SAÚDE DA MULHER/Saúde Infantil “A amamentação é saúde pública, não é capricho individual” By Revista Spot | Agosto 4, 2025 Agosto 6, 2025 Share Tweet Share Pin Email “Amamentar não é um luxo. É um ato revolucionário num mundo que exige pressa e produtividade. É política de saúde, é justiça social, é amor em estado líquido. Cada gota de leite materno carrega anticorpos, mas também resistência, à medicalização precoce, à separação mãe-bebé, à cultura que silencia corpos e ciclos. Amamentar é oferecer imunidade num mundo doente, é proteger com o próprio corpo quando o sistema falha”. Quem o diz é Luciana Cruz Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica, Conselheira em Aleitamento Materno. “Não é capricho, é contributo invisível ao bem-estar coletivo. E, no entanto, ainda pedimos licença. Ainda justificamos, provamos, suplicamos. Como se alimentar um filho fosse um privilégio a merecer carimbo. Não é a mãe que deve adaptar-se ao sistema, é o sistema que precisa de parar, escutar, e sustentar quem sustenta. O peito não é apenas alimento: é regulação emocional, vínculo, sono, consolo, cura. É tudo. Amamentar é humano. E o que é humano deve ser protegido”, sublinha. Luciana, como enfermeira-chefe em obstetrícia e neonatologia, quais são os maiores desafios que as mães enfrentam atualmente para iniciar e manter a amamentação? É importante começar por relembrar que a nossa Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda a amamentação em exclusivo até aos seis meses, e daí em complementaridade com outros alimentos até aos dois anos de vida ou mais! Este “ou mais” significa que a amamentação pode estender-se até quando a família quiser, enquanto mãe e bebé assim o desejarem, sem limites fixos. A decisão é da mãe e do bebé, com base na sua relação, contexto e bem-estar. No entanto, nos últimos dias, o que se discute no governo é o encurtamento dos direitos associados à amamentação, não esquecendo que a licença de maternidade atualmente também não permite que a mãe se dedique a 100% a isto sem perda remuneratória. Fala-se em limitar a dispensa para amamentação até aos dois anos, em obrigar a mãe a apresentar atestado médico desde o início a renová-lo de seis em seis meses, a avisar com dez dias de antecedência. Fala-se de muito, mas ouve-se e compreende-se pouco. Isto tudo porque quem amamenta sabe que não estamos apenas a falar em leite. Estamos a falar em adaptar-nos ao nosso filho, ao sono interrompido, ao desconforto físico decorrente da recuperação pós-parto, aquele cansaço intenso em que, ainda assim, com todo o amor e dedicação, a mama se oferece. Amamentação além do primeiro ano continua a ser nutritiva. Fortalece o sistema imunitário, apoia o vínculo emocional. Conforta, acalma… Porque amamentar um bebé, vai muito além de nutri-lo! É um momento importantíssimo para a mãe e o bebé, no que concerne à sua vinculação, conexão, proteção e AMOR. É saúde pública, não é capricho individual. As taxas de amamentação em Portugal, comparativamente com outros países, têm sido bastante positivas, apesar de todas estas questões, mas quer agora escrever na lei: “até aqui, pode amamentar, depois disso não faz mais sentido”. Aqui a questão é, não faz sentido para quem? Se há coisa que a mãe não precisa é de mais burocracia, de mais justificações, de mais um papel a provar aquilo que é óbvio: que está a alimentar o seu bebé. Isto é um dos principais problemas! Faz com que as mulheres fiquem receosas, ansiosas, e que se coloquem em questão. Que se sintam culpadas, que duvidem da presença de leite, que duvidem que sejam capazes de fazer aquilo que lhes é inato: alimentar os seus filhos, ajudarem-nos a crescer da melhor forma possível. Não precisamos de uma lei que faça sentir as mulheres como se estivessem a suplicar por um favor. Amamentar é exigente, mas é bonito e devia ser protegido! Com tempo, descanso e políticas públicas que estivessem à altura. Não importa só apelar à natalidade e querer que a mesma cresça. Mais do que isso, importa não esquecer que não há futuro sem quem amamenta. Além disso, é muito importante o apoio do qual as mulheres dispõem. Um apoio adequado, especializado, intenso. Tudo começa pelo apoio na gravidez, onde o casal em conjunto deve ser dotado de informações acerca desta temática. Conhecer o