NUTRIÇÃO/Psicologia “A relação com a comida é, muitas vezes, o reflexo da relação que a pessoa tem consigo própria” By Revista Spot | Agosto 4, 2025 Agosto 9, 2025 Share Tweet Share Pin Email Na voz serena e lúcida de Ana Pinto Bastos, Psicóloga, Nutricoach e Especialista no Comportamento Alimentar, há algo que desarma: a recusa em tratar a relação com a comida como um problema de força de vontade. Num mundo onde se confundem dietas com disciplina, Ana convida-nos a olhar para a comida não como inimiga, mas como mensageira. A sua abordagem é profundamente humana: escuta mais do que prescreve, procurando sempre entregar o seu melhor a cada pessoa, tendo na sua bússola: a dedicação, a empatia, o respeito e compaixão por cada história de vida que acolhe. Nesta conversa, não falamos de calorias, falamos de histórias que se repetem em ciclos de restrição e culpa. Mergulhamos na teia emocional que sustenta o comportamento alimentar: da ansiedade à compulsão alimentar, da vergonha à fome emocional e desmontamos mitos antigos com coragem nova. Porque comer não é apenas nutrir o corpo, é, muitas vezes, tentar saciar vazios que a linguagem não alcança. E é aí que a psicologia encontra o seu espaço mais bonito: entre o que dói e o que precisa de ser cuidado, escutado, sentido. Esta entrevista não traz fórmulas. Traz verdades e acolhimento, num olhar essencial sobre a relação disfuncional que a nossa sociedade tem com a comida. De que forma emoções como a ansiedade, a culpa ou a tristeza influenciam o comportamento alimentar no dia a dia? A relação com a comida é, muitas vezes, um espelho da nossa relação connosco. Mais do que uma questão nutricional, a forma como nos alimentamos está profundamente enraizada nas nossas vivências emocionais, experiências passadas, de dores e feridas não integradas e processadas, no fundo da nossa história. Quando emoções como ansiedade, tristeza ou culpa surgem, e são mal geridas ou evitadas, é comum as pessoas procurarem conforto imediato ou até uma forma de refúgio pelo mecanismo de evitamento das emoções, na comida. Este comportamento não se resume à fome física, mas sim à fome emocional, que procura silenciar desconfortos internos. A comida torna-se, assim, uma anestesia emocional: acessível, rápida e eficaz a curto prazo em oferecer alívio. Muitas pessoas referem que, nesses momentos, comem de forma automática, sem consciência, sem prazer real, apenas para deixar de sentir – uma estratégia disfuncional de regulação emocional. Isto está muitas vezes relacionado com uma história de vida onde a comida era expressão de amor, cuidado ou recompensa, algo muito presente na cultura portuguesa. Os “miminhos” da avó, o prato favorito quando estávamos tristes… tudo isso molda o nosso vínculo emocional com os alimentos. Além disso, vivemos num contexto de elevada exigência, stress, dificuldade em estabelecer limites e ausência de tempo para parar e sentir. O corpo pede alívio, conforto, colo e a comida surge como uma das formas mais rápidas de o obter. Contudo, este padrão, quando repetido, pode tornar-se disfuncional e estar na origem de ciclos de culpa e descontrolo alimentar. Por isso, cultivar uma alimentação consciente (mindful eating), aprender a estar presente e desenvolver literacia emocional e a aceitação das emoções são passos fundamentais para uma relação mais equilibrada com a comida e, acima de tudo, connosco próprios. Que impacto tem a cultura dos “corpos ideais” e das dietas rápidas no desenvolvimento de perturbações alimentares como a anorexia, bulimia ou compulsão alimentar? Vivemos numa sociedade que promove ideais de corpo rígidos, irreais e muitas vezes inatingíveis. As redes sociais, os meios de comunicação e até o marketing associado ao verão alimentam a crença de que a felicidade, o sucesso e a aceitação social estão diretamente ligados à imagem corporal. A mensagem é clara: “se tiveres este corpo, serás mais feliz”. Este padrão de comparação constante pode ser profundamente destrutivo. Neste