FORMAÇÃO Arte Total volta a dançar no espaço original de Souto de Moura recém-renovado em Braga By Revista Spot | Novembro 13, 2025 Novembro 27, 2025 Share Tweet Share Pin Email No Mercado Cultural do Carandá, onde Souto de Moura desenhou proporções e luz, regressa uma das mais emblemáticas escolas de dança contemporânea do país. Mais do que um regresso físico, é o reencontro com um espaço que, há mais de trinta anos, faz da arte uma forma de pensar o corpo e de educar para a liberdade. A reabilitação do edifício devolve à Arte Total dois estúdios, um de 100m² e outro de 150m², preparados para um novo ciclo de criação que se estende a todas as idades: ballet para bebés, crianças e jovens, ballet vocacional, dança criativa na infância, dança contemporânea para crianças, jovens e adultos, studio training para desenvolver mobilidade, força e elasticidade, e oficinas de criação que despertam a imaginação dos mais pequenos. Um regresso que devolve à cidade uma das suas vozes culturais mais consistentes. Que significado tem este novo capítulo para a Arte Total? Carolina: O Mercado Cultural do Carandá, obra do arquiteto Eduardo Souto de Moura, é casa da Arte Total há mais de 30 anos. Sentimos que este momento não é propriamente um renascimento, porque neste tempo em que o edifício esteve a ser reabilitado nunca paramos o trabalho criativo ou alterarmos o programa da Companhia, e fizemos um grande esforço para manter o decorrer das aulas, mesmo que em locais alternativos. É, no entanto, um retorno à nossa base, com mais força, muita paixão e vontade de crescer. O edifício, recentemente reabilitado, oferece agora condições ainda mais inspiradoras para o trabalho artístico e pedagógico. Este regresso simboliza não apenas uma renovação física, mas também uma reafirmação da relação profunda entre dança e arquitetura. Aqui, a arquitetura torna-se parte da criação, a luz, as proporções e a materialidade do espaço influenciam o movimento e alimentam novas formas de expressão. Este novo capítulo é, portanto, um encontro entre memória e futuro: a continuidade de um percurso iniciado há mais de três décadas, reforçado por um espaço que é uma referência na arquitetura contemporânea, caso de estudo para arquitetos de todo o mundo, que reflete a maturidade e a ambição da Arte Total enquanto centro de criação e formação artística. Que memórias e conquistas definem a vossa trajetória e o que se mantém inalterável na essência da escola, mesmo após 33 anos? Cristina: Ao longo de mais de três décadas, a Arte Total construiu um percurso singular, feito de persistência, experimentação e partilha. Desde 1992, tem sido um espaço de encontro entre gerações, um lugar onde a dança se pensa, se pratica e se reinventa, abrindo caminhos para novas linguagens e sensibilidades. Entre as memórias mais marcantes estão os muitos corpos que por aqui passaram, alunos que se tornaram artistas, criadores, professores e cidadãos com uma consciência estética apurada e um olhar crítico sobre o mundo. As criações originais, as colaborações com artistas nacionais e internacionais, os projetos de mediação e as parcerias com instituições culturais e educativas de Braga e do país são marcos que atestam a vitalidade e o impacto da escola no tecido artístico português. Contudo, o que verdadeiramente se mantém inalterável é a essência: uma visão da dança como arte de pensar o corpo e o movimento, como linguagem capaz de transformar quem a pratica e quem a testemunha. A Arte Total continua fiel ao seu princípio fundador, o de fazer da arte um espaço de liberdade, rigor e imaginação. É essa convicção que sustenta o presente e inspira o futuro: a de que educar pela arte é um gesto de criação contínua. Num tempo em que a expressão individual ganha novas linguagens, de que forma a dança contemporânea se mantém um espaço de liberdade, autoconhecimento e reflexão sobre o mundo? Cristina: A dança contemporânea continua a ser um espaço de liberdade porque parte sempre do corpo e o corpo é o nosso primeiro