Psicologia “Amamos, muitas vezes, a partir daquilo que nunca chegámos a curar” By Revista Spot | Abril 8, 2026 Abril 8, 2026 Share Tweet Share Pin Email Fala-se cada vez mais de amor, de vínculos, de parentalidade e de saúde emocional. Mas falar mais não significa, necessariamente, compreender melhor. Por trás de muitos conflitos no casal, de silêncios familiares difíceis de quebrar, de ruturas que parecem súbitas ou de dores que se arrastam no tempo, existem quase sempre histórias emocionais antigas, crenças herdadas e formas de vinculação que continuam a influenciar a vida adulta. Num presente marcado pela aceleração, pela exposição e por expectativas afetivas muitas vezes irrealistas, Ana Isabel Teixeira propõe um olhar mais profundo e menos simplista sobre o que está verdadeiramente em jogo nas relações. Psicóloga Clínica e da Saúde, acompanha jovens adultos, adultos e casais em temas como a intimidade, o luto, a parentalidade, a violência psicológica e o sofrimento relacional. Nesta entrevista, desafia-nos a pensar o amor para lá da idealização, com mais consciência, mais responsabilidade emocional e mais verdade. No centro do seu trabalho estão os vínculos amorosos, familiares e parentais. O que é que a prática clínica lhe tem mostrado sobre a forma como nos ligamos aos outros e sobre aquilo que essas ligações revelam da nossa própria história emocional? Desde cedo, o ser humano procura conexão, proximidade e segurança, pois é nas relações que também nos construímos. Os vínculos podem ser um palco privilegiado de bem-estar emocional, mas também podem tornar-se fonte de sofrimento, especialmente quando não existe espaço para acolher necessidades e expressar emoções de forma segura. As teorias da vinculação dizem-nos claramente que os primeiros capítulos da nossa vida, em particular, a forma como os cuidadores estiveram (ou não) disponíveis, sensíveis e consistentes face às nossas necessidades emocionais, moldam a nossa capacidade de confiar na vida adulta. São modelos precocemente construídos, representações internas sobre nós próprios, sobre os outros e sobre as relações, que “guiam” muitas vezes a forma como sentimos, pensamos e comportamos nos vínculos ao longo da vida. Por isso, na clínica, os vínculos do presente contam histórias. Algumas pessoas encontram dificuldade em confiar ou em pedir ajuda; outras sentem-se mais seguras mantendo uma certa dose de distância ou antecipando, à partida, a rejeição, estando com um “pé dentro” e outro fora nas relações. Estes padrões não surgem por acaso; refletem aprendizagens precoces sobre o que é seguro esperar do outro e sobre o lugar que cada um acredita merecer na relação. Compreender estas dinâmicas implica ir além da leitura de uma relação específica. É, em grande medida, aceder à história emocional da pessoa, identificando padrões, mas também recursos e possibilidades de transformação. Ao trazer esta consciência, torna-se possível apoiar a pessoa a estabelecer vínculos mais seguros, autênticos e satisfatórios, promovendo relações onde a intimidade, a confiança e a expressão autêntica de necessidades possam florescer. Nenhuma relação começa verdadeiramente do zero. Até que ponto os modelos afetivos e familiares que trazemos da infância continuam a influenciar a forma como amamos, discutimos, escolhemos, recuamos ou permanecemos numa relação? Nenhuma relação começa verdadeiramente do zero porque todos trazemos uma bagagem relacional. A família é o primeiro palco onde recebemos os nossos “roteiros” de afeto e onde ensaiamos, pela primeira vez, a procura de segurança, conforto e validação. Quando as figuras parentais são consistentes, disponíveis e emocionalmente responsivas, a criança tende a desenvolver uma base interna de segurança, que mais tarde se traduz numa maior capacidade de confiar, de se aproximar e de se sentir merecedora de cuidado. Por outro lado, experiências marcadas por inconsistência, indisponibilidade emocional ou negligência, podem dar origem a formas de vinculação mais inseguras, onde a relação com o outro é vivida com maior ambivalência. A partir destas experiências, constroem-se as tais “grelhas de leitura”, sobre o que é o amor e sobre a forma como acreditamos que podemos (ou não) ser amados. Estas grelhas não são necessariamente conscientes, mas influenciam profundamente a forma como escolhemos as nossas relações. Tal ajuda-nos a compreender porque é que certos padrões tendem a repetir-se. Assim, não se trata propriamente de azar ou ter o “dedo podre”, o que acontece é uma atração por dinâmicas que, de alguma forma, já conhecemos e que ressoam com a nossa história emocional. A ideia de que “os opostos se atraem” é, assim, falaciosa; atraímo-nos por