SAÚDE DA MULHER/Saúde Infantil “A gravidez, o pós-parto e os primeiros anos de vida de um bebé não são capítulos soltos” By Revista Spot | Fevereiro 19, 2026 Fevereiro 27, 2026 Share Tweet Share Pin Email Em 2020, quando o mundo se fechou e as consultas se tornaram ecrãs, duas fisioterapeutas perceberam que a maternidade continuava a ser vivida com demasiada solidão e com sintomas “normais” que não deviam sê-lo. Raquel Jacinto, fisioterapeuta pélvica, e Liliana Costa, fisioterapeuta pediátrica e respiratória, tiraram da gaveta uma ideia antiga e deram-lhe nome, FisioBoom. Começou como partilha de informação baseada na evidência, clara e sem alarmismos, sobre gravidez, pós-parto e desenvolvimento do bebé; rapidamente passou do online ao presencial, empurrada pelo passa-palavra das famílias. O que une as suas áreas é um olhar contínuo: da gravidez ao primeiro choro, do pavimento pélvico à respiração, do corpo da mãe ao movimento do bebé. Numa época de comparações digitais, defendem a prevenção, a avaliação funcional e uma rede de apoio que devolve confiança. E insistem, “a alta médica não é alta do corpo, a literacia em saúde e o acompanhamento mudam o pós-parto.” Quando é que perceberam que havia uma lacuna na forma como acompanham mães, bebés e famílias e em que momento isso se transformou na Fisio Boom? Raquel Jacinto e Liliana Costa: A Fisioboom nasceu em 2020, em plena pandemia, da vontade de duas amigas, fisioterapeutas há quase 20 anos, em dar vida a um projeto que há muito fazia sentido para nós e que estava na gaveta há demasiado tempo. Desde o início, o nosso foco centrou-se nas áreas da fisioterapia que nos são mais queridas: a saúde da mulher, na gravidez e no pós-parto, e a fisioterapia pediátrica e respiratória, áreas às quais nos dedicamos diariamente com paixão e entrega a cada mulher e família que nos procuram. Sempre tivemos clara a nossa missão: levar informação credível, acessível e baseada na evidência às famílias, numa fase tão especial e, muitas vezes, tão exigente. Com o tempo, o que começou como uma simples página de partilha profissional transformou-se num “cantinho” digital que cresceu para além do online, afirmando-se também num aumento crescente de procura presencial. O passa-palavra das famílias que acompanhávamos mostrou-nos que a Fisioboom tinha espaço para evoluir. Hoje, mais do que um projeto, é uma extensão do nosso propósito profissional, algo que nos completa e realiza profundamente enquanto fisioterapeutas. É também a forma como acreditamos que a fisioterapia deve ser vivida e praticada, com uma abordagem individualizada, respeito por cada mulher e família, conhecimento sustentado na evidência e impacto real na vida das pessoas. Na prática, onde é que fisioterapia na pélvica na gravidez e fisioterapia pediátrica se tocam no dia-a-dia? Raquel Jacinto e Liliana Costa: A fisioterapia na pélvica na gravidez e a fisioterapia pediátrica cruzam-se naturalmente no acompanhamento da família desde a gravidez até aos primeiros anos de vida do bebé. A gravidez, o parto e o pós-parto não são momentos isolados, mas sim fases de um mesmo processo, com impacto direto tanto na saúde da mulher como no desenvolvimento do bebé, e na estrutura de cada família. A forma como a gravidez é vivida, em todas as suas dimensões, emocionais, psicológicas, nutricionais e físicas, e a experiência do parto influenciam não só o corpo e o bem-estar da mãe, mas também o bebé e a relação da díade mãe-bebé. Por outro lado, o desenvolvimento motor e possíveis disfunções, do bebé poderão estar ligados à gestação, ao tipo de parto e à posição intrauterina. É neste ponto que as duas especialidades se cruzam no dia a dia. Ao olhar para a mãe e para o bebé de forma integrada, conseguimos apoiar a família de maneira mais consistente e precoce, promovendo não só a recuperação e o bem-estar materno, mas também um desenvolvimento mais harmonioso do bebé. Esta abordagem permite às