NUTRIÇÃO “Porque é que as mulheres que nunca se permitem falhar acabam tantas vezes por perder o controlo à mesa?” By Revista Spot | Agosto 1, 2026 Agosto 3, 2026 Share Tweet Share Pin Email A segunda-feira chega carregada de promessas. Desta vez, não haverá pão, chocolate, sobremesas nem desvios. O plano será cumprido sem falhas e a balança terá finalmente de colaborar. Até ao dia em que o cansaço vence, a comida volta a servir de conforto e uma escolha fora do plano se transforma na sensação de que tudo ficou perdido. Ana Sofia Cunha conhece este ciclo não apenas da consulta, mas da própria vida. Nutricionista e nutricoach, encontrou na sua experiência pessoal uma forma diferente de acompanhar mulheres que passaram anos a emagrecer, recuperar peso e culpar-se por não conseguirem manter resultados. Depois de mais de cinco mil “Guerreiras”, defende que emagrecer exige muito mais do que saber o que colocar no prato. Exige compreender emoções, abandonar a perfeição, preparar a manutenção e recuperar uma confiança que, muitas vezes, se perdeu muito antes dos primeiros quilos. Em que momento percebeu que, para ajudar verdadeiramente uma mulher a emagrecer, não bastava dizer-lhe o que devia comer? Percebi-o muito cedo, sobretudo a partir do momento em que atravessei o meu próprio processo de emagrecimento. Quando a alimentação está profundamente ligada às emoções, contar calorias ou dizer a alguém aquilo que deve comer não é suficiente para transformar hábitos. Podemos entregar um plano alimentar tecnicamente perfeito, mas, se não compreendermos o que leva aquela mulher a procurar comida quando está cansada, ansiosa, frustrada ou emocionalmente sobrecarregada, estaremos apenas a trabalhar uma parte do problema. Foi por isso que comecei a aproximar a Nutrição do desenvolvimento pessoal e do acompanhamento comportamental. Para haver uma transformação verdadeira, é necessário trabalhar não apenas aquilo que a mulher come, mas também a forma como pensa, sente, reage às dificuldades e se relaciona consigo própria durante o processo. Partilhou recentemente que a comida também já foi, para si, uma forma de escape. De que forma essa experiência mudou a profissional que é hoje? Tornou-me muito mais empática perante as mulheres que chegam até mim e permitiu-me compreender, de forma muito concreta, as dificuldades do processo. Podemos tentar colocar-nos no lugar do outro, mas, quando já vivemos aquela realidade, percebemos melhor aquilo que ela exige emocionalmente. Ao longo do meu próprio percurso, tive de encontrar estratégias, fazer ajustes e perceber o que facilitava ou dificultava a mudança. Essa aprendizagem foi sendo construída através da formação, da experiência profissional e da aplicação em mim própria. Depois de 13 anos a acompanhar mulheres, conseguimos identificar estratégias que funcionam para uma grande parte das pessoas, embora cada caso tenha sempre de ser individualizado. Ter passado por este processo permite-me dizer a uma mulher: “Eu compreendo o que está a sentir, mas também sei que existem ferramentas para sair desse ciclo.” Não significa que todas as experiências sejam iguais. Significa que consigo reconhecer a dor, a frustração e o esforço que, muitas vezes, não são visíveis na balança. Depois de acompanhar mais de cinco mil “Guerreiras”, que padrão encontra nas mulheres que chegam convencidas de que o problema está nelas? O padrão mais evidente é o de mulheres que passaram grande parte da vida a colocar-se em segundo plano. Tentam ser excelentes profissionais, mães presentes, companheiras disponíveis e pessoas capazes de manter tudo organizado. Sentem que têm de provar constantemente o seu valor e corresponder às expectativas colocadas sobre elas. É também daí que nasce o nome “Guerreiras”. Não no sentido de estarem em guerra com o corpo, com a comida ou com a balança, mas por representarem a fortaleza de mulheres que passaram a vida a tentar responder a tudo e a todos. O desafio é ajudá-las a compreender que ser forte também pode significar parar, pedir ajuda e voltar a ocupar um lugar na própria vida. Quando chega o momento de cuidarem de si próprias, já estão física e emocionalmente sobrecarregadas. A comida surge, muitas vezes, como uma forma de conforto, prazer ou pausa. É aquele momento que sentem que lhes pertence no meio de tantas exigências. Depois, aparece a culpa. Como estas mulheres tendem a procurar a perfeição em tudo o que fazem, entram num processo de emagrecimento com a ideia de que também terão de o cumprir de forma perfeita. Quando acontece um desvio, sentem que perderam o controlo e entram na lógica do “perdido por cem, perdido por mil”. É assim que se constrói o ciclo: começam uma dieta, tentam cumprir tudo sem falhas, surge um momento mais difícil, comem algo que não estava previsto e sentem que voltaram a falhar. Em vez de aprenderem com o processo, acumulam frustração e deixam de acreditar em si próprias. Nenhum processo importante da nossa vida é uma linha reta. Um casamento, uma carreira ou uma família também atravessam fases melhores e piores. O emagrecimento não é diferente. Haverá dias com maior