ambiente, a dieta surge frequentemente como a porta de entrada para muitas perturbações alimentares. O problema não está apenas na dieta em si, mas na mentalidade que se instala: a ideia de que há alimentos “bons” e “maus”, de que “furar a dieta” é fracasso, de que o corpo só é válido se for magro. Isto gera uma relação obsessiva com a comida, com o peso, com o espelho. Esta cultura do corpo perfeito está associada à mentalidade de dieta (das proibições, das restrições, da contagem de calorias, da pesagem dos alimentos, de cortar grupos alimentares), o controlo constante da alimentação para atingir o corpo ideal. A dieta é o principal fator de risco para o desenvolvimento de uma Perturbação do Comportamento Alimentar (PCA) (o que não quer dizer que todas as pessoas que tenham feito uma dieta, tenham desenvolvido uma PCA). Começar a controlar a ingestão dos alimentos, a contar calorias, o exercício físico excessivo, a restrição de determinados alimentos, nomeadamente cortar doces, hidratos de carbono, ou outros alimentos da alimentação associado às dieta em busca do corpo perfeito leva a que uma grande percentagem de pessoas desenvolva patologia alimentar ou uma relação disfuncional com a comida e com a imagem corporal. Começa o evitamento a convívios, jantares fora, os medos – o que em casos de Anorexia leve a uma restrição cada vez mais intensa da ingestão de alimentos e nos casos de Bulimia e Perturbação de Ingestão Alimentar Compulsiva não conseguem manter esta rigidez de controlo obsessivo, que leva ao descontrolo. É comum vermos pessoas que vivem em ciclos de restrição e compulsão: restringem durante o dia ou a semana, no entanto, ao final do dia, ou ao fim de semana, perdem o controlo, o que gera culpa e mais restrição no dia seguinte, um ciclo vicioso que desgasta física e emocionalmente. E o mais preocupante é que muitas destas pessoas não têm consciência de que vivem com um comportamento alimentar disfuncional. Dizem coisas como “é falta de força de vontade” ou “não consigo ter controlo à noite”, sem perceber que isso pode ser sintoma de algo mais profundo. Além disto, a relação com o próprio corpo conta uma história. Ninguém nasce a odiar o corpo. As feridas e dores associadas ao corpo, a relação que a pessoa construiu com ele é um reflexo da sua história. Comentários negativos desde a infância, bullying, sentimentos de rejeição, de inferioridade, de invisibilidade, de falta de amor, tudo isto pode marcar o corpo como território de dor e autoexigência. E numa sociedade onde o corpo ainda é usado como critério de valor, tudo se agrava. Importa também desmistificar que comer de forma equilibrada não implica restrição. É possível perder peso sem dietas rígidas, sem eliminar alimentos, sem viver com culpa. A chave está numa alimentação onde todos os alimentos são incluídos e têm espaço, com foco na escuta corporal, no prazer e no equilíbrio. É urgente mudar o discurso social sobre o corpo e a comida, promover a diversidade corporal e educar para o respeito, a aceitação e a saúde mental, porque, muitas vezes, o maior peso que carregamos não está no corpo, mas na forma como o vemos e tratamos. O que distingue um comportamento alimentar disfuncional de uma perturbação alimentar diagnosticada? E como é que alguém pode reconhecer sinais de alerta em si ou em alguém próximo? Uma perturbação alimentar é uma condição clínica bem definida, com critérios de diagnóstico estabelecidos e validados cientificamente, de acordo com o DSM-V (Manual de Diagnóstico das Perturbações Mentais), o manual de referência para os profissionais de saúde mental. Aqui incluem-se os diagnósticos de Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa e Perturbação de Ingestão Alimentar Compulsiva. Nestes casos, a relação com a alimentação encontra-se profundamente comprometida, afetando de forma significativa a saúde física, emocional, social e psicológica da pessoa. Há obsessão com o corpo, um controlo extremo sobre a alimentação, comportamentos