Cirurgia/ORTOPEDIA “Ao longo de quase dez anos ligado ao alto rendimento como médico, nunca vi o infortúnio superar, de forma consistente, uma base sólida de sono, alimentação e treino” By Revista Spot | Março 5, 2026 Março 5, 2026 Share Tweet Share Pin Email Às oito da manhã, antes do primeiro toque na bola, já há um outro jogo em curso. No balneário, o questionário diário de wellness sinaliza alterações de sono, fadiga e stress ou uma dor vaga no posterior da coxa. No relvado, os dados de GPS ajudam a medir o que o atleta nem sempre verbaliza: metros percorridos a alta velocidade, acelerações, desacelerações, carga acumulada num calendário competitivo cada vez mais denso. E a epidemiologia continua a ser clara: no futebol, a lesão muscular mantém-se como a mais frequente, precisamente numa era em que o jogo exige mais intensidade, mais repetição e menos margem para recuperar. É neste contexto, onde prevenir é treinar, recuperar, comer e dormir bem, e onde a decisão clínica tem impacto direto no rendimento e na carreira, que trabalha Jóni Nunes, cirurgião ortopédico, especialista em ombro e cotovelo, e diretor clínico do Vitória Sport Clube. Entre reuniões semanais de return to play, defende uma medicina de equipa, assente em critérios partilhados, monitorização rigorosa e decisões clínicas que protejam, acima de tudo, a saúde do atleta. Que momentos, referências e mentores foram decisivos na escolha da Ortopedia e, posteriormente, na sua carreira no futebol profissional? Durante o curso de Medicina, em Coimbra, fui tendo muitas dúvidas sobre o caminho que queria seguir. Não tenho médicos na família e, por isso, tudo foi sendo descoberto de forma muito progressiva. O interesse pelo desporto acompanha-me desde criança, mas demorei algum tempo a perceber que podia, de facto, unir essa paixão à Medicina. É curioso porque, ainda na faculdade, cheguei a procurar formação na área da Educação Física, precisamente porque não percebia bem de que forma a Medicina podia cruzar-se com o Desporto. Houve depois um momento importante. Num estágio hospitalar, contactei com um médico que tinha sido médico da seleção brasileira de futebol, e isso abriu-me uma possibilidade que até aí não estava totalmente definida. A Ortopedia e a Traumatologia surgem muito dessa vontade de juntar o desporto à componente cirúrgica. Eu sabia que gostava de áreas cirúrgicas, sempre gostei muito do bloco operatório, e foi nessa interseção que encontrei o meu lugar. O futebol apareceu depois de uma forma inesperada. Em 2017, no meu primeiro ano de especialidade, recebi um convite para integrar o Futebol Clube de Vizela, que na altura estava no Campeonato de Portugal. Aceitei, porque já tinha feito a pós-graduação em Medicina Desportiva e procurava precisamente uma primeira experiência no terreno. Foi, por isso, um percurso que começou de forma muito autónoma, mas com a felicidade de me cruzar com as pessoas certas e de ir construindo caminho a partir daí. Essa experiência no futebol moldou também muito a minha prática clínica e a forma como comunico com os doentes. No desporto de alto rendimento, aprendemos que cada decisão tem impacto real no tempo, na função, na confiança e no regresso à atividade. Isso obriga-nos a ser muito claros, muito objetivos, mas também muito próximos e empáticos. E essa aprendizagem é hoje central na forma como acompanho qualquer doente, seja ou não atleta. Que responsabilidades cabem à equipa médica num clube profissional e onde devem estar, na sua perspetiva, as fronteiras entre a área clínica, a estrutura técnica e a direção? Sinceramente, acho que o papel do médico no contexto desportivo tem evoluído para melhor. Digo-o porque as estruturas estão hoje muito mais profissionais e, por isso, já dependem menos do médico para um conjunto de decisões que, na verdade, não lhe devem caber. Quando comecei no futebol, há cerca de dez anos, passava muitas vezes pelo médico tudo o que dizia respeito, por exemplo, à nutrição e, por vezes, aspetos relacionados com o treino. Mas a verdade é que não somos preparados para