Eventos Arte Total estreia no Theatro Circo espetáculo inspirado na história real da Roda dos Expostos de Braga, dando voz a gerações de mulheres silenciadas By Revista Spot | Julho 14, 2025 Julho 14, 2025 Share Tweet Share Pin Email Estreia no Theatro Circo, em Braga, no próximo dia 17 de julho de 2025, às 21h30 Inspirado numa história real passada em Braga e na Roda dos Expostos, Clementina é um espetáculo coreográfico que dança a memória e o silêncio das mulheres. A partir da figura de Maria Rosa, mulher sem nome, sem data, sem história visível, esta criação da Arte Total, com direção de Gabriela Barros, constrói uma genealogia do feminino a partir dos gestos, das ausências e da resistência. Mais do que uma peça de dança, “Clementina | Could Be So Pretty” é um manifesto poético sobre as mulheres que vieram antes de nós, as que não podiam falhar, e que carregaram, literal e simbolicamente, os sacos e os fardos da vida”. Com um elenco intergeracional, Clementina convida-nos a refletir: quantas histórias ficaram por contar? Até quando será o feminino um território de ausência? Uma experiência que ressoa local e globalmente, um grito por liberdade e visibilidade. Uma genealogia coreográfica do feminino “Esta Clementina nasce de uma história verdadeira da minha família, mas podia ser a de qualquer outra. São cinco gerações de mulheres com fardos às costas e sacos nas mãos, literal e simbolicamente. Rosa, Maria dos Prazeres, todas elas lutaram e sofreram antes de nós para que hoje possamos estar aqui”, partilha Gabriela Barros, coreógrafa e intérprete. No palco, os corpos das bailarinas transformam-se em corpos-arquivo, habitados por memórias, lutas e silêncios. “É um espetáculo sobre tudo o que carregamos, muitas vezes sem sabermos porquê. As mulheres da minha família, como tantas outras, não podiam falhar. E essa herança está cá. Nos gestos. No peso. Na dança”, explica. A Roda de Braga: lugar de abandono, arquivo de vidas A obra parte da história de Maria Rosa, uma mulher sem dados na campa, provavelmente “enjeitada” da roda dos expostos de Braga, cujos descendentes atravessam o espetáculo como um fio invisível. “Quando descobri que ninguém sabia quem eram os pais da minha bisavó, percebi que havia ali uma história para contar, não só a dela, mas a de muitas. E essa história continua hoje, nas mulheres que conheço e em mim própria”, revela Gabriela Barros. Chega sempre com os braços cheios de sacos. Traz sempre o mundo às costas e não percebe porquê. Traz tudo o que precisa, tudo o que pode precisar, tudo o que já precisou. Nada pode falhar, Rosa não pode falhar. Tem necessidade de ter sempre junto dela, tudo o que nos pode faltar. “Nos pode faltar”, nada pode falhar. Rosa, a ´enjeitada´ não pode falhar. Prazeres nasce num dia sem mês, em 1890, filha da ‘enjeitada’ e pai incógnito e segue a vida deixando a linhagem das Marias do Norte. Em cada Maria, virtudes e erros, mas em todas elas um pouco de Rosa. Com o fardo da vida a pesar nas costas e os braços cheios de sacos, seguem afortunadamente fortes. Inspirada numa história real, esta é a narrativa das mulheres de uma família, desde 1869 até hoje. Uma mulher real, cuja história foi resgatada a partir de registos do Arquivo Distrital de Braga, Rosa é filha de Marias, neta de mulheres sem nome, nascida numa época em que o nascimento feminino se fazia muitas vezes entre o segredo e o apagamento. A sua certidão não indica mãe, nem hora, nem data de nascimento, apenas um nome. Rosa é, assim, um símbolo: representa todas as mulheres cujas vidas foram ignoradas, institucionalizadas, silenciadas, e cujas histórias permanecem à margem dos discursos oficiais. Surge como símbolo das mulheres anónimas que emprestaram corpos às gerações. A sua certidão sem data, sem mãe, sem hora é matéria primeira da dramaturgia. A escolha do Theatro Circo para a estreia é tudo menos neutra. O edifício, com mais de um século de história, guarda no pórtico do palco a imagem de duas mulheres: uma que recebe o público de frente, outra que o observa de costas. Essas duas figuras inspiraram a própria estrutura do espetáculo: um convite à entrada e uma promessa de transformação. “Could Be So Pretty”: a beleza como imposição “Could Be So Pretty” remete para uma das pressões mais persistentes sobre o corpo feminino: a exigência estética constante, tantas vezes violenta, que atravessa séculos e se manifesta hoje em discursos normalizados sobre beleza, juventude e performance visual. “Vivemos numa era de filtros e perfeição performativa. Esta Clementina fala de mulheres que, mesmo com direitos