compensatórios (como vómito autoinduzido, uso de laxantes ou exercício físico excessivo) e frequentemente, um isolamento social progressivo em função desses comportamentos. Por outro lado, quando falamos de comportamentos alimentares disfuncionais, também chamados de desadaptativos ou problemáticos, referimo-nos a padrões de alimentação que, embora não cumpram os critérios clínicos para uma perturbação diagnosticável, podem igualmente gerar sofrimento e impactar negativamente o bem-estar da pessoa. É o caso, por exemplo, da fome emocional, do “petiscar” comida constantemente, da ingestão exagerada ou do uso da comida como mecanismo de regulação emocional. Estes comportamentos podem parecer inofensivos no início, mas têm o potencial de evoluir e agravar-se com o tempo. Reconhecer os sinais de alerta é fundamental. Preocupações excessivas com o corpo ou com a comida, evitar refeições em público, pesquisar obsessivamente os menus de restaurantes à procura de opções “seguras”, sentir culpa após comer ou a necessidade de compensar aquilo que se ingeriu são indicadores que merecem atenção. Quando a comida começa a ocupar um lugar central na vida da pessoa, através de pensamentos persistentes, interferindo nas relações sociais, no prazer, liberdade de escolha e equilíbrio emocional, é fulcral procurar ajuda. A fronteira entre o disfuncional e o patológico é, muitas vezes subtil, mas o sofrimento que provoca é real e merece escuta e acompanhamento especializado. O que é a fome emocional e como pode ser trabalhada em consulta? A fome emocional, como o próprio nome sugere, esta fome tem origem nas emoções. Ao contrário da fome fisiológica que é gradual, respeita os sinais naturais do corpo e pode ser saciada com praticamente qualquer alimento, a fome emocional é súbita, urgente e altamente seletiva. Ela surge como uma tentativa de compensar ou suavizar estados emocionais desconfortáveis como ansiedade, tristeza, frustração, solidão, raiva ou mesmo tédio, são algumas das emoções que costumam ser um gatilho para a fome emocional. Geralmente a fome emocional é seletiva, ou seja, é satisfeita com alimentos específicos, particularmente de alimentos altamente palatáveis, frequentemente ricos em açúcar, gordura ou sal, uma vez que este tipo de alimentos ativam rapidamente circuitos de recompensa no cérebro. A distinção entre fome física e emocional pode parecer simples em teoria, mas na prática exige um processo profundo de autoconhecimento. Uma das perguntas mais úteis é: “Eu comeria brócolos agora?” Se a resposta for não, talvez não seja fome verdadeira. É neste ponto que o trabalho em consulta faz toda a diferença. O primeiro passo passa por ajudar a pessoa a identificar o tipo de fome que sente, se é corporal ou emocional e a reconhecer e identificar os gatilhos internos e externos que a despertam.Trabalhar a fome emocional em consulta implica desenvolver literacia emocional, ou seja, aprender a nomear, entender e lidar com as emoções de forma consciente e não reativa. Muitas pessoas não conseguem sequer nomear dez emoções diferentes, o que dificulta o reconhecimento dos próprios estados internos. Quando aprendemos a escutar e a identificar o que sentimos, conseguimos também perceber o papel que a comida está a desempenhar naquele momento: estou a comer para me consolar? Para preencher um vazio? Para evitar pensar? A partir daqui o trabalho é muito individualizado. Há que encontrar estratégias adaptativas que cumpram a mesma função emocional da comida, mas que não gerem sofrimento ou culpa a seguir. Pode ser uma caminhada, escrever num diário, fazer respiração consciente, telefonar a alguém, o que for mais eficaz para aquela pessoa, naquele contexto. Importa também perceber que a função da comida emocional muda conforme a emoção. Comer para aliviar a ansiedade não é o mesmo que comer para preencher o tédio, e por isso as respostas precisam de ser ajustadas. Além disso, também aprender a regular as emoções de forma adaptativa e funcional, intervindo