Pré - Natal/SAÚDE/Saúde Infantil “O bebé comunica muito antes de ter palavras” By Revista Spot | Maio 30, 2026 Junho 1, 2026 Share Tweet Share Pin Email A maternidade começa muitas vezes com uma pergunta sussurrada no cansaço: “Será que o meu leite é suficiente?” Por trás desta dúvida não está apenas a amamentação, mas uma mãe a tentar perceber se está a fazer bem, se o seu bebé está seguro, se o seu corpo responde, se há alguém que a escute sem a julgar. Inês Rocha, terapeuta ocupacional, IBCLC, instrutora de massagem infantil e instrutora certificada do Programa Baby Signs®, olha para este início de vida como uma relação em construção. A pega importa, mas também importam o tónus do bebé, a postura da mãe, o choro, o toque, o vínculo e a regulação emocional de ambos. Nesta entrevista, desmontam-se mitos, fala-se de cólicas, babywearing, comunicação antes das palavras e redes de apoio. Porque cuidar de um bebé é também cuidar de quem cuida. No seu trabalho, qual é a pergunta que mais se repete nas primeiras semanas de vida e o que é que essa pergunta revela sobre a forma como estamos a viver a maternidade hoje? A pergunta que mais ouço é: “Será que o meu leite é suficiente?”. Revela uma mãe que quer profundamente fazer bem, mas que chegou à maternidade sem ferramentas para ler o seu bebé, sem confiança no seu próprio corpo e frequentemente sem rede de suporte próxima. Vivemos numa sociedade que romantiza a maternidade, mas que prepara muito pouco para ela. As mães chegam informadas sobre parto, sobre enxovais, mas raramente sobre como funciona a amamentação, o que é o comportamento normal de um recém-nascido ou o que fazer quando tudo parece correr mal a meio da noite. Esta pergunta não é sobre leite, é sobre confiança. E a confiança constrói-se com presença, com informação e com suporte real. A sua formação em IBCLC, Terapia Ocupacional e neurodesenvolvimento dá-lhe uma leitura diferente do bebé? Nunca olho apenas para a pega. A amamentação é um ato complexo, envolve vários músculos, coordenação entre sucção, deglutição e respiração; tudo isso num bebé que está ainda a organizar o seu sistema nervoso. Quando olho para um bebé observo o seu tónus, a sua postura global, a forma como integra a informação sensorial, como regula o seu estado. Da mesma forma que olho também para a mãe: tensão nos ombros, posição do pulso, as possíveis aversões sensoriais. A amamentação é uma dança entre dois corpos e se um deles está em dificuldade, a dança desafina. Quando uma mãe chega até si em sofrimento, com dor, fissuras, bebé inquieto, sensação de “não tenho leite suficiente”, qual é o primeiro passo? O primeiro passo é olhar para a mãe, ouvi-la, acolhê-la. Uma mãe em sofrimento não consegue absorver informação técnica, o seu sistema nervoso está em modo de alerta. Antes de falar em pega ou posicionamento, preciso que ela se sinta vista, ouvida e acompanhada. Só depois de criar esse espaço de segurança é que consigo fazer uma avaliação completa. Até porque, a técnica, o bebé, o corpo e o emocional estão interligados, não é possível separar. A dor afeta a oxitocina, a oxitocina afeta a descida do leite, a tensão da mãe afeta o bebé, e o bebé agitado amplifica a ansiedade da mãe. É um ciclo. A minha função é entrar nesse ciclo com cuidado e ajudar a quebrá-lo. Vivemos num tempo em que há muita informação sobre maternidade, mas nem sempre mais tranquilidade. As redes sociais ajudaram as mães a saber mais ou aumentaram a sensação de que estão sempre a falhar? As duas coisas, e acho que é importante ter essa honestidade. As redes sociais trouxeram a oportunidade de muitas famílias terem acesso à informação e criaram comunidades de apoio que antes não existiam, muitas mães encontraram suporte, identificação e recursos que as ajudam. Por outro lado, as redes sociais criaram uma pressão silenciosa e constante: partilha-se muitas vezes o que é bom e esconde-se o que é real: o bebé que dorme no berço, a mãe que sorri enquanto amamenta com facilidade; e isso não é a realidade da maioria. Quando a nossa realidade é caos, choro e exaustão, a comparação pode ser devastadora. Acrescento ainda que nem toda a informação que circula é rigorosa. O desafio hoje não é falta de informação, é ajudar as mães a filtrar, a confiar em fontes credíveis e, acima de tudo, a confiar em si próprias, porque elas melhor que ninguém vão conhecer os seus filhos. Há frases que atravessam gerações: “o teu leite é fraco”, “esse bebé está sempre à mama”, “colo a mais estraga”, “se chora é fome”. Quais são os mitos mais persistentes? “O leite é fraco” é talvez o mais destrutivo e o que mais permanece: o leite materno não é fraco, adapta-se constantemente às necessidades do bebé; podemos, em alguns casos, ter uma baixa produção de leite por diversas causas, mas nunca o leite é fraco. Digo muitas vezes às famílias, cada gota conta, cada gota é importante. “Está sempre à mama” é outro dos mitos mais persistentes: ignora que os bebés mamam por fome, por conforto, por regulação, por sede, por crescimento e que isso é biologicamente normal. “Colo a mais estraga” nega aquilo que a neurociência nos diz sobre vinculação e regulação: o contacto é uma necessidade, não um capricho; este é um dos mitos que aos poucos já se vai ouvindo menos. A laserterapia aplicada à amamentação ainda é pouco