ainda no útero materno. Antes de sorrir ou de falar, já exercita movimentos que serão decisivos para o seu desenvolvimento. É aqui que entra o trabalho de Bruna Freitas, Terapeuta Miofuncional e Assessora de Lactação, que alia conhecimento científico a uma escuta profundamente humana. Para Bruna, a terapia miofuncional não se limita à boca ou à língua, envolve respiração, sono, postura, bem-estar e até a relação entre pais e filhos. Num tempo em que tantas famílias carregam culpas e dúvidas, o seu papel é mostrar que, muitas vezes, pequenos ajustes têm o poder de transformar percursos de vida. Porque apoiar a função é, no fundo, apoiar a vida. O que é, afinal, a Terapia Miofuncional e de que forma está presente desde os primeiros dias de vida de um bebé? A Terapia Miofuncional é uma área dentro da terapia da fala que se dedica ao estudo, prevenção e reabilitação das estruturas orofaciais e das funções vitais que delas dependem: sucção, respiração, mastigação, deglutição e fala. Muitas vezes associamo-la apenas à fala, mas na verdade ela está presente desde sempre, até no período embrionário, quando o bebé começa a formar estruturas e a treinar funções. Assim que nasce, o bebé coloca imediatamente estas funções em prática: primeiro a respiração, que é vital, depois a sucção e a deglutição, que precisam de estar bem coordenadas com a respiração para garantir uma boa alimentação. É um processo complexo e, por vezes, surgem dificuldades que exigem atenção. É aqui que entramos, muitas vezes em articulação com outros profissionais de saúde, para avaliar se se trata de uma imaturidade passageira ou de uma alteração que precisa de intervenção. Também acompanhamos grávidas que procuram antecipar dúvidas ou compreender melhor como funciona este universo. No fundo, o nosso papel é não só apoiar o bebé, mas também os pais, ajudando a perceber o que está a acontecer e a dar pequenas orientações que podem fazer uma grande diferença. O nascimento é um momento decisivo para o desenvolvimento orofacial. Quais são os sinais de alerta que podem indicar a necessidade de intervenção precoce de um terapeuta miofuncional? Os pais são, muitas vezes, os primeiros a notar que algo não está a correr como seria esperado. Alguns sinais de alerta podem surgir logo nos primeiros dias de vida. Um exemplo é o bebé que permanece constantemente de boca aberta. A respiração deve ser feita sobretudo pelo nariz e, quando isso não acontece, é importante perceber porquê. Outro sinal frequente está ligado à alimentação. Seja na amamentação ou no biberão, se o bebé apresenta dificuldades em mamar, engasgos, recusa alimentar ou pega dolorosa, vale a pena investigar. Nestes casos, trabalhamos em conjunto com conselheiros de amamentação, osteopatas e outros profissionais, porque não olhamos apenas para a boca: o corpo do bebé é um todo. Muitas vezes, pequenas tensões ou padrões posturais influenciam o funcionamento orofacial. Por isso, avaliamos o bebé de forma global, para perceber o que pode estar a dificultar estas funções tão importantes para o seu crescimento e desenvolvimento. Muitas famílias enfrentam dificuldades na amamentação. De que forma a terapia miofuncional, aliada à sua formação em assessoria de lactação, pode ajudar a ultrapassar problemas como a pega incorreta, a dor materna ou a sucção ineficaz do bebé? A amamentação é um processo profundamente natural, mas ao mesmo tempo complexo, e nem sempre acontece de forma intuitiva. Quando há dificuldades, como uma pega incorreta, dor para a mãe ou uma sucção ineficaz, é essencial olhar para a situação de forma inter e/ou transdisciplinar. A terapia miofuncional, em conjunto com a assessoria de lactação, permite perceber como funcionam as estruturas orofaciais do bebé e de que forma estas interferem no processo de mamar. A minha formação em lactação trouxe-me ferramentas adicionais para apoiar melhor as famílias, porque percebi que, por vezes, não basta intervir apenas na parte funcional, é preciso compreender todo o processo da amamentação. Assim consigo identificar sinais precoces, prevenir desmames desnecessários e trabalhar em equipa com outros profissionais, como consultoras de lactação certificadas, para dar um apoio mais completo à mãe e ao bebé. Muito se fala hoje em dia do “freio curto”. Como pode uma avaliação adequada evitar diagnósticos precipitados ou intervenções desnecessárias? O tema do freio lingual tem ganho muita visibilidade e, em alguns casos, quase se tornou um “vilão” imediato sempre que há dificuldades na amamentação. Muitas famílias chegam já convencidas de que o problema está no freio, quando nem sempre é esse o caso. É fundamental que a avaliação seja cuidadosa e vá além do aspeto anatómico: precisamos de analisar também a parte funcional, ou seja, se a língua do bebé consegue desempenhar as funções esperadas para a idade. Nem todos os freios são iguais, nem todos exigem intervenção, e generalizar como “freio curto” pode