Saúde Infantil “Ajudar um paciente a voltar a dormir bem, mastigar sem dor ou falar com clareza é uma das maiores recompensas da Terapia Miofuncional” By Revista Spot | Julho 30, 2025 Agosto 2, 2025 Share Tweet Share Pin Email Falar, mastigar, engolir e respirar são gestos aparentemente simples, mas quando desequilibrados, podem comprometer não só a qualidade de vida, mas também o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo. A Terapia Miofuncional Orofacial, ainda desconhecida para muitos, está a assumir um papel cada vez mais relevante na prevenção e correção de disfunções que começam muitas vezes na infância e nos acompanham silenciosamente até à idade adulta. Eliana Faria, Terapeuta da Fala especializada em Terapia Miofuncional Orofacial, partilha a sua experiência clínica e mostra como o reposicionamento da língua, a respiração nasal e o equilíbrio muscular do rosto e pescoço podem mudar tudo, da postura à autoestima. Mais do que tratar sintomas, esta abordagem reeduca funções vitais e devolve ao corpo a sua harmonia natural. Afinal, respirar bem é viver melhor. Hoje fala-se muito sobre o impacto da respiração na saúde geral. Como é que a terapia miofuncional pode ajudar pessoas que respiram pela boca, por exemplo? Respirar é automático, mas nem sempre estamos a fazê-lo corretamente! A respiração nasal é fundamental para o bom desenvolvimento craniofacial e para a saúde geral. Quando respiramos maioritariamente pela boca, seja por hábito ou por obstrução nasal, isso pode levar a alterações na posição da língua, na mastigação, na deglutição, na fala, na postura, qualidade do sono, na atenção e até no sistema imunitário. A terapia miofuncional atua precisamente nesses desequilíbrios musculares e funcionais. O nosso trabalho passa por, através de exercícios específicos, reeducar o padrão respiratório, fortalecer a musculatura orofacial e promover a correta posição da língua, ajudando a restaurar a função nasal e a prevenir consequências a longo prazo. Corrigir o modo como se respira pode parecer simples, mas tem um impacto profundo na saúde global. De que forma o trabalho da terapia da fala pode prevenir ou complementar tratamentos ortodônticos, como os aparelhos dentários? A terapia miofuncional e a ortodontia, ou a ortopedia funcional dos maxilares, devem caminhar lado a lado. Muitas vezes, as causas das alterações dentárias estão associadas a hábitos orais (como sucção digital ou uso prolongado de chupeta), padrões de mastigação incorretos ou alterados, deglutição atípica ou respiração oral. Tanto os aparelhos dentários como os aparelhos de ortopedia funcional dos maxilares atuam sobre a estrutura, reposicionam dentes, estimulam o crescimento ósseo e corrigem assimetrias. Se essas funções não forem corrigidas, os aparelhos podem alinhar os dentes temporariamente, mas os resultados tendem a regredir. A terapia da fala atua na origem do problema, promovendo o equilíbrio muscular necessário e reeducando as funções. É um trabalho conjunto, que permite que os resultados ortodônticos e ortopédicos sejam mais estáveis e eficazes. Sabemos que muitas crianças sofrem com deglutição atípica ou dificuldades na fala. A que sinais devem os pais estar atentos para procurar ajuda? A identificação precoce destes sinais pode fazer toda a diferença no desenvolvimento da criança. Por exemplo, é importante observar se a criança mantém a boca aberta grande parte do tempo, seja enquanto brinca ou durante o sono, se a língua fica visível entre os dentes ao engolir ou ao falar, ou ainda se há dificuldade na articulação de certos sons, como quando a fala se assemelha ao conhecido “falar à sopinha de massa”. Outros indícios incluem uma alimentação muito demorada, seletiva ou com recusas frequentes, mastigação sempre do mesmo lado ou com a boca aberta, e salivação excessiva ou dificuldade em manter os lábios fechados. Estes sinais não devem ser desvalorizados. Sempre que houver dúvidas, é recomendável procurar uma avaliação especializada. Quanto mais cedo forem identificadas estas alterações, mais eficaz será a intervenção terapêutica. Quando os pais sabem o que observar e reconhecem os sinais de alerta, tornam-se aliados essenciais na prevenção e no apoio ao desenvolvimento saudável dos