em situações específicas e particulares da pessoa para potenciar o seu bem-estar e reduzir a frequência que a emoção aparece. Por exemplo, se a pessoa tem dificuldade em impor limites, o facto de não conseguir dizer não aos outros pode potenciar o aparecimento de emoções como frustração e ansiedade que a leva a procurar na comida uma forma de se acalmar. O trabalho psicoterapêutico também intervém nas causas e fatores que desencadeiam as emoções. Não há soluções mágicas nem atalhos. É um processo gradual, muitas vezes a componente emocional está entrelaçada com questões de autoimagem, histórias de dietas restritivas, crenças familiares, vivências passadas e até traumas. Mas quando feito com empatia, paciência e acompanhamento adequado, esse processo pode transformar não só a relação com a comida, mas também a forma como a pessoa se relaciona consigo mesma. Qual é o papel da psicologia no acompanhamento de pessoas que passaram ou vão passar por cirurgia bariátrica? Que tipo de preparação emocional é essencial nestes casos? A cirurgia bariátrica é, muitas vezes, vista como um “ponto final” no sofrimento associado ao excesso de peso, mas na verdade ela marca o início de uma transformação profunda, que vai muito além da redução do número na balança. Não se trata apenas de uma intervenção física, é, antes de mais, uma travessia emocional, identitária e comportamental. É aqui que a psicologia se torna um pilar essencial, antes e depois da cirurgia. Antes da intervenção, é comum encontrarmos expectativas idealizadas: “a cirurgia vai resolver a minha vida”, “quando emagrecer, tudo se vai alinhar”, a minha imagem será muito mais bonita e as minhas inseguranças com a imagem corporal acabarão.”.Estas expectativas são legítimas, mas precisam de ser cuidadosamente trabalhadas. A pessoa precisa de estar emocionalmente preparada para as mudanças exigentes que vai experienciar, tanto no corpo como na relação com a comida, com os outros e consigo mesma. A cirurgia altera a anatomia do estômago, sim, mas não transforma automaticamente os padrões emocionais, as crenças alimentares enraizadas ou os traumas associados ao corpo e à alimentação. A preparação psicológica passa por desenvolver consciência dos próprios comportamentos alimentares, identificar mecanismos de compensação (como o uso da comida para regular emoções), trabalhar a autoestima e, sobretudo, ajustar expectativas. Muitas pessoas, ao iniciarem a perda de peso rápida, deparam-se com o excesso de peles, alterações na imagem corporal e até com dificuldades em se reconhecerem no “novo corpo”. Isto pode gerar frustração, vergonha e até isolamento, inclusive na intimidade sexual. Depois da cirurgia, o acompanhamento torna-se ainda mais crucial. Apesar da restrição física imposta pelo procedimento cirúrgico, os padrões alimentares antigos podem ressurgir, o retorno da sensação de fome, de “desejos” por comida e de perda de controlo e há o risco de a pessoa voltar a usar a comida como forma de lidar com a ansiedade, o stress ou o vazio emocional. A literatura científica mostra que, sem suporte psicológico contínuo, muitas pessoas voltam a ganhar peso, algumas até mais do que o que haviam perdido, o que pode dar origem a um ciclo de desilusão, autojulgamento e descomprometimento com os novos hábitos. A psicologia ajuda a prevenir estes comportamentos, oferecendo ferramentas de regulação emocional e estratégias de adaptação que respeitam a complexidade da mudança. A cirurgia é um recurso poderoso, mas não é mágica. O verdadeiro impacto reside na capacidade de integrar essa mudança no quotidiano de forma sustentável, com apoio, consciência e acolhimento emocional. E esse é precisamente o território onde a psicologia especializada no comportamento alimentar pode fazer toda a diferença. Existe uma ideia generalizada de que “comer saudável” ou “perder peso” é apenas uma questão de força de vontade. Que mitos precisam de ser urgentemente desconstruídos quando falamos em comportamento