SAÚDE “O que acontece no intestino não fica no intestino, comunica com o corpo todo” By Revista Spot | Fevereiro 4, 2026 Fevereiro 4, 2026 Share Tweet Share Pin Email Há pessoas que vivem com a barriga inchada, cólicas, obstipação ou diarreia como se fosse normal. Outras carregam fadiga, ansiedade e pele reativa, apesar de análises impecáveis. Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que o intestino é um ecossistema de triliões de microrganismos que influencia inflamação, imunidade, metabolismo e até o humor, através do eixo intestino–cérebro e do nervo vago. É neste cruzamento entre evidência e experiência clínica que se move Vânia Teixeira. Licenciada em Bioquímica e Ciências Farmacêuticas, habituada à precisão do laboratório, foi uma crise de saúde no pós-parto, e a sensação de que lhe estavam a oferecer apenas um “comprimido para a vida”, que a levou a procurar outras respostas e, mais tarde, a especializar-se em Naturopatia e Homeopatia. Nesta entrevista, fala de estratégias faseadas, de reintroduções bem orientadas e do risco de transformar a alimentação numa lista de proibições em vez de uma ferramenta terapêutica com critério. “O padrão intestinal começa desde a barriga da mãe, na nossa história de vida, nos nossos hábitos e no modo como o corpo responde quando vive em alerta. Isso explica porque tantas pessoas chegam com exames normais e, ainda assim, sem bem-estar”, refere. Quando é que percebeu que a abordagem clássica já não explicava o que via nos doentes e o que mudou, a partir daí, na sua forma de pensar a saúde? No meu caso, a porta de entrada foi a minha própria história. Sempre senti que a minha área de trabalho estaria ligada à saúde e assim foi, comecei por me licenciar em Bioquímica, trabalhei num laboratório de análises clínicas como investigadora, cheguei a coordenar a área de cromatografia e, nessa fase, percebi que não queria estar apenas a “fazer análises”. Queria contacto com pessoas, queria compreender o que estava por trás dos números. Ainda a trabalhar, iniciei o Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas na Universidade do Porto e, durante esse percurso, fui mãe. Tive várias complicações na gravidez e, no pós-parto, vivi uma situação de saúde muitíssimo complicada. Foi aí que me foi diagnosticada uma doença autoimune e disseram-me: “vai ter de tomar este comprimido para a vida”. E eu não me conformei com isso. Saí da caixa e procurei opiniões fora da Medicina convencional. Na altura, consultei um médico já na área da Medicina integrativa, que mais tarde viria a ser meu professor, e ele fez algo que, para mim, foi determinante: quis saber como estava o meu intestino e, sobretudo, quis olhar para mim como um todo. Fez-me uma anamnese clínica muito detalhada, numa consulta de uma hora e meia (muito semelhante ao que hoje faço nas minhas). Falámos de tudo, alimentação, exercício físico, suplementação, medicação, rotinas, um dia “normal” de vida. E foi assim que me disse que eu sofria de Síndrome do Intestino Irritável, algo que nunca ninguém me tinha dito, o que é compreensível, porque isto aconteceu há mais de 30 anos. A partir daí, comecei a ligar pontos, sempre que tinha episódios de ansiedade ou maior stress, o meu intestino respondia com diarreias. E aqui nasceu a minha paixão pela saúde intestinal, foi aí que a minha curiosidade disparou. Entretanto, fui para o Brasil trabalhar e comecei a ter contacto com a naturopatia e a homeopatia. Cheguei, inclusive, a levar a minha filha, por questões de ansiedade, a um homeopata, e comecei a ver um mundo que até então desconhecia. No fundo, foi esta fase, a crise de saúde muito complicada, a descoberta da doença autoimune e o modo como comecei a tratar-me associando a Medicina convencional às medicinas complementares (suplementação, alimentação cuidada, mudanças profundas de estilo de vida; retirei o pão, retirei o leite, entre outras coisas) que me deu o clique. No Brasil, abriu-se uma panóplia de opções e eu pensei: “é isto que