famílias sentirem-se acompanhadas de forma contínua, informada e individualizada desde a gravidez até aos primeiros meses de vida do bebé. Criamos uma rede de apoio, da nossa confiança, para as famílias, consoante as suas necessidades. Há sintomas que as mulheres continuam a normalizar nesta fase? Raquel Jacinto: Durante a gravidez, alguns dos sintomas mais frequentemente normalizados, são as perdas urinárias e a dor lombar, dor sacroilíaca e/ou da sínfise púbica, designada por dor lombopélvica. Relativamente às perdas urinárias, a incontinência urinária de esforço é a mais prevalente na gravidez. As perdas de urina, surgem associadas, a um aumento da pressão intra-abdominal, como ao rir, tossir, espirrar, entre outras. Apesar da sua incidência ser maior no segundo e no terceiro trimestre, este sintoma pode manifestar-se numa fase inicial da gravidez. Importa salientar que a gravidez, por si só, pode ser um fator de risco para a incontinência urinária de esforço e que a sua presença durante a gravidez é fortemente preditiva de incontinência urinária no pós-parto. Existem ainda antecedentes clínicos que podem ser fatores de risco acrescidos, tais como, perdas urinárias antes da gravidez, multiparidade, idade materna, obstipação crónica, excesso de peso, antecedentes de partos instrumentados, entre outros. A dor lombopélvica apresenta também uma elevada incidência, afetando cerca de 50% das mulheres durante a gravidez. Por ser frequente, acaba muitas vezes por ser normalizada. Sabe-se que as alterações hormonais, posturais e do complexo abdominal durante a gravidez podem levar a um aumento da instabilidade das regiões lombar e pélvica, originando dor. Mulheres que já apresentavam dor lombopélvica antes da gravidez, ou em gravidezes anteriores, têm maior probabilidade de desenvolver este tipo de sintomatologia na gravidez atual. No pós-parto, continua a verificar-se a normalização de sintomas como a incontinência urinária e a dor durante a relação sexual penetrativa, tanto em mulheres que tiveram parto vaginal como cesariana. Persiste ainda a ideia errada de que apenas o parto vaginal pode provocar disfunções do pavimento pélvico quando, na realidade, a gravidez e o parto, independentemente da via, têm impacto nesta estrutura. Relativamente à dor durante a relação sexual penetrativa após o parto, esta pode estar associada a diferentes fatores, como partos traumáticos, presença de cicatrizes perineais e/ou abdominais, que podem levar a disfunções dos músculos do pavimento pélvico e estruturas adjacentes, assim como a diminuição da lubrificação e secura vaginal, atribuída a uma baixa de estrogénios, pode levar a que a mulher também apresente sintomatologia de dor na relação sexual penetrativa. No caso da diástase abdominal, que é uma grande preocupação da mulher no pós-parto, o problema não é o afastamento dos músculos retos abdominais, mas sim a alteração da função da musculatura abdominal profunda, como do transverso abdominal. Esta disfunção tem impacto tanto na saúde pélvica como na função abdominal, a curto e a longo prazo, comprometendo a capacidade de o corpo responder de forma adequada e de forma sinérgica com outras estruturas do corpo, ao aumento da pressão intra-abdominal nas exigências do dia a dia, no exercício físico ou noutros esforços. Não é raro encontrarmos mulheres que apresentam sintomas, muitos anos após o parto, associadas à gravidez e ao parto. Por isso, conhecer quais são as disfunções mais comuns, os sinais e sintomas de alerta e os fatores de risco associados, tanto na gravidez como no pós-parto, são essenciais para que a mulher saiba quando e onde procurar ajuda especializada. A normalização dos sintomas começa muitas vezes na própria sociedade e reflete-se na forma como a mulher olha para o seu corpo. Torna-se essencial esclarecer o que efetivamente acontece ao corpo da mulher durante a gravidez e o impacto real que esta fase tem em diferentes