Psicologia Bárbara Fonseca, psicóloga perinatal, lança “Bebé a Caminho”: um jogo de cartas com 180 perguntas para casais que acham que já falaram de tudo…até chegar um bebé By Revista Spot | Dezembro 15, 2025 Dezembro 22, 2025 Share Tweet Share Pin Email Há ideias que nascem de estudos, outras de tendências e depois há as que nascem da vida real. Este promete mudar conversas. Chama-se “Bebé a Caminho” e é o novo jogo de cartas criado por Bárbara Fonseca, psicóloga perinatal que decidiu transformar anos de consultório, e a própria experiência de maternidade, numa ferramenta que faz aquilo que quase ninguém faz: sentar o casal à mesa para falar do que realmente importa antes de o bebé nascer. O conceito é simples, 180 cartas com perguntas que não vêm nos livros, reflexões que não aparecem nas ecografias e diálogos que raramente acontecem… até ser demasiado tarde. Questões como “O que é que te vem à cabeça quando pensas na palavra parto?”, “Como foi a tua infância?”, ou “Como seria uma divisão de tarefas ideal para ti?”, trabalham expectativas, identidade, logística, medos, divisão de tarefas, impacto na relação, tudo ali, numa caixa que cabe na mão e abre mundos inteiros. Pensado para casais, útil para psicólogos, doulas e equipas de preparação para o parto, este é o baralho que finalmente diz em voz alta aquilo que a parentalidade costuma sussurrar. Por cada baralho vendido, serão doados dois euros ao Cordão, uma associação portuguesa sem fins lucrativos que apoia mulheres, casais e famílias durante a gravidez e o pós-parto. Preparados para a conversa que ainda não tiveram? O que é que a levou a dedicar-se à Psicologia Perinatal? Houve alguma situação que a tenha feito perceber que a saúde mental começa muito antes do parto? Dediquei-me à Psicologia Perinatal durante a gravidez do meu filho Benjamim. Foi nessa altura que percebi, na pele, que a gravidez (nem sempre) é uma fase cor-de-rosa da vida. E percebi como existe uma falha enorme na forma como comunicamos sobre os aspetos psicológicos da gravidez. Há toda uma revolução emocional a acontecer naquele período (identidade, expectativas, novos medos desbloqueados, mudanças nas relações, no corpo, enfim…) e ainda falamos pouco disto, de forma aberta e dando a devida importância, considerando as proporções que toma na vida da mulher e do casal. Então foi aí que senti que queria contribuir para preencher este vazio. Hoje coordena uma equipa especializada. De que forma esta estrutura multidisciplinar reforça o apoio ao casal e ao bebé? Que lacunas do sistema de saúde atual tenta preencher com esta forma de trabalhar? Por agora coordeno uma equipa com seis psicólogas clínicas (especializadas em diferentes áreas como a da psicologia perinatal ou da terapia de casal e familiar), uma gestora de casos e uma nutricionista materno-infantil, mas queremos diversificar a nossa resposta do ponto de vista das especialidades. Para já, esta estrutura permite-nos olhar para a família como um sistema em transformação: não é só a mãe, é o casal, é o bebé, é todo o contexto e a família a passar por diferentes desafios. No sistema de saúde atual do nosso país, o apoio emocional e psicológico é muitas vezes reativo (e aparece quando já há sofrimento) ou ignorado. Nós trabalhamos de forma preventiva e a nossa missão é apoiar as nossas clientes para que nenhuma passe pela gravidez e pelo pós-parto sozinha e sem informação de qualidade. Ainda falamos pouco sobre saúde mental antes da gravidez. Que desafios emocionais, decisões de vida e dinâmicas conjugais surgem nesta fase? E que mitos continuam a prejudicar os casais que estão “quase” a engravidar? Sem dúvida, a fase da preconceção continua invisível, embora seja emocionalmente muito intensa e sofrida em silêncio, só entre os membros do casal. O maior desafio emocional que observo é a dificuldade em lidar com a incerteza e a dúvida: “Por que é que ainda não conseguimos? Vai acontecer? Quando? E se não acontecer? Será que o problema é meu? Foi alguma coisa que fiz e não devia? Ou que devia e não fiz?