SAÚDE ORAL “As gengivas podem contar muito mais sobre a nossa saúde do que imaginamos” By Revista Spot | Julho 10, 2026 Julho 10, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há sinais que aprendemos a desvalorizar. Uma pequena hemorragia ao escovar os dentes, uma gengiva ligeiramente retraída, um mau hálito persistente ou aquela sensação de que os dentes começaram a ter mais espaço entre si. Quando não há dor, é fácil adiar. Mas algumas das doenças que mais comprometem a saúde oral evoluem precisamente em silêncio. A Periodontologia ocupa-se desse território muitas vezes invisível: das gengivas, do osso e dos tecidos que sustentam o sorriso. Para Nádia Lemos, médica dentista com diferenciação em Periodontologia, Implantologia e Endodontia, olhar para estas estruturas é também olhar para a pessoa no seu todo. A crescente investigação sobre a associação entre doença periodontal e diferentes condições sistémicas veio reforçar uma convicção que orienta a sua prática: a boca não é um compartimento isolado do organismo. Talvez por isso repita tantas vezes uma frase que resume toda a sua filosofia clínica: “a saúde começa no rosa.” O que é que a levou à Medicina Dentária e, em particular, à Periodontologia, uma área tão decisiva, mas ainda tão pouco conhecida pelo público? A Medicina Dentária entrou por acaso. Na época, a minha preferência era Medicina, mas as notas altas fizeram com que eu não conseguisse entrar. O plano inicial passava por fazer o primeiro ano de Medicina Dentária e pedir transferência. A verdade é que gostei tanto de Medicina Dentária que não equacionei mais a transferência. Apercebi-me de que a Medicina Dentária conseguia enquadrar duas vertentes de que gosto tanto: a arte manual e a saúde. O gosto pela Periodontologia cresceu quando fui estudar em Erasmus para Madrid, para a UCM, uma das faculdades mais conceituadas de Periodontologia e Implantologia. Ali, consegui apaixonar-me pela Periodontologia e perceber a importância da saúde oral como parte integrante da saúde geral do indivíduo. Comecei a estudar cada vez mais a associação entre doenças crónicas e inflamatórias e a doença periodontal. Depois daquela experiência no meu percurso académico, tendo o destino ditado a Medicina Dentária, tudo começou a fazer sentido. Ia escolher a especialidade que me permitiria dar aos meus pacientes saúde, saúde no seu todo. Ia passar por melhorar o percurso de doenças crónicas, como a diabetes ou as doenças cardiovasculares, colocando a boca saudável. Um dois em um fantástico. Costuma utilizar uma frase muito forte: “a saúde começa no rosa”. O que é que a gengiva nos diz sobre a saúde de uma pessoa que, muitas vezes, os dentes sozinhos não conseguem revelar? Efetivamente, a saúde começa no rosa. São, muitas vezes, as gengivas que nos mostram sinais e sintomas de doenças, quer pelo sangramento, quer pelo inchaço, quer pela sua retração. As gengivas saudáveis são a base de um sorriso saudável. Mesmo dentes saudáveis, sem cáries, podem perder-se devido à doença periodontal. E é isto que eu quero que as pessoas saibam. Quero instruir os meus pacientes e as pessoas que me seguem nas redes sociais, porque acredito que, quanto mais pessoas souberem o que é a doença periodontal, mais pessoas vão conseguir prevenir a perda de dentes devido a este problema. Gengivas saudáveis mostram muito mais do que uma boca saudável, podem mostrar um corpo saudável. A inflamação crónica das gengivas, sem causa aparente, pode dizer-nos muito sobre a saúde de um paciente. E, sempre que isso acontece, temos o dever, como periodontologistas, de procurar a causa sistémica. Durante muito tempo, as pessoas habituaram-se a pensar no dentista apenas quando há dor, cárie ou estética dentária. Porque é que a gengiva continua a ser uma das grandes esquecidas da saúde oral? A gengiva é, muitas vezes, esquecida porque, na maior parte das vezes, o problema subjacente é indolor. Nos dias de hoje, a população ainda acredita que sangrar das gengivas é normal e, enquanto esse paradigma não for desmistificado, as pessoas vão negligenciar as gengivas. As gengivas protegem a base da nossa cavidade oral, o