faz sentido para mim”. Tenho de olhar para o doente como um todo, de forma integrada e completa. E foi isso que me levou a estudar naturopatia e, mais tarde, homeopatia, áreas em que acabei por me especializar. O doente de hoje chega cansado, inchado, ansioso e com “exames normais” Na sua prática, este padrão é cada vez mais comum? Sem dúvida. É um padrão cada vez mais comum e é, em grande parte, consequência de um novo retrato do estilo de vida. Hoje vivemos sob stress, dormimos pouco, estamos constantemente expostos a ecrãs e a estímulos, e temos uma alimentação muito rica em ultraprocessados e fast food. Tudo isto nos empurra para um estado de alerta constante, com níveis de cortisol persistentemente elevados. Estamos, muitas vezes, com o sistema nervoso simpático continuamente ativado e não entramos no processo de relaxamento que permite ao organismo recuperar, aquilo a que chamamos a ativação do sistema nervoso parassimpático. Isso não acontece e, por isso, tem surgido um novo perfil clínico: um doente mais complexo, com muitas variáveis, que exige uma abordagem cada vez mais detalhada, mais precisa e mais minuciosa. Aqui, a escuta ativa e uma anamnese clínica bem feita são fundamentais. Não se trata apenas de tratar sintomas e ficar por aí; é perceber o que está na origem, o que está a sustentar o problema. Este doente “de exames normais”, mas claramente sem se sentir bem, obriga-nos a um olhar de 360 graus e é isso que a saúde integrativa procura fazer. Na minha consulta, é isso que fazemos. E posso dizer que sou uma felizarda nesse aspecto, numa primeira consulta, consigo estar com o paciente uma hora e meia, conhecer o seu historial e construir uma anamnese completa. Isso tem-me ajudado muito a ajudar os doentes. E, para mim, esse é o futuro, o futuro da saúde, o futuro da Medicina. O que é que a levou a colocar a saúde intestinal no centro da sua prática? Como referi, para mim o intestino tem um papel central na saúde global, na saúde sistémica. Sem saúde intestinal, não conseguimos ter saúde. E é importante termos consciência de que, hoje, o intestino deixou de ser visto apenas como um órgão digestivo, cada vez há mais estudos, mais evidência científica e maior reconhecimento, também por parte da comunidade médica e terapêutica, de que o intestino é determinante em múltiplos processos do organismo. Nós sabemos que o intestino aloja triliões de microrganismos, a chamada microbiota intestinal, e que, em termos de material genético, temos mais genes desses “pequenos seres” do que do próprio genoma humano. Isto diz-nos muito sobre a influência que podem ter na forma como o corpo regula inflamação, imunidade, metabolismo e até o equilíbrio emocional. Eu acredito que o intestino influencia de forma muito significativa a saúde do corpo. Ele não trabalha sozinho, claro, mas é um eixo que condiciona muito do que acontece “a montante”. E isto não é novo, Hipócrates dizia, há mais de 2.000 anos, que “todas as doenças começam no intestino”. Hoje, essa frase ganha outra densidade quando percebemos, por exemplo, que não existe saúde mental sem boa saúde intestinal. Na prática, vejo isso todos os dias. Dou-lhe um exemplo muito comum, problemas de pele, como o acne. Muitas vezes, o acne é tratado apenas com fármacos e atenção, não estou a dizer que os fármacos não são importantes; são, sem dúvida. O que defendo é que a melhor resposta está na combinação e na personalização das terapias, ajustadas à pessoa. E, nesses casos, é frequente termos de olhar para o intestino, e o primeiro passo é quase sempre olhar para a alimentação daquela pessoa. Eu preciso de perceber o historial desde cedo, desde bebé, por exemplo, se houve dermatite atópica, se houve queixas digestivas, se houve sinais que nos apontem para desequilíbrios. A partir daí, ajusto a alimentação de forma realmente adaptada, otimizo o “terreno biológico”, e quando faz sentido trabalho processos de “desintoxicação” de forma cuidada, personalizada e adequada, porque aqui não