estado da arte relativamente ao assunto, saber identificar o que é normal e reconhecer os desvios que podem existir à normalidade. Uma informação sólida nesta fase, a realização de exercícios práticos com a Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica e Conselheira em Aleitamento Materno, o contacto com a amamentação o mais precocemente possível, é fundamental. Os cursos de preparação para o parto e parentalidade facilitam este processo/este caminho de aprendizagem, mas, mais importante ainda, é a realização do acompanhamento pela Conselheira em Aleitamento Materno a iniciar na gravidez. Aqui, conseguimos empoderar a mulher por completo. Esta, fica a conhecer o seu corpo como ninguém, aprende a manipular a mama para qualquer circunstância: fica mais segura de si própria, diminui a ocorrência de complicações associadas à amamentação e, se estas ameaçarem aparecer, a mulher intervém de forma tranquila, confiante! Quando há um trabalho desenvolvido e um bom investimento desde a gravidez, a transição para a amamentação real em si, é mais simples e mais natural. E isto não se aplica apenas a mamãs de primeira viagem, aplica-se a todas as mulheres, por dois motivos principais: diferença drástica entre as diversas viagens no mundo da maternidade; e também a influência que experiências anteriores que tenham sido menos positivas podem ter, ou até mesmo experiências negativas de terceiros vivenciadas pela própria grávida, ou partilhadas com a mesma. Isto é muito comum, na gravidez tendem a ir ter com as mulheres as partilhas das experiências negativas. O envolvimento da própria família neste processo e o auxílio na desmistificação e atualização de práticas por alguém especializado e externo à família é também muito importante, e facilita uma prestação de apoio aos recém papás mais tranquila, isenta de constrangimentos e conflitos potenciados pelas diferenças de opinião. Este trabalho tem trazido resultados muito positivos. Quais são os maiores desafios que observa? Enquanto Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica e Conselheira em Aleitamento Materno, constato diariamente que os maiores desafios que as mães enfrentam para iniciar e manter a amamentação vão muito além do aspeto técnico. São obstáculos de natureza multifatorial, físicos, emocionais e sociais, que interferem de forma significativa neste processo tão natural quanto exigente. Um dos principais entraves é a existência de expectativas irreais. Muitas mulheres chegam à maternidade com a ideia de que amamentar deveria ser algo fácil e instintivo. Quando surgem dificuldades como dor, ingurgitamento mamário ou problemas na pega, sentem-se frustradas, desiludidas ou até culpadas. A falta de uma preparação realista e baseada em informação fidedigna contribui, muitas vezes, para o aumento dessa insegurança. A fadiga extrema e o período de recuperação pós-parto são também grandes desafios. As alterações hormonais, o cansaço físico e emocional, e o impacto do parto, que por vezes pode ter sido difícil ou traumático, comprometem a disponibilidade necessária para estabelecer a amamentação nos primeiros dias, que são determinantes para o seu sucesso. Outro obstáculo frequente é a informação contraditória a que muitas mães são expostas. Infelizmente, ainda se verifica a existência de conselhos desatualizados ou incoerentes, inclusive entre profissionais de saúde. Esta falta de uniformidade na orientação pode confundir, desmotivar ou até levar à interrupção precoce da amamentação. Acresce a pressão social e laboral. A expectativa de que a mulher “dê conta de tudo”, retome rapidamente a sua atividade profissional ou corresponda às exigências externas, da família, das redes sociais, da comparação com outras mães, interfere no ritmo natural da amamentação e fragiliza o vínculo mãe-bebé. A falta de apoio continuado após a alta hospitalar é igualmente um fator preocupante. Muitas mães regressam a casa ainda cheias de dúvidas e inseguranças, sem acompanhamento especializado. É nesse momento que surgem grande parte das dificuldades: mamilos doridos, receios quanto à produção de leite, ansiedade em relação ao ganho de peso do bebé, entre outras. É por isso que acredito profundamente na importância do autoconhecimento e do empoderamento da mulher e do casal. Quando