aquilo que é familiar, ainda que paradoxalmente não seja o mais saudável. Contudo, não encaremos como uma condenação; quando estes padrões são compreendidos, abre-se espaço para escolhas mais conscientes e para formas de amar mais livres e seguras. Muitas vezes, aquilo que se vive a dois não diz respeito apenas ao presente, mas também a crenças herdadas. Sente que continuamos a amar, muitas vezes, a partir de modelos antigos que nunca chegámos verdadeiramente a questionar? As mudanças sociais que vivemos nas últimas décadas colocaram o amor, o respeito e o prazer como ingredientes essenciais para o bem-estar relacional. A união conjugal já não se sustenta apenas como um contrato social; exige mais presença, intimidade, compromisso e negociação. Nesse sentido, estamos, de facto, cada vez mais longe das convenções rígidas do passado. No entanto, ainda é necessário desconstruir algumas crenças e expectativas herdadas, especialmente em relação a papéis de género. Em relacionamentos heterossexuais, por exemplo, continuam a existir desequilíbrios significativos na distribuição das tarefas domésticas e de cuidado. Muitas mulheres continuam a acumular longas jornadas de trabalho remunerado e, simultaneamente, a maior parte das responsabilidades domésticas. Curiosamente, ainda ouço em consulta jovens mulheres dizerem “tenho sorte, ele ajuda-me…”. É uma frase que dá que pensar. Costumo, em tom de brincadeira, devolver: “parabéns, conquistou o nível de adulto funcional”, mas esta leveza no tom acaba por expor uma realidade em que estas desigualdades continuam a moldar as relações. Por outro lado, muitos homens continuam a revelar dificuldade em expressar emoções e em mostrar vulnerabilidade no contexto da relação, o que limita a construção de uma intimidade mais profunda. E não podemos esquecer que a capacidade de nos expormos, de partilhar medos e fragilidades é fundamental para o desenvolvimento de relações equilibradas. Para além disto, muitas destas crenças continuam a ser reforçadas por narrativas culturais que romantizam o sofrimento ou a ideia de que o amor implica sacrifício constante. Este questionamento nem sempre é simples; implica, muitas vezes, rever não só a relação, mas também a forma como cada um se percebe a si próprio dentro dela. Ainda assim, é precisamente esse movimento de consciência que permite construir relações mais equilibradas e emocionalmente mais seguras. Num tempo em que se fala muito de comunicação no casal, por vezes esquece-se que a intimidade também se faz sentir no desejo, no corpo, no afastamento e no silêncio. O que é que as dificuldades sexuais costumam revelar sobre a relação, para lá da sexualidade em si? As dificuldades sexuais são, muitas vezes, uma linguagem da própria relação. A ausência de uma comunicação mais aberta e transparente, onde cada um se sinta seguro para expressar o que precisa, deseja e sente, acaba por se refletir também no plano sexual. A sexualidade convoca-nos, inevitavelmente, para um lugar de entrega, e isso só é possível quando existe um sentimento de segurança emocional e de validação dentro da relação. Quando essa base não está suficientemente construída, o corpo tende a acompanhar essa dificuldade: pode existir retraimento, evitamento ou quebra do desejo. E é importante lembrar que o principal órgão sexual é, de facto, o cérebro. Tudo o que se passa ao nível emocional, influencia diretamente a disponibilidade interna para o encontro íntimo. Por isso, mais do que olhar para a sexualidade de forma isolada, é fundamental compreender a história do casal, a sua trajetória e a forma como tem vindo a construir a intimidade ao longo do tempo. A terapia de casal é muitas vezes procurada quando o sofrimento já se instalou. Em consulta, sente que os casais chegam tarde, já presos ao conflito visível, quando o que está em causa vem de padrões emocionais mais antigos, silenciosos e repetidos? Em alguns casos, os casais chegam já com um emaranhado de mágoas acumuladas, muitas delas nunca verdadeiramente abordadas, como se tivessem sido sucessivamente colocadas debaixo do “tapete relacional”. São relações onde o conflito, de forma paradoxal, acaba por se tornar o principal organizador da dinâmica; discute-se muito, mas raramente se resolve em profundidade. Neste contexto, é frequente encontrarmos aquilo que John Gottman designou como os “quatro cavaleiros do apocalipse”: a crítica, o desprezo, a atitude defensiva e o evitamento. Estes padrões de comportamento, quando se tornam predominantes, destroem significativamente a relação. Também é importante desmistificar algumas ideias em torno da terapia de casal. Alguns casais chegam com a expectativa de que a terapia pode salvar a relação, como