conhecida por muitas famílias. Em que situações pode ser útil e que expectativas devem ser bem explicadas? O laser de baixa intensidade é uma ferramenta que utilizo como adjuvante em situações específicas, nomeadamente na cicatrização de fissuras mamárias, na redução da dor e inflamação local, em casos de ingurgitamento e até em candidíases. Os resultados podem ser muito positivos, mas é fundamental gerir bem as expectativas: o laser trata tecido lesado, mas não resolve sozinho uma pega incorreta ou uma dificuldade de sucção do bebé. Se a causa não for corrigida, o problema repete-se. Uso-o sempre integrada numa avaliação global da díade, nunca como solução isolada. As famílias precisam de perceber que é uma ferramenta de suporte ao processo, não uma “cura mágica”. A cólica do lactente é muitas vezes tratada como “normal”, mas para os pais pode ser um período devastador. Quando é que o choro de um bebé deixa de ser apenas uma fase e passa a exigir uma avaliação mais cuidada? O choro intenso e inconsolável tem um impacto enorme na família, na saúde mental das mães, na vinculação, na relação do casal. Normalizar demasiado pode deixar famílias a sofrer sozinhas sem apoio. Como terapeuta ocupacional pediátrica, olho para o choro como comunicação. Um bebé que chora muito está a dizer-nos algo, pode ser desregulação do sistema nervoso, pode ser dificuldade de processamento sensorial, pode ser refluxo, intolerância alimentar, tensões musculares pós-parto. A avaliação cuidada está indicada quando o choro é de alta intensidade, difícil de consolar, acompanhado de arqueamento do corpo, dificuldades de sono ou alimentação, ou quando os pais estão no limite. Não devemos esperar que “passe” sem investigar e muito menos deixar os pais a sentir que estão a falhar quando na verdade o bebé precisa de ajuda. O Programa Baby Signs® propõe uma ideia muito bonita: o bebé comunica antes de ter palavras. O que muda numa família quando os pais deixam de esperar pela fala e começam a ouvir o corpo, o gesto e a intenção? O Programa Baby Signs® parte de uma premissa: o bebé está apto a comunicar muito antes de o conseguir fazer por palavras. E quando os pais começam a aprender esta linguagem, feita de gestos simples, intencionais, repetidos com afeto, deixam de estar à espera que o filho fale para começarem a comunicar com ele; começam a compreender melhor os filhos, aquilo que vai na cabecinha deles. Como instrutora do programa, o que observo não é apenas a utilidade prática dos gestos, saber quando o bebé quer “mais”, quando tem “fome”, quando quer “leitinho”, mas a transformação na forma como os pais olham para os filhos: passam a vê-lo como alguém que tem voz, que tem preferências e escolhas e isso tem um impacto direto na frustração de ambos os lados. Muito do choro intenso desta fase, muito do cansaço parental existe porque o bebé quer comunicar e não consegue, os pais querem perceber e não conseguem. O Programa Baby Signs® cria uma oportunidade de melhorar a comunicação e a vinculação. A massagem infantil e o babywearing parecem gestos simples, mas tocam em temas profundos? Há uma frase que gosto muito de usar com as famílias: o toque é a primeira linguagem. Antes da fala, antes do gesto, antes do olhar, é pelo toque que o bebé começa a perceber que o mundo é seguro, que o seu corpo tem limites, que alguém é o porto seguro dele, alguém em quem pode confiar. Na massagem infantil, o mais importante não são as técnicas mas sim o toque, a relação, o estar completamente presente no momento; e é aí que acontecem maravilhas: a libertação de oxitocina, a hormona da vinculação, do amor tanto nos pais como no bebé; regulação do sistema nervoso autónomo do bebé; melhoria do padrão de sono; redução dos sintomas de cólica; e, nas mães com depressão pós-parto, estudos mostram que a prática regular da massagem tem um efeito positivo no humor e na perceção de competência materna. Em relação ao babywearing, o movimento rítmico e o contacto com o progenitor regula o sistema vestibular, acalma o sistema nervoso e reproduz a experiência intrauterina e diz ao bebé: “Estás seguro. Estás comigo.” E dizem à mãe: “Sabes cuidar do teu filho.”. Se pudesse redesenhar a preparação para a maternidade e paternidade, o que colocaria no centro? Colocaria as relações no centro. Temos informação técnica a mais e suporte a menos. Destaco a importância da rede comunitária, o verdadeiro sentido de quando nasce um bebé, nasce uma aldeia. A maternidade não foi feita para ser vivida em isolamento, e o modelo atual de família nuclear sem rede de suporte é, em si mesmo, um fator de risco. Também considero importante que os pais reconheçam as suas próprias necessidades. O que lhes diria é aquilo que considero essencial: não têm de fazer isto sozinhos, e pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. O bebé precisa de pais suficientemente bons, não perfeitos. E os pais precisam de ser tratados com a mesma ternura que dedicamos aos bebés. Instagram: @onceupon_ababy Marcações: linktr.ee/onceuponababy “A verdadeira decisão não está entre salvar um dente ou colocar um implante, mas em escolher a solução com melhor prognóstico” “Mais do que uma nova sede em Braga, a Dental Light inaugura uma nova etapa na saúde oral em Portugal”
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