sistemas, órgãos e vísceras, para que a mulher se sinta informada e motivada a procurar ajuda, não apenas quando surgem sintomas, mas também de forma preventiva. A gravidez deveria ser menos sobre “aguentar” e mais sobre prevenir? Raquel Jacinto: Há uma ideia comum de que a mulher grávida só tem barriga e que, se o bebé está bem, está tudo bem. Claro que a gestação é o foco principal, mas não se reconhece o impacto real que a gravidez tem no corpo da mulher. É uma das fases da vida em que ocorrem alterações significativas em vários sistemas, tais como o sistema hormonal, cardiovascular, respiratório, gastrointestinal, postural, musculoesquelético e uroginecológico. Estas mudanças são necessárias para a gestação, mas podem vir acompanhadas de sintomas ou disfunções. Por isso, é fundamental que as mulheres sejam informadas desde o início da gravidez sobre o que acontece ao seu corpo e sobre alguns fatores de risco que aumentam a probabilidade para o aparecimento de sintomas ou disfunções. Ter acesso a informação baseada em evidência científica e desenvolver literacia em saúde permite que a mulher procure ajuda atempadamente. Trabalhar na prevenção é essencial e é, muitas vezes, a chave de ouro para uma recuperação pós-parto mais harmoniosa. Entre as “6 semanas” e a vida real, o que é recuperar bem no pós-parto? Raquel Jacinto: Normalmente, por volta das seis semanas após o parto, a mulher tem a sua consulta com o/a obstetra para avaliar como está a sua recuperação. Caso esteja tudo medicamente bem, recebe alta e indicação para o retorno à atividade física, geralmente sem restrições, sendo os tempos distintos consoante o parto tenha sido vaginal ou por cesariana. A partir deste momento, muitas mulheres assumem que está “tudo bem” e que podem retomar, por exemplo, a prática de exercício físico como antes da gravidez. Do mesmo modo, quando existem cicatrizes perineais ou abdominais (resultantes de uma cesariana), é frequente considerar-se que não necessitam de qualquer acompanhamento, simplesmente porque “aparentemente está tudo bem”. No entanto, esta perceção tende a desvalorizar o impacto profundo que a gravidez, por si só, teve no corpo da mulher, A isto soma-se o impacto do parto, independentemente do tipo, na saúde pélvica e na qualidade de vida de muitas mulheres, sobretudo quando existe sintomatologia como a incontinência urinária/perdas urinárias, incontinência fecal/perdas de fezes, dor na relação sexual penetrativa, dor perineal, entre outras. É aqui que surge a peça do puzzle que fica em falta: uma avaliação funcional com a fisioterapia pélvica. Através de uma avaliação funcional das diferentes estruturas e sistemas do corpo da mulher, torna-se possível identificar e intervir em disfunções resultantes da gravidez e do parto, não só de forma a reabilitar e reeducar, mas também a prevenir possíveis disfunções. É importante compreender que não existe um timing definido para “terminar” o pós-parto. A alta médica não significa, que o corpo da mulher esteja preparado para retomar a vida como antes da gravidez. O bebé já nasceu, mas não podemos esquecer as profundas alterações fisiológicas e adaptações pelas quais o corpo passou para permitir a gravidez e o parto. Algumas mulheres podem sentir-se em recuperação durante meses ou mesmo anos, seja devido a disfunções físicas resultantes da gravidez e do parto, seja por fatores externos como fadiga, privação de sono ou dificuldades em retomar rotinas pré-maternidade. A sensação de viver um “pós-parto contínuo” revela que a recuperação envolve não apenas o corpo, mas também as dimensões emocional e psicológica. Por isso, recuperar não é apenas voltar ao peso ou à forma física. É respeitar o tempo real do corpo e da mente e compreender que cada mulher tem o seu próprio ritmo, um ritmo que nem sempre coincide com o calendário social ou com as expectativas externas. O Pilates clínico é uma moda ou uma ferramenta? Raquel Jacinto: Para mim, é uma ferramenta, tanto durante a gravidez como na recuperação pós-parto. Durante a gravidez, e com base no conhecimento das alterações fisiológicas que ocorrem no corpo da mulher nesta fase, é possível trabalhar o corpo da mulher de forma integrada, promovendo o bem-estar materno-fetal. O pilates clínico no pós-parto, é um aliado à reabilitação do corpo da mulher na recuperação após o parto. Pode ser também uma das estratégias para preparar o corpo para o retorno da mulher à sua prática de exercício físico, antes da gravidez. Trata-se de uma abordagem com adaptações progressivas, que garante segurança e respeito pelas novas adaptações do corpo da mulher em pós-parto, em consequência da gravidez. O pilates clínico orienta também o foco para a respiração e para a correta ativação abdominal, respeitando as mudanças normais do corpo da mulher, nestas fases da sua vida. Mais do que exercício, proporciona à mulher um momento de reconexão com o seu “novo” corpo, ajudando no alívio de desconfortos, no reforço muscular e no aumento da consciência corporal, através de movimentos lentos, controlados e adequados a cada fase da sua gravidez e das suas necessidades na recuperação. Adaptar os exercícios às diferentes etapas da vida da mulher não é apenas importante, é essencial para garantir a sua segurança e bem-estar. Independentemente de tudo, o exercício físico apresenta inúmeros benefícios, amplamente descritos na literatura, e com evidência científica, para a mulher durante a gravidez. Por isso, a recomendação é que as mulheres se mantenham ativas e procurem profissionais de exercício físico e clínico, para as acompanhar, com conhecimentos aprofundados na gravidez e pós-parto. Como é que se constrói um espaço seguro para falar de disfunção sexual, dor e trauma e onde é que a fisioterapia pélvica consegue mudar vidas? Raquel Jacinto: Esta é uma questão difícil de responder de forma única, porque cada profissional utiliza as suas próprias ferramentas e estratégias. Para mim, é imprescindível começar por criar um ambiente de empatia, escuta ativa e validação daquilo que a mulher sente. Quando a mulher se sente ouvida e acolhida em relação ao que ela sente, é quando se consegue criar um espaço de segurança. Esse espaço é, o primeiro e mais importante passo para a nossa intervenção em fisioterapia pélvica. A dor na relação sexual é um sintoma muito frequente entre as mulheres, mas continua a ser amplamente normalizada e isso não pode acontecer. Dor não é normal, em nenhuma fase da vida da mulher. A dor que a mulher relata é real. Não é “da sua cabeça”, nem imaginação. Se há dor, há uma causa e por isso não pode ser desvalorizada. Esta pode surgir em qualquer fase da vida da mulher, desde a adolescência até à menopausa, e tem uma origem frequentemente, multidimensional e multifatorial, envolvendo causas físicas, hormonais, patológicas, emocionais e psicossociais. Por isso, a abordagem deve ser sempre multimodal, multidisciplinar e, idealmente, interdisciplinar. Existem ainda condições clínicas e fases específicas da vida da mulher que podem aumentar a incidência de dor na relação sexual, como cirurgias abdominais ou pélvicas, tratamentos oncológicos, gravidez, pós-parto, presença de patologias pélvicas e uro ginecológicas, síndrome geniturinário da menopausa, entre outras. A fisioterapia pélvica dispõe de um conjunto de ferramentas e estratégias que podem ajudar significativamente mulheres com dor na relação sexual. A abordagem é sempre individualizada, respeitando a história, o corpo, o ritmo e os limites de cada mulher. E, é precisamente neste espaço de cuidado, escuta e intervenção especializada que vidas começam a mudar. Quais os motivos mais frequentes que levam os pais a procurar uma consulta de fisioterapia pediátrica? Liliana Costa: Existem vários motivos que levam os pais a uma consulta de fisioterapia pediátrica, mas baseada na minha experiência pessoal posso afirmar que na maioria das vezes, os pais procuram a minha ajuda apenas para fazer um check-up e validar que está tudo bem e, outras vezes, por dúvidas sobre o seu desenvolvimento. Isto significa que parte das consultas surgem da necessidade de validar o desenvolvimento do bebé: “Será que ele está a fazer o que devia para a idade?”, “Porque é que ainda não se senta?”, “O filho da minha amiga andou aos 10 meses, e o meu já tem 1 ano e ainda não. É normal?”