se fosse uma instância externa que vai corrigir automaticamente aquilo que não está a funcionar. Quando essa é a expectativa, partimos de um lugar de alguma desresponsabilização. A terapia de casal não é um tribunal que identifica culpados nem dita sentenças; é um espaço de co-construção, onde ambos os elementos são convidados a olhar para os padrões que criaram em conjunto e a assumir responsabilidade pela dinâmica relacional. O terapeuta de casal surge como um aliado, alguém que ajuda a traduzir queixas em necessidades, a mediar a comunicação e a criar condições para um encontro mais claro, seguro e construtivo entre ambos. Também é verdade que, felizmente, começo a observar uma mudança. Cada vez mais os casais procuram acompanhamento numa lógica preventiva. Reconhecem sinais precoces de desgaste ou padrões disfuncionais e procuram, de forma consciente, investir na relação. Há fases da vida que obrigam a relação a reorganizar-se quase por completo: a chegada de um filho, uma infertilidade, uma doença, uma separação, uma mudança de papéis dentro da família. Porque é que tantas relações entram em crise precisamente nas transições? As transições são, por natureza, momentos de grande exigência para qualquer relação, porque desafiam diretamente o equilíbrio daquele sistema. Mesmo quando são mudanças desejadas, como por exemplo, a parentalidade, implicam adaptação, reorganização e, muitas vezes, alguma perda do que era conhecido. E sabemos que, do ponto de vista psicológico, o ser humano tende a resistir à mudança, precisamente porque ela introduz uma certa dose de incerteza. Os recursos da relação são, assim, colocados à prova. Se já existiam fragilidades prévias, estas tendem a tornar-se mais visíveis. Particularmente na transição para a parentalidade, há uma transformação inevitável da identidade do casal: deixam de ser apenas parceiros para integrar também o papel de pais. Nos primeiros tempos, é expectável que a atenção esteja muito centrada no bebé; mas se esta fase se prolonga no tempo sem que o casal consiga, progressivamente, reencontrar espaço para cuidar da sua relação, tal pode levar ao afastamento. Outro aspeto relevante prende-se com as diferenças na forma como cada elemento do casal lida com a transição. Perante a mesma situação, uma pessoa pode procurar maior proximidade e partilha, enquanto a outra pode precisar de mais tempo ou espaço para processar. Estas diferenças, quando não são compreendidas, podem ser interpretadas como deslealdade ou ausência de apoio, o que facilmente gera conflito e sentimentos de solidão dentro da própria relação. No fundo, as transições não criam inevitavelmente a crise; elas tendem a expor e amplificar dinâmicas já existentes, enquanto exigem uma capacidade de adaptação que nem sempre está disponível naquele momento. A maternidade e a parentalidade continuam cercadas por idealizações, exigências e silêncios difíceis de sustentar. O que é que a psicologia nos ajuda a perceber sobre o impacto emocional destas fases na mulher, no casal e na identidade de cada um? Diria que hoje ser pai ou mãe tornou-se, em muitos aspetos, mais difícil. Existe uma enorme quantidade de informação disponível, de dicas, estratégias, modelos educativos, muitas vezes contraditórios, que, em vez de orientarem, podem acabar por aprisionar os pais numa tentativa constante de fazer “tudo certo”. Aos tradicionais palpites familiares junta-se agora a pressão das redes sociais, onde circulam ideais de parentalidade altamente exigentes e, por vezes, muito pouco realistas. Tenho observado isso de forma muito clara; chegam cada vez mais ao consultório pais e mães a sentirem-se em permanente insuficiência, culpa e dúvida. Existe uma dificuldade crescente em confiar nas próprias competências parentais, como se fosse necessário validar externamente quase todas as decisões. Este cenário acaba por fragilizar a experiência da parentalidade, transformando-a, por vezes, num território de ansiedade, em vez de um espaço de construção relacional. Cada bebé é único, cada relação constrói-se de forma singular, e há sempre uma dimensão do desconhecido que precisa de ser vivida. Os novos pais precisam de espaço para experimentar e construir os seus próprios ritmos, sem a pressão constante de corresponder a um modelo ideal. Particularmente na mulher, o impacto emocional pode ser ainda mais intenso. A maternidade implica transformações profundas, reconfiguração do seu sentido de si, da relação com o corpo, com o trabalho e com as suas relações. A isto soma-se, frequentemente, uma pressão social para viver esta fase de forma plena e feliz, o que pode dificultar a expressão de emoções mais difíceis. Neste sentido, gosto de recuperar