lugar de expressão e de verdade. Num tempo em que cada pessoa procura novas formas de se afirmar e de comunicar, a dança permite explorar quem somos, o que sentimos e como nos relacionamos com o mundo. Mais do que uma técnica, a dança é uma linguagem viva, aberta e em constante mudança. Através do movimento, é possível refletir sobre temas que atravessam a atualidade: o corpo, a identidade, a relação com o outro, o ambiente, a comunidade. Cada criação é uma forma de olhar o presente e de partilhar essa visão com o público. Na Arte Total, acreditamos que dançar é também uma forma de pensar e de nos conhecermos melhor. O trabalho que desenvolvemos parte dessa convicção: que o corpo é um espaço de descoberta e que a arte pode ser um lugar de encontro, diálogo e transformação. A dança mantém-se, assim, uma das formas mais diretas e autênticas de expressar o que nos move, por dentro e por fora. Entre a Royal Academy of Dance, o método Rambert Grades e o Progressing Ballet Technique, há um rigor técnico evidente. Como é que a Arte Total equilibra essa exigência com a criatividade e o prazer de dançar? Gabriela: Na Arte Total, acreditamos que educar para criar é unir a exigência técnica à liberdade artística. O nosso trabalho educativo e artístico baseia-se num equilíbrio entre rigor, disciplina e prazer, permitindo que cada aluno se desenvolva de forma completa, tanto como bailarino como ser humano. Inspiramo-nos em métodos reconhecidos internacionalmente, como a Royal Academy of Dance, o Rambert Grades e o Progressing Ballet Technique, para assegurar uma formação sólida e de qualidade. Estes programas oferecem a estrutura, a consistência e o vocabulário técnico necessários a uma prática de excelência. Mas na Arte Total, a técnica nunca é um fim em si mesma. É a ferramenta que sustenta a expressão, a criatividade e a autenticidade de cada corpo. Para nós, o ensino tem de valorizar o conhecer para cuidar e respeitar o corpo. Este é o primeiro instrumento de trabalho do bailarino e toda a gente precisa dele saudável no quotidiano, por isso promovemos o conhecimento anatómico, a consciência do movimento e o respeito pelos limites e potencialidades individuais. Assim, a nossa metodologia procura um diálogo constante entre técnica e emoção, disciplina e prazer, corpo e pensamento. Dançar é um ato de criação, e na Arte Total a aprendizagem técnica é inseparável do prazer de dançar e de se descobrir em movimento. Na Arte Total, a dança começa cedo, com jogos, improvisação e arte. De que forma a escola vê o papel da dança na formação integral das crianças, não só como arte, mas como ferramenta de desenvolvimento humano? Gabriela: Na Arte Total, a dança é um meio de descoberta e crescimento, muito antes de ser uma técnica. Desde cedo, através do jogo, da improvisação e do contacto com a arte, as crianças aprendem a pensar com o corpo e a comunicar através do movimento, explorando o mundo com curiosidade, imaginação e confiança. A nossa missão é formar pessoas antes de formar bailarinos. A dança, enquanto linguagem artística e ferramenta educativa, ajuda as crianças a conhecerem-se, a expressarem emoções e a lidarem com desafios, tais como a ansiedade perante uma apresentação pública ou o trabalho em grupo. O corpo torna-se um espaço de pensamento e de escuta: um dual pensamento corpo-mente, onde o movimento desperta a consciência, o foco e a capacidade de concentração. Mesmo quando não estão “sentadas direitas e em silêncio”, as crianças estão a aprender, a trabalhar, a cooperar, a disciplinar-se através da ação e da imaginação. Na Arte Total, acreditamos que a dança é formação humana em movimento: um caminho para crescer com liberdade, rigor e alegria. Os espetáculos anuais são momentos muito esperados por alunos e famílias. O que acontece nos bastidores desse processo criativo e que impacto tem o palco na autoconfiança e no crescimento dos alunos? Cristina: Os espetáculos anuais são, para nós, muito mais do que uma apresentação final, são o culminar de um