filhos. Há cada vez mais adultos a procurar terapia miofuncional. Que situações são mais comuns nesta fase da vida e o que pode ser melhorado com este tipo de acompanhamento? Sim, o número de adultos que procuram terapia miofuncional tem vindo a aumentar significativamente. Muitos chegam com queixas que foram sendo acumuladas ao longo do tempo, como dores de cabeça associadas a alterações na articulação temporomandibular, ressonar persistente, sensação de fadiga ao final do dia ou dificuldades na fala que nunca chegaram a ser resolvidas. Este crescimento está também relacionado com um maior nível de informação por parte da população e com uma mudança na forma como a comunidade médica reconhece a importância deste tipo de acompanhamento, encaminhando os pacientes com mais frequência e de forma mais assertiva. Entre os motivos mais frequentes para procurar terapia miofuncional na idade adulta estão os casos de roncopatia e apneia do sono, recidivas de tratamentos ortodônticos, disfunções da ATM, alterações da fala mantidas desde a infância, situações pós-cirúrgicas (como cirurgias orais ou ortognáticas), problemas vocais, como nódulos nas pregas vocais, e dificuldades de deglutição (disfagia). É importante reforçar que a terapia miofuncional não é exclusiva da infância. Trata-se de uma abordagem eficaz em qualquer idade, sempre que exista a necessidade de melhorar o desempenho das funções orais. A língua tem um papel fundamental no equilíbrio da nossa boca e face. Uma língua “mal posicionada” pode afetar a fala, a mastigação ou até a postura? A língua é um músculo poderoso e a sua posição em repouso influencia diretamente o alinhamento dentário, a forma como o rosto e a cavidade oral se desenvolvem. Em repouso, deve permanecer no palato (céu da boca), mas quando isso não acontece, podem surgir alterações estruturais e funcionais importantes. Uma língua constantemente baixa ou entre dentes, pode exercer forças indesejadas, promover alterações no posicionamento dentário, no crescimento do palato, influenciando a oclusão e a necessidade de correções ortodônticas. Em crianças, pode até condicionar o crescimento facial. Uma língua mal posicionada pode dificultar a respiração, a articulação dos sons, afetar a eficiência da mastigação, interferir na deglutição, interferir na qualidade do sono e até contribuir para desalinhamentos posturais, especialmente ao nível do pescoço e da cabeça. Por isso, mais do que uma questão estética, é uma questão funcional e de saúde. A reeducação postural da língua é, por isso, um dos pilares da Terapia Miofuncional. No seu dia a dia, colabora com outros profissionais de saúde? Como funciona essa abordagem mais integrada e quais os benefícios para o paciente? Sem dúvida. A colaboração com otorrinolaringologistas, odontopediatras, ortodontistas, pediatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, osteopatas e outros profissionais é essencial. Cada caso é único e, muitas vezes, os melhores resultados surgem quando há um olhar multidisciplinar. Por exemplo, se existem alterações no posicionamento da língua, devido a um freio alterado, precisamos de analisar em equipa, se existem critérios cirúrgicos para permitir amplitude dos movimentos, e depois sim, reajustar as funções. Noutras situações, se uma criança respira pela boca por obstrução nasal, não basta corrigir os hábitos, é preciso tratar o problema orgânico com o médico otorrino. Por outro lado, se resolvermos a obstrução, mas a criança não souber como usar funcionalmente o nariz para respirar, vai manter o hábito de respiração oral, a terapia miofuncional atua no pós-operatório nesse sentido. Ao longo da minha atividade tenho tido a sorte de conhecer cada vez mais profissionais competentes, conscientes, e preparados para estabelecermos esta relação de partilha de opiniões e discussão dos casos. É trabalhoso, e implica de nós uma disponibilidade importante, fora dos horários de consultas, que por não ser “visível” é muitas vezes impercetível. Cada profissional vê o paciente de forma complementar. Só esta abordagem integrada garante que todas as áreas são devidamente acompanhadas, promovendo uma intervenção mais completa e eficaz. Como já referiu, a terapia miofuncional pode ajudar pessoas que