Saúde Infantil/SAÚDE ORAL “A amamentação é considerada o primeiro aparelho ortopédico funcional da criança” By Revista Spot | Julho 16, 2026 Julho 17, 2026 Share Tweet Share Pin Email Uma criança que dorme de boca aberta, ressona, mastiga sempre do mesmo lado ou rejeita determinadas texturas pode estar a dar sinais que vão muito além dos dentes. Hoje, a odontopediatria já não começa apenas quando aparece uma cárie, uma dor ou um problema visível. Começa nos primeiros meses de vida, numa fase em que a respiração, a posição da língua, a amamentação, a mastigação e os hábitos de sucção estão a moldar o crescimento da boca e da face. Médica odontopediatra, pós-graduada em Ortopedia Funcional dos Maxilares e Conselheira de Aleitamento Materno, Joana Teixeira da Costa defende uma abordagem precoce, preventiva e integrada, capaz de acompanhar a criança antes de os “dentes tortos” se tornarem a principal preocupação. Porque os dentes de leite não são apenas temporários e esperar pela adolescência pode significar perder importantes janelas de crescimento. Nesta entrevista, explica o que os pais devem observar, quando procurar ajuda e porque cuidar cedo pode evitar tratamentos mais complexos no futuro. O que mudou na odontopediatria e porque é que hoje se fala cada vez mais em prevenção desde os primeiros meses de vida? A odontopediatria evoluiu de uma abordagem centrada no tratamento para uma abordagem centrada na prevenção. Hoje sabemos que muitos problemas podem ser evitados quando identificados precocemente. A prevenção começa ainda antes do aparecimento dos primeiros dentes, através da orientação às famílias sobre alimentação, higiene oral, hábitos de sucção não nutritivos (uso de chupeta, biberão) e desenvolvimento adequado da boca e da face. A primeira consulta de odontopediatria ainda é, para muitas famílias, uma ideia distante. Quando deve acontecer este primeiro contacto e o que é possível perceber numa fase em que a criança ainda tem poucos dentes, ou até nenhum? A primeira consulta deve acontecer até ao primeiro ano de vida, idealmente aquando da erupção do primeiro dente. Mesmo quando existem poucos ou nenhuns dentes, é possível avaliar o desenvolvimento oral, através da observação do posicionamento dos maxilares, estrutura e formato do crânio, posicionamento e função da língua, amamentação e forma de sucção da criança, entre outros. Nesta primeira consulta abordo todo o percurso do bebé, desde a gravidez, tipo de parto, marcos de desenvolvimento (introdução alimentar, sono, fala, etc), que são fundamentais para um correto acompanhamento da criança durante o seu crescimento. Esta consulta é importante também para orientar os pais sobre os melhores cuidados, individualizados para os seus filhos, prevenindo problemas futuros. A ortopedia funcional dos maxilares olha para a criança em crescimento antes de se pensar apenas em “dentes tortos” ou aparelhos na adolescência. Estamos a falar de alinhar dentes ou de compreender como a criança respira, mastiga, engole e desenvolve a face? Estamos sobretudo a compreender como a criança cresce e funciona. A posição dos dentes é apenas uma parte do processo. A respiração, a mastigação, a deglutição e a postura da língua influenciam diretamente o desenvolvimento dos maxilares e da face. Quando estas funções são equilibradas, o crescimento tende a ocorrer de forma mais harmoniosa. Por este motivo, quanto mais cedo intervirmos, mais rápidos e eficazes são os resultados, e menores serão as consequências e possíveis impactos negativos no desenvolvimento e qualidade de vida da criança. Respirar pela boca, ressonar, dormir de boca aberta, babar a almofada, mastigar sempre do mesmo lado ou ter dificuldade com certas texturas alimentares podem parecer pequenos detalhes. Que sinais devem fazer os pais procurar avaliação mais cedo? Todos esses sinais merecem atenção. A respiração oral, o ressonar frequente, alterações do sono (crianças que transpiram muito durante a noite, acordam cansadas, etc), dificuldades na mastigação ou na alimentação, que podem indicar alterações funcionais que influenciam o crescimento craniofacial e a própria qualidade de vida. Uma criança que não respira nem dorme bem, dificilmente consegue aprender da mesma forma: tende a ficar mais irritadiça, com maior dificuldade de concentração, memória e atenção, o que pode comprometer o rendimento escolar e o seu bem-estar. A chupeta, o biberão, o dedo na boca e outros hábitos de sucção continuam a gerar muitas dúvidas, e alguma culpa, nas famílias. Quando é que estes hábitos fazem parte do desenvolvimento normal e quando podem começar a interferir no crescimento dos maxilares? O mais importante é acompanhar cada criança de forma individualizada, sem alarmismo, mas com informação e orientação adequadas. É importante perceber