percurso de aprendizagem, de descoberta e de partilha. Nos bastidores, vive-se um ambiente de grande dedicação e entusiasmo: é aí que os alunos experimentam o verdadeiro sentido de trabalhar em equipa, de ouvir o outro, de ultrapassar desafios e de transformar esforço em criação. Durante o processo criativo, cada aluno é convidado a participar ativamente, a compreender como nasce uma peça, como se constrói uma ideia em movimento e como o corpo comunica com o público. É um momento de crescimento artístico, mas também pessoal. O palco, nesse contexto, torna-se um espaço de revelação: onde o nervosismo se transforma em energia, e a timidez em expressão. O impacto é profundo. Muitos alunos descobrem, ao subir ao palco, uma confiança que depois transportam para outras áreas da vida, aprendem a lidar com a responsabilidade, com o olhar do outro e com a emoção de estar presente. Para as famílias, é também um momento de celebração e reconhecimento do caminho feito. Em cada espetáculo, a Arte Total reafirma a sua missão: fazer da dança uma experiência transformadora, onde a arte e a educação se encontram para formar pessoas mais conscientes, criativas e confiantes. A Arte Total forma, acima de tudo, “seres humanos”. Como é que esta filosofia se traduz no dia a dia das aulas e no relacionamento entre professores, alunos e famílias? Carolina: Na Arte Total, acreditamos que a dança é uma forma de educar para a vida. A técnica é importante, é o que estrutura o corpo e disciplina o movimento, mas é a emoção que dá sentido a tudo o que fazemos. Por isso, mais do que formar bailarinos, procuramos formar seres humanos atentos, sensíveis e confiantes. Nas aulas, cria-se uma relação de grande proximidade entre professores e alunos. Há uma escuta mútua, um respeito que nasce da segurança e da confiança. Cada aluno é acompanhado no seu ritmo, com tempo, cuidado e empatia, porque sabemos que crescer na dança é também crescer como pessoa. Essa relação estende-se naturalmente às famílias. Os pais sentem-se parte da casa, podem conversar connosco, tirar dúvidas, partilhar preocupações ou simplesmente acompanhar o percurso dos filhos. Essa abertura é essencial: faz da escola uma comunidade viva, onde todos aprendem com todos. Muitos testemunhos falam da liberdade, da aceitação da diferença e do sentido de comunidade. Num mundo que tantas vezes valoriza apenas o resultado, como é que a escola consegue preservar essa cultura de processo e de pertença? Cristina: Na Arte Total, acreditamos que a verdadeira aprendizagem artística acontece no processo, no tempo que se dedica à escuta, à descoberta e à partilha. Desde sempre, cultivamos uma cultura que valoriza o percurso tanto quanto o resultado, porque é nele que se revelam a sensibilidade, a autonomia e a identidade de cada aluno. A nossa escola é, antes de tudo, uma comunidade. Um lugar onde a diferença é celebrada, onde cada corpo encontra o seu modo de estar e de se expressar, e onde o erro é entendido como parte essencial da criação. Esse ambiente de confiança e respeito mútuo permite que todos cresçam, não apenas como intérpretes, mas como pessoas mais conscientes e abertas ao mundo. Num tempo em que tudo parece medir-se por metas e resultados imediatos, a Arte Total mantém-se fiel à ideia de que dançar é um ato de presença e de relação, um espaço onde se aprende a olhar, a ouvir e a construir em conjunto. É essa coerência que tem feito da escola um exemplo e uma referência: porque aqui, mais do que formar artistas, formamos comunidades que dançam com sentido, liberdade e pertença. A Arte Total tem sido um polo cultural ativo na cidade. Como é que veem o papel da escola na vida artística de Braga e na formação de um público sensível às artes performativas? Cristina: A Arte Total tem consciência de que a escola desempenha um papel essencial na vitalidade artística e cultural de Braga. Desde a sua fundação, tem procurado afirmar-se não apenas como uma estrutura de criação e apresentação artística, mas também como um