motivação, dias de convívio e momentos em que será necessário ajustar. O problema não é sair ocasionalmente do plano. É interpretar esse momento como a destruição de todo o percurso. Até que ponto o metabolismo, o ciclo menstrual, o sono, o stress e as alterações hormonais devem ser considerados no emagrecimento feminino? O corpo feminino atravessa oscilações hormonais ao longo do mês que podem influenciar a disposição, o apetite, a retenção de líquidos, a energia e a forma como cada mulher gere emocionalmente a alimentação. Isso não significa que as alterações hormonais impeçam, por si só, o emagrecimento. Significa que podem alterar a forma como uma mulher se sente e a facilidade com que consegue cumprir determinadas rotinas. Quando juntamos às oscilações hormonais uma vida profissional exigente, responsabilidades familiares, pouco sono e níveis elevados de stress, torna-se naturalmente mais difícil gerir a alimentação. Algumas mulheres sentem maior vontade de consumir doces ou alimentos reconfortantes em determinadas fases do ciclo. O problema surge quando interpretam essa vontade ou esse consumo como uma perda total de controlo. Uma abordagem direcionada para a mulher deve considerar estas variações, em vez de exigir exatamente o mesmo comportamento todos os dias do mês. É necessário conhecer o corpo, antecipar momentos de maior vulnerabilidade e construir estratégias adaptadas à realidade de cada pessoa. Foi a cultura dos “alimentos proibidos” que estragou a nossa relação com a comida? A cultura dos alimentos proibidos prejudicou profundamente a nossa relação com a comida, sobretudo porque vivemos num mundo de enorme disponibilidade alimentar. A comida está presente nos cafés, nos restaurantes, nas celebrações, nos encontros familiares e nos momentos de convívio. Quando proibimos completamente um alimento, aumentamos frequentemente o desejo de o consumir. Depois, quando finalmente o comemos, não o fazemos necessariamente com prazer e consciência: fazemos com culpa e com a sensação de termos transgredido uma regra. Existem pessoas que escolhem excluir determinados alimentos porque esse estilo de vida lhes faz sentido ou por razões clínicas devidamente identificadas. Essa é uma escolha legítima. Mas, para a maioria, uma estratégia baseada em proibições permanentes será muito difícil de manter. O conhecimento dá-nos poder de escolha. Quando uma mulher compreende aquilo que está a comer, aprende a gerir quantidades, frequência e contexto. Pode incluir um chocolate, uma sobremesa, pão ou massa sem sentir que destruiu todo o processo. Emagrecer não deve ser um período isolado durante o qual se obedece a regras impossíveis. Deve ser um processo de aquisição de conhecimentos e hábitos que possam continuar depois de o objetivo ser atingido. Muitas mulheres chegam à perimenopausa ou à menopausa convencidas de que o aumento de peso é inevitável. O corpo muda realmente as regras? O corpo muda, mas isso não significa que o aumento de peso seja inevitável ou que seja impossível emagrecer. Nesta fase, podem ocorrer alterações na distribuição da gordura corporal e uma perda mais acentuada de massa muscular, associadas ao envelhecimento e às mudanças hormonais. Por isso, determinados comportamentos que antes eram adiados passam a ser menos negociáveis. Torna-se ainda mais importante dar atenção à alimentação, praticar exercício físico, incluindo treino de força, cuidar do sono e aprender a gerir melhor a ansiedade e o stress. Até determinada idade, muitas mulheres sentem que conseguem compensar uma rotina desequilibrada. Mais tarde, o corpo começa a mostrar com maior clareza as consequências da falta de descanso, do sedentarismo e de uma alimentação pouco estruturada. A partir dos 40 ou 45 anos, torna-se ainda mais importante criar espaço para cuidar da própria saúde. O problema é que muitas mulheres chegam a esta fase ainda mais ansiosas, sobrecarregadas e focadas nas necessidades dos outros. Não se trata de lutar contra o corpo. Trata-se de compreender aquilo de que ele passa a precisar. O efeito ioiô é uma falha do metabolismo, da estratégia ou de planos alimentares impossíveis de sustentar? Na maioria dos casos, existe uma falha de estratégia e uma ausência de preparação para a manutenção. Fala-se muito sobre perder peso, mas muito pouco sobre o que acontece depois de o objetivo ser atingido. Alguns planos podem ser mais exigentes durante uma fase específica e ainda assim fazer sentido, desde que exista acompanhamento e uma transição devidamente planeada. O problema surge quando a pessoa segue uma estratégia temporária como se fosse uma solução definitiva e, no final, regressa exatamente aos hábitos anteriores. Emagrecer e manter o peso são fases diferentes. No nosso método, trabalhamos a manutenção durante cerca de um ano, com consultas progressivamente mais espaçadas. Esse período permite à mulher consolidar hábitos, aprender a gerir férias, festas, fins de semana, fases de maior stress e oscilações normais da vida. Muitas mulheres acreditam que manter o peso é mais difícil do que emagrecer porque nunca tiveram oportunidade de viver verdadeiramente