levar a decisões erradas. Gosto mais de falar em “alterações do freio lingual”, porque engloba diferentes situações. Uma boa avaliação, feita em conjunto com profissionais especializados, como o odontopediatra ou o cirurgião pediátrico, garante que não se avançam para procedimentos desnecessários e que cada caso é tratado de forma individualizada. Mais do que olhar para a anatomia isoladamente, é essencial observar como a língua funciona no dia a dia, porque muitas vezes, com o estímulo certo, o bebé consegue adaptar-se sem necessidade de cirurgia. Que papel têm os hábitos orais, como o uso prolongado da chupeta ou do biberão, no desenvolvimento craniofacial e no risco de dificuldades na fala e alimentação? A chupeta e o biberão fazem parte da vida de muitas famílias e não devemos olhar para eles de forma fundamentalista. Em algumas situações, como em casos de prematuridade ou quando os pais já tentaram de tudo para acalmar os seus bebés, pode recorrer-se à chupeta. Já quando o bebé apresenta dificuldades na amamentação ou, por opção dos pais, pode também ser utilizado o biberão como forma de o alimentar. No entanto, quando usados de forma prolongada e frequente, podem trazer consequências importantes. Estes hábitos podem alterar a respiração, o sono, a mastigação, a posição da língua e até a oclusão dentária. Além disso, há também um lado emocional: a chupeta é, muitas vezes, o objeto de conforto do bebé, o seu “porto seguro”. Por isso, quando chega a altura de retirar, deve ser feito de forma gradual, respeitando a criança, para evitar compensações como o hábito de chupar no dedo, que é ainda mais difícil de eliminar. Quando temos algo constantemente dentro da boca, que não faz parte dela, como a chupeta, isso acaba por condicionar o correto desenvolvimento das estruturas orofaciais. Assim, o mais importante é o uso consciente e acompanhado por profissionais de saúde, para que os pais saibam equilibrar necessidades e riscos. A respiração oral é muito comum nas crianças. Quais são as principais consequências desta alteração e como pode a intervenção precoce evitar problemas futuros na fala, mastigação e sono? A respiração é a base de tudo. Respirar pelo nariz garante que o ar é filtrado, aquecido e humidificado, preparando o organismo para funcionar em pleno. Quando a criança respira pela boca, seja por obstruções respiratórias, hábitos orais prolongados ou outras causas, inicia-se um “efeito bola de neve”: a língua perde a posição correta, a musculatura da face enfraquece, a mastigação e a deglutição alteram-se e o desenvolvimento craniofacial deixa de seguir o seu curso natural. As consequências vão muito além da boca. A postura corporal adapta-se, o sono deixa de ser reparador por falta de oxigenação adequada, a criança pode apresentar dificuldades de concentração, fadiga, irritabilidade ou até comportamentos confundidos com hiperatividade. Também a alimentação sofre, já que alimentos mais duros ou fibrosos passam a ser evitados, prejudicando a diversidade alimentar. Por isso, a intervenção precoce é essencial. Identificar a respiração oral a tempo permite atuar na causa e reeducar as funções orofaciais, garantindo um desenvolvimento mais harmonioso, melhor qualidade de sono e uma vida diária mais tranquila e saudável. A introdução alimentar é uma fase crítica. Qual é o papel do terapeuta miofuncional neste processo e que estratégias podem ajudar as famílias a promover uma mastigação e deglutição adequadas? A introdução alimentar é um momento muito especial, mas também cheio de dúvidas para os pais. A partir dos 6 meses, segundo a Organização Mundial de Saúde, muitos bebés já começam a estar preparados para iniciar este processo, mas mais importante do que a idade é estarmos atentos aos sinais que o próprio bebé nos dá. Não basta ter maturidade gastrointestinal; é preciso também maturidade motora e orofacial. Se um bebé ainda não consegue manter o tronco e a cabeça estáveis, ou se mantém o reflexo de protrusão da língua muito ativo, não está pronto para comer em segurança. É aqui que entra o papel do terapeuta miofuncional: avaliar, orientar e ajudar as famílias a promover uma alimentação adequada, respeitando o ritmo de cada bebé. Estratégias como garantir uma boa postura (com cadeira adequada e apoio para os pés), permitir que explore os alimentos com as mãos e participar nas refeições em família são fundamentais para estimular a mastigação e preparar, desde cedo, o desenvolvimento da fala. Além disso, desmistificar medos comuns, como o receio do engasgamento, é essencial. Comer deve ser uma experiência sensorial e positiva, e não apenas “levar alimento à boca”. Em termos de saúde pública, considera que deveria existir maior integração do terapeuta miofuncional em equipas multidisciplinares nas maternidades e cuidados de saúde primários? Como é que a colaboração com pediatras, osteopatas, fisioterapeutas ou dentistas potencializa os resultados da terapia