Cirurgia/SAÚDE OCULAR “A maioria dos pacientes não sabe que a cirurgia moderna pode eliminar os óculos em qualquer idade, transformando o que era um ‘custo de vida’ num investimento em liberdade e conforto” By Revista Spot | Março 6, 2026 Março 8, 2026 Share Tweet Share Pin Email Ver mal ainda é, para muitas pessoas, uma rotina silenciosa. Ajustam-se os óculos, adiam-se consultas, tolera-se o desconforto ao fim do dia, a fadiga perante os ecrãs, a dependência das lentes e a dificuldade crescente de ver ao perto depois dos 40. Durante anos, milhões de pessoas habituaram-se a viver assim, como se fosse inevitável. Mas a oftalmologia mudou. Hoje, entre o LASIK, as lentes fáquicas e as lentes multifocais, a discussão já não passa apenas por ver melhor, mas por devolver conforto, autonomia e qualidade de vida com um grau de precisão que, há poucos anos, parecia improvável. O oftalmologista Marco Rego trabalha nessa área de exigência máxima, onde a ciência, a decisão clínica e a tecnologia se cruzam para responder a uma pergunta cada vez mais atual: por que razão devemos continuar a aceitar ver mal, quando em tantos casos já é possível viver com mais liberdade visual? Como é que o seu caminho se cruzou com a oftalmologia? Desde muito novo que sabia que queria trabalhar na área da saúde e, durante muitos anos, imaginava-me como cirurgião. Atraía-me a precisão, a responsabilidade, a possibilidade de intervir de forma concreta na vida das pessoas. Sou da Régua e fiz lá todo o meu percurso escolar. Tinha boas notas, mas, na altura, não vivi o secundário com essa obsessão das médias como se vive hoje. Acabei o 12.º ano com uma média alta, acima de 18 valores, mas falhei a entrada em Medicina por algumas centésimas. Entrei então em Ciências Farmacêuticas, no Porto, que acabou por ser, ao mesmo tempo, um desvio e uma etapa muito importante da minha formação. A passagem pela Farmácia deu-me muito. Deu-me autonomia, maturidade e uma visão muito concreta de como funciona o setor da saúde para lá da componente estritamente clínica. Fiz o curso, trabalhei em farmácia comunitária e, mais tarde, assumi funções de direção técnica num laboratório farmacêutico. Foi uma fase muito rica, porque me obrigou a crescer depressa e a conciliar ciência, gestão, comunicação e responsabilidade. Mas também foi aí que percebi, com toda a clareza, que não era esse o lugar onde me via a longo prazo. Sentia que queria um contacto mais direto com o doente, uma prática mais médica, mais interventiva, mais próxima da decisão clínica. Foi por isso que decidi voltar a tentar Medicina. Entrei no ICBAS com outra maturidade e vivi o curso de Medicina com a certeza de que estava, finalmente, no sítio certo. A oftalmologia apareceu depois como uma especialidade quase inevitável. Atraiu-me essa combinação rara entre medicina e microcirurgia, entre tecnologia e sensibilidade clínica. Fiz a especialidade em Coimbra, um centro de formação de excelência, e foi aí que comecei a aproximar-me cada vez mais da área da cirurgia refrativa e da cirurgia do cristalino. Percebi que era nesta área que queria aprofundar-me. Fiz estágios fora, nomeadamente em Espanha, com equipas muito avançadas nesta área, e fui construindo o meu caminho nessa diferenciação. O que me entusiasma até hoje é isso: poder oferecer uma solução altamente personalizada, mexendo num órgão extraordinariamente nobre, com enorme respeito pela expectativa do doente e pela responsabilidade de intervir num olho que, muitas vezes, “está bem”, mas pode ficar melhor. Porque é que ainda “aceitamos” ver mal? Aceitamos porque o cérebro se habitua à mediocridade visual, mas também por desconhecimento. Muitas pessoas gastam milhares de euros ao longo da vida em óculos progressivos caros, sem perceberem que esse valor seria um investimento numa solução definitiva. Além do custo, há o incómodo físico: o peso no rosto e a dependência constante. A maioria dos pacientes não sabe que a cirurgia moderna pode eliminar os óculos em qualquer idade, transformando o que era um “custo de vida” num investimento em liberdade e conforto. Como distinguir miopia, hipermetropia e astigmatismo? A forma mais simples de distinguir estes problemas é perceber como e quando a visão falha. Na miopia, a dificuldade está sobretudo em ver ao longe: sinais, legendas, rostos à distância ou o quadro começam a ficar desfocados. Na hipermetropia, o esforço é mais silencioso. Muitas pessoas conseguem ver, mas à custa de uma tensão constante dos olhos, o que pode provocar cansaço visual, dores de cabeça, ardor, sensação de peso ocular e maior desconforto ao fim do dia ou em ambientes com pouca luz. Já o astigmatismo provoca uma visão menos nítida e mais irregular, como se a imagem surgisse distorcida, com sombras, duplicação ligeira ou luzes “espalhadas”, algo que se torna