…” A nível conjugal, o casal tende a viver este processo de formas muito diferentes que podem provocar algum afastamento emocional. E depois vêm as expectativas (as nossas e as dos outros) que criam pressão, comparação e muitas vezes culpa. Mitos… Ainda há alguns: 1. Que se engravida à primeira ou que se pode decidir em que mês se vai engravidar (porque sabemos que ~85% dos casais demora até um ano a engravidar). 2. Que a dificuldade em engravidar se deve à mulher (em casos de infertilidade, 30% têm causa feminina, 30% causa masculina, 30% causa mista e 10% sem causa identificada). 3. Que “basta querer muito” e não stressar para conseguir. Nop: há muitos mais fatores que podem explicar e influenciar o positivo além da vontade e do estilo de vida. 4. Que a gravidez e o bebé vêm melhorar a relação ou torná-la mais forte; não necessariamente, um bebé coloca a relação à prova de mil e uma formas e pode mesmo tornar evidentes problemáticas até então desconhecidas. Na sua prática, quais são os temas que mais se repetem na gravidez? Ansiedade, medo do parto, redefinição de identidade, pressão social? Sim, o medo do parto, muitas vezes associado à falta de informação ou a experiências negativas anteriores. A preparação emocional para o pós-parto, incluindo sim considerações sobre a identidade, mas também o autocuidado, e a construção de limites saudáveis nas relações (seja por exemplo com o trabalho ou com a família de origem). E finalmente, o alinhamento do casal, que está prestes a entrar num momento de grande desafio. Muitos casais dizem: “Não estávamos preparados para o que mudou entre nós.” Que padrões clínicos observa na relação conjugal após o bebé nascer? Que sinais deviam ser levados mais a sério? Sim, a satisfação conjugal costuma diminuir. A relação tende a sair “prejudicada” nos primeiros meses (ou até anos) da vida do bebé porque um bebé vem colocar pressão em todas as esferas da vida daquele casal; a adaptação é profunda, demora tempo, e as prioridades alteram-se. Também costumamos ver uma acentuação na desigualdade de divisão das tarefas e aumento da carga mental da mulher, mais conflitos devido ao cansaço e privação de sono e menos sensação de proximidade/intimidade (não só no que respeita à sexualidade, como também à conexão emocional). Há dois sinais, em particular, que merecem ser levados muito a sério. O primeiro é o desalinhamento persistente: quando o casal passa a viver em mundos paralelos, incapaz de encontrar pontos de encontro nos valores, nos ideais, nas decisões do quotidiano, nas prioridades ou nas necessidades emocionais. O segundo é a falta de comunicação, não apenas as discussões que se repetem, mas o silêncio que se instala, a resignação que substitui o diálogo, a ausência de sensibilidade e de cuidado com o outro. Se estes dois não forem trabalhados, podem “cristalizar-se” e criar ruturas mais profundas (e até permanentes). Como nasceu a ideia de criar um baralho de cartas? Foi uma necessidade vinda do consultório, da investigação ou da própria experiência com casais? O que é que faltava no mercado? O baralho nasceu da prática clínica, sobretudo ao acompanhar mulheres grávidas. Muitas vezes os casais já estão à espera de um bebé, mas ainda não se conhecem verdadeiramente enquanto casal e como futuros pais! Falta comunicação, falta alinhamento, falta clareza sobre expectativas e sobre o nível de envolvimento emocional e logístico que será necessário. E depois vejo o outro lado: casais em pós-parto, a lidar com desafios enormes, a ter conversas difíceis que poderiam (e deveriam!) ter acontecido antes. Em tom de brincadeira, e sem querer generalizar, não podia escrever mais um livro que elas vão saber de cor e do qual eles só vão ler as primeiras 10 