ÉS DE BRAGA/SAÚDE ORAL “A verdadeira decisão não está entre salvar um dente ou colocar um implante, mas em escolher a solução com melhor prognóstico” By Revista Spot | Maio 30, 2026 Junho 1, 2026 Share Tweet Share Pin Email Por trás de um dente fraturado, de uma infeção, de uma reabilitação antiga ou de um sorriso que alguém evita mostrar, pode existir muito mais do que um problema clínico. Médica dentista com especial foco na prática de Cirurgia Geral, Reabilitação Oral e Endodontia, Sara Teles Rodrigues defende uma Medicina Dentária consciente, onde cada decisão deve respeitar a biologia, a função e a identidade do paciente. “Salvar, extrair, reabilitar ou esperar nunca são decisões meramente técnicas, são escolhas que podem marcar a saúde e a confiança de uma pessoa durante anos”, explica. Nesta entrevista, a médica dentista fala sobre decisões irreversíveis, mitos em torno dos implantes, a influência das redes sociais na estética do sorriso e a importância de uma Medicina Dentária que resiste à pressa. Como nasceu o seu interesse pela Medicina Dentária e de que forma áreas como a Endodontia, a Cirurgia e a Reabilitação Oral foram ganhando importância no seu percurso? Entrei em Medicina Dentária pela componente humana, mas foi na cirurgia e na reabilitação oral que encontrei verdadeiramente a minha identidade clínica. Sempre me atraíram os casos mais exigentes aqueles em que precisamos de pensar, planear, decidir e reconstruir com precisão. A Endodontia ensinou-me o valor de salvar e aproximou-me também dessa ideia de preservar ao máximo aquilo que é natural. Acho fascinante conseguirmos salvar dentes que muitas vezes o paciente já considera perdidos. Mas ao mesmo tempo, a cirurgia e reabilitação ensinou-me a olhar para o paciente como um todo e a perceber quando precisamos de reconstruir de forma previsível e funcional. E acho que foi exatamente nessa fronteira entre preservar e reconstruir que encontrei a minha identidade clínica. Gosto da precisão, do detalhe, mas também do significado humano por trás de cada caso. A sua página fala em “Everyday Dentistry”. O que é que existe de invisível, e por vezes decisivo, na Medicina Dentária do quotidiano? “A “Everyday Dentistry” nasce muito dessa responsabilidade silenciosa que existe antes de qualquer tratamento começar. Há uma parte invisível da Medicina Dentária que não está no resultado final, mas na decisão clínica. E muitas vezes, a decisão mais correta não é fazer mais, é preservar mais. Vivemos numa era em que tudo parece rápido, imediato e altamente estético, mas há procedimentos que são irreversíveis. Desgastar dentes saudáveis, alterar estruturas naturais, colocar implantes ou reabilitar extensamente exige um entendimento muito claro por parte do paciente sobre aquilo que está realmente a fazer não apenas hoje, mas ter consciência que o que vai fazer vai refletir-se daqui a 10 ou 20 anos. Por isso, para mim, a consulta começa muito antes da execução técnica. Começa na leitura dos detalhes. Porque às vezes aquilo que incomoda profundamente o paciente é um detalhe pequeno. Uma assimetria, uma borda fraturada, uma alteração subtil no sorriso e resolver isso de forma conservadora pode mudar completamente a forma como essa pessoa se vê, sem entrar em tratamentos invasivos e irreversíveis. Acredito muito numa Medicina Dentária consciente. A tecnologia deu-nos ferramentas extraordinárias, mas também aumentou a tentação de transformar tudo. E nem tudo precisa de ser transformado. Às vezes, a verdadeira excelência está em saber preservar, simplificar e resolver os problemas que incomodam o paciente no seu dia a dia. Que sinais revelam que ainda vale a pena recuperar um dente e que sinais indicam que talvez seja melhor a reabilitação com implante? A decisão de não salvar um dente e avançar para o implante deve ser tomada quando o prognóstico do dente deixa de ser previsível a médio e longo prazo, não apenas porque o tratamento é mais difícil ou mais demorado. Os principais sinais que nos fazem perceber que já não há uma solução conservadora viável são: fraturas verticais radiculares, destruição estrutural extensa sem possibilidade de restauração previsível, perda óssea severa, infeções recorrentes sem controlo ou um comprometimento dos tecidos de suporte do dente que inviabiliza estabilidade