uma fase de manutenção. Perderam peso, terminaram o plano e ficaram sozinhas. Quando o único objetivo são os números da balança, não existe espaço suficiente para aprender. A mulher sabe obedecer a um plano, mas não sabe ainda compensar, ajustar ou tomar decisões autonomamente. Quem consegue manter o peso durante um período prolongado constrói uma relação muito mais estável com a alimentação. É essa aprendizagem, e não apenas o peso perdido, que reduz a probabilidade de regressar ao ponto de partida. Pensar constantemente em comida é falta de disciplina? O que é que o chamado food noise nos pode dizer? Pensar constantemente em comida não é necessariamente falta de disciplina. Pode estar associado a restrição alimentar, hábitos adquiridos, stress, ansiedade ou à utilização da comida como forma de conforto e regulação emocional. A pessoa come, sente um alívio momentâneo e o cérebro começa a associar aquele comportamento a uma sensação de recompensa. É por isso que existem fases da vida em que algumas pessoas aumentam mais de peso e outras em que conseguem estabilizar ou emagrecer com maior facilidade. Quando estão emocionalmente mais equilibradas ou focadas noutros objetivos, o ruído em torno da comida pode diminuir. Quando atravessam períodos de ansiedade, solidão, frustração ou sobrecarga, pode tornar-se muito mais intenso. O food noise manifesta-se quando grande parte do dia é ocupada por pensamentos sobre aquilo que se comeu, aquilo que se poderá comer ou aquilo que “não se deveria” comer. É uma negociação mental permanente que gera desgaste e culpa. Esta relação pode ser trabalhada, mas exige tempo. Não basta dizer a alguém para ter força de vontade. É necessário compreender os gatilhos, reduzir a lógica de restrição e culpa, criar outras formas de conforto e desenvolver ferramentas para responder às emoções sem recorrer sempre à comida. Porque decidiu ultrapassar o modelo tradicional da consulta e criar uma equipa, mentorias, desafios e programas de acompanhamento? Percebi que uma mulher precisa de muito mais do que um plano alimentar para não regressar ao ponto de partida. Precisa de conhecimento sobre o processo, porque o conhecimento elimina muitos fatores de desvio e permite tomar decisões com maior consciência. Também precisa de autoconfiança, autoestima e motivação. O emagrecimento vai muito além da alimentação. Podemos personalizar todos os planos, adaptar refeições, apresentar alternativas e ensinar estratégias para diferentes contextos, mas, se não trabalharmos a mentalidade, será muito difícil alcançar uma transformação duradoura. Seria mais fácil entregar planos previamente definidos de acordo com um determinado número de calorias. Mas uma mulher não é um valor calórico. Tem horários, preferências, responsabilidades, dificuldades emocionais, uma história e uma relação específica com a comida. Foi por isso que construímos uma equipa que inclui nutricionistas e profissionais da área da Psicologia. Procuramos identificar as lacunas que podem comprometer o processo e oferecer diferentes ferramentas para as trabalhar. Existe, porém, uma parte que depende sempre da própria pessoa. Tem de haver compromisso consigo, com o processo e com a equipa. A mulher precisa de sentir que pode partilhar aquilo que aconteceu sem receio de ser julgada. Costumo dizer que somos as melhores amigas daquele processo: precisamos de conhecer as dificuldades reais para conseguirmos ajudar. Há mulheres que procuram um corpo diferente quando aquilo que perderam foi, verdadeiramente, a confiança em si próprias? Completamente. Vejo muitas mulheres, sobretudo a partir dos 45 ou 50 anos, que passaram fases inteiras da vida concentradas nos filhos, na família, no trabalho e nas responsabilidades. Foram-se esquecendo de si próprias. Quando finalmente voltam a olhar para si, já não se reconhecem na imagem que veem. Não chegam apenas com peso a mais. Chegam emocionalmente fragilizadas, com pouca autoestima, pouca autoconfiança e a sensação de terem perdido uma parte importante da sua identidade. Nestas situações, não podemos trabalhar apenas a alimentação. É necessário perceber o que aconteceu ao longo daqueles anos, aquilo que a mulher deixou de fazer por si e os aspetos que precisam de ser reconstruídos. A perda de peso pode ser importante, mas o verdadeiro resultado acontece quando essa mulher volta a acreditar que é capaz, começa a cuidar de si sem culpa e recupera a confiança para ocupar novamente um lugar na própria vida. A balança pode mostrar-nos quantos quilos foram perdidos. Não consegue mostrar a coragem necessária para recomeçar, a liberdade de voltar a vestir determinada roupa ou o momento em que uma mulher se olha ao espelho e volta, finalmente, a reconhecer-se. Instagram: @anasofiacunhanutricionista Facebook: Ana Sofia Cunha – Nutricionista Morada: Rua Santa Maria de Viatodos, 2048, loja 3, 4775-271 Viatodos Contacto: 962 154 088 (chamada para a rede móvel nacional) “A boca é uma das primeiras testemunhas da qualidade do nosso sono” O American Seafood Boil chegou a Braga e come-se de luvas e babete
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