assumir esse tipo de funções de forma isolada. Essa visão do médico como figura central e decisora única já não faz sentido nos contextos mais evoluídos. Pelo menos, não é essa a forma como entendo que se deve trabalhar. Hoje, o que faz sentido é uma organização por departamentos, com competências bem definidas e trabalho articulado. No Vitória Sport Clube, por exemplo, estamos organizados numa unidade de saúde e performance. Enquanto diretor clínico, coordeno a área médica, que integra médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e podologia. Depois, a área da performance inclui o alto rendimento, a preparação física, a psicologia e a nutrição. São áreas fundamentais, mas que não estão sob a alçada do médico. Naturalmente, esta não é ainda a realidade de todos os contextos, mas é o modelo em que acredito. A nossa função, no clube, é essencialmente promover a saúde. E promover a saúde, neste contexto, passa sobretudo por prevenir lesões e tratar bem aquelas que surgem. É por isso que é tão difícil separar saúde de performance: prevenir implica treinar bem, comer bem, dormir bem, recuperar bem e estar emocionalmente equilibrado. Quando surge uma lesão, intervimos muito na fase inicial, desde o diagnóstico até à definição do prognóstico. A partir daí, há uma articulação muito próxima com a área da performance para definir um plano específico para aquele atleta e para aquela lesão. Esse plano envolve todos os intervenientes: médico, fisioterapeuta, enfermeiro, podologista, preparação física, nutrição e psicologia. No fundo, trabalhamos muito na lesão, mas procuramos ser cada vez mais ativos na prevenção. O perfil das lesões no futebol está a mudar? Entre calendários mais densos, maior intensidade competitiva, viagens e aceleração do jogo, que tendências têm hoje maior relevância clínica? Aquilo que observamos, e que também é sustentado pela epidemiologia internacional, é que a lesão mais frequente no futebol continua a ser a lesão muscular. Dentro destas, destacam-se claramente as lesões dos isquiotibiais, músculos muito exigidos em ações de alta intensidade, como corrida rápida, aceleração e desaceleração. E isso acaba por demonstrar que, apesar de hoje se trabalhar melhor em muitas frentes, na preparação física, na recuperação, na prevenção e na monitorização, esse esforço ainda não é suficiente para acompanhar a exigência física crescente a que os atletas estão sujeitos. Existe atualmente um debate internacional muito intenso em torno dos calendários competitivos, e com razão. É difícil dissociar o desporto da dimensão financeira e, muitas vezes, ou quase sempre, a integridade física do atleta não surge como a principal prioridade nas decisões estruturais. Essa é uma batalha permanente dos departamentos médicos, trazer a saúde do atleta para a discussão com os diferentes stakeholders que tomam esse tipo de decisões. Na prática, o que vemos é um futebol cada vez mais intenso, com mais ações de alta velocidade, maior densidade competitiva e uma carga física acumulada muito superior. Ou seja, apesar de hoje prepararmos melhor os atletas e de investirmos mais na prevenção, a exigência do jogo continua a crescer a um ritmo que nem sempre conseguimos compensar totalmente. E isso tem consequências clínicas muito concretas. Como se operacionaliza, no dia a dia, o equilíbrio entre performance e prevenção? Que indicadores valoriza mais para ajustar carga e que sinais o levam a travar um atleta? Esse equilíbrio é um dos maiores desafios no alto rendimento. A nossa principal missão é proteger a integridade física do atleta, mas ao mesmo tempo temos um compromisso com o clube e com os seus objetivos desportivos. O desafio está precisamente aí: conseguir proteger a saúde do atleta sem comprometer o rendimento competitivo. No fundo, o que queremos é manter o atleta disponível, evitar que chegue à paragem. Sabemos, no entanto, que na alta competição estar saudável e estar apto para competir nem sempre são exatamente a mesma coisa. Nem sempre conseguimos gerir tudo de uma forma ideal ou totalmente