a ideia de uma parentalidade “suficientemente boa”, em vez de perfeita. Este conceito permite introduzir margem para o erro, para a reparação e para a humanidade dos pais, aspetos fundamentais para o desenvolvimento saudável da criança e para o bem-estar familiar. Quando falamos de perda gestacional ou de luto perinatal, continuamos a entrar num território onde há muita dor, mas ainda pouco espaço social para a nomear. Porque é que este tipo de perda continua tantas vezes a ser vivido em silêncio, até dentro da própria família? A perda gestacional continua a ocupar um lugar ambíguo na nossa sociedade; não pela ausência de significado ou impacto, mas pela dificuldade coletiva em reconhecer e legitimar esta dor. Falamos de uma perda que, muitas vezes, não chega a ser socialmente “inscrita”, não há rituais claros, não há um espaço reconhecido para velar, despedir ou simbolizar essa relação que existia, ainda que de forma precoce. E quando não há espaço para nomear, também não há espaço para partilhar. Como consequência, estas experiências são frequentemente vividas em silêncio, com um profundo sentimento de solidão e incompreensão, até dentro da própria família. Muitas vezes, as pessoas à volta não sabem como abordar o tema e, na tentativa de aliviar a dor, acabam por recorrer a discursos que, embora bem-intencionados, podem ser invalidantes. Frases como “ainda são novos, podem tentar novamente” acabam por minimizar o sofrimento e a singularidade daquela perda. Por outro lado, é também muito frequente emergirem sentimentos de culpa, sobretudo na mulher. A ideia de que “poderia ter feito algo diferente” ou “deveria ter prevenido” surge muitas vezes associada ao peso simbólico e cultural que ainda é atribuído à maternidade, como se o corpo feminino fosse responsável por garantir, a todo o custo, o desfecho da gravidez. Esta responsabilização amplifica o sofrimento e contribui para que o luto seja vivido de forma ainda mais isolada. No fundo, o silêncio que envolve estas perdas não resulta da ausência de dor, mas da dificuldade social em acolhê-la. E é precisamente por isso que se torna tão importante criar espaço para reconhecer este luto como legítimo, dando-lhe voz, tempo e lugar. O luto, em sentido mais amplo, não abala apenas quem perde, mexe com o casal, com os filhos, com a estrutura familiar e com o lugar de cada um. O que é que costuma ficar mais exposto nas relações quando uma perda entra em casa? O luto raramente é uma experiência apenas individual. O impacto é sistémico, pois vai convocar uma reorganização das dinâmicas relacionais e os papéis dentro da família, quem sempre cuidou, organizou, resolveu… Quando uma perda entra em casa, aquilo que muitas vezes fica exposto são os padrões de funcionamento que já existiam, mas que, em contexto de maior exigência emocional, se tornam mais visíveis. É comum vermos diferenças nas formas de lidar com a dor, enquanto um elemento pode precisar de falar e recordar mais, o outro pode preferir o silêncio. Estas diferenças, se não forem compreendidas, podem gerar tensões, onde os elementos da família podem sentir-se sozinhos, precisamente num momento em que a proximidade e a validação seriam mais necessárias. Já com os mais pequenos, é frequente existir uma tendência dos adultos para tentar proteger os filhos, escondendo ou suavizando a realidade da perda. Embora essa intenção seja compreensível, a verdade é que tende a deixar as crianças e jovens mais confusos, pois tentar dar sentido ao que sentem sem informação clara pode aumentar sentimentos de insegurança. Diria que o luto amplifica o que já existe: torna mais visível a forma como lidamos com as emoções e como nos vinculamos. Pode trazer fragilidade, mas também a possibilidade de crescimento, sobretudo quando há espaço para que a dor seja acompanhada, vivida e pensada em conjunto. Hoje fala-se mais de violência psicológica, manipulação, dependência emocional, controlo e relações marcadas pelo medo. Sente que estamos, de facto, mais conscientes destes padrões ou continuamos a normalizar sinais graves quando não existe violência física visível? Acredito que estamos mais conscientes destes fenómenos do que há alguns anos. Existe hoje um maior espaço de discussão, nas redes sociais, nos contextos educativos e em várias organizações, que tem contribuído para dar nome a experiências que antes eram difíceis de identificar. No entanto, esta maior visibilidade não significa necessariamente uma mudança proporcional nos comportamentos. Quando olhamos para alguns dados, especialmente na área da violência no namoro, percebemos que continuam a existir crenças preocupantes, sobretudo entre os mais jovens. Estudos em contexto europeu e nacional