a mãe se sente informada, escutada e apoiada, tudo se torna mais pleno, mais seguro e mais harmonioso. Quais são os benefícios comprovados da amamentação para a saúde da mãe e do bebé, tanto a curto como a longo prazo? A amamentação oferece inúmeros benefícios comprovados para a saúde da mãe e do bebé, tanto a curto como a longo prazo. Para o bebé, o leite materno fornece todos os nutrientes essenciais ao seu crescimento e desenvolvimento adequado, além de conter anticorpos fundamentais que ajudam a fortalecer o sistema imunitário e a protegê-lo de infeções. Durante o período de aleitamento materno exclusivo, não é necessário oferecer água ao bebé, pois o leite materno satisfaz todas as suas necessidades nutricionais e de hidratação. Entre as suas vantagens, destaca-se a capacidade de reforçar e moldar o sistema imunitário do bebé, garantir segurança bacteriológica, facilitar a digestão, prevenir a icterícia neonatal e promover o desenvolvimento cognitivo e da linguagem. O aleitamento materno também contribui para um vínculo afetivo mais forte entre mãe e filho, protege contra alergias e asma na infância, reduz o risco de obesidade e diabetes na infância e adolescência, e está associado a uma menor incidência da Síndrome da Morte Súbita do Lactente. O leite materno é um alimento vivo e dinâmico, que se adapta constantemente às necessidades específicas do bebé em cada fase. Para a mãe, os benefícios são igualmente relevantes. A amamentação fortalece o vínculo com o bebé, promove a involução uterina, ajudando o útero a regressar ao seu tamanho natural, e facilita a recuperação no pós-parto. Tem ainda um papel importante na prevenção da hemorragia pós-parto e da anemia, e oferece um efeito protetor contra a depressão pós-parto. A longo prazo, está associada a uma menor probabilidade de desenvolver osteoporose, cancro da mama e dos ovários, bem como doenças cardiovasculares. Assim, a amamentação revela-se não só um gesto de amor e cuidado, mas também uma poderosa aliada da saúde materno-infantil. De que forma o apoio profissional influencia o sucesso da amamentação? Um conselheiro em aleitamento materno que seja também enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica (parteiro/a) é sempre uma mais-valia. No entanto, estes profissionais permitem ao casal desde a gravidez, contactar com os mais diversos assuntos, ficar dotados da informação mais correta e mais segura, de forma a que a transição para o mundo da maternidade com tudo que lhe está inerente seja mais positivo, mais simples! A mulher conhece e domina o seu corpo, sente-se segura e é tudo o que necessita para que a amamentação seja bem-sucedida! Quando o acompanhamento específico para a amamentação e mesmo para a Parentalidade não se inicia, por algum motivo, na gravidez; e esse motivo pode ser apenas por o casal não ter achado pertinente obtê-lo nessa fase, o que muitas vezes acontece em papás já com mais filhotes, vai sempre a tempo de o obter. Recomendo que o façam de facto, junto de profissionais especializados, pois pode ser difícil filtrar a melhor e mais correta informação entre a imensa quantidade que a internet nos dispõe nesta área. Não deixem que a pressão vos faça desistir! Se a vossa vontade é amamentar, não desistam! Peçam ajuda! Existem novas práticas ou recomendações atuais que vêm facilitar o processo de amamentação, sobretudo nas primeiras horas e dias após o parto? O sucesso do aleitamento materno pode ser definido pelo seu início precoce (o mais precocemente possível após o nascimento, durante a primeira hora de vida), e por uma amamentação exclusiva, adequada e prolongada. A amamentação deve então iniciar na primeira hora de vida do bebé, na “Golden Hour”, primeiros 60 minutos após o nascimento, isto facilita muito o processo. Aqui, temos um bebé mais desperto, com reflexos mais ativos, que desenvolve uma procura eficaz por aquilo que lhe é familiar: cheiro e toque da mãe, sabor do colostro (igual ao do líquido amniótico que tinha acabado de deglutir e saborear antes de nascer). O contacto pele a pele, é a chave para o sucesso da amamentação. Isto não significa que na primeira hora de vida o bebé tenha de estar já com reflexos de sucção iniciados/a ingerir leite, até porque temos que respeitar os sinais de prontidão do bebé, o