particularmente incómodo à noite. O problema é que muitas pessoas habituam-se a ver mal e acham normal viver assim. Mas adiar a correção é prolongar um esforço que o olho e o cérebro fazem todos os dias para compensar o que não está a focar corretamente. E isso traduz-se muitas vezes em fadiga, menor conforto e pior qualidade de vida. Adiar a correção é aceitar viver com menos energia, pois o cérebro consome recursos a tentar focar o que o olho não consegue. Seja com óculos, lentes de contacto ou cirurgia refrativa, a nitidez devolve qualidade de vida imediata. Em que ponto é que a miopia passa a exigir outro nível de vigilância? A miopia deixa de ser “só uma questão de graduação” quando o crescimento excessivo do olho torna a miopia patológica, esticando a retina e aumentando drasticamente o risco de descolamento de retina. Em miopias patológicas elevadas, o LASIK raramente é seguro. Até aos 45 anos, a solução de eleição são as lentes fáquicas; após essa idade, optamos pela lensectomia refrativa com lentes multifocais, garantindo segurança e visão a todas as distâncias. Fotografia Samuel Rabaça (@samuel_rabaca) Porque é que tanta gente convive com astigmatismo mal compensado? O astigmatismo ocorre por uma curvatura anómala da córnea, deixando de ser uma esfera. Quando a graduação é inferior a 1 dioptria, é frequentemente subvalorizado, mas o suficiente para causar fadiga ocular e falta de nitidez. As soluções cirúrgicas dependem da idade. Até aos 45 anos utilizamos o LASIK (se houver segurança corneana); após os 45, com a presbiopia associada, a solução passa pela lensectomia refrativa com lentes multifocais tóricas. Como organiza a decisão clínica ao longo da vida? O que é prioritário na infância e na adolescência, o que muda na idade adulta e o que acontece quando surge a presbiopia? A decisão clínica em oftalmologia tem sempre de acompanhar a fase da vida e as necessidades visuais de cada pessoa. Na infância e adolescência, a prioridade é garantir um bom desenvolvimento visual, detetar precocemente alterações refrativas e evitar situações como a ambliopia, o chamado “olho preguiçoso”. Quando o erro refrativo o justifica, a prescrição de óculos não serve apenas para a criança ver melhor, pode ter impacto no rendimento escolar, na atenção, no conforto e até no desenvolvimento social e cognitivo. No adulto jovem, depois de a graduação estabilizar, já podemos equacionar soluções cirúrgicas para reduzir ou eliminar a dependência de óculos ou lentes de contacto. Nessa fase, o LASIK ou as lentes fáquicas são, em muitos casos, excelentes opções, sempre em função da graduação, da espessura e anatomia da córnea, da idade e do perfil visual do doente. A partir do chamado momento dos 40+, surge a presbiopia, ou seja, a perda progressiva da capacidade de focar ao perto, associada ao envelhecimento natural do cristalino. É aqui que a abordagem muda. Em doentes bem selecionados, a lensectomia refrativa com lentes multifocais ou de foco alargado pode ser uma solução muito eficaz, porque substitui o cristalino envelhecido e permite recuperar visão de perto, intermédia e ao longe, com maior independência de óculos. Mais do que procurar uma solução igual para todos, o essencial é perceber o que faz sentido em cada etapa da vida e adaptar a decisão clínica à pessoa que temos à frente. O percurso real para independência de óculos começa na primeira consulta? O sucesso depende de um diagnóstico exímio. A escolha da técnica ou da lente certa é personalizada de acordo com a profissão e os hobbies do paciente. O caminho real é um estudo rigoroso onde decidimos se o paciente beneficia mais de um tratamento na superfície (Laser) ou de uma lente intraocular premium que substitui o cristalino. A recuperação é surpreendentemente rápida, na maioria dos casos, o paciente regressa à vida profissional e pode conduzir em 24 a 48 horas. No que toca ao desporto, atividades leves como caminhadas podem ser retomadas quase de imediato, enquanto o regresso ao ginásio ou corrida ocorre geralmente após uma semana. Desportos de contacto ou natação exigem um cuidado maior, cerca de um mês. O segredo está na personalização, escolhemos a técnica de acordo com a idade, graduação e o estilo de vida de cada um. Quais são os três mitos que ouve com mais frequência na consulta? Há três ideias feitas que continuam a aparecer com muita frequência na consulta e que importa desmontar. A primeira é a de que “o LASIK resolve tudo”. Não resolve. O laser é uma excelente solução em muitos casos, sobretudo quando o problema está na córnea e queremos corrigir miopia, hipermetropia ou astigmatismo. Mas quando a queixa principal já resulta do envelhecimento do cristalino, como acontece na presbiopia, o LASIK pode melhorar a visão ao longe, sem necessariamente resolver a dificuldade ao perto e ao