sofrem com apneia do sono ou ressonar. Mas de que forma? A apneia obstrutiva do sono está muitas vezes relacionada com o colapso das vias aéreas superiores durante o sono. A terapia miofuncional fortalece os músculos da língua, bochechas, palato mole e faringe, contribuindo para manter as vias respiratórias abertas. Estudos mostram que a prática regular de exercícios miofuncionais pode reduzir a intensidade do ressonar e a gravidade da apneia, especialmente quando combinada com outros tratamentos, como o CPAP A mioterapia é uma abordagem não invasiva, com benefícios comprovados na qualidade do sono e na redução da fadiga diurna. Quais são as maiores transformações que já viu em pacientes após um plano de terapia bem feito? Há alguma história que a tenha marcado? Ver um paciente recuperar funções básicas, como dormir bem, mastigar sem dor ou falar com clareza é uma das maiores recompensas desta profissão. As transformações vão muito além do aspeto físico. Tenho acompanhado casos em que a simples mudança de um padrão respiratório alterou por completo o comportamento, o sono e até a autoestima. Na terapia, tratamos músculos, funções e estruturas, mas, muitas vezes, o verdadeiro impacto é emocional. Recordo o caso de um menino de oito anos, encaminhado pela dentista por posicionar incorretamente a língua, o que estava a interferir no alinhamento dentário. Durante a avaliação, identifiquei um freio lingual curto, uma anquiloglossia. Expliquei à mãe como isso poderia ter influenciado o desenvolvimento oral desde a infância. Foi nesse momento que a mãe se emocionou e chorou. Confessou sentir-se culpada por não ter conseguido amamentar aquele filho, ao contrário do irmão mais velho. Era professora no ensino secundário, com uma rotina exigente, e sempre acreditou que o desmame precoce tinha sido uma falha sua, fruto do cansaço e do stress. Perceber que existia uma causa física, que escapava ao seu controlo, foi simultaneamente um momento de dor, mas também de alívio. É nestes instantes que percebemos que o nosso trabalho vai muito além da função oral. Ajudamos a desenlaçar histórias, a aliviar culpas escondidas, a dar respostas que trazem compreensão e tranquilidade. A Terapia Miofuncional não atua apenas na boca, atua na vida. E o bom profissional de saúde deve estar preparado para ver o todo, escutar com empatia e acolher a pessoa para além do sintoma. Somos corpo, somos mente, somos contexto. E isso exige uma abordagem verdadeiramente humana. Com tantas atividades e estímulos no dia a dia, como garante que as crianças (e os pais!) conseguem manter os exercícios e rotinas da terapia? Há estratégias que resultam melhor? A consistência vale mais do que a perfeição. O segredo está em tornar os exercícios parte da rotina, quase como um ritual familiar, tal como lavar os dentes. Usar jogos, recompensas simbólicas, desafios em família e tempo de qualidade é meio caminho andado para o sucesso. É fundamental que os pais estejam envolvidos e informados. Quando percebem porquê e para quê, tornam-se os maiores aliados da terapia. Para quem nunca ouviu falar de Terapia Miofuncional Orofacial, como explicaria de forma simples o que é e por que razão pode fazer tanta diferença na vida de uma pessoa? A Terapia Miofuncional Orofacial é uma área da Terapia da Fala que avalia e trata desequilíbrios nos músculos e estruturas da face, boca e pescoço em todas as idades, interferindo em funções essenciais como a respiração, sucção, mastigação, deglutição e a fala. Quando uma delas está comprometida, todo o sistema entra em desequilíbrio. E o impacto pode ser enorme: desmame precoce, dificuldades na alimentação, problemas dentários e na oclusão, problemas de fala e até dificuldades do comportamento e do sono. A terapia ajuda a reeducar e equilibrar esses músculos, a reajustar as funções, promovendo saúde, conforto e qualidade de vida. Instagram: @elianafaria.terapiadafala “Na ansiedade funcional, a pessoa cumpre, responde, lidera, organiza. Só que por dentro, há pensamentos em loop, dificuldade em relaxar ou desligar” “O método T.A.N.S. identifica as raízes fisiológicas do excesso de peso e desbloqueia as emoções e comportamentos que travam o emagrecimento”
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