páginas. Senti que faltava no mercado um recurso simples, levezinho, acessível e baseado em evidência que orientasse essas conversas essenciais. Este baralho parte de uma premissa forte: “Antes de sermos pais, somos um casal.” Que impacto clínico tem trabalhar esta dimensão? De que forma conversas guiadas podem prevenir ruturas emocionais no pós-parto? Preparar a relação antes do nascimento tem um impacto enorme na forma como o casal vive o pós-parto. Existe imensa evidência que comprova os benefícios de uma boa conexão conjugal para a mãe, para a gravidez, para o próprio parto e para o bebé! A investigação mostra, por exemplo, que a qualidade da comunicação e o alinhamento das expectativas durante a gravidez são dois dos maiores fatores de proteção para a saúde mental dos pais e para a satisfação conjugal depois do bebé nascer. Quando o casal tem conversas (guiadas), consegue clarificar papéis, antecipar desafios, reduzir mal-entendidos e melhorar uma sensação de equipa. Isto diminui o conflito, aumenta a ligação emocional e facilita a transição para a parentalidade. De forma simples, quanto mais alinhado está o casal antes do parto, mais seguro é o ambiente emocional para receber o bebé e mais preparada está a relação para enfrentar as mudanças do pós-parto. De que forma o “Bebé a Caminho” pode ser utilizado por psicólogos, doulas, médicos e outros profissionais? E como é que casais, sem qualquer acompanhamento, podem tirar benefícios reais das cartas? Isso mesmo! Este produto foi pensado para ser usado por casais “grávidos”, mas também por profissionais de saúde preocupados e sensíveis para esta necessidade de alinhar os casais ainda na gravidez e ajudá-los a refletir sobre o que realmente importa. Os profissionais podem usá-lo em consultas individuais, em sessões de preparação para o parto, em grupos ou até como ferramenta de mediação nas conversas mais difíceis. Os casais, podem usá-lo em casa, no sofá, num ritual semanal, ou sempre que sentirem que precisam de conversar sobre algo importante. O objetivo é tornar estas conversas acessíveis, naturais e estruturadas. Que temas essenciais aborda o baralho: expectativas, divisão de tarefas, cuidados emocionais, crenças familiares, modelos parentais? Como é que estas conversas impactam o bebé ainda durante a gestação? O baralho tem 12 categorias de perguntas que eu considero serem essenciais. Começa com a história de vida de cada progenitor, as suas visões comuns e o papel que cada um tem/terá na vida do filho, expectativas, parentalidade e conjugalidade, rede de apoio, trabalho de parto, pós-parto e logística, autocuidado e identidade. Espero que estas cartas ajudem a reduzir a ansiedade, empoderem o casal e ajudem a produzir muita oxitocina! Se isto é bom para o bebé na barriga da mãe? Claro! A qualidade da relação conjugal influencia a forma como a mãe regula o stress e essa regulação é um dos fatores que mais impacta a qualidade do ambiente intrauterino. Vivemos uma mudança cultural enorme: pais mais informados, mas também mais ansiosos. Que papel espera desempenhar na próxima década? E como imagina a evolução de produtos e serviços como este, que aproximam o casal em vez de o afastar? Acredito que na próxima década eu e a minha equipa iremos contribuir para transformar a forma como preparamos casais para o nascimento. Em última instância queremos famílias com mais saúde mental! Espero que nos próximos anos consigamos trazer mais produtos e serviços que equilibrem a balança das responsabilidades e das expectativas, tornando esta fase de transição numa etapa de maior cuidado, mais consciência e amor. Instagram: @barbarafonseca.pt “A menopausa começa agora a ser discutida com a seriedade que merece: um fenómeno biológico com impacto direto na saúde de milhões de mulheres” Monkey Park Gaia: Um Natal na selva com lugar para todos
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