futura. E aqui os achados radiográficos são fundamentais. Muitas vezes, é a radiografia ou o CBCT que nos mostra aquilo que clinicamente ainda não é evidente. Mas tão importante quanto saber quando extrair, é saber quando não extrair cedo demais. Hoje existe uma tendência perigosa de considerar o implante como solução “mais simples” ou definitiva. E não é. Um implante substitui um dente; nunca o supera biologicamente. A verdadeira decisão não está entre “salvar” ou “colocar um implante”. Está em perceber qual é a opção que oferece ao paciente maior estabilidade, menor risco biológico e melhor prognóstico a longo prazo. A Medicina Dentária também passa por saber reconhecer limites. Nos casos de fratura dentária, implante imediato ou reabilitação oral, o paciente chega muitas vezes com urgência, medo e expectativa. O que é que se decide na primeira consulta que pode mudar todo o prognóstico? O que mais muda o prognóstico na primeira consulta é aquilo que o paciente sente, não só apenas aquilo que vê. Num momento de urgência, medo e expectativa, o paciente percebe imediatamente se está à frente de alguém focado em “fazer um procedimento” ou em realmente compreender o caso. E acho que a confiança nasce muito aí, na forma como comunicamos, explicamos riscos, mostramos os exames e fazemos o paciente entender que algumas decisões são irreversíveis. Muitas vezes, o que muda o jogo não é a técnica mais complexa, mas a capacidade de diagnosticar bem, controlar a urgência emocional do paciente e escolher o timing certo. Porque um implante colocado cedo demais, uma extração precipitada ou uma reabilitação excessiva podem comprometer muito mais do que resolver. Hoje, mais do que procurar soluções rápidas, os pacientes procuram segurança. Querem sentir que existe pensamento clínico, honestidade e alguém que está a decidir com responsabilidade, não apenas com pressa. A tecnologia trouxe precisão. Mas também trouxe a ilusão de que tudo é simples e rápido? Sem dúvida. A tecnologia revolucionou a Medicina Dentária e hoje conseguimos planear e executar tratamentos com uma previsibilidade extraordinária. Contudo hoje existe quase uma urgência em querer resolver tudo imediatamente. O paciente quer sair com dentes definitivos no próprio dia, e muitas vezes os próprios profissionais acabam por alimentar essa expectativa sem explicar o verdadeiro custo biológico disso. Claro que existem casos lindos de carga imediata e implantes imediatos, que eu também abordo e defendo essa área cirúrgica. Mas há uma diferença enorme entre fazer rápido e fazer corretamente. Às vezes o melhor tratamento começa precisamente por esperar. Fazer regeneração óssea, reconstruir tecidos, preparar o terreno biológico antes de avançar, com o implante e/ou reabilitação. E isso exige honestidade clínica, porque nem sempre é a resposta que o paciente quer ouvir. Mas eu acredito muito que o nosso papel não é vender rapidez. É proteger o prognóstico do caso. Porque um implante mal posicionado com a desculpa de ‘foi onde havia osso’ pode comprometer função, estética e estabilidade a longo prazo. E quando os tratamentos falham, o impacto no paciente vai muito além do financeiro. São novas cirurgias, mais intervenções, desgaste emocional, desconforto, deslocações… e muitas vezes perda de confiança. Por isso, para mim, excelência não é impressionar no imediato. É criar tratamentos que continuem estáveis, naturais e saudáveis muitos anos depois. Mesmo que isso implique mais tempo, mais planeamento e mais paciência, mas é importante os pacientes estarem consciencializados disso. Às vezes cria-se a ideia de que um tratamento é apenas ‘colocar um implante’ ou ‘fazer facetas’, quando na realidade o mais importante é tudo o que acontece antes disso e a estabilidade desse tratamento ao longo do tempo. Vivemos numa era em que muitos pacientes chegam à consulta com uma imagem idealizada do sorriso. Como se gere a fronteira entre o desejo estético e aquilo que é clinicamente responsável? Vivemos numa era em que os sorrisos ficaram extremamente expostos, mas também muito padronizados e “iguais”. As redes sociais criaram uma ideia de perfeição muitas vezes desligada da biologia, da função e até da identidade da própria pessoa. E acho que a fronteira entre estética e responsabilidade clínica está precisamente em