saudável, porque há momentos da época em que o nível de exigência competitiva é muito elevado. Por isso, o nosso objetivo é tentar que esses períodos de maior stress sejam o mais controlados possível. Para isso, monitorizamos um conjunto muito alargado de fatores. Todos os dias, de manhã, o atleta preenche um diário de wellness, onde avalia aspetos como o humor, o stress, a fadiga e a qualidade do sono. Esse instrumento funciona para nós como um sinal de alerta, uma espécie de sistema de red flags, que nos pode levar a abordar o atleta mais de perto para perceber o que se está a passar. Mas tão importante como os dados é a proximidade. Tentamos que os atletas tenham contacto connosco todos os dias, que partilhem os mesmos espaços e sintam abertura para dizer o que sentem. Porque há uma dificuldade real neste contexto, o atleta nem sempre verbaliza aquilo que precisamos de saber. Muitas vezes, dizer “estou cansado” ou “não me estou a sentir bem” pode ser interpretado, por ele próprio, como um sinal de fraqueza ou como algo que pode ter consequências desportivas. E isso exige uma relação de grande confiança. Além desta monitorização mais subjetiva, usamos também indicadores objetivos. Semanalmente, os atletas realizam, por exemplo, testes de força dirigidos aos principais grupos musculares com maior risco de lesão, precisamente para identificarmos assimetrias, défices ou sinais precoces de sobrecarga que o próprio atleta pode ainda não sentir ou não saber interpretar. No fundo, conjugamos mecanismos subjetivos e objetivos para tentar perceber não só aquilo que o atleta nos diz, mas também aquilo que o corpo dele já está a mostrar. Porque a capacidade de ouvir e interpretar o próprio corpo varia muito de pessoa para pessoa. Há atletas que conseguem descrever com enorme detalhe o que sentem e distinguir o que é normal do que já não é; outros têm muito mais dificuldade. E é aí que entra o nosso trabalho de proximidade, observação e decisão. “Dá para ir a jogo?”, é, muitas vezes, uma questão com muita pressão associada. Que critérios são inegociáveis quando existe dor, risco de agravamento ou recidiva? Antes de mais, há uma base que é absolutamente inegociável: a confiança. Para que possamos tomar boas decisões, o atleta tem de confiar em nós e nós temos de confiar no atleta. Esta relação é necessariamente bidirecional. O atleta tem de perceber que, se eu decidir que não está disponível para ir a jogo, essa decisão é independente de pressões externas e visa o que é melhor para ele. E eu, por minha vez, tenho de sentir que ele me está a dar toda a informação de que preciso para decidir bem. Quando um destes lados falha, o erro fica muito mais próximo. Depois, claro, entra a medicina. Há essencialmente dois grandes tipos de decisão: uma é a decisão de return to play, ou seja, perceber quando é que um atleta, depois de uma lesão, está realmente pronto para regressar; outra é a gestão das queixas e limitações que surgem no dia a dia competitivo. No nosso contexto, a decisão de regresso é sempre partilhada. Temos uma reunião semanal em que discutimos o estado de cada atleta em toda a sua dimensão e definimos os critérios que tem de cumprir para poder voltar à competição. Em determinados contextos competitivos, podemos decidir antecipar esse regresso ou flexibilizar alguns critérios, mas isso só acontece quando o risco é calculado e partilhado com a equipa técnica, com a administração e com o próprio atleta, sendo o atleta sempre o epicentro da decisão. Naturalmente, estamos a falar, na maioria das vezes, de lesões em que não está em causa risco de vida, mas sim o risco de agravamento ou de recidiva. Um protocolo de reabilitação bem estruturado é aquele em que não há pressa, mas também não se perde tempo. E esse equilíbrio nem sempre é fácil. O que é sucesso numa reabilitação? Pode ser conseguir que um atleta jogue uma final na semana seguinte, mesmo que a lesão previsse quatro semanas de paragem. Mas também pode ser reabilitá-lo de forma tão sólida que nunca mais tenha uma lesão naquela estrutura. Costumo dizer