alimentar? A ideia de que o comportamento alimentar é apenas uma questão de “força de vontade” é uma das maiores simplificações, e injustiças, que ainda hoje se perpetuam na sociedade. Reduzir uma vivência tão complexa como a alimentação a um simples “fecha a boca e faz exercício” é não só incorreto, como profundamente insensível. Comer (e deixar de comer) não é um ato isolado de disciplina; é uma expressão de hábitos, emoções, crenças, histórias de vida e, muitas vezes, de sofrimento invisível. Há quem seja extremamente competente em várias áreas da vida, profissionalmente bem-sucedido, disciplinado, empenhado e ainda assim sinta dificuldade em gerir a relação com a comida. Isto não é falta de caráter, nem preguiça. Muitas vezes, é sinal de que a alimentação está a ser usada como mecanismo inconsciente de compensação emocional, muitas vezes a um nível inconsciente de vivências e experiências do passado. Quando a pessoa se sobrecarrega com tudo, quando tem de “dar conta do recado” constantemente, pode acabar por encontrar na comida o único espaço onde se permite falhar, descontrair ou simplesmente desligar. Comer não acontece num vazio emocional. Existe, por trás de cada escolha alimentar, um mundo interno feito de inseguranças, memórias, crenças familiares, experiências de infância e, muitas vezes, uma história de tentativas falhadas e frustração acumulada. Dizer a alguém “é só quereres” ou “é só teres força de vontade” não só ignora tudo isso, como agrava o sentimento de inadequação e de fracasso. É urgente desconstruir o mito de que falhar numa dieta é uma fraqueza pessoal. Na realidade, falha-se porque muitas abordagens à perda de peso ignoram os fatores emocionais, psicológicos e sociais. Criam-se regras rígidas, vive-se em restrição constante, entra-se num ciclo de tudo ou nada e a cada recaída reforça-se a ideia de que a pessoa “nunca vai conseguir”. O caminho para uma relação saudável com a comida não é feito de castigos nem de perfeição. É feito de compreensão, de escuta interna, de reconstrução de hábitos, de redefinição de objetivos, ressignificação de crenças e, sobretudo, de autocompaixão e cura de feridas passadas. O acompanhamento psicológico ajuda precisamente a sair deste ciclo de autossabotagem, oferecendo ferramentas que vão além da motivação do momento e que assentam em consciência, responsabilidade emocional, autoconhecimento e construção de um estilo de vida possível e não apenas ideal. O acompanhamento multidisciplinar (psicólogo, nutricionista, médico) pode ser mais eficaz do que uma abordagem isolada nos casos de perturbações alimentares ou perda de peso significativa? O acompanhamento multidisciplinar é, na verdade, a abordagem verdadeiramente eficaz quando falamos de perturbações alimentares e processos complexos de perda de peso. Estas condições não vivem apenas no corpo, vivem também na mente, nas emoções, nas crenças e, muitas vezes, na própria história de vida da pessoa. Tentar resolvê-las de forma isolada, com uma única abordagem, é como tentar montar um puzzle inteiro com apenas uma peça. Pensemos, por exemplo, na anorexia nervosa: uma das perturbações alimentares mais complexas e com maior risco clínico. Há um comprometimento crítico da componente orgânica e fisiológica, que gera um elevado risco na saúde física da pessoa e em que é frequente existirem alterações no funcionamento cardiovascular, défices nutricionais graves, alterações hormonais, ósseas, metabólicas. Mas há também um sofrimento psicológico profundo, com distorções severas da imagem corporal, uma necessidade obsessiva de controlo e, por vezes, comorbilidades psiquiátricas como a depressão, ansiedade ou perturbação obsessiva-compulsiva. Só uma equipa composta por médico, psicólogo, nutricionista (e muitas vezes psiquiatra) pode dar uma resposta integrada, coordenada e segura. Também no caso do excesso de peso e da obesidade e, ainda mais em processos como a cirurgia bariátrica, esta abordagem em equipa é imprescindível. A obesidade não