intermédio. Nesses casos, a solução pode passar por outra abordagem, nomeadamente por lentes intraoculares, dependendo sempre da avaliação clínica. O segundo mito é: “tenho astigmatismo, por isso não posso ser operado”. Durante muitos anos, isso gerou dúvidas em muitas pessoas, mas hoje deixou de ser verdade na maioria dos casos. Tanto o laser como as lentes tóricas permitem corrigir o astigmatismo com grande precisão, desde que exista indicação e estudo adequado. Ter astigmatismo não exclui cirurgia; obriga, isso sim, a um planeamento mais rigoroso. O terceiro é a ideia de que “depois dos 50 anos já não vale a pena”. Muitas vezes, é precisamente a partir daí que a cirurgia pode fazer mais diferença. Nesta fase da vida, em que a presbiopia já está instalada e o cristalino começa a envelhecer, determinadas soluções com lentes intraoculares podem devolver uma maior independência de óculos e, em simultâneo, evitar que a catarata venha mais tarde a tornar-se um problema. Não se trata de idade a mais, trata-se de escolher bem o momento certo e a técnica certa para cada pessoa. Como explica, de forma clara, a diferença entre corrigir na córnea com LASIK/PRK e corrigir com lentes, incluindo lentes fáquicas ou troca do cristalino? A decisão baseia-se na idade, na anatomia do olho e no estilo de vida. O Laser (LASIK/PRK) atua na córnea e é excelente para jovens com córneas saudáveis. Já as lentes (Fáquicas ou Lensectomia) são a escolha quando a graduação é muito elevada ou quando o cristalino já não foca ao perto. Enquanto o laser molda a córnea, a lente intraocular adiciona uma “ótica interna” que resolve o problema de forma mais abrangente e definitiva, no caso da lensectomia refrativa com lentes multifocais. Quando fala em lentes multifocais, estamos a falar de quê na prática: cirurgia de catarata quando ela existe, ou remoção/troca do cristalino por motivo refrativo/presbiopia? É fundamental esclarecer: a cirurgia é a mesma, o que muda é o motivo. Na catarata, operamos porque o cristalino está opaco; na presbiopia (lensectomia refrativa), operamos para dar liberdade visual. As lentes multifocais modernas corrigem longe, intermédio e perto (lentes trifocais), mas exigem honestidade. Pode haver halos noturnos iniciais aos quais o cérebro se adapta (Neuroadaptação: ocorre nos primeiros 3 meses). É uma troca, perdemos uma pequena percentagem de perfeição ótica noturna para ganharmos em média, mais de 95% de independência total de óculos. Que exames e medições considera essenciais antes de propor qualquer correção? A segurança começa em saber dizer “não” ou “ainda não”. Exames à córnea (topografia), filme lacrimal, exame da retina (OCT) e uma biometria rigorosa são essenciais antes de qualquer proposta. Recomendo que qualquer doente pergunte: “Quais são os meus limites, os riscos específicos e a probabilidade de ainda precisar de óculos para tarefas minuciosas?”. Uma decisão informada é a única que protege verdadeiramente o doente e o médico. Como se vence o receio da cirurgia ocular? O medo é contornado com tecnologia. Hoje usamos laser de femtosegundo e navegação digital que tornam o ato cirúrgico quase robótico na sua precisão. A cirurgia intraocular moderna utiliza micro-incisões que cicatrizam sem pontos, lentes intraoculares com tecnologia ótica cada vez mais perfeita, tornando a recuperação indolor e o retorno à vida normal quase imediato. O meu papel é transformar esse receio na antecipação da liberdade visual. O que mudou na última década em termos de inovação? A grande revolução foi o salto das lentes intraoculares Trifocais e EDOF (Foco Estendido). Antigamente, o paciente tinha de abdicar de alguma distância visual; hoje, conseguimos criar uma visão contínua, permitindo ver o telemóvel, o computador e a estrada sem interrupções e sem óculos. A precisão dos materiais atuais garante uma estabilidade ótica para o resto da vida. Numa sociedade que vive mais, trabalha durante mais anos e quer manter autonomia até mais tarde, que valor ganha hoje a liberdade visual? Uma sociedade que vê melhor é mais segura e produtiva. Manter a independência visual após os 50 anos reduz drasticamente o risco de isolamento social e acidentes. Ver bem sem as barreiras físicas de uma armação de óculos é, acima de tudo, manter a nossa ligação plena com o mundo e com a nossa autonomia. A cirurgia refrativa não é sobre vaidade; é sobre devolver às pessoas o tempo e a confiança que os óculos e as lentes lhes retiram diariamente. Facebook: Dr. Marco Rego – Médico Oftalmologista Instagram: @dr.marcorego.oftalmologia Site: marcorego.com “Durante anos, o lipedema foi visto como um problema estético e não como uma doença crónica” “Mudamos pelo que fazemos. O estoicismo moderno é a arte de escolher onde investir a nossa energia”
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