que, antes de medir o sucesso, temos de o definir, porque o sucesso pode significar coisas muito diferentes. Para se perceber a dimensão deste desafio, este ano já ultrapassámos os três mil tratamentos de fisioterapia numa equipa com cerca de 25 jogadores. Isto significa que tomamos decisões todos os dias. Os atletas têm queixas todos os dias e, muitas vezes, numa semana com cinco treinos, podem surgir cinco queixas diferentes. Nem sempre são decisões lineares. Temos hoje mais ferramentas para perceber até que ponto uma queixa compromete ou não a performance, mas continua a ser um processo muito assente na experiência e no conhecimento profundo que temos de cada atleta. Em tudo isto, a comunicação continua a ser a base. Se tivesse de eleger três medidas com melhor retorno na redução de lesões ao longo de uma época, quais seriam? E o que continua a ser subvalorizado no futebol profissional? Acho que é importante começar por dizer que, no alto rendimento, muitas vezes andamos à procura da exceção e esquecemo-nos da regra. E a regra, na verdade, continua a ser simples: as bases da saúde são também as bases da prevenção. Se tivesse de escolher três pilares com maior impacto, destacaria a alimentação, o sono e o treino. A alimentação tem de ser adequada e, neste contexto, isso significa necessariamente individualizada. Um atleta precisa de um acompanhamento ajustado à sua carga, à sua posição, ao seu momento competitivo e até à sua resposta fisiológica. O sono é outro pilar absolutamente central. Nos últimos anos, a recuperação tornou-se um dos grandes temas no alto rendimento. Hoje conseguimos medir quase tudo: carga, força, assimetrias, esforço, aceleração, desaceleração, fadiga. Temos GPS, plataformas de força e uma série de tecnologias que nos permitem quantificar de forma muito precisa o que o atleta faz. Onde continuamos a falhar mais é na capacidade de recuperar com rapidez suficiente para repetir, no dia seguinte, esforços da mesma magnitude. E aí o sono é determinante. O terceiro pilar é o treino. Não há atleta que consiga sustentar uma carreira longa, sobretudo num contexto cada vez mais exigente, sem uma base de treino muito sólida. E quando falo em treino, falo de preparação consistente, estruturada, ajustada ao contexto de cada atleta. O Cristiano Ronaldo é um excelente exemplo disso. Há muitos atletas que passam a carreira a sobreviver entre lesões e limitações, em vez de a viverem em pleno. E, na maioria dos casos, quando olhamos com atenção, percebemos que um destes três pilares, ou a combinação entre eles, foi negligenciada. Muitas vezes atribuímos à genética ou à sorte aquilo que, na realidade, é o resultado de hábitos e consistência. Ao longo de quase dez anos no alto rendimento, nunca vi o infortúnio superar, de forma consistente, uma base sólida de sono, alimentação e treino. E isto não vale só para atletas, vale para qualquer pessoa. O que mudou nos últimos anos nos critérios de decisão do return to play? Que erros continuam a ser mais frequentes e que consequências podem ter? Há aqui uma questão muito relevante, que é a densidade competitiva e o número de horas de treino e competição a que os atletas são expostos cada vez mais cedo. A pressão já não existe apenas no contexto sénior; está muito presente também na formação. E isso mudou bastante o enquadramento do return to play, porque hoje temos atletas mais informados, mais envolvidos e, muitas vezes, mais disponíveis para cumprir os pilares que referimos, mas nem sempre aquilo que lhes é exigido respeita a sua maturidade esquelética. Isto vê-se muito bem no futebol internacional. Há atletas que surgem como promessas enormes, com talento evidente, mas que acabam por nunca se afirmar verdadeiramente. E, muitas vezes, isso tem relação com a forma como foram geridos ao longo do tempo. Há uma ideia central em medicina desportiva: o principal fator de risco para uma nova lesão é ter tido uma lesão anterior. E, quando isso não é bem gerido, entra-se facilmente numa espécie de roda-viva, em que se tenta corrigir um erro com outro erro, e