ÉS DE BRAGA A Arte de Maria Helena By Revista Spot | Fevereiro 4, 2026 Fevereiro 5, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há pessoas que passam a vida inteira a adiar-se e há outras que nunca deixam de se procurar. Maria Helena tem 79 anos e uma pressa que não é ansiedade, é fome de estar viva. Diz que “parar é ficar doente” e, ao ouvi-la, percebe-se que não é uma metáfora bonita, é uma filosofia de sobrevivência. A pintura não surge como “carreira” nem como desejo de reconhecimento. Surge como necessidade, como regresso. E, sobretudo, como continuidade de uma vida inteira de procura, pela música, pela família, pelo estudo, pela espiritualidade, pela política e por uma forma de organizar o mundo por dentro quando a realidade, por fora, se torna demasiado pesada. Uma saudade antiga dos pincéis, que a apanhou já com décadas de vida acumuladas. A infância que afinou a sensibilidade Maria Helena cresceu entre Lisboa e uma infância vivida fora do lugar esperado. Fala de um tempo duro na Europa do pós-guerra e de pais “muito avançados para a época”, numa vida que não se estabilizou. Dos oito aos treze anos, vai para Avanca, entregue aos cuidados da madrinha e do tio Julinho, figura-chave do seu percurso, um homem generoso, autodidata, capaz de aprender línguas e instrumentos sozinho, com a paciência de quem ensina sem levantar a voz. É aí que o “bichinho” começa a ganhar corpo. Primeiro a música, o canto, a flauta, o piano como promessa, e depois algo mais profundo: a ideia de que a sensibilidade fazia parte da sua natureza. Quando cantarolar lhe sai sem esforço, o tio percebe antes dela. E mesmo quando a vida a empurra para longe desse caminho, a música permanece como fio invisível. A vida antes da obra Maria Helena cresceu entre afetos imperfeitos e limites muito concretos. A tia, não sendo uma pessoa da cultura, nunca a deixou desligar do canto, fazia questão de a pôr no grupo coral, em peças de teatro, em tudo o que fosse voz e palco. Há também o peso de uma ideia antiga e injusta “uma mulher para ser dona de casa não precisa ser letrada” que, durante anos, funcionou como muro. Mas ela teimou. Fez escolaridade já depois de casada. Trabalhou, divorciou-se, estudou à noite. Acaba por estudar na Universidade do Minho, em Relações Internacionais, enquanto continua a dar aulas e a construir uma vida onde aprender é uma forma de respirar. Política e procura: a necessidade de contribuir Quando termina o curso, aparece outra curva inesperada, a política. A ideia é simples e profundamente humana: “eu queria contribuir para este país”. Pensa ir para o Partido Socialista, mas uma colega puxa-a para o PRD. Entra, participa, observa, e sai com uma conclusão: a política pode interessar como pensamento e discussão, mas “envolvermo-nos na política” exige uma estrutura interna que nem sempre compensa. O que fica, porém, não é o partido. É o traço, a inquietação permanente. A incapacidade de aceitar uma vida pequena só porque é mais fácil. 1994: a pintura como ensaio e descoberta A pintura aparece primeiro como tentativa. Em 1994, compra telas e tintas “sem perceber nada de nada”. Tela “a metro”. Erros. Frustração. Quadros atirados ao lixo. Para muitos artistas, esse momento é quase um ritual de iniciação, perceber que a pintura não é “acertar à primeira”; é insistir, corrigir, aceitar o processo. Começa a comprar telas, faz as primeiras experiências e… dá quadros. Participa numa exposição coletiva e aprende, à sua maneira, como se circula num meio que tem códigos e suscetibilidades. Depois para. A pintura fica encostada, mas não desaparece. O regresso: quando a oportunidade chama pelo nome O retorno à pintura acontece no ano passado, quase como acontece tudo o que é decisivo: por uma conversa que lhe desencadeia de novo a vontade. A pergunta é direta: e se voltasse a pintar a sério? E se fizesse uma exposição? Maria Helena, que durante anos viveu em “surdina”, aceita o desafio. E é aqui que a história ganha outra camada, não é só a pintura, é também o canto. O canto como bússola: coros, mestres e disciplina O canto atravessa