é, ao contrário do que ainda se acredita, apenas uma questão de “comer demais”. Envolve fatores genéticos, hormonais, ambientais, emocionais e comportamentais. Pode haver disfunções endocrinológicas ou metabólicas que o médico ou endocrinologista deve avaliar. O nutricionista tem um papel essencial na educação alimentar, na reposição de micronutrientes (que advêm da cirurgia bariátrica), no desenvolvimento de estratégias práticas de planeamento alimentar. E o psicólogo entra onde tudo converge: na relação que a pessoa tem com a comida, com o corpo, com o controlo, com o prazer, com a culpa e consigo mesma. Quando estas áreas comunicam entre si, os resultados são não só mais eficazes, como mais sustentáveis. Porque não basta “emagrecer”, é preciso entender o porquê do excesso de peso, modificar a relação com a alimentação, perceber que papéis emocionais a comida tem desempenhado, e aprender a lidar com os desafios da mudança sem cair em padrões antigos. A imagem corporal e a relação com o espelho afetam profundamente a saúde mental de muitas pessoas. Como promover uma relação mais compassiva com o próprio corpo num mundo altamente visual e comparativo? Vivemos numa sociedade onde o corpo deixou de ser apenas corpo, passou a ser símbolo, cartão de visita, objeto de avaliação constante. As redes sociais, a publicidade, os ideais estéticos muitas vezes inatingíveis impõem uma narrativa visual onde o valor de uma pessoa parece medir-se pelo reflexo que o espelho devolve. E isto tem um custo altíssimo no sofrimento emocional, especialmente quando a imagem corporal sentida não corresponde ao ideal que se interiorizou. A imagem corporal, no fundo, é a forma como a pessoa experiencia o seu corpo e isso raramente coincide de forma objetiva com o que o corpo realmente é. É uma construção profundamente subjetiva, influenciada por vivências pessoais, experiências passadas (muitas vezes traumáticas), pressões familiares ou sociais, e mensagens culturais sobre o que é o “corpo certo”. Promover uma relação mais compassiva com o corpo não é promover conformismo. É, antes, ensinar a aceitar o corpo como ele é hoje, com os seus limites e a sua história, enquanto se cuida dele, sem violência. Não se trata de passar a “gostar de tudo”, porque ninguém gosta de todas as partes do seu corpo. Mas sim de deixar de o tratar como um inimigo. E isso começa com a linguagem interna: em vez de dizer “estou horrível”, dizer “hoje não me sinto tão bem no meu corpo”. É uma mudança pequena, mas com grande impacto. Porque a forma como falamos connosco molda e impacta a forma como nos sentimos. É um treino diário, gentil, contínuo. Cultivar a autocompaixão exige atenção ao tipo de conteúdos que consumimos (por exemplo, fazer detox de redes sociais que promovem comparação constante), às pessoas com quem nos rodeamos (que tipo de discursos fazem sobre o corpo?), e até à história familiar (quantas mulheres cresceram a ouvir as mães criticar os próprios corpos à frente do espelho, a projetarem nas filhas expectivas delas e a criticarem a imagem corporal das filhas?). Também é fundamental compreender que, em muitos casos, o corpo carrega funções simbólicas. Por exemplo, o excesso de peso pode representar proteção, em casos de experiências traumáticas, o corpo aumenta como forma inconsciente de afastar o olhar do outro. Pode ser a única forma de manter o vínculo com uma figura significativa (como uma mãe que só presta atenção quando se fala de dietas). Ou pode ser uma forma de “carregar o mundo”, como acontece com muitas mulheres que se sentem responsáveis por tudo e por todos. Trabalhar a imagem corporal é muito mais do que ensinar alguém a gostar do seu reflexo. É ajudar essa pessoa a perceber de que forma o seu corpo tem sido instrumento, escudo ou castigo e permitir que possa, finalmente, habitá-lo com menos culpa, mais cuidado e mais compaixão. Procurar ajuda profissional, se necessário, é um ato de autocuidado e amor próprio. Que mensagem gostaria de deixar a quem