. É muito natural querer confirmar se o bebé está a ganhar controlo cervical, a rolar ou a gatinhar/andar no tempo certo e da forma adequada. Muitas vezes, o nosso papel é apenas dar essa segurança e dizer: “Está tudo bem, o seu bebé tem o tempo dele, porque ainda está dentro do timing em que é expectável alcançar o objetivo.” Validar e esclarecer as dúvidas dos pais, ou então clarificar e alertar para o que poderá ser um sinal de alerta é sem dúvida uma mais valia na consulta de Fisioterapia Pediátrica. No entanto, existem motivos clínicos muito frequentes, e com necessidade de outro tipo de acompanhamento e intervenção, como os torcicolos e as assimetrias cranianas (a famosa “cabeça achatada”), ou outras alterações posturais. Quando o bebé tem preferência por olhar sempre para o mesmo lado (por exemplo), uma intervenção diferenciada é a chave para corrigir o problema rapidamente. Nestes casos, a intervenção precoce é fundamental para promover um desenvolvimento mais equilibrado e sem outras complicações futuras mais graves. Outra área em que trabalho e que me realiza imenso é o apoio na amamentação. Nesta área tenho a sorte de trabalhar integrada numa equipa incrível, onde em conjunto com a enfermeira (IBCLC), terapeuta da fala e por vezes odontopediatria, damos resposta a esta mãe, bebé e família numa fase de grande fragilidade, que é o pós-parto. Em suma, a fisioterapia pediátrica não serve apenas para intervir em situações de atraso, ou de “problemas graves”, mas também para tranquilizar os pais, orientar no dia a dia, esclarecer sobre sinais de alerta e promover um desenvolvimento saudável desde cedo. Uma avaliação atempada pode fazer grande diferença no percurso da criança e consequentemente na vida das famílias que procuram a minha ajuda. Na Fisioterapia Respiratória Pediátrica, o que é eficaz e o que é mito? Liliana Costa: Este é um tema que gera muita ansiedade, principalmente em pais de primeira viagem. Vamos começar pelo mito mais comum: Cinesioterapia não é o mesmo que Fisioterapia Respiratória, e a ideia antiga de que é preciso “bater nas costas” (percussão) ou fazer manobras agressivas em todas as crianças está ultrapassada. Fisioterapia respiratória deverá ser feita APENAS por Fisioterapeutas Respiratórios, uma vez que são os profissionais com a formação especializada e diferenciada na área, logo os únicos habilitados para tal. Depois há outra situação que todos os pais deveriam saber: recorrer a profissionais que insistem nessas técnicas (desatualizadas), e sem qualquer critério ou base científica que as suportem, não traz qualquer tipo de benefício ao bebé/criança, podendo mesmo agravar os quadros respiratórios (especialmente em bebés mais pequenos). A Fisioterapia Respiratória é uma ferramenta poderosa em casos específicos como por exemplo bronquiolites, asma, ou outras condições que acarretam muita produção/acumulação de secreções, e quando a criança não as consegue expulsar sozinha. Nesses casos, o nosso foco é: aliviar o esforço respiratório ajudando o bebé a respirar com menos fadiga; libertar e remover as secreções utilizando técnicas (baseadas na evidência científica atual) para as ajudar a eliminar; e não menos importante, educar e ensinar os pais com medidas simples, como fazer a lavagem nasal correta, identificar sinais de alerta como os sinais de dificuldade respiratória e outros (adejo nasal, tiragem costal – afundamento das costelas ou do pescoço ao respirar; respiração paradoxal – dificuldade