há soluções iguais para todos, muito menos quando falamos de saúde intestinal. E quando começamos a melhorar a saúde do intestino, melhoramos, muitas vezes, a pele de forma clara, não só no acne, mas também em situações de alergias cutâneas, prurido persistente e quadros em que a pessoa já fez vários despistes e continua sem resposta. Às vezes, estamos perante padrões como uma síndrome histamínica, a pessoa consome muitos alimentos ricos em histamina e isso exige uma análise alimentar muito detalhada, muito personalizada. O meu despertar começou, numa primeira fase, comigo, como já expliquei, quando percebi que ninguém tinha olhado para a possibilidade de a minha doença autoimune ter uma origem intestinal, e isso fez todo o sentido. E mais tarde, quando fiz um estágio no MAMA-HELP, no Porto (centro de apoio ao cancro da mama, ligado à Fundação Champalimaud), tive o privilégio de assistir a consultas com um naturopata e vi, repetidamente, como o intestino era encarado como uma peça-chave. Isso ensinou-me muito e também ajuda a explicar porque estou aqui hoje. Todas as doenças começam no intestino? Sem dúvida, quando o intestino não está saudável, quando existe disbiose, ou seja, uma alteração na composição e na qualidade das bactérias, há frequentemente inflamação silenciosa. E essa inflamação silenciosa altera a forma como digerimos e absorvemos nutrientes, com impacto direto na energia, na pele, no metabolismo e no estado geral. Depois, há a ligação com a imunidade: sabemos que uma grande parte do sistema imunitário está associada ao intestino. Ou seja, ele é muito mais do que digestão, é também um órgão central na regulação imunitária, e isso repercute-se de forma sistémica. E há ainda o eixo intestino–cérebro, onde entra o nervo vago e a comunicação bidirecional entre estes dois sistemas. A ciência tem mostrado algo muito interessante: existem duas vias de comunicação do intestino para o cérebro e apenas uma do cérebro para o intestino. Isto levanta uma pergunta inevitável sobre “quem influencia mais” e reforça a ideia de uma relação muito estreita entre microbiota, inflamação e saúde mental. Não é por acaso que se fala tanto do papel do intestino no humor, no intestino são produzidas cerca de 90% da serotonina e cerca de 50% da dopamina. Isto ajuda-nos a perceber porque é que, quando o intestino está desequilibrado, vemos tantas pessoas com ansiedade, alterações de humor, irritabilidade e fadiga persistente. E na consulta está a surgir outro padrão, cada vez mais frequente, muito ligado ao nosso estilo de vida acelerado: aquele doente que até é magro, mas apresenta esteatose hepática, gordura no fígado, sem consumo relevante de álcool e, por vezes, sem uma explicação clara apenas pela alimentação. Nestes casos, olhar para o intestino e para a microbiota intestinal pode ser decisivo para melhorar o perfil metabólico e, muitas vezes, ajudar a reverter estas situações quando “o caminho habitual” não chega. No Programa RESET, o que é que tende a mudar primeiro: os sintomas, a energia, o humor, a pele ou o sono? E como é que mede os resultados? Quando desenhei o Programa RESET, ele nasceu da prática, de muitas consultas centradas na saúde intestinal e no padrão que se repetia: pessoas com sintomas persistentes, exames “normais” e uma qualidade de vida claramente comprometida. O RESET está estruturado em quatro etapas, mas a duração não é fixa, porque depende muito de pessoa para pessoa, do grau de inflamação, das queixas, das patologias associadas, da alimentação e de tudo aquilo, interno e externo, que está a influenciar aquele organismo. A primeira coisa que faço é uma anamnese clínica extremamente detalhada. Eu costumo dizer que a investigação começa muito cedo: desde o tipo de parto, o historial desde “a barriga da mãe”, até ao momento atual. Depois, há uma parte que é decisiva, a escuta ativa para perceber o que mais incomoda o paciente, porque isso orienta prioridades. Avalio hábitos, rotinas, exercício (tipo e