miofuncional? Sem dúvida. A terapia miofuncional deveria estar integrada nas equipas multidisciplinares de forma natural, tanto em maternidades como nos cuidados de saúde primários. Já começa a haver maior abertura no setor privado, mas no público ainda estamos a dar “passos de bebé”. O trabalho em equipa é fundamental, porque nenhuma área consegue atuar sozinha. Um pediatra pode identificar sinais precoces, um dentista pode detetar alterações orais, um fisioterapeuta pode intervir na postura e um osteopata pode ajudar a libertar tensões. Mas é a articulação de todos estes olhares que garante melhores resultados. A literacia em saúde tem crescido e os pais estão cada vez mais informados e curiosos, em parte graças às redes sociais, que têm tido um papel importante na divulgação. Não se trata de “moda” ou marketing, mas de ciência e de prática clínica com impacto real no desenvolvimento infantil. Quando trabalhamos em equipa, ganham os bebés, ganham as famílias e ganha o futuro da saúde. Muitos pais não associam problemas como otites de repetição, dificuldades de sono ou alterações posturais à função orofacial. Como explicar esta ligação de forma acessível? É curioso, porque quase sempre acabamos por voltar à respiração. Se a criança não respira bem pelo nariz, isso vai ter repercussões em várias áreas. Muitas otites de repetição, por exemplo, podem estar relacionadas não apenas com infeções, mas também com obstruções respiratórias. As vias aéreas das crianças são muito pequeninas e basta uma congestão nasal para acumular secreções no ouvido e provocar inflamações sucessivas. O sono também sofre com isto. Uma respiração deficiente leva a uma oxigenação mais pobre, que pode resultar em noites mal dormidas, ressonar ou até pequenas apneias. E, ao contrário do que muitos pensam, ressonar não é normal em nenhuma idade, é sempre um sinal de alerta. Já na postura, acontece algo semelhante: quando o nariz não é o “caminho natural” da respiração, a criança passa a respirar pela boca. E o corpo, para conseguir compensar, adota posições que alteram o alinhamento da cabeça, do pescoço e até da coluna. No fundo, tudo está ligado. A motricidade orofacial também está diretamente ligada ao desenvolvimento da fala. Quais são os pré-requisitos essenciais que precisam de estar assegurados para que a fala emerja de forma saudável? Um dos pré-requisitos seria a audição. Uma criança precisa de ouvir bem para poder falar bem. Muitas vezes os pais não percebem que há alguma falha auditiva porque a criança reage a sons ou ordens simples, mas pode estar a ouvir de forma “difusa”, como se estivesse debaixo de água. Isso faz com que confunda sons muito próximos, como o /p/ e o /b/, o que depois se reflete na fala. Por isso, rastreios auditivos regulares são fundamentais. Outro ponto essencial é a comunicação. A fala não nasce das telas nem dos estímulos passivos, mas da interação com os outros. É na repetição, no jogo de imitar, no diálogo com o adulto que a criança aprende a usar palavras de forma funcional. O vocabulário pode até vir dos desenhos animados, mas se não for integrado em situações do dia a dia, não se transforma em linguagem real. E, claro, precisamos de uma boa base motora oral: língua, lábios e bochechas com força e coordenação suficientes para articular os sons corretamente. Tudo isto, em conjunto com a maturidade cognitiva, cria as condições para que a fala emerja de forma saudável, clara e funcional. Que mensagem gostaria de deixar aos pais que muitas vezes procuram ajuda tarde demais, acreditando que “é normal” o bebé não mamar bem, não ganhar peso ou ter dificuldades na fala? A mensagem que gosto sempre de deixar aos pais é: nunca é tarde demais. Mesmo quando chegam com a sensação de que “já deviam ter procurado ajuda”, a verdade é que fizeram o melhor que sabiam com a informação e os recursos que tinham naquele momento. A culpa só pesa e não ajuda. O mais importante é perceber que muitas dificuldades, seja na amamentação, no ganho de peso ou na fala, têm uma causa por trás. Se apenas taparmos os sintomas com “soluções rápidas”, o problema volta a aparecer. O nosso trabalho é ir à origem, compreender o que está a provocar aquela respiração oral, aquela dificuldade de sucção ou aquele atraso na fala, e só depois intervir. Por isso, digo sempre: cuidar da saúde orofacial é cuidar da saúde global do bebé, da criança e até do adulto. Muitas vezes, hábitos ou sintomas parecem inofensivos na infância, mas mais tarde revelam consequências. Quanto mais cedo olharmos para a causa, mais fácil é transformar o percurso da criança. E sim, os pais vão sempre a tempo. Instagram: @miofuncionalmente_brunafreitas Agendamentos: https://linktr.ee/Miofuncionalmente_TF “O colo não é mimo. É o início do desenvolvimento do cérebro do bebé” Três mulheres, três percursos, um mesmo propósito: transformar a beleza num hino ao empoderamento feminino
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