osso, e é a pensar nele que temos de olhar para as nossas gengivas e cuidar delas. Não vale de nada ter os dentes mais bonitos do mundo e não ter uma base que os suporte. Sem osso e gengivas, não existe nada que sustente o dente. Sangrar ao escovar os dentes é ainda visto por muitas pessoas como “normal”. Em que momento é que esse sinal deve deixar de ser desvalorizado e passar a ser encarado como um alerta? Sempre. As gengivas não podem sangrar, não podem sangrar durante a escovagem e muito menos espontaneamente. Temos de instruir as pessoas a saber olhar para as suas gengivas e a identificar inflamação, inchaço e retração, para poderem procurar ajuda sempre que for necessário. O mais importante de tudo é não deixar que as gengivas tenham sangramento espontâneo. Acordar com sangue na almofada ou comer uma maçã e sangrar das gengivas são sinais de alerta de que alguma coisa não está bem e de que as gengivas estão a comunicar. Só não podemos ignorar. A periodontite pode evoluir sem grande dor até comprometer os tecidos que sustentam os dentes. Quais são os sinais mais subtis a que devemos estar atentos antes de chegarmos a uma situação avançada? O primeiro grande sintoma é o sangramento das gengivas. Muitas vezes, a inflamação surge como resposta à acumulação de tártaro por baixo das gengivas, sendo este o substrato para as bactérias poderem proliferar, criar um processo infecioso e destruir o osso de suporte dos dentes. Para além do sangramento, sinais como mau hálito, retração das gengivas e acumulação de comida entre os dentes podem significar que existe um maior espaço entre os dentes devido à perda óssea, assim como mobilidade dentária. Este último é o sinal mais perigoso e aquele que nos permite identificar uma situação avançada de periodontite. Nunca esquecendo que, ainda que tenhamos um dente com mobilidade, isso não significa que não possamos reverter a situação. E, mais importante, o tratamento da periodontite faz com que melhoremos o prognóstico de todos os restantes dentes em boca. Ter periodontite, atualmente, não significa ficar sem dentes, como se pensava até então. É cada vez mais importante informar os pacientes de que a periodontite pode ser perfeitamente controlada e, quanto mais cedo, melhor. Hoje fala-se cada vez mais da ligação entre inflamação gengival e saúde geral, nomeadamente diabetes, doenças cardiovasculares e outras condições crónicas. Como explica esta relação aos pacientes de forma simples e sem alarmismos? É uma das partes mais difíceis da minha profissão, mas tento explicar que a cavidade oral é a entrada do nosso corpo e que o que acontece na boca não fica na boca. Uma inflamação na boca pode perfeitamente entrar na corrente sanguínea e levar bactérias para todas as partes do corpo, seja o coração, o cérebro ou a placenta, no caso das mulheres grávidas. Tento elucidar ao máximo que tudo está interligado e que já existem inúmeros estudos que comprovam a existência de uma associação entre a periodontite e doenças crónicas, nomeadamente a diabetes, principalmente no controlo da glicemia. No caso das doenças cardiovasculares, como a hipertensão, foi identificado que bactérias associadas à periodontite podem contribuir para a doença cardiovascular. Na gravidez, a doença periodontal pode estar relacionada com um maior risco de complicações, nomeadamente partos pré-termo, pré-eclâmpsia e baixo peso. Portanto, é sempre importante explicar que a periodontite é como se fosse uma ferida que está sempre aberta e inflamada e que o nosso corpo não consegue curar enquanto não a tratarmos. E isso tem impacto na saúde geral. Que papel tem a Periodontologia para garantir que um sorriso bonito também é um sorriso saudável e sustentável? A Periodontologia é a base de qualquer sorriso. Temos de ter uma base saudável para sustentar qualquer trabalho estético. Precisamos de saúde óssea e gengival para que a harmonia do sorriso seja perfeita. Precisamos de um ambiente oral saudável, com um equilíbrio positivo de bactérias boas, para que os implantes tenham sucesso. O que mais digo aos meus pacientes é que não adianta querer substituir os dentes por implantes: a taxa de perda de implantes por doença periodontal é duas a cinco vezes maior quando comparada com a dos dentes. Porque é que a saúde periodontal é decisiva antes, durante e depois da colocação de implantes? Existem países que não fazem tratamentos ortodônticos sem rastreio periodontal, e faz todo o sentido. Não queremos movimentar dentes onde existem bactérias que nos podem destruir o osso. Existe um longo caminho de promoção do conhecimento nesta área em Portugal e eu gostava muito de poder fazer parte. Só existem implantes se existir osso e gengiva e, mais do que existirem, têm de ter qualidade e saúde para obtermos o melhor resultado estético e funcional quando colocamos implantes dentários. Os estudos são muito claros: devido às caraterísticas do implante, mais do que ter volume ósseo, a espessura e o tipo de gengiva que protegem os implantes são a base para a longevidade dos mesmos. Um sorriso só é bonito se for saudável, e esta mensagem é a mais importante. Depois de tratar uma gengiva inflamada ou uma periodontite, que importância tem a fase de manutenção? O que é que muda na rotina do paciente para evitar recaídas ou perda de dentes no futuro? A manutenção é a base do controlo da periodontite. Digo várias vezes aos meus pacientes: eu até podia ser a melhor dentista do mundo, mas, se em casa não tiverem uma correta higienização, uma rotina correta, com o uso dos escovilhões e da escova pelo menos duas vezes por dia, todo o meu trabalho de controlo da doença periodontal não adianta de nada. A periodontite é uma doença crónica que precisa de controlo da placa bacteriana para não haver bactérias patogénicas em proporções que o organismo não consiga combater. Quando temos um bom controlo da placa em casa e fazemos as consultas de rotina, o sucesso é garantido. E o sucesso passa por ter a doença periodontal controlada, sem sinais inflamatórios nem perda óssea. Se pudesse deixar uma mensagem a quem nunca marcou uma consulta de Periodontologia porque “não sente nada”, qual seria? O que gostava que as pessoas começassem a observar no espelho, todos os dias, para protegerem o seu sorriso a longo prazo? No meu mundo ideal, gostava que toda a gente tivesse, um dia, a oportunidade de ter uma consulta de diagnóstico periodontal, de conhecer a doença e o porquê de ela existir, de aprender a técnica de escovagem e a identificar problemas. Não sendo isso possível, por motivos lógicos, gostava que, principalmente, as pessoas de risco e aquelas em que existe evidência científica de correlação, como os diabéticos, as pessoas com doenças cardiovasculares, com problemas de tiroide, problemas respiratórios e as grávidas, soubessem que a doença periodontal, nomeadamente a gengivite e a periodontite, são doenças inflamatórias crónicas e que, quando não controladas, podem ter um impacto negativo no controlo das suas patologias, muitas vezes levando à toma de doses mais elevadas de medicação ou a intercorrências. E, para toda a população acima dos 40 anos, gostava de dizer que a periodontite pode, sim, ser tratada e controlada e que a ideia de que “os meus dentes vão cair todos porque aconteceu o mesmo aos meus pais” já não é verdadeira nos dias de hoje. O tratamento é simples e indolor, mas tem melhores resultados quanto mais cedo for realizado. Gostava que, todos os dias, depois de escovarem os dentes, voltassem a olhar para eles e percebessem se conseguiram ser eficientes na remoção da placa bacteriana, porque a prevenção é a chave e um bom controlo da placa é sucesso garantido para não termos bactérias que nos destruam o osso e as gengivas. Como eu costumo dizer, se não comêssemos, não teríamos periodontite, porque as bactérias não teriam de que se alimentar. Mas temos de comer, portanto, o mínimo que podemos fazer por nós mesmos é lavar bem os dentes depois das refeições. Instagram: @dranadialemos “A dependência pode esconder-se em comportamentos tão comuns como jogar, fazer compras online, comer compulsivamente ou passar horas nas redes sociais” “Muitas vezes, a ansiedade é uma mensagem urgente sobre a forma como estamos a viver”
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