a vida dela como um rio subterrâneo. Passa pelo Orfeão de Braga, procura aulas, entra e sai de escolas, não por capricho, mas por exigência. Mais tarde, encontra o Coro Cantabile da Casa do Professor num contexto improvável: uma festa, uma música reconhecida, um entusiasmo que lhe devolve pertença. E há um momento simbólico, a referência a Ennio Morricone, com o tema de Once Upon a Time in the West, como se a vida lhe dissesse, através da música, “aqui estás tu outra vez”. Surge também um professor, Félix Alonso Cabrerizo, que a desafia e segura. E o próximo passo é grande: um solo. Maria Helena vai cantar a Ave Maria (Gounod) pela primeira vez. Não como vaidade de palco, mas como prova de coragem, “não estou aqui para fazer carreira; estou aqui para fazer tributo”. Tributo a quem? Ao tio Julinho, o homem que apostou nela cedo demais para que a vida deixasse acontecer. “Insights, vivências, sonhos”: o quadro como diário íntimo Quando escolhe o título da exposição, Maria Helena não escolhe marketing. Escolhe autobiografia. “Insights” são os flashes, aquelas ideias que chegam de madrugada e obrigam o corpo a levantar-se. “Vivências” é o peso da história real: casamento, filhos, trabalho, estudo, perdas, recomeços. “Sonhos” é esse território onde a cabeça não desliga e, de repente, aparece uma imagem que pede cor. Ela descreve o processo com uma verdade rara: pinta, não gosta, limpa com diluente, recomeça. Faz dois quadros ao mesmo tempo. Passa do impulso ao estudo. Quando é abstração, deixa-se ir. Quando é composição, “tem de ser ponderado”, recorta referências, desenha, constrói. Há aqui uma espécie de “escuta” do quadro, não mística, mas prática, perceber o que está a funcionar, o que pesa, o que precisa de silêncio. Os quadros-filhos: “Origem”, “Transmutação” e o que não se dá Na casa de Maria Helena, há obras que não saem. A artista diz uma frase que podia ser só ternura, mas é manifesto: “os filhos não se dão a ninguém”. Um desses “filhos” chama-se “Origem”, feito “numa hora”, com dois movimentos ao mesmo tempo e validado por pessoas que, no seu círculo, leem a pintura também com linguagem espiritual. Outro quadro, completamente abstrato, foi feito “de um dia para o outro”, em acrílico. Um professor olha e diz-lhe que é o melhor que fez. Ela chama-lhe “Transmutação”. E, nessa palavra, está uma vida inteira: transformar a dor, a energia bruta, o caos, em coisa legível. Depressão, escrita e o mar como lugar de sobrevivência Há um capítulo que muda o tom da reportagem e que ela conta sem autopiedade: uma depressão grave, “muito profunda”, que “a ia matando”. Maria Helena não romantiza. Diz que saiu “sozinha”, depois de um mergulho interior duro. E diz uma coisa que impressiona, como não conseguia desabafar com ninguém, escrevia. Foi aí que nasceram poemas e um desses poemas ganhou música, e depois ganhou cor. Este detalhe é precioso porque liga tudo: voz, palavra, imagem. A arte, no caso dela, não é disciplina isolada. É sistema nervoso a tentar reorganizar-se. E isso, mesmo sem transformar a pintura numa “terapia”, mostra como criar pode ser uma forma de continuar vivo quando a linguagem habitual já não chega. Do cancro ao “enraizamento”: corpo, fé e reconstrução Em 2000, Maria Helena enfrenta um cancro do cólon acompanhado de septicemia. Conta o período com uma serenidade que não esconde o medo: fez quimioterapia, lidou com quedas de plaquetas, ouviu do corpo sinais que a obrigaram a parar antes do fim do protocolo. Fala também do lado espiritual desse tempo, a leitura de Paramahansa Yogananda, as “afirmações de cura” encontradas num retiro, a ideia, muito sua, de “falar com o corpo” durante o tratamento. Não se trata aqui de transformar uma história complexa numa fórmula de cura. Trata-se de perceber o que ela está a dizer: quando a vida ameaça, Maria Helena reage com entrega e sentido. “Se tiver de ser, será.” E, ao mesmo tempo, com ação. Procura apoio, muda rotinas, tenta reconstruir-se. É depois da quimioterapia que começa a cair muito, “o sistema fica em baixo” e é num encontro com um monge tibetano, num retiro, que