frequência), sono, níveis de stress, histórico de infeções respiratórias ou genito-urinárias recorrentes, e a história medicamentosa, sobretudo antibioterapia e outros fármacos que possam ter impacto na microbiota. E, claro, faço um mapeamento muito fino da alimentação: o que come, como come, a que horas come, e como é um dia real, do acordar ao deitar. Em que consiste a segunda fase do programa? Só depois desta primeira etapa consigo avançar para a segunda, que, em muitos casos, passa por um processo de “limpeza” e desinflamação intestinal, sempre com muito cuidado, muito acompanhamento e muita personalização. Aqui, quando faz sentido, recomendo tratamentos complementares como a hidroterapia do cólon (disponível na Reset Clinic), que pode ser um apoio relevante em casos específicos, por exemplo, obstipação severa e dificuldades de motilidade intestinal, sempre integrado num plano clínico e nunca como “solução única”. Após um período que, habitualmente, ronda as quatro a seis semanas, dependendo da resposta e do contexto, entramos numa fase de reintrodução e de reinoculação: introduzir probióticos, mas direcionados à necessidade de cada pessoa, e começar, quando apropriado, a trabalhar com fibras prebióticas. E aqui há um ponto importante: os prebióticos são fibras e não servem “às cegas”. Há intestinos em que o excesso de fibra piora os sintomas, como acontece em muitas pessoas com Síndrome do Intestino Irritável, muito inchaço e distensão e, nesses casos, tenho de escolher fibras que não aumentem a fermentação e ajustar quantidades com precisão. Nesta fase, dou também muita importância a uma alimentação rica em antioxidantes e anti-inflamatórios, frutos vermelhos, cacau, chá verde, e, quando necessário, a suplementação com compostos com ação anti-inflamatória, como a curcumina lipossomada. Porque, quando estamos a reduzir a inflamação intestinal, estamos também a reduzir inflamação sistémica: o que acontece no intestino não fica no intestino, comunica com o corpo todo. Eu costumo brincar dizendo que o intestino é um “fofoqueiro”: o que se passa lá, nota-se cá fora. A recuperação da barreira intestinal acontece já na terceira etapa? Sim, a terceira etapa consiste na recuperação da barreira intestinal. O objetivo é que o intestino funcione como aquilo que deve ser, um órgão semi-permeável, altamente selectivo, permitindo a passagem do que é útil e bloqueando aquilo que não deve atravessar. Quando existe disbiose, inflamação e aumento de permeabilidade, podem passar toxinas (do meio externo, dos alimentos e até de bactérias menos favoráveis), e isso alimenta novamente a inflamação sistémica. Repor a integridade da barreira intestinal é, por isso, fundamental. Por fim, a quarta etapa é a manutenção: chegar a um “intestino feliz e saudável” ao longo do tempo. Aqui, o trabalho é ensinar o paciente a construir o seu próprio “cardápio”, começamos, muitas vezes, com uma fase mais restritiva e depois vamos reintroduzindo alimentos para perceber, na prática, o que faz bem e o que faz mal. Não há um protocolo único para todos, há linhas orientadoras, mas a intervenção tem de ser individualizada, porque cada pessoa tem uma microbiota diferente. Eu gosto de dizer que a microbiota é como um cartão de cidadão, só há uma, e é única. Quanto ao que muda primeiro quando corre bem, muitas vezes são os sintomas digestivos mais incómodos, inchaço, gases, regularidade do trânsito e sensação de evacuação completa, e, logo a seguir, começa a notar-se energia, clareza mental, sono e humor. A pele, em muitos casos, também melhora, mas tende a acompanhar a redução da inflamação e a estabilização do intestino. E como é que eu meço resultados? Com a evolução clínica e funcional da pessoa: a intensidade e frequência dos sintomas, a tolerância alimentar, o padrão intestinal, a energia ao longo do dia, a qualidade do sono e a estabilidade do humor. Dependendo do caso, cruzo isso com marcadores clínicos e análises, e faço follow-up para perceber se o resultado está