mostram que uma percentagem significativa de jovens ainda considera aceitáveis comportamentos de controlo, como pedir acesso a redes sociais, exigir saber onde o/a parceiro/a está ou interpretar o ciúme como prova de amor. A violência psicológica, em particular, permanece mais invisível e, por isso, mais facilmente negligenciada. Ao contrário da violência física, não deixa marcas visíveis, o que dificulta o reconhecimento, tanto por quem está na relação como por quem observa de fora. Além disso, estes comportamentos surgem muitas vezes revestidos de uma ideia de amor romântico: o controlo pode ser confundido com cuidado, a dependência com intensidade emocional, e o ciúme com envolvimento afetivo. Esta confusão é perigosa, pois legitima dinâmicas que, na realidade, são profundamente desorganizadoras e potencialmente traumáticas. E é aqui que entra uma dimensão fundamental, a responsabilidade coletiva. Não é apenas um trabalho individual ou clínico. É um trabalho social, educativo e cultural, que passa por questionar narrativas, promover literacia emocional e relacional, e criar contextos onde seja possível reconhecer e interromper fenómenos violentos. Num tempo em que as relações estão cada vez mais expostas, pressionadas e atravessadas por expectativas externas, o que é que gostaria que compreendêssemos melhor sobre amor, vínculo e saúde relacional antes de chegarmos ao limite do sofrimento? Talvez uma das ideias mais importantes seja a de que o amor não tem uma forma única. Pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes, pode expressar-se através de linguagens distintas, mas há um elemento que deve ser comum e inegociável: o respeito. É esse que sustenta a segurança emocional e que delimita o que é, e o que não é, uma relação saudável. Importa também reconhecer que relações saudáveis não são isentas de tensão, frustração ou desencontro. Estar em relação implica, inevitavelmente, confrontarmo-nos com as nossas próprias limitações. Por isso, há autores que dizem que “o amor é sempre um pouco descontente”. Isto porque o outro nunca vai corresponder plenamente às nossas necessidades ou confirmar todas as nossas partes. Quando alguém encaixa demasiado bem numa imagem idealizada, talvez não estejamos perante um verdadeiro encontro, mas sim com uma projeção nossa. E o amor não se constrói a partir de espelhos, mas da capacidade de reconhecer e integrar a diferença. No entanto, é fundamental não confundir esta inevitável imperfeição com dinâmicas de sofrimento persistente, coerção ou violência. Há uma diferença clara entre frustração relacional, que pode ser trabalhada e integrada, e relações que fragilizam de forma continua a integridade emocional de quem nelas está. Site profissional: www.anateixeirapsi.com Instagram: @psi.anateixeira Nota curricular: Ana Isabel Teixeira é mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. É membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (CP 23550), exercendo a sua prática profissional em clínica privada ao nível da avaliação e intervenção em consulta psicológica com jovens adultos, adultos e casais. Colabora com o Serviço de Consulta Psicológica da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Detém a especialização avançada em terapia de casal pelo Instituto Português de Psicologia e Outras Ciências, e a especialização avançada em psicopatologia do adulto ao idoso pelo Instituto CRIAP. Formadora certificada pelo IEFP, dinamiza ações de formação em diferentes temáticas da Psicologia, com foco particular no Luto e Depressão. Faz parte do programa “O Ponto da Mente” na rádio TSF, um espaço dedicado à saúde mental. Ao longo do seu percurso profissional tem sido também autora de diversas publicações, científicas e não científicas. “Ser Cirurgião Pediátrico é operar sem nunca perder de vista o adulto que ali começa a formar-se” “O sofrimento psíquico não se encaixa em respostas automáticas nem desaparece com frases feitas”
Psicologia “Não estamos perante uma geração mais frágil, mas uma geração exposta a exigências cada vez maiores” Acordamos com o telemóvel. Trabalhamos com notificações. Descansamos a percorrer vidas alheias. Entre a pressão para produzir, a dificuldade em…
Psicologia “A dependência pode esconder-se em comportamentos tão comuns como jogar, fazer compras online, comer compulsivamente ou passar horas nas redes sociais” Beber para desligar. Apostar para sentir adrenalina. Comer para acalmar a ansiedade. Comprar para preencher um vazio. Passar horas a…
Psicologia “Muitas vezes, a ansiedade é uma mensagem urgente sobre a forma como estamos a viver” E se a ansiedade não fosse apenas uma doença, mas uma mensagem urgente sobre a forma como estamos a viver?…