o atleta nunca volta realmente ao caminho certo. Se tivesse de identificar o erro mais importante no return to play, diria que é a falta de integração da decisão. Ou seja, quando a decisão não é construída com todos os elementos que têm influência direta no processo, aumenta muito a probabilidade de falhar. E se tivesse de condensar isso numa palavra, essa palavra seria comunicação. Porque não basta olhar para testes, métricas ou tempos previstos. É preciso integrar o que a equipa médica observa, o que a reabilitação mostra, o que o atleta sente, o contexto competitivo e a realidade funcional daquele corpo naquele momento. Quando essa comunicação falha, surgem as consequências que conhecemos: recidivas, queixas persistentes, perda de rendimento e, muitas vezes, cronificação de problemas que poderiam ter sido melhor resolvidos à partida. O que ainda falta mudar para que a concussão seja tratada com a seriedade necessária? A questão do traumatismo crânio-encefálico começou a ser muito debatida, sobretudo, a partir do futebol americano, quando se percebeu que impactos repetidos na cabeça, ao longo dos anos, podiam provocar alterações degenerativas cerebrais muito graves. Esse tema tornou-se especialmente visível porque vários atletas, sentindo que já não eram a mesma pessoa, chegaram a doar o cérebro à ciência para tentar perceber o que lhes estava a acontecer. Acabou por se demonstrar uma relação entre pequenos traumatismos repetidos e consequências neurológicas cumulativas a longo prazo. Esse alerta estendeu-se depois ao restante desporto. E a verdade é que ainda vivemos, infelizmente, numa cultura em que um atleta desorientado, a sangrar da cabeça e a recusar sair de campo pode continuar a ser visto como um herói, em vez de alguém que está potencialmente em risco. Ainda existe muito esta ideia do guerreiro, do aguentar, do não sair. É precisamente por isso que a sensibilização é tão importante. Temos de informar e educar não apenas os jogadores, mas também as equipas técnicas, os departamentos médicos, as equipas de arbitragem e até o público. Em Portugal, já existe atualmente a possibilidade de substituição extra por concussão no futebol, e isso é uma medida muito relevante. Não resolve tudo, mas ajuda. Porque, num contexto competitivo, especialmente num jogo de grande intensidade emocional e mediática, retirar um jogador de campo nunca é uma decisão fácil. Se for um atleta determinante nesse momento, a pressão para que continue vai existir. Por isso, é fundamental reconhecer os sinais de alarme que obrigam a parar imediatamente: desorientação, tonturas, vómitos, olhar perdido, alteração do comportamento ou incapacidade de responder adequadamente. Estes sinais devem fazer suspeitar de um traumatismo craniano potencialmente mais grave e justificar uma avaliação médica cuidadosa. Nem todos os traumatismos cranianos têm a mesma gravidade, mas o grande desafio é precisamente identificar aqueles que exigem observação pormenorizada e vigilância nas horas seguintes, algo que não é possível garantir de forma adequada no meio de um campo de futebol. Noutros contextos desportivos, como no futebol americano, existem já protocolos mais estruturados, com avaliação em ambiente controlado, fora do ruído e da pressão do jogo, e com decisão médica clara sobre o regresso ou não à competição. Se pudesse resumir o princípio mais importante, seria este, na dúvida, o atleta deve sair. Essa devia ser uma regra culturalmente aceite por todos. Porque, na concussão, errar por excesso de prudência é muito menos grave do que errar por pressão competitiva. Perante dor no ombro ou no cotovelo, que sinais de alarme justificam avaliação médica rápida? A Ortopedia e a Traumatologia têm uma particularidade importante, dentro de cada área existem sempre patologias traumáticas e não traumáticas. Mas, como é natural, aquilo que mais nos preocupa, enquanto médicos, é uma história de traumatismo recente, sobretudo quando está associada a deformidade, dor súbita intensa ou incapacidade funcional. Se, na sequência de uma queda, de um