seu tempo e o seu ritmo. A amamentação na primeira hora de vida inicia com o contacto pele a pele e é a chave para o sucesso da amamentação. O contacto pele a pele é mais do que o simples colocar o bebé sobre o peito da mãe: envolve um complexo processo comportamental e neuro-hormonal, e tempo. Quando não é possível de concretizar por algum motivo, existem algumas estratégias para recuperar/resgatar parte daquilo que o bebé perdeu nesse momento e isto pode fazer-se até ao segundo mês de vida do bebé. A Golden Hour refere-se ao momento de transição do recém-nascido do meio intrauterino para o meio externo. Nestes primeiros sessenta minutos após o nascimento existe uma rápida necessidade de adaptação de múltiplos sistemas do recém-nascido, incluindo os sistemas pulmonar, circulatório, metabólico e alterações hemodinâmicas. Esta hora de ouro engloba três componentes fundamentais: laqueação tardia do cordão umbilical (a partir do primeiro minuto de vida), contacto pele a pele e amamentação. O contacto pele a pele deve ser mantido com ambos os progenitores mesmo após o nascimento, pelos inúmeros benefícios que contém, inclusive na resolução de algumas questões relacionadas com a amamentação. O alojamento conjunto desde o momento do nascimento é também crucial para o sucesso da amamentação, uma transição para a parentalidade positiva. De que forma a amamentação pode ser impactada por questões emocionais e de saúde mental da mãe, e que estratégias aconselha para apoiar essas mães? A amamentação é um processo profundamente ligado ao bem-estar emocional da mãe. Questões como ansiedade, depressão pós-parto, cansaço extremo ou falta de apoio podem interferir na produção de leite, na ligação com o bebé e na confiança da mãe na sua capacidade de amamentar. Muitas vezes, as mães sentem-se culpadas por dificuldades na amamentação, o que pode agravar ainda mais o seu estado emocional. Para apoiar essas mães, é essencial adotar uma abordagem empática e integrada. Algumas estratégias fundamentais incluem: apoio emocional constante, seja através da família, profissionais de saúde especializados em apoio à amamentação; acompanhamento psicológico, sempre que necessário, especialmente nos casos de depressão pós-parto; informação clara e sem julgamentos, para que a mãe possa tomar decisões conscientes, informadas e sentidas como suas; criação de redes de apoio entre mães, que promovam a partilha de experiências e normalizem desafios comuns; capacitação dos profissionais de saúde, para que saibam identificar sinais de sofrimento emocional e orientem adequadamente para os profissionais mais adequados/especializados. Como quase tudo no corpo da mulher, também a amamentação é dominada pela ação de hormonas, sobretudo duas: prolactina e oxitocina que, de grosso modo, são responsáveis pela produção e libertação do leite, respetivamente. Dou aqui um pouco mais de ênfase à oxitocina, a “hormona do amor”, que acompanha a mulher toda a vida em diversos contextos. No que respeita a amamentação, para que esta produza plenamente o seu efeito, a mulher necessita de afastar tudo aquilo que emocionalmente possa interferir de forma negativa, focar-se em emoções positivas: pensar com carinho no bebé e ouvir os seus sons, amamentar num local tranquilo com a máxima privacidade, sentir-se segura de si, usufruir de uma massagem relaxante do companheiro… são algumas das dicas para gerir a componente emocional. Quando estas estratégias não são suficientes, a avaliação por um profissional especializado deve ser considerada. Acima de tudo, é fundamental lembrar que o bem-estar da mãe é também o bem-estar do bebé. Amamentar é importante, mas a saúde mental materna é essencial. Quais são os sinais de alerta que indicam que o bebé pode estar com dificuldades na amamentação e quando deve a mãe procurar ajuda especializada? Alguns sinais podem indicar que o bebé está a enfrentar dificuldades na amamentação, o que pode comprometer a sua nutrição e o bem-estar da mãe. Estes sinais exigem atenção especial, sobretudo nas primeiras semanas de vida, quando o aleitamento materno está ainda a ser estabelecido. Entre os indícios mais comuns estão a dor persistente ou desconforto durante as mamadas, bem como a presença de lesões ou alterações nos mamilos da mãe. Sons anormais