recebe uma frase seca e decisiva: “em que planeta vive?” Terra. “Então faça enraizamento.” A palavra fica. E mais tarde volta, como voltam as coisas que fazem sentido: torna-se título e tema de um quadro, torna-se bússola. Guiné-Bissau: a viagem que mudou o olhar Se a pintura não nasceu da viagem, a consciência sim. Maria Helena vai à Guiné-Bissau depois de ouvir uma conversa e sentir que tinha de ver com os próprios olhos. Vai sozinha, contra o medo dos filhos, leva pacotes, organiza apoios, e encontra um choque cultural que descreve sem filtros: pobreza extrema, falta de estruturas básicas, um ambiente humano “terrível”, desigualdade e machismo institucional, medo latente, a sensação de estar fora de lugar. Há imagens que lhe ficaram coladas: mulheres a trabalhar “imenso”, uma lógica social dura, a distância entre hotéis “bons” e a vida real, a tensão de caminhar sozinha, o impacto de ver tudo aquilo e voltar a Portugal com outra medida para as queixas do dia-a-dia. “Somos podres de ricos ao lado deles”, diz. E quando regressa, só consegue chorar quando abraça os netos. A viagem não lhe virou a paleta. Virou-lhe o olhar. E isso, em arte, é muitas vezes mais determinante do que mudar o tema. Braga: anonimato cultural e o desejo de rede Maria Helena fala de Braga como se fosse, ao mesmo tempo, casa e interrogação. Diz que falta cultura como tecido, como encontro, como comunidade. “Não nos conhecemos. Somos anónimos uns dos outros. Quantos talentos ficam encostados porque ninguém olha?” E talvez por isso a sua história tenha também uma dimensão política, não partidária, mas cidadã, a ideia de que uma cidade devia devolver mais aos seus artistas. Não com aplausos vazios, mas com espaço, curadoria, continuidade, rede. O futuro: Portugal por temas, sem pressa O próximo ciclo chama-se Portugal. Mas Maria Helena não quer uma paisagem postal. Quer tempo. Pesquisa, procura referências antigas, aproxima-se da agricultura como memória cultural. Pinta o Alentejo com as planícies de girassóis e papoilas que guarda de um passeio com o pai. Pinta o Douro e quer incluir a Casa Ferreirinha, porque “tinha de estar ali uma mulher de garra”. E quer ainda pintar os Açores numa só tela: nove ilhas num quadro, um desafio de composição que a entusiasma precisamente por ser difícil. “A facilidade não. O desafio transforma.” É a frase que resume tudo. A vizinha de 28 anos e a herança de Julinho Mas esta história seria incompleta sem o momento em que o passado se cruza com o futuro. Maria Helena encontra apoio onde muita gente não espera, em Francisca Costa, a sua vizinha de 28 anos, designer e uma lutadora nata. A amizade é intergeracional e prática, riem, discutem, cuidam uma da outra. Do passado, não esquece o seu tio Julinho, que saía de bicicleta a procurar pobres e distribuía dinheiro pelas freguesias. Ela carrega essa herança como gesto simples. Há aqui uma ideia bonita, algumas pessoas não deixam legado em frases, deixam em ações. “Nunca se deixem influenciar por um não” O que muda quando se cria com décadas de vida acumuladas? Muda o medo e muda a urgência. Na maturidade, a arte já não precisa de provar nada a ninguém e isso, paradoxalmente, dá-lhe mais força. Há menos pressa de agradar, menos tentação de seguir modas, menos paciência para compromissos que traiam a verdade do gesto. Quando lhe pedimos uma mensagem para quem está agora a começar, Maria Helena responde como vive: não se deixem travar por um “não”. Lutem pelo que querem. Levem a sério os vossos sonhos. E lembrem-se de que “tudo vem de dentro para fora”. Talvez seja isso que a pintura dela faz. Não ilustra a vida. Traduz. Não prova nada. Revela. E, num tempo em que tanta gente desiste antes de começar, Maria Helena faz uma coisa rara, recomeça. Aos 79, com a mesma urgência de quem sabe que a beleza não tem idade, tem coragem. ARTE “Usar o ecrã como chupeta emocional rouba espaço à comunicação e ao vínculo” “Mais do que qualquer quilo na balança, a principal preocupação é que o nutriente esteja a chegar à mãe e ao bebé”
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