impacto direto, de um acidente ou de outro traumatismo relevante, surgir uma dor no ombro ou no cotovelo que a pessoa não consegue controlar, ou uma limitação clara, por exemplo, não conseguir elevar o braço, dobrar o cotovelo ou usar o membro como habitualmente, essa avaliação deve ser rápida. O mesmo se aplica quando há deformidade visível, perda súbita de força, bloqueio articular, instabilidade ou sintomas neurológicos como dormência e formigueiro. Depois, claro, há muitas situações não traumáticas cuja prioridade é variável e que exigem análise caso a caso. Mas há um ponto que considero importante sublinhar, tenho a sensação, na prática clínica, de que muitos doentes recorrem cada vez menos ao médico como primeiro profissional de saúde. Muitas vezes, chegam à consulta já depois de terem passado por dois ou três profissionais diferentes. Isto não é uma questão de menor ou maior valor entre profissionais. A questão é outra, o papel do médico é diagnosticar. É fazer uma história clínica, realizar um exame objetivo, interpretar exames complementares quando necessário e, a partir daí, identificar a patologia e orientar o tratamento mais adequado. E, por isso, o médico não devia ser uma ajuda de última linha. Vejo muitas vezes doentes que chegam à consulta ao fim de meses de tratamentos, sem um diagnóstico claro. E isso tem impacto real no prognóstico. Quando um problema é abordado tardiamente, podemos perder tempo precioso, atrasar decisões importantes e até comprometer opções terapêuticas. Por isso, mais do que esperar que a situação se prolongue, é importante perceber cedo quando há sinais que justificam avaliação médica diferenciada. Em que situações faz sentido começar por radiografia e ecografia, e quando é que a ressonância magnética muda realmente a decisão terapêutica? Como evita tratar achados de imagem sem correlação clínica? Acho que o mais importante é começar por clarificar o papel destes exames. Uma radiografia, uma ecografia ou uma ressonância magnética são exames complementares de diagnóstico. E isso significa precisamente isso: complementam. São uma parte do processo, não o processo inteiro. Costumo dizer muitas vezes em consulta que temos de tratar doentes, não imagens. E este é um problema cada vez mais atual. Hoje, com o acesso fácil à informação e com a ajuda da inteligência artificial, muitos doentes, e até atletas, tentam interpretar sozinhos os resultados dos exames. O problema é que esse caminho inverso, de partir da imagem para tentar explicar sintomas ou construir um diagnóstico, é má prática, mesmo quando feito por profissionais qualificados. Os exames devem ser pedidos quando a situação clínica o justifica e quando a resposta do exame pode realmente acrescentar alguma coisa à decisão. Em Ortopedia, isso é particularmente importante, porque uma grande parte dos achados imagiológicos pode não ter qualquer relação com os sintomas que o doente tem naquele momento. Para se ter uma ideia, a partir dos 55 anos estima-se que cerca de 90% das pessoas apresentem alterações na ressonância magnética dos tendões da coifa dos rotadores, e a grande maioria nunca terá sintomas relacionados com essas alterações. Por isso, há dois riscos, pedir exames sem critério e, depois, não saber o que fazer com aquilo que encontramos. A lição essencial é esta, nenhum exame substitui uma boa história clínica e uma avaliação cuidada. E, isoladamente, uma imagem não deve determinar o tratamento. Enquanto cirurgião, tenho muito cuidado com esta interpretação. Muitas vezes, numa cirurgia, não tratamos tudo o que aparece descrito numa ressonância. E isso pode acontecer porque nem tudo o que ali está é responsável pelos sintomas, porque tratar tudo seria excessivamente invasivo ou porque implicaria uma reabilitação desproporcionada face ao problema real do doente. O nosso desafio é precisamente esse, perceber, entre os vários achados da imagem, quais são os que fazem verdadeiramente sentido naquele contexto clínico. Em ombro e cotovelo, que problemas beneficiam mais de cirurgia minimamente invasiva e em que