adquiridos, ainda vivem numa luta constante para corresponder à imagem do que devem ser. Bonitas. Boas mães. Boas profissionais. Incansáveis. Sempre disponíveis”, afirma Carolina Vieira, bailarina e criadora associada. “A certa altura, começamos a questionar se essa beleza que perseguimos é realmente para nós, ou se é mais uma armadilha. E a dança serve-nos aqui como libertação”, acrescenta. Diálogo intergeracional como motor criativo O processo de criação é assente num diálogo entre gerações. Cristina Mendanha, Carolina Vieira e Gabriela Barros, três mulheres com percursos e idades distintas, são o núcleo criativo de um projeto que se alicerça na diversidade. “É dessa diferença que nasce a profundidade. Crescemos muito umas com as outras. Artisticamente e como mulheres”, partilha Cristina Mendanha, diretora artística da Arte Total. Com um elenco intergeracional constituído por Gabriela Barros, Lea Siebrecht, Carolina Vieira, Irene Almeida, Margarida Guimarães e Liliana Oliveira, a peça afirma-se como um verdadeiro coro de mulheres que partilham, em palco, não apenas a técnica mas sobretudo a vulnerabilidade, o afeto e a escuta. A composição coreográfica resulta de um trabalho colaborativo entre as intérpretes e a criadora, num processo em que o gesto de uma pode ser o eco da outra. Em cena, há corpos que lavam, arrumam, cozinham, seguram, dançam e, nesse quotidiano coreografado, reside a poesia da resistência. “É um espetáculo construído em camadas: algumas são de terra, outras de sonho. Queremos honrar o passado, mas também semear o futuro”, Carolina Vieira. E o trabalho estende-se para além do palco: ao longo do ano, Clementina é também um laboratório onde crianças, jovens e adultos exploram questões de género, corpo e identidade através do movimento. Espetáculo fora dos circuitos comerciais, dentro do que importa Clementina é um projeto de criação artística da Arte Total focado em atividades laboratoriais e fora dos circuitos comerciais, que se estende por quatro anos e que reflete sobre a igualdade de género, explorando a relação entre espectador e obra. A partir de uma investigação artística aprofundada, aborda as quatro vagas do feminismo, que moldaram a luta pela igualdade de género do século XIX até à atualidade. “Clementina | Could Be So Pretty” não procura agradar. Procura tocar. Desinstalar. Despertar. “Assumimos uma linguagem coreográfica que não é feita para entreter, mas para provocar reflexão. Trabalhar fora dos circuitos comerciais dá-nos liberdade, mas também responsabilidade. Não impomos opiniões: abrimos espaço para que cada um pense e sinta por si”, sublinha Cristina Mendanha. Este espetáculo integra o ciclo Clementina, iniciado em 2022 com o objetivo de refletir artisticamente sobre as diferentes vagas do feminismo. Cada ano, uma nova criação. Cada obra, uma peça de um puzzle maior. Uma genealogia do feminino, contada pelo corpo e pela memória. A obra explora este tema com profundidade e sensibilidade, convocando elementos da quarta vaga do feminismo, a mais digital e interseccional, mas também a mais exposta à cultura da imagem, à validação exterior e à padronização de corpos. Entre gestos de repetição, contenção, rebeldia e libertação, a dança faz emergir os conflitos internos entre a autenticidade e a performance social, entre o cuidado e o esgotamento, entre o espelho e o invisível. Cada movimento é também uma pergunta. O que fica depois da dança? “Se o público sair do espetáculo com mais perguntas do que respostas, já cumprimos o nosso propósito. Se alguém se lembrar da avó, da mãe, ou se questionar os seus próprios fardos, já valeu a pena”, conclui Carolina Vieira. Porque resistir é dançar a existência. “Clementina | Could Be So Pretty” dá corpo a perguntas que ainda não têm resposta: quantas vidas ficaram por contar? Quantas identidades foram apagadas desde o primeiro dia? Até quando o silêncio será condição da mulher? No palco, dançar significa afirmar: Não precisamos ser ‘pretty’, precisamos de ser visíveis, lembradas, livres. Espetáculo: Clementina | Could Be So Pretty Data: 17 de julho de 2025 Hora: 21h30 Local: Theatro Circo, Braga Bilhetes: www.theatrocirco.com theatrocirco@theatrocirco.com 253 203 800 Para mais informações: Companhia de Dança Arte Total www.artetotal.pt geral@artetotal.pt 253 611 880 “O descolamento da retina é uma das situações mais graves em oftalmologia e requer intervenção rápida” “Vivemos tempos em que é mais fácil receitar um comprimido do que questionar o estilo de vida que nos adoece”
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