que não existe uma idade “segura” ou protetora para abandonar a chupeta ou o biberão sem qualquer risco de consequências. O impacto destes hábitos depende sobretudo da intensidade, da frequência e da duração da utilização. Regra geral, quanto menos, melhor. A escolha da tetina também faz diferença. Quando a chupeta ou o biberão são utilizados, deve optar-se por uma tetina que ocupe o menor espaço possível na cavidade oral e que interfira o mínimo com a posição da língua e o desenvolvimento dos maxilares. E, sem julgamentos, importa esclarecer um mito muito comum: não existe nenhuma chupeta “corretiva” ou “ortodôntica” capaz de tornar o seu uso benéfico para o desenvolvimento craniofacial. O ideal é que a chupeta não seja necessária. Quando o seu uso faz sentido para determinada família ou criança, deve ser encarado como um recurso temporário, utilizado de forma consciente e acompanhado pelo Odontopediatra. O objetivo nunca é culpar os pais, mas sim fornecer informação para que possam tomar decisões informadas e proteger o desenvolvimento da criança da melhor forma possível. Enquanto conselheira de aleitamento materno, que ligação existe entre amamentação, função da língua, respiração nasal, desenvolvimento dos maxilares e saúde oral futura? A amamentação promove um trabalho muscular complexo que estimula o correto desenvolvimento dos maxilares e da função oral. Está associada a uma melhor posição da língua, favorece a respiração nasal e contribui para um crescimento craniofacial mais equilibrado. Por isso, os seus benefícios vão muito além da nutrição. Por muito desenvolvida e otimizada que seja, não existe nenhuma tetina de biberão capaz de reproduzir a mesma estimulação muscular e a mesma dinâmica mandibular da amamentação na mama. A amamentação é considerada o primeiro aparelho ortopédico funcional da criança. Muitos pais só pensam em ortodontia quando os dentes definitivos começam a nascer desalinhados. Que oportunidades se perdem quando se espera pela adolescência para avaliar a mordida, os maxilares e o crescimento facial? Só para terem uma ideia: cerca de 80% do crescimento craniofacial ocorre até aos 6 anos de idade. Por isso, quando falamos em intervenção precoce, não estamos a falar de “começar demasiado cedo”. Estamos a falar de aproveitar janelas de oportunidade únicas, em que o crescimento pode ser orientado de forma mais eficaz e menos invasiva. Esperar que a criança “cresça mais um bocadinho” ou que “tenha a dentição definitiva completa” pode significar perder parte desse potencial de crescimento e tornar alguns tratamentos mais complexos no futuro. Vivemos numa época de alimentos mais moles, snacks açucarados, refeições apressadas e crianças muitas vezes sentadas à mesa com ecrãs. Que impacto têm estes novos hábitos na mastigação, na saúde oral e no desenvolvimento da boca? A alimentação moderna exige menos esforço mastigatório, o que pode reduzir o estímulo necessário para o desenvolvimento adequado dos maxilares. Além disso, o consumo frequente de alimentos açucarados aumenta o risco de cárie. As refeições distraídas por ecrãs também podem prejudicar a perceção da saciedade e a qualidade dos hábitos alimentares. A ida ao dentista ainda está muito associada ao medo. Como se constrói uma consulta positiva, respeitadora e sem trauma, sobretudo com bebés, crianças ansiosas ou pacientes com necessidades especiais, que exigem tempo, adaptação e uma escuta muito particular? Uma consulta positiva constrói-se através da confiança, do respeito pelo ritmo da criança e de uma comunicação adaptada à sua idade e necessidades. O objetivo não é apenas tratar dentes, mas criar uma experiência segura e acolhedora. Quando a criança se sente compreendida e respeitada, a colaboração surge de forma muito mais natural. Depois de habituados, felizmente é muito mais frequente ter dificuldade em convencê-los a ir embora do que a entrar ou a voltar para a consulta. Se pudesse mudar uma ideia muito enraizada nas famílias portuguesas sobre os dentes das crianças, qual seria? E que mensagem deixaria aos pais que ainda pensam que os dentes de leite “não são assim tão importantes”? Gostaria de mudar a ideia de que os dentes de leite são temporários e, por isso, menos importantes. Os dentes de leite desempenham funções essenciais na alimentação, na fala, no crescimento dos maxilares e na orientação da erupção dos dentes definitivos. Cuidar deles é investir na saúde oral e no desenvolvimento global da criança desde os primeiros anos de vida. Instagram: @dra.joanacosta “Um valor isolado mostra como o corpo está naquele momento, a medicina de precisão procura perceber a trajetória que o trouxe até ali” “O maior erro é encarar o emagrecimento como uma fase com data de início e de fim”
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