a ser sustentado, porque o objetivo não é “sentir-se melhor durante um mês”, é consolidar mudanças reais ao longo do tempo. Perante sintomas vagos e persistentes, quais são as perguntas-chave que faz logo no início para perceber a origem do problema? As perguntas-chave começam com o essencial: o que é que o paciente traz à consulta e o que é que mais o incomoda neste momento. Depois, preciso do historial clínico, exames que tenha, medicação e suplementação. Do ponto de vista intestinal, há um bloco que é incontornável: como é que o intestino “trabalha”. Qual é o padrão evacuatório, quantas evacuações por dia ou por semana, e que tipo de fezes são. Aqui, uso muito a Escala de Bristol, porque as fezes dizem-nos imenso sobre o estado do intestino e, muitas vezes, sobre a saúde geral. Eu digo muitas vezes isto de forma simples, “o cocó fala connosco, para quem o sabe ouvir”. Devíamos olhar mais para isso, porque dá pistas muito importantes. Pergunto se existe sensação de evacuação completa, se há dor a evacuar, se há muco, sangue, gases mais frequentes, barriga inchada, azia, aerofagia, excesso de arrotos. E uma pergunta que, para mim, é determinante, desde quando começaram os sintomas. Muitas vezes a pessoa diz “nem sei”, e é aí que eu vou abrindo o mapa, aconteceu depois de uma viagem? Depois de uma infeção e de um antibiótico? Depois de um tratamento para H. pylori? Houve um momento em que tudo se agravou? E depois cruzo com o eixo intestino–cérebro, em períodos de nervosismo ou stress, como era o intestino? Mudava? Porque, muitas vezes, a pessoa percebe que há uma correlação clara, o stress altera sintomas, altera motilidade, altera microbiota. Perceber o “momento de viragem”, quando isto começou, em que contexto, e o que aconteceu antes, é uma das chaves mais importantes para orientar o plano, e é isso que eu tento sempre identificar logo no início da consulta. Que sinais a fazem suspeitar de SIBO, disbiose, inflamação de baixo grau ou má absorção? Estamos a rotular demais? Relativamente a SIBO, disbiose e SII, eu não sinto que estejamos a “rotular demais”. Sinto que estamos a saber mais e isso é diferente. O intestino ganhou um verdadeiro “boom” de interesse científico e clínico nos últimos anos, muito por força da evidência que foi surgindo e também por termos, hoje, mais ferramentas e mais meios para investigar. No caso do SIBO, por exemplo, estamos a falar de um sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado, bactérias onde não era suposto estarem em excesso. E, sinceramente, eu acredito que estamos perante uma espécie de epidemia de SIBO, porque o nosso estilo de vida é altamente conducente a isso: alimentação, stress, ritmos desregulados e, muitas vezes, medicação, incluindo antibioterapia (que, em alguns casos, pode ter sido necessária, noutros talvez nem tanto, mas isso tem sempre de ser individualizado). Claro que podem existir erros diagnósticos e leituras apressadas. Por isso é que, para mim, a base continua a ser a anamnese clínica e a escuta ativa. Mas há situações em que precisamos, de facto, de ir mais fundo e tornar o diagnóstico mais preciso. E hoje já temos instrumentos que nos ajudam a fazê-lo. Na Reset Clinic, por exemplo, depois de um congresso de Medicina Funcional Integrativa em São Paulo, trouxemos ferramentas que em Portugal estão agora a começar a surgir com mais frequência. Refiro-me a testes específicos para SIBO, a testes de fezes do tipo GI-MAP, que permitem perceber de forma mais detalhada quais as bactérias presentes e em que quantidades, e ainda testes de metabolómica intestinal. Tudo isto, sempre cruzado com a história clínica e com aquilo que o doente está a viver. E não posso deixar de falar da epigenética, que é um mundo à parte. Genética é uma coisa, epigenética é outra. A genética é aquilo que herdamos; a epigenética é, em grande parte, aquilo que fazemos com essa herança através do estilo de vida, alimentação, stress, sono, exercício, ambiente, rotinas. Ou seja, podemos