SAÚDE “Aquilo a que chamamos falta de força de vontade é, muitas vezes, um metabolismo a defender-se” By Revista Spot | Fevereiro 4, 2026 Fevereiro 12, 2026 Share Tweet Share Pin Email O corpo tem dois relógios. Um é o das análises, com números, intervalos e valores de referência. O outro é o da experiência: acordar cansada, viver em alerta, sentir o intestino imprevisível, a pele reativa e o peso resistente. Quando estes relógios não batem certo, a resposta fácil costuma ser culpa ou resignação. A médica Soraia de Beça escolheu outro caminho. Entre Medicina Funcional Integrativa e Estética, trabalha na cronologia e procura o que ficou fora do relatório, o stress crónico, o sono fragmentado, a inflamação de baixo grau, a resistência à insulina, transições hormonais como a menopausa e hábitos que parecem pequenos, mas somam anos. Quando é que isto começou? O que mudou? Em que momento o ganhou morada? Como está a qualidade do sono? Que tentativas de “controlo” ensinaram o corpo a defender-se? Numa era de biohacking, a pergunta mais importante de todas é: como voltar a habitar o corpo com saúde e identidade? Em que momento deixou de lhe chegar a resposta “está tudo dentro do normal” e decidiu procurar a história por trás do sintoma? Houve um momento em que percebi que “está tudo dentro do normal” não significava, necessariamente, que estava tudo bem. Vi isso em muitos doentes e vivi-o também no meu próprio corpo. Durante anos, lutei com o peso num ciclo de tentativas, fracassos e recomeços que nunca me representavam por inteiro. Mesmo com conhecimento médico, ouvi que a culpa era minha, que faltava força de vontade. E foi aí que algo deixou de fazer sentido: quando o corpo não responde, não é desobediência, é sinal de que algo não está a ser compreendido. Esse confronto levou-me a questionar a medicina centrada apenas em valores de referência e a procurar o que fica fora das análises: o histórico, o stress crónico, o sono, a inflamação silenciosa, a relação com o próprio corpo. A partir daí, deixou de me interessar apenas o que está alterado e passei a querer perceber porquê. Hoje, acredito que a medicina começa quando deixamos de culpar o doente e começamos a escutar a sua história. Numa consulta de Medicina Funcional Integrativa há raciocínio fisiológico, dados, hipóteses, mas, acima de tudo, tempo para ouvir? Há raciocínio fisiológico, dados, hipóteses mas há, sobretudo, tempo. Tempo para ouvir com atenção, sem interrupções, para ligar pontos e perceber padrões que não surgem numa análise isolada. Muitas pessoas chegam com sintomas antigos e a sensação de nunca terem sido verdadeiramente escutadas. Na Medicina Funcional Integrativa, ouvir não é apenas um gesto empático, é uma ferramenta clínica. É na forma como a história é contada que surgem pistas essenciais para compreender o que o corpo está a tentar comunicar. A personalização começa aí. Quais são os três padrões mais frequentes em pessoas com queixas persistentes? E que perguntas na primeira consulta costumam desbloquear o diagnóstico e o plano? Os padrões que observo com mais frequência são inflamação de baixo grau persistente, desregulação do eixo stress–sono e alterações digestivas subclínicas que comprometem a absorção de nutrientes, a imunidade e a resposta inflamatória. São quadros que raramente surgem como “alterados” nos exames convencionais, mas que explicam muitos sintomas crónicos. Na primeira consulta, o foco não está em identificar um órgão isolado, mas em perceber onde o sistema deixou de se adaptar. Interessa-me compreender a cronologia dos sintomas, a sequência de eventos que os precedeu, as fases de maior exigência física ou emocional e a resposta do corpo a essas fases. É essa leitura integrada que permite transformar queixas vagas num raciocínio clínico estruturado e num plano com sentido a médio e longo prazo. Fala frequentemente de cortisol e do impacto no sono, digestão, imunidade e inflamação. Na prática, quanto pesa o stress crónico na inflamação, no peso, no intestino e na pele? O stress crónico tem um impacto muito maior do que habitualmente se reconhece, porque não é apenas emocional, é biológico. Quando o cortisol se mantém elevado ou desregulado ao longo do tempo, o corpo entra num estado de alerta permanente que compromete o sono, a digestão, a imunidade e o controlo da inflamação. Na prática clínica, vejo o stress crónico associado a maior resistência à insulina, dificuldade na perda de peso, aumento da permeabilidade intestinal e agravamento de problemas cutâneos. Não é fragilidade individual, é fisiologia. Ignorar o stress é tratar consequências sem tocar na causa. Que sintomas vê mais ignorados, e que erros comuns encontra na forma como as mulheres são (ou não são) acompanhadas na menopausa? Os sintomas mais frequentemente ignorados são o cansaço persistente, o nevoeiro mental, as alterações do sono, a ansiedade sem causa aparente e a perda de massa muscular. Muitas mulheres deixam de se reconhecer no próprio corpo, mas continuam a ouvir que “é normal” ou que “faz parte da idade”. Um erro comum é tratar a menopausa como um evento isolado ou apenas como uma questão hormonal, sem olhar para o contexto metabólico, inflamatório e emocional. Falta acompanhamento contínuo e individualizado. A menopausa não é uma doença, mas também não deve ser vivida em silêncio nem em sofrimento. Como explica que “o corpo não responde de forma padronizada” e que