situações a degeneração articular torna a prótese a opção mais razoável? Que resultados e limitações deve o doente conhecer antes de decidir? O princípio central de qualquer área cirúrgica deve ser sempre o mesmo, ser o mais eficaz possível, da forma menos invasiva possível. Esse é o objetivo. Infelizmente, ainda nem sempre o conseguimos cumprir em todos os contextos. As artroplastias, ou seja, as próteses, ficam normalmente reservadas para situações mais avançadas de degeneração articular, em que já não temos uma solução que permita preservar a articulação de forma eficaz. E isso é, de certa forma, uma limitação da ortopedia moderna, quando colocamos uma prótese, estamos a assumir que já não conseguimos resolver aquele problema de outra maneira que não seja substituir a articulação. É por isso que procuramos, sempre que possível, técnicas e abordagens que ofereçam alternativas menos radicais. Não porque as próteses não tenham bons resultados, muitas vezes têm-nos, mas porque representam, em regra, um caminho sem retorno. E essa é uma decisão que deve ser ponderada com muita seriedade. A cirurgia minimamente invasiva está, em geral, mais indicada em patologias menos avançadas e em doentes mais jovens, em que ainda há margem para intervir preservando estruturas e encurtando, muitas vezes, a agressão cirúrgica. As próteses tendem a fazer mais sentido em doentes mais velhos ou em situações de desgaste articular mais marcado, em que outras soluções deixaram de ser razoáveis. Mas esta nunca é uma decisão automática. Tem sempre de ser feita caso a caso, com base no problema concreto, na idade biológica e funcional do doente, nas suas expectativas e no impacto real da doença na dor e na função. A regra deve ser sempre esta: se conseguirmos resolver de forma menos agressiva e menos invasiva, é esse o caminho que devemos seguir. Onde ainda não conseguimos, esperamos que a evolução da técnica e do conhecimento nos permita vir a fazer melhor no futuro. Em 2026, onde está a evidência para infiltrações ecoguiadas, PRP e outros ortobiológicos na patologia do ombro e do cotovelo? Em relação aos tratamentos ortobiológicos, aquilo que sabemos hoje é que representam mais uma ferramenta ao nosso dispor. No fundo, o que se procura é usar substratos do próprio doente, manipulados de alguma forma, para potenciar processos biológicos que possam favorecer a recuperação. Têm indicação em várias patologias, mas a evidência científica continua, em muitos casos, pouco clara ou heterogénea. E isso não acontece necessariamente por falta de resultados promissores, mas também porque é muito difícil uniformizar estudos quando estamos a falar de produtos biológicos do próprio doente. Não é o mesmo que estudar um medicamento com formulação fixa, dose controlada e composição padronizada. Aqui há uma enorme variabilidade, e isso complica a leitura científica. Ainda assim, não tenho dúvidas de que esta é uma área com futuro, tanto na medicina desportiva como na ortopedia, sobretudo em contextos bem selecionados e, provavelmente, com maior utilidade em doentes mais jovens. Mas é essencial comunicar com clareza que não estamos a falar de tratamentos milagrosos. Penso que ainda falhamos um pouco nessa comunicação. Na minha prática, vejo estes tratamentos como uma ajuda dentro de um processo terapêutico estruturado, e não como solução isolada. Costumo usar uma imagem simples: se tivesse todos os meus tratamentos em cima da mesa e fosse um treinador de futebol a escolher a equipa, o PRP e outros fatores de crescimento seriam um jogador convocado, útil, capaz de acrescentar, mas que começaria no banco. Ou seja, podem ter lugar, mas não são o centro do tratamento. O mais importante é selecionar bem os doentes, definir expectativas realistas e evitar a tentação de transformar esperança em promessa. Quando indicados, podem fazer sentido. Mas devem ser usados com critério, integrados num plano mais amplo e sempre com honestidade sobre aquilo que sabemos e sobre aquilo que ainda não sabemos. 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