sente que “perdeu o controlo” sobre a comida ou sobre o seu corpo, mas tem medo ou vergonha de procurar ajuda? Antes de mais, é fundamental reconhecer que esse medo ou vergonha não surgem do nada, são fruto de uma sociedade que, durante demasiado tempo, nos ensinou que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Crescemos a acreditar que devemos ser fortes, resilientes a todo o custo, e que mostrar vulnerabilidade é algo a esconder. Mas isso não podia estar mais longe da verdade. Procurar ajuda é, na realidade, um gesto de coragem, é o primeiro passo para recuperar o controlo, não o contrário. Além disso, muitas pessoas acreditam que estão sozinhas nas suas dificuldades, que o que sentem é incompreensível ou único. A verdade é que não estão. É surpreendente o número de pessoas que vivem presas numa relação difícil com a comida ou com o corpo e, ainda assim, acreditam que são as únicas a sentir aquilo. Reconhecer que estas dificuldades são partilhadas por tantos outros pode aliviar esse peso silencioso da vergonha. É igualmente importante acreditar que é possível mudar. Mesmo que agora não pareça, mesmo que a esperança esteja enfraquecida, a mudança é real e está ao alcance. Reescrever a nossa história com a comida, com o corpo e com as emoções é possível e o primeiro passo pode ser tão simples como abrir espaço para falar sobre isso com alguém capacitado para ouvir, acolher e orientar. Vulnerabilidade não é fraqueza, é humanidade. E quando é aceite e partilhada num espaço seguro, torna-se a maior força de todas. O que esperar da primeira consulta? A primeira consulta é, antes de tudo, um espaço de acolhimento. Não é necessário chegar com todas as respostas, nem com o discurso preparado. Não é preciso contar tudo de uma vez. Cada pessoa é respeitada no seu ritmo, com toda a delicadeza que o processo exige. A ideia de que se vai “expor demais” ou “partilhar coisas íntimas demais” logo na primeira sessão pode ser intimidante, mas não é isso que se espera. O mais importante é que sinta segurança para ser quem é, sem pressões, sem crítica e julgamento. Nas minhas consultas há espaço para todos. Todas as questões serão acolhidas e merecedoras de atenção. A relação terapêutica começa com o vínculo, com o encontro genuíno entre dois seres humanos. E esse vínculo só se constrói com tempo, escuta, respeito e ausência de julgamento. Há espaço para o silêncio, para a hesitação, para recuar, avançar, rir ou chorar. E, acima de tudo, há espaço para ser verdadeiro, autêntico É também perfeitamente legítimo não sentir essa conexão com o primeiro profissional que se encontra. A aliança terapêutica, aquilo a que muitas vezes chamamos “o clique”, é essencial para que o processo funcione. Se não se sentir esse encaixe, procurar outro profissional não é falhar, é cuidar de si. Por fim, é importante saber que o acompanhamento não se limita ao momento da consulta. Muitos profissionais comprometem-se com o processo de forma contínua, com entrega, paixão e verdadeira presença. Estão lá para caminhar ao lado da pessoa, de mãos dadas, oferecendo suporte consistente, mesmo nos dias difíceis. O meu acompanhamento vai muito além da consulta. Porque a mudança não acontece de um dia para o outro, mas com tempo, segurança, e sobretudo, com presença. A minha intervenção centra-se numa abordagem inclusiva, visando o autoconhecimento e a autocompaixão como as chaves para o resgate do equilíbrio e bem-estar psicológico e emocional da pessoa. Procuro sempre entregar o meu melhor a cada pessoa que me procura e, acima de tudo acredito no enorme potencial humano e na sua capacidade de transformação. Instagram: @psi.anapintobastos Marcações: linktr.ee/psi.anapintobastos No Head & Face Spa de Patrícia Dinis o cabelo torna-se espelho dos nossos hábitos de vida e das nossas emoções “Quantas mulheres vivem anos a normalizar sintomas no pavimento pélvico sem saber que há solução? Uma avaliação pode mudar tudo”
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