espaço de formação, experimentação e aproximação entre a comunidade e as artes performativas. Vemos a escola como um ponto de encontro, um lugar onde artistas, estudantes e público se cruzam num processo contínuo de aprendizagem, descoberta e criação. Acreditamos que a formação artística não se limita ao domínio técnico, mas envolve a construção de um olhar crítico e sensível sobre o mundo. Nesse sentido, a Arte Total tem investido numa pedagogia que valoriza o corpo, o pensamento e a experiência, promovendo práticas que estimulam a imaginação e a consciência estética. O nosso papel em Braga é o de mediador cultural e educativo: aproximar as artes performativas dos cidadãos, criar oportunidades de contato direto com artistas e processos criativos, e contribuir para o desenvolvimento de um público informado, curioso e participativo. As atividades de formação, as residências, os laboratórios e as apresentações públicas que promovemos são pensadas como momentos de partilha e diálogo. Assim, a escola é, para nós, um motor de transformação cultural, um espaço que semeia o gosto pelas artes, alimenta vocações e consolida uma comunidade que reconhece nas práticas artísticas uma dimensão fundamental da vida coletiva. Com instalações renovadas e uma nova energia criativa, quais são os próximos passos? Cristina: O renascimento da Arte Total em 2025 representa a afirmação de um legado e, ao mesmo tempo, um novo ponto de partida. Depois de mais de três décadas de trabalho contínuo, a Arte Total volta a apresentar-se com instalações renovadas e uma energia criativa reforçada, reafirmando o seu papel como referência maior da dança em Braga e inspiração para muitas escolas e estruturas que surgiram a partir do caminho que abrimos. Ao longo dos anos, fomos pioneiros em colocar a dança contemporânea no centro da vida cultural da cidade, formando intérpretes, criadores e públicos, e promovendo uma visão da arte como prática de pensamento e transformação. Hoje, esse compromisso renova-se com ainda mais força: queremos continuar a liderar pela qualidade, pela exigência e pela capacidade de inovar, mantendo a Arte Total como espaço de excelência e de vanguarda. O sonho que ainda falta dançar é o de consolidar Braga como uma cidade de dança, um território onde a criação, a formação e a investigação se encontram num mesmo movimento. Ver a Arte Total renascer é ver esse sonho ganhar corpo: o de uma estrutura que continua a inspirar, a desafiar e a abrir caminho para o futuro das artes performativas em Portugal. Curiosidades: Todos os formadores da Arte Total são altamente qualificados: Cristina Mendanha, Diretora da Arte Total, fez formação na Companhia nacional de Bailado, possui uma Licenciatura em Artes Plásticas, Mestrado em Art, Craft and Design Education, Doutoramento em Educação Artística e Teaching Certificate da Royal Academy of Dance; Gabriela Barros Licenciada em Saúde Ambiental, pós-graduações em Educação Artística e em Dança Contemporânea; Carolina Vieira tem Mestrado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, é formadora certificada em Progressing Ballet Technique e Rambert Grades, frequentou o Teacher Training Seminar for Beginner Levels do Bolshoi Ballet Academy e o curso de Produção Instável (Instável – Centro de Criação de Dança Contemporânea); Lea Siebrecht estudou no Conservatório de Música da Jobra, seguiu pela Girne American University em Performing Arts e culminou no programa intensivo OFICINA ZERO. Escola de Dança Arte Total Morada: Mercado Cultural do Carandá, Rua Dr. Costa Júnior, 4715-127 Braga Contacto: 253 611 880 Facebook: ArteTotal – Educação Artística Instagram: _artetotal_escoladedanca www.artetotal.pt “Crianças que dormem de boca aberta não descansam, um ciclo que afeta o crescimento, o comportamento e o rendimento escolar” “As doenças colorretais continuam a ser vividas em silêncio. Mais do que operar, cabe ao cirurgião ouvir, esclarecer e devolver confiança ao doente”
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