influenciar a expressão genética ao longo do tempo, ativar ou silenciar vias de acordo com os hábitos e com as escolhas. E, para mim, ter esta informação ajuda muito a direcionar a estratégia, inclusive ao nível da suplementação, que também precisa de ser feita com critério e com propósito e não de forma caótica. No fundo, estes “novos nomes” não são apenas rótulos. São formas cada vez mais finas de descrever padrões e mecanismos que antes ficavam no vazio do “não tem nada” ou do “é ansiedade”. E isto ajuda-nos a perceber melhor o intestino e as consequências sistémicas que ele pode ter. Há pessoas que chegam depois de cortar glúten, lactose, açúcar, aderir a FODMAPs, tudo ao mesmo tempo. Quando é que a restrição é terapêutica e quando é que se torna uma armadilha? A alimentação tem de ser sempre individualizada. Eu uso, muitas vezes, uma abordagem Low FODMAP, mas muito adaptada a cada paciente. E, com a minha experiência, não sinto que seja necessário fazer uma Low FODMAP extremamente restritiva em todos os casos. Através da escuta ativa e de uma anamnese bem feita, eu vou percebendo quais são os alimentos que, naquele momento, estão a causar mais sintomas e aqui é importante distinguir intolerância de sensibilidade, porque não é a mesma coisa. Muitas vezes, o doente começa por ter sensibilidade aumentada porque o intestino está cada vez mais inflamado, mais desregulado. E depois acontece aquele efeito dominó: reage mal a um alimento, depois a outro, depois a outro… e, de repente, parece que “nada serve”. Quando isto acontece, temos de olhar para o estado do intestino, porque algo não está bem. Muitas vezes estamos perante um intestino com disbiose, inflamação e hiperpermeabilidade. Nesses casos, eu posso recorrer, numa fase inicial, a uma dieta mais restritiva, sim, mas com um objetivo claro: criar condições para recuperar. A seguir, o trabalho é orientar reintroduções de forma gradual, com indicações muito concretas, para o paciente perceber o que tolera, em que quantidades, e se existe algum alimento que, de facto, terá mesmo de ficar de fora. Gosto também, em alguns casos, de usar jejum intermitente como ferramenta para dar descanso ao intestino e promover regeneração, mas com bom senso. Para o intestino, o melhor jejum intermitente costuma ser aquele em que se janta cedo, leve e com comida simples, cozinhada, para facilitar a digestão. Claro que há outros formatos, como atrasar o pequeno-almoço, mas, na prática, o jantar mais cedo e mais leve tende a ser uma estratégia muito eficaz. E há um ponto que eu faço questão de sublinhar: as fibras não são a solução para tudo. As pessoas ouvem “fibra” e pensam que é sempre melhor e não é assim. As fibras são fundamentais, mas o tipo e a quantidade têm de ser adequados ao estado do intestino e à patologia em causa. Há fases em que excesso de fibra aumenta fermentação, inchaço e desconforto. Por isso, tudo isto tem de ser ajustado ao estádio em que o intestino está, e ao caminho terapêutico que estamos a fazer com aquela pessoa. Na sua experiência, quais são os três desequilíbrios mais subdiagnosticados nas mulheres hoje? E como distingue uma alteração hormonal de uma causa concreta que precisa de ser tratada? Hoje em dia chegam até mim muitas mulheres com queixas intestinais, mas com uma componente extra-intestinal muito marcada, e muitas vezes nem sabem que esses sintomas podem estar ligados. Vêm com inchaço, flatulência exacerbada, obstipação, diarreia ou alternâncias, dificuldades digestivas, sensibilidades e intolerâncias alimentares e, ao mesmo tempo, com muita dificuldade em perder peso. E a lista raramente fica por aí: compulsão por doces, esteatose hepática não alcoólica, fadiga, “névoa cerebral”, alterações de humor, ansiedade, problemas de sono, queda de cabelo, unhas quebradiças e, cada vez mais, doenças autoimunes. E é aqui que eu tento evitar precisamente essa armadilha, não atribuir tudo a “hormonas” como se fosse uma explicação vaga e inevitável. Porque, muitas