durante a sucção, como estalidos ou ruídos excessivos, também podem revelar uma pega ineficaz. Além disso, um ganho de peso inferior ao esperado, perda de peso significativa nos primeiros dias, diminuição do número de fraldas molhadas ou sujas, dificuldade em reconhecer quando o bebé tem fome ou está saciado, choro frequente mesmo após mamar e sonolência excessiva, quando o bebé não acorda para mamar ou adormece rapidamente durante a mamada, são todos sinais de alerta que não devem ser ignorados. Nestas situações, é fundamental procurar apoio especializado o mais cedo possível. O ideal é recorrer a um profissional com formação específica em aleitamento materno, como um(a) conselheiro(a) em amamentação ou um(a) enfermeiro(a) especialista em saúde materna e obstétrica. O acompanhamento precoce pode fazer toda a diferença: muitas vezes, pequenas correções na pega ou na posição do bebé são suficientes para ultrapassar as dificuldades, prevenindo o desmame precoce e promovendo uma experiência de amamentação mais tranquila, confortável e segura para ambos. Nos casos em que a amamentação exclusiva não é possível, quais são as melhores alternativas e como orientar as famílias para que a alimentação complementar seja segura e saudável? Existem muitas formas de suplementar o bebé com leite materno antes de termos que optar pelo recurso a fórmula. Essas estratégias não têm que implicar maior dispêndio de tempo nem energia por parte da mãe. Portanto, nestes casos, procurar ajuda especializada o mais precocemente possível é muito importante! Não desista antes de ser avaliada por um profissional, e de se informar devidamente acerca destas estratégias. A informação é poder! Como vê a evolução da sensibilização e políticas públicas em Portugal em relação ao aleitamento materno? Que melhorias ainda são necessárias? Ainda existe um caminho muito longo e exigente a ser feito, a iniciar nas condições da licença de maternidade e amamentação, conforme indicado na primeira questão. Nos últimos anos, Portugal tem feito progressos significativos na promoção do aleitamento materno, mas ainda há um caminho importante a percorrer. A nível hospitalar, muitas unidades de saúde adotam práticas mais amigas da amamentação, como a amamentação na primeira hora de vida e o alojamento conjunto. Existem também iniciativas como os “Hospitais Amigos dos Bebés” e projetos comunitários que promovem o aleitamento materno através da formação de profissionais e do apoio direto às mães. Além disso, a legislação laboral portuguesa contempla, ainda, direitos importantes, como pausas para amamentação durante o horário de trabalho. No entanto, estes avanços ainda não chegam de forma igual a todas as mães e famílias. Continuamos a verificar que muitas mulheres abandonam a amamentação exclusiva antes dos seis meses, não por falta de vontade, mas por ausência de apoio técnico, emocional e social adequado. Entre as mudanças mais urgentes para melhorar o apoio à amamentação, destaca-se a necessidade de alargar a licença parental até aos seis meses, permitindo que mais mães consigam cumprir a recomendação da Organização Mundial da Saúde de amamentação exclusiva durante esse período. Também é essencial reforçar a formação dos profissionais de saúde, garantindo que o acompanhamento prestado às famílias seja fundamentado, coerente e eficaz em todas as fases da amamentação. Outro ponto crítico é o acesso ao aconselhamento especializado, especialmente após a alta hospitalar, momento em que muitas mães se deparam com dúvidas e dificuldades que, sem apoio adequado, podem comprometer a continuidade da amamentação. Paralelamente, é fundamental reforçar o controlo sobre a promoção de fórmulas infantis, assegurando que o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno seja cumprido, protegendo as famílias de influências comerciais indevidas. Para além disso, devem ser promovidas campanhas públicas constantes que normalizem a amamentação em espaços públicos e desmistifiquem ideias erradas ainda profundamente enraizadas na sociedade. A recolha de dados atualizados e regulares sobre as taxas de amamentação é também essencial, permitindo que as políticas públicas sejam baseadas em evidência e adaptadas à realidade do país. A amamentação não é apenas uma escolha individual — é uma