marcada em respirar; gemido respiratório, coloração azulada dos lábios ou dedos – cianose, apatia ou sonolência excessiva, sinais de desidratação, febre alta persistente, recusa alimentar, diminuição relevante do débito urinário). Qualquer um destes sinais de alerta exigem observação médica. Em resumo, a fisioterapia respiratória pediátrica pode ser muito eficaz quando bem indicada, com objetivos claros e foco no bem-estar da criança/família. Mas mais do que aplicar técnicas de forma automática, o essencial é avaliar cada caso individualmente, apoiar as famílias e trabalhar em conjunto com a equipa médica (sempre que necessário) para garantir o melhor cuidado possível. O que mudavam para que a saúde pélvica e fisioterapia pediátrica deixassem de ser um `luxo´ e passassem a ser prevenção básica, e que papel é que a literacia e as redes sociais podem ter? Raquel Jacinto: Para que a saúde pélvica e a fisioterapia pediátricas deixem de ser encaradas como um “luxo” e passem a integrar a prevenção básica nos cuidados de saúde da mulher, tanto no SNS como no setor privado, é necessário repensar em modelos de atuação. Três mudanças seriam fundamentais. Em primeiro lugar, reestruturação dos sistemas de saúde para reconhecer formalmente o papel da fisioterapia pélvica, na promoção da saúde e na melhoria da qualidade de vida da mulher durante as diferentes fases da vida da mulher, como na adolescência, gravidez, pós-parto e menopausa. Reconhecer o impacto que as disfunções associadas às diferentes fases da vida da mulher podem ter na saúde da mulher, e intervir precocemente. Em segundo lugar, integrar a fisioterapia pélvica e pediátrica nos cuidados de saúde básicos e de rotina, reconhecendo o valor acrescentado da fisioterapia como parte integrante dos cuidados de saúde à mulher e ao bebé. Por fim, torna-se fundamental a integração da fisioterapia pélvica e pediátrica em equipas verdadeiramente interdisciplinares. Trabalhar em articulação direta com outros profissionais permite uma abordagem mais completa, centrada na mulher e no bebé, e nas suas reais necessidades ao longo das diferentes fases da vida. A literacia em saúde desempenha aqui um papel central. Mulheres mais informadas tendem a procurar ajuda mais cedo, a questionar o que é considerado “normal” e a exigir cuidados mais especializados e integrados. As redes sociais podem ser uma poderosa ferramenta de sensibilização e democratização da informação, ajudando a quebrar tabus em torno da saúde pélvica, como por exemplo, na gravidez e do pós-parto. No entanto, quando mal utilizadas, podem também contribuir para desinformação, expectativas irreais e comparações injustas, reforçando a pressão do “calendário social” sobre o corpo e a recuperação da mulher. Por isso, é fundamental promover conteúdos baseados em evidência científica e incentivar uma comunicação responsável, clara e acessível. Ajudar a uma sociedade mais informada, crítica e consciente do que significa, verdadeiramente, cuidar da saúde da mulher. Liliana Costa: Sobre o papel da literacia e das redes sociais na fisioterapia pediátrica, interpreto como uma faca de dois gumes. Por um lado, são aliadas incríveis: hoje os pais estão mais informados e atentos aos sinais de alerta e sobre a importância da fisioterapia pediátrica precoce. Por outro podem ser perigosas se transmitirem “receitas rápidas” ou alarmismo, confundindo quem procura orientação confiável, além disso o excesso de informação e a comparação constante (“o bebé do Instagram já anda e o meu não”) geram uma ansiedade nociva. Na minha opinião, o segredo é usar a informação para empoderar, mas nunca para substituir o olhar clínico individualizado do profissional da área. Instagram: @fisio_boom Facebook: FisioBoom Marcações: linktr.ee/fisio_boom O Livro que se Ouve e a Música que se Lê “A dor não é normal, seja qual for a fase da vida da mulher”
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