vezes, há causas concretas e tratáveis e o intestino é uma das peças centrais dessa equação. Quando tratamos o intestino e olhamos para ele com seriedade, grande parte deste quadro melhora de forma consistente. No tema da saúde feminina, isso é especialmente relevante na perimenopausa e na menopausa. Eu gosto de trabalhar estas fases com um olhar de possibilidade: sim, o corpo muda, mas isso não significa que a mulher tenha de “aguentar” tudo como se fosse normal. Do ponto de vista intestinal, quando melhoramos a microbiota e a integridade da barreira intestinal, estamos também a influenciar a forma como o corpo metaboliza hormonas. Existe um conjunto de bactérias a que chamamos estroboloma, que participa no metabolismo dos estrogénios e isto é muito importante. O que eu observo na prática é que mulheres em perimenopausa, menopausa, ou mesmo com irregularidades menstruais, quando fazem um trabalho intestinal bem feito, por exemplo, passando pelo Programa RESET e cumprindo as várias fases, não só na alimentação e suplementação, mas também no estilo de vida, começam a notar melhorias que vão muito além do abdómen: o ciclo torna-se mais “fácil”, as dores diminuem, o desconforto reduz, há menos cefaleias, e a mulher sente-se mais leve, mais estável, mais bem-disposta. E isto não é “magia hormonal”, é fisiologia a responder quando tiramos o corpo de um estado de inflamação e alerta constante. Agora, isto não significa abandonar terapêuticas quando elas são indicadas. Eu não sou contra, por exemplo, a terapêutica hormonal de substituição bioidêntica, desde que seja bem avaliada e feita por profissionais que saibam realmente o que estão a fazer. O que eu defendo é que, mesmo quando se trabalha com hormonas, temos de olhar para o intestino: para a permeabilidade, para as bactérias que lá habitam, para a inflamação de base e para o contexto de estilo de vida. Porque, quando ajustamos alimentação, hábitos, gestão de stress e sono, o sono começa a regular-se, o humor estabiliza e o corpo ganha margem para responder melhor. E, se for necessário intervir mais diretamente no eixo hormonal, há estratégias que podem ser trabalhadas de forma natural, na naturopatia e na homeopatia, com compostos como a onagra, que eu gosto de usar, ou a maca, por exemplo. E, quando faz mais sentido, podemos e devemos articular com um médico que trabalhe hormonas de forma séria e adequada. Que mensagem final gostaria de deixar aos nossos leitores? A mensagem final que eu gostava de deixar é simples: cuidar do intestino é cuidar do corpo como um todo. Hipócrates já dizia há mais de 2.000 anos que “todas as doenças começam no intestino” e hoje a comunidade científica tem vindo a confirmar, com evidência cada vez mais robusta, que um intestino saudável está ligado a metabolismo mais otimizado, menor inflamação silenciosa, mais facilidade na gestão do peso (para perder ou ganhar, conforme o caso), melhor digestão, mais foco, energia e vitalidade e uma imunidade mais equilibrada. O que recomendo são estratégias personalizadas, consistentes e diárias, que combinem alimentação, suplementação quando indicada, exercício físico, gestão de stress e sono reparador. É isso que cria resultados duradouros. E está na hora de olharmos para o intestino para além da digestão, de deixarmos de normalizar a obstipação constante, a dor, as cólicas, ou a ideia de que “já fiz tudo e não encontro nada”. Muitas vezes, falta apenas olhar para o sítio certo. Morada: Endereço: Av. João de Deus 444, 4445-474 Ermesinde Contacto: 22 112 6368 (chamada para a rede fixa nacional) | (+351) 911 055 556 (chamada para a rede móvel nacional) Facebook: Reset Clinic Saúde Integral Instagram: @resetclinic.pt Site: resetclinic.pt Marcações: dravaniateixeira.pt/links Do Direito ao empreendedorismo, Fernanda Roma ensina-nos como se define a “arquitetura do olhar” “Aquilo a que chamamos falta de força de vontade é, muitas vezes, um metabolismo a defender-se”
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