responsabilidade coletiva. Quando o Estado, os profissionais de saúde, os empregadores e a sociedade se comprometem a apoiar verdadeiramente as famílias, amamentar deixa de ser um desafio isolado e passa a ser uma experiência mais viável, positiva e duradoura para mães e bebés. Pode partilhar algum caso ou experiência marcante em que o seu apoio fez a diferença na jornada de uma mãe com dificuldades na amamentação? Existem várias histórias que nos vão marcando, mas escolho para partilhar hoje uma que me ficou gravada na memória da qual recebi notícias maravilhosas recentemente: Uma mãe de primeira viagem e teve um parto relativamente linear, bonito, em que se sentiu respeitada e empoderada. Apesar do desejo profundo de amamentar, os primeiros dias foram muito duros: o bebé mamava aparentemente bem, mas a dada altura ela apresentava o mamilo completamente coberto com uma só flictena e, ainda por cima, recebeu conselhos contraditórios no hospital. Quando me procurou, já ponderava desistir, entre lágrimas, exaustão e sentimento de culpa. Dizia-me que, achava estar a fazer tudo certo, queria tanto, suportava tudo, mas ainda por cima tinham-lhe dito numa das primeiras consultas de rotina com o bebé que ela era demasiado persistente e que qualquer pessoa no lugar dela, ainda por cima com um bebé tão magrinho e a aumentar tão pouco de peso, já teria desistido. Teria mesmo que ponderar uma fórmula porque era impossível o bebé não ficar “cheio de fome”, possivelmente estava a ficar sem leite ou o leite já estava fraco (no primeiro mês de vida do bebé). O primeiro passo foi escutar. Escutar de verdade, as dúvidas, os medos, as frustrações, as angústias. Depois, fizemos pequenos ajustes na posição, na pega, rotinas, estratégias de suplementação com leite materno, e em poucos dias ela começou a ganhar confiança. Mais do que as questões técnicas, o mais transformador foi validar a experiência daquela mãe e fazê-la sentir-se capaz. Algumas semanas depois, ela mandou-me uma fotografia a amamentar, sorridente, com a legenda: “Obrigada por me ter ajudado a não desistir de mim.” Melhor que isso foi recentemente, quando me mostra que, após três anos e seis meses o seu bebé ainda mama e nunca teve que lhe introduzir uma fórmula. Esses momentos lembram-me que o apoio na amamentação não é apenas sobre alimentar bebés, é sobre cuidar de mães, fortalecer vínculos e devolver confiança. E isso pode fazer toda a diferença. Vamos desmistificar a pressão enorme acerca do aumento ponderal e introdução não fundamentada/por conforto de fórmula precocemente nos períodos pós-parto! Vamos empoderar as mulheres e encaminhá-las para quem as pode ajudar de forma mais especializada. As famílias têm direito a decidir de forma informada! Finalmente, que conselho essencial daria a todas as mães que estão a iniciar a amamentação e sentem insegurança ou medo? O meu conselho essencial para todas as mães que iniciam a amamentação é simples, mas poderoso: não estejam sozinhas e confiem no processo. Definam o vosso profissional de confiança! Aquele com quem criam uma relação empática, próxima, de confiança. Planeiem em conjunto, peçam ajuda, livrem-se de todas as dúvidas, EMPODEREM-SE! A amamentação é natural, mas não é sempre intuitiva. Pode exigir aprendizagem, paciência e, sobretudo, apoio. É normal sentir insegurança, ter dúvidas ou até pensar em desistir. Isso não faz de ninguém menos mãe, faz de cada mulher alguém que está a aprender, com amor e esforço, a cuidar do seu bebé. Por isso, procurem ajuda cedo, de fontes seguras e acolhedoras. Às vezes, um pequeno ajuste ou uma palavra certa no momento certo muda tudo. Rodeiem-se de quem vos escuta, vos respeita e vos apoia, sem julgamentos. E lembrem-se: amamentar não é um teste de resistência, é um caminho de conexão. Cada gota conta. Cada tentativa vale. O mais importante é que vocês e os vossos bebés estejam bem, nutridos no corpo, mas também no coração. E nunca se esqueçam: todas vocês têm leite, todas! E o vosso leite é MARAVILHOSO! Instagram: @enf_lucianacruz “A verdadeira revolução no imobiliário não será digital, será ética” “Por trás de um resultado subtil e natural, existe ciência, responsabilidade médica e uma cadeia de decisões clínicas ponderadas”
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