perceber que nem tudo o que é possível fazer deve ser feito. Hoje conseguimos transformar quase qualquer sorriso. A questão é: a que custo? Porque muitas vezes isso implica desgastar dentes saudáveis e entrar em procedimentos irreversíveis apenas para atingir uma imagem idealizada. A Medicina Dentária estética não deve criar cópias, deve revelar versões mais saudáveis, equilibradas e confiantes de alguém. E acho que o verdadeiro luxo hoje já nem é ter um sorriso perfeito. É conseguir um resultado natural, funcional e intemporal. No fundo, o nosso papel também é educar. Porque há uma diferença muito grande entre realizar um desejo estético e ter coragem clínica para dizer “não” quando esse desejo compromete a saúde a longo prazo. Sente que a Medicina Dentária ainda é vista de forma demasiado técnica e pouco humana? Sim, acho que durante muito tempo a Medicina Dentária foi vista de uma forma demasiado técnica, quase mecânica. Mas os pacientes não são dentes, nem planos de tratamento, são pessoas, com histórias, inseguranças, traumas, medos e expectativas muito diferentes. A boca é uma zona profundamente emocional. É através dela que sorrimos, falamos, nos mostramos ao mundo. E muitas vezes aquilo que o paciente traz para a consulta não é apenas um problema clínico; é vergonha, perda de confiança ou anos a esconder o próprio sorriso. Por isso, acredito muito que a Medicina Dentária exige sensibilidade e proximidade. O paciente precisa de sentir que está a ser visto como um todo, e não apenas como mais um caso clínico na cadeira. Porque a técnica trata dentes, mas é a relação humana que realmente transforma a experiência do paciente. Como é que se reconstrói a confiança de alguém que já chega à cadeira em modo de defesa? Muitas vezes, esses pacientes não têm medo do tratamento, têm medo de perder o controlo ou de repetir experiências negativas. E a confiança reconstrói-se através de segurança, previsibilidade e escuta ativa. Explicar cada passo, respeitar o ritmo emocional do paciente e dar-lhe controlo durante a consulta faz toda a diferença. Porque a técnica reduz dor, mas é a relação humana que realmente reduz ansiedade. A Reabilitação Oral pode devolver autoestima, função, presença social e até vontade de sorrir. Qual foi o tipo de transformação que mais a marcou, não pela complexidade técnica, mas pelo impacto humano? Lembro-me de uma paciente relativamente jovem que evitava sorrir há anos por causa de uma reabilitação antiga muito comprometida, tanto estética como funcionalmente. Tecnicamente, era um caso exigente, mas o que mais me marcou nunca foi o tratamento em si, foi a forma como ela mudou durante o processo. No início, falava sempre a tapar a boca, evitava fotografias e dizia constantemente “eu só quero sentir-me eu outra vez”. E acho que isso resume muito aquilo que a Medicina Dentária realmente pode devolver. Porque no final, o mais impactante não foi o novo sorriso. Foi vê-la sorrir espontaneamente sem pensar nisso. Às vezes esquecemo-nos que devolver dentes pode significar devolver presença, confiança e até partes da identidade que a pessoa foi perdendo ao longo dos anos. Se tivesse de escolher um mito perigoso sobre implantes, desvitalizações ou próteses que continua a circular entre pacientes, qual seria e porquê é que esse mito pode atrasar tratamentos importantes? Acho que um dos mitos mais perigosos hoje é a ideia de que “mais vale arrancar e colocar um implante, porque fica melhor e dura para sempre”. E isso é perigoso porque normaliza a perda de dentes naturais como se fosse algo simples. Um implante é uma excelente solução quando bem indicado, mas nunca é melhor do que um dente natural saudável ou recuperável. Vejo muitos pacientes a adiar consultas porque acreditam que, se o problema piorar, “depois colocam um implante”. E muitas vezes esse atraso significa mais infeção, mais perda óssea, tratamentos mais complexos e menos opções de tratamento. A Medicina Dentária evoluiu muito, mas preservar continua a ser, quase sempre, a abordagem mais inteligente. Instagram: @saratrodrigues.md Marcações: linktr.ee/saratrodrigues.md “Trabalhar numa Unidade de Neonatologia é cuidar de uma família inteira num momento de enorme vulnerabilidade” “O bebé comunica muito antes de ter palavras”
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