sono, histórico de dietas e resistência à insulina podem “mudar o jogo” mais do que força de vontade? O corpo não responde de forma padronizada porque cada pessoa traz consigo uma história metabólica e emocional única. Anos de dietas restritivas, ciclos de perda e ganho de peso, privação de sono e stress crónico alteram profundamente a forma como o organismo gere energia e glicose. Em muitas pessoas, a alimentação passa a ter uma forte componente emocional, funcionando como estratégia de regulação num contexto de cansaço ou sobrecarga. Quando existe resistência à insulina, o corpo entra em modo de defesa: conserva energia, aumenta o apetite e dificulta a perda de peso, independentemente da força de vontade. Criar segurança metabólica e emocional é muitas vezes o passo decisivo para que o corpo volte a responder. Muitos chegam pela pele, pelo corpo, pela imagem, e acabam a falar de sono, intestino, ansiedade. Como usa a estética como ponte para saúde? Muitos doentes chegam pela pele, pelo corpo ou pela imagem e isso é legítimo. Na minha prática, a estética não é um fim, mas uma porta de entrada para uma conversa mais profunda sobre saúde. A pele reflete o que se passa internamente e é, muitas vezes, o primeiro órgão a sinalizar desequilíbrio. Ao abordar a estética de forma integrativa, consigo falar de sono, digestão, stress e inflamação sem resistência. Quando a pessoa percebe que cuidar da pele implica cuidar do corpo como um todo, a motivação muda e o processo torna-se mais consciente e duradouro. Hoje fala-se de longevidade como corrida de biohacking. Na sua abordagem, o que é viver melhor: energia, massa muscular, sono, regulação metabólica, saúde mental, vínculo social? Que indicadores acompanha ao longo do tempo? Não vejo a longevidade como uma corrida de biohacking, mas como a capacidade de viver com energia, autonomia e clareza ao longo do tempo. Para mim, viver melhor é dormir bem, manter força e massa muscular, ter um metabolismo regulado, estabilidade emocional e relações significativas. Acompanho indicadores objetivos, metabólicos, inflamatórios, composição corporal, qualidade do sono, mas dou igual importância à forma como a pessoa se sente no dia a dia. Longevidade com propósito é viver melhor dentro do corpo que se tem, em cada fase da vida. Num mercado onde a suplementação é vendida como atalho, como evita duas armadilhas: o sobrediagnóstico e a ansiedade de viver “à procura de défices”? Evito o sobrediagnóstico partindo de uma premissa simples: cada exame deve servir uma decisão clínica concreta. Pedir análises sem um objetivo claro gera ruído e ansiedade, mais do que clareza. A suplementação, quando bem utilizada, tem hoje um papel estrutural. A qualidade nutricional dos alimentos diminuiu, os solos estão mais pobres e a alimentação moderna é menos densa em micronutrientes. Em muitos casos, a abordagem começa por repor o essencial, sobretudo minerais e vitaminas-chave, criando uma base fisiológica estável. Esse cuidado implica atenção à qualidade. Muitos suplementos são pouco regulados e podem conter formas pouco absorvíveis ou excipientes desnecessários, o que limita o benefício real. Sou muito criteriosa no que recomendo e, sempre que necessário, opto por fórmulas manipuladas em farmácia, personalizadas e sujeitas à regulamentação do Infarmed. Para mim, suplementar é um ato terapêutico e exige o mesmo rigor que qualquer outra intervenção médica. Na Medicina Estética, as expectativas chegam muitas vezes moldadas por filtros e tendências. Qual é a sua regra de ouro para dizer “não” (ou “ainda não”)? E como protege a naturalidade sem infantilizar a vontade do doente? A minha regra de ouro é simples: nunca faço um procedimento que vá contra a identidade da pessoa ou comprometa a sua saúde e naturalidade a médio prazo. Dizer “não” ou “ainda não” faz parte do cuidado médico, sobretudo num contexto de expectativas moldadas por filtros e tendências. Proteger a naturalidade não significa contrariar desejos, mas enquadrá-los. O meu papel é ajudar a pessoa a tomar decisões informadas e conscientes, alinhadas com quem é e não apenas com o que está na moda. O que gostaria que mudasse nos próximos cinco anos, na formação, na regulação e na literacia, para que “integrativo” deixasse de ser moda e passasse a ser qualidade? Gostaria que a Medicina Integrativa fosse encarada como aquilo que verdadeiramente é: uma prática médica exigente, baseada em raciocínio fisiológico, tempo clínico e responsabilidade. Integrar não é acumular terapias, mas compreender o terreno biológico e intervir de forma consciente e fundamentada. É necessária mais exigência na formação e maior clareza na regulação, tanto na prática clínica como nos produtos associados a esta área. Quando tudo cabe sob o rótulo de “integrativo”, perde-se qualidade e confiança. Ao nível da literacia, o maior desafio é ajudar as pessoas a perceber que saúde é um processo. Alimentação, sono, stress, movimento e contexto emocional moldam o terreno onde a saúde ou a doença se desenvolvem. Quando esta base é compreendida, o integrativo deixa de ser moda e passa a ser cuidado médico consistente, humano e sustentável. Instagram: @dra.soraiadebeca Marcações: linktr.ee/drasoraiadebeca “O que acontece no intestino não fica no